Estrada para os Montes Resolutos - 2º Ato

O porto de Hochoch às margens do gentil
 Arroioreal e os Picos da Barreira ao fundo
(Zoltan Boros /Dragon Magazine #418)
O susto da noite passada foi grande. Mas isso já não importa mais. A viagem precisa seguir e Hochoch não deve estar muito distante. Os aventureiros erguem acampamento e seguem sua caminhada, notando que a estrada está cada vez mais sofrida e maltratada pela marcha de muitos soldados, cavalos, carruagens, catapultas e tudo quanto um exército carregue consigo para uma batalha grandiosa e importante. Logo, o grupo alcança as margens de um largo e belo rio de águas geladas e cristalinas que corre mansamente sobre o fundo rochoso. Na outra margem, ergue-se impetuosa uma vasta muralha de pedra que circunda a vila de Hochoch e culmina em um imponente castelo construído sobre rochedos situados bem na curva do rio.  O rio, que é chamado de Arroioreal, não é particularmente fundo e até pode ser vadeado. Contudo, esta tarefa é perigosa particularmente para carroças e charretes, razão pela qual se construiu dois pequenos deques em cada margem para que uma balsa de madeira pudesse auxiliar os viajantes na transposição.

Localizada num largo vale que fende entre Oytwood e a imensa Floresta Escura, a vila de Hochoch sempre foi uma localidade estratégica para o Grão-Ducado de Geoff. Nada obstante, sua importância nunca foi maior do que agora, já que se tornou o farol de uma nação moribunda*. Os aventureiros optam por cruzar o Arroioreal pelas balsas, pagando por isso cinco moedas de cobre cada um. O cais do outro lado do rio os deixa numa área entre as muralhas à direita e uma favela à esquerda. Nela, aliás, se veem pessoas de todos os matizes, vivendo de modo precário em tendas improvisadas onde falta tudo, especialmente salubridade. Claramente, se trata de um campo de refugiados – pessoas vindas do interior do reino, fugidas da opressão dos gigantes, ou antigos camponeses que estão de retorno após a liberação da cidade após perderem tudo.




Logo, o grupo contorna as muralhas que correm sobre um pequeno desfiladeiro e chegam até a entrada da cidade. Vislumbram, então, o imponente barbacã de onde diversos soldados e cavaleiros vigiam os portões e grades que separam o interior da vila do restante do mundo. Não passa de meio-dia, então, os largos portões de madeira estão abertos e a grade elevadiça está erguida por pesadas correntes de ferro. Dez soldados muito bem armados e cinco cavaleiros estão sob os muros inspecionando carroças e viajantes ocasionais. Mas eles não parecem se importar muito com o avança dos aventureiros, que liderados por Bruenor entram na vila sem maiores problemas. Ou pelo menos foi assim que o anão e Eldrin se sentiram, já que Bartolomeu e Gato Preto perceberam o olhar desconfiado de um dos cavaleiros.

 - O que o desenho no manto heráldico dos cavaleiros significa? – perguntou Bruenor.

- É a coruja argenta dos Cavaleiros da Guarda, uma ordem antiga e muito respeitada de cavaleiros protetores do Grande Ermo e demais nações do vale Sheldomar – Bartolomeu respondeu baixinho, enquanto cruzavam uma larga rua de terra próxima de um bairro cheio de casas de madeira empilhadas e amontoadas por entre as quais passam estreitas e sinuosas vielas – Nossa, até os telhados das casas são de madeira neste lugar – comentou o astrólogo.

- É um quarteirão bem pobre, e reconstruir tudo com madeira após a invasão dos gigantes deve ter sido mais simples e barato – falou Gato Preto.

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Uma vez na vila, os aventureiros contam com diversas opções de tavernas e estalagens. As primeiras abundam no bairro conhecido simplesmente como Sarrafos, onde há dezenas de pequenos pubs em porões antigos e poeirentos, onde os habitantes de Hochoch esconderam barris e tonéis durante as invasões. A mais popular, todavia, é a taverna A Vista Ribeirinha que fica próxima do ancoradouro da cidade, em sua porção norte. Os cidadãos mais ricos preferem a Adega do Walthon, que é uma estalagem que supostamente possui um porão repleto dos melhores vinhos da região preservados há anos. Porém, há ainda pelo menos duas outras estalagens razoáveis na cidade. A primeira delas é conhecida como o Brasão do Furão Sarnento e a outra é A Coruja Zombadora.

O primeiro local recebeu esse nome graças ao desenho engraçado que orna a placa de madeira pendurada em sua porta, que deveria retratar uma raposa segundo a vontade de seu dono Wulftheim, um homem alto, ex-aventureiro, que acredita ter sido amaldiçoado por Ralishaz, deus do azar e da má-sorte segundo a crença do povo bakulinita. Ele diz estar sofrendo com uma maldição que lhe foi conjurada por um mercador chamado Hadir Ayd, um “maldito ketita” que ele conheceu em Gorna há um par de anos atrás. Naquela época Wulftheim era um aventureiro, e caiu na asneira de apostar uns leões dourados (gíria para moedas de ouro) num jogo de dados. Mas Hadir descobriu que ele estava roubando e rogou uma praga nele que nenhum sacerdote de Norebo conseguiu desfazer. 

- Até a placa da minha estalagem dá errado! Eu paguei uma tonelada de ouro e tudo o que pedi foi uma raposa. Uma merda de uma raposa! E olha o que consegui! Uma porcaria de um desenho. E agora fiquei conhecido como Furão Sarnento! Estou disposto a quase tudo para me livrar dessa praga! Mas não sei como! Se puderem me ajudar, serão sempre bem vindos aqui. Se hospedarão e comerão de graça enquanto suas vidas durarem! - choramingou Wulftheim para os aventureiros quando eles pediram exemplos do famigerado "azar" que assola o taverneiro.

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A estalagem do Brasão do Furão Sarnento era aconchegante como toda boa taverna medieval. (Cornelis Dusart / Wikimedia Commons, disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cornelis_Dusart_-_Tavern_Scene_-_WGA6894.jpg)


O segundo local é o ponto de encontro de soldados, guardas e cavaleiros. Trata-se de uma casa térrea, com um pequeno e bem cuidado jardim murado que lembra um pequeno castelo. O dono é o anão conhecido como Thorgi Pedraquebrada. Quando chegam ao local, os aventureiros veem um sujeito sendo escorraçado para fora da taverna. 

- Me chamo Deghan! Não se importem com esses tolos, eles não sabem o que fazem! Tenho uma importante notícia para dar a eles! Algo que pode mudar a guerra, mas os idiotas não querem me ouvir porque fui banido - explicou o rapaz ao ver Bruenor e os demais diante de si com olhar perplexo.

- Banido? - perguntou Gato Preto.

- Sim, eu sou um ex-expedicionário, mas nunca entendi muito bem todos os códigos de conduta e a hierarquia da Ordem. Quando entrei, achava que os Cavaleiros Expedicionários tinham abandonado todos os rigores dos Guardiões, mas vi que não. E no menor deslize fui posto para fora! Banido e execrado! Mas eu tinha uma boa razão para desobedecer o Capitão Emair! Tenho contatos em Oytwood! 

- Epa! Eu vim de lá - exclamou Bartolomeu - Que notícias você tem?

- Não posso dizer detalhes, pois é confidencial! Segredo de guerra! Mas te asseguro, senhor, que as informações que tenho podem mudar o rumo da guerra! O povo geoffita terá finalmente condições de libertar Oytwood e, quem sabe, todo o interior de nossa amada terra, rumo à Gorna!

- Nossa! Então esse assunto me interessa, pois lutei em muitas destas batalhas antes que Oytwood caísse, fui escravizado e vivi em cativeiro até recentemente, quando pude fugir. Adoraria retornar para libertar meu povo - disse o astrólogo em tom emocional conforme removia o capuz e exibia discretamente suas orelhas pontudas para Deghan.

- Calma lá... como você sabe que esse cara está dizendo a verdade? Acabou de se escorraçado... - grunhiu Bruenor. E antes que Bartolomeu pudesse dizer qualquer coisa, o homem continuou:

- Essas informações vêm de espiões infiltrados nas terras dominadas pelos gigantes, são pessoas que lutam ardentemente por nossa liberdade e arriscam seus pescoços por qualquer informação que possa ser útil às nossas defesas. Infelizmente, elas chegaram até mim e não a outra pessoa e agora preciso de ajuda.

Os aventureiros tiveram que conversar um pouco sobre o assunto, pois aquela poderia ser uma tramoia ou coisa até mesmo pior. Os argumentos de Bartolomeu, contudo, pareceram convincentes o bastante, sobretudo por se tratar da libertação de sua terra natal. Para Bruenor pesou o fato de que uma gorda recompensa poderia estar envolvida. Já Gato Preto ponderou que sua liberdade se deve às ações heroicas do grupo e que, portanto, está disposto a continuar se aventurando com eles pelo menos enquanto não sentir que sua dívida está paga. Eldrin, de seu turno, parecia tão afeito aos tesouros e recompensas quanto Bruenor. Com efeito, o desmoronamento dos grandes impérios da primeira metade da Era Comum, quais sejam, o Grande Reino de Aerdy e Keoland, inaugurou uma era de exploração, onde pessoas antes comuns se lançam  em aventuras arriscadas em busca de espólios como meio de vida. Trata-se de um fenômeno não exatamente contemporâneo em Flanaess, mas que ganha força e revelo com a eclosão de escaramuças por todo o continente, notadamente em Geoff, após a invasão gigante, que roubou o meio de vida tradicional de milhares de pessoas.

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Bartolomeu acabou aceitando a missão oferecida por Deghan, contente em poder ajudar e com o apoio unânime de seus colegas de grupo, para os quais o astrólogo começava a se tornar uma espécie de liderança.

Satisfeitos com as andanças pela vila e já tendo visto o suficiente para se aclimatarem, os aventureiros retornam para o Brasão do Furão Sarnento. 

* tradução livre da descrição de Hochoch que consta na revista Dragon Magazine # 418

Comentários

  1. Muito legal, Mário! Não me lembrava dessas montanhas sinistras ao fundo. São as Crystalmist? Tinha me esquecido de como estamos próximos a elas.

    Achei muito bacana você estar usando material da Dragon. Tenho vontade de dar uma olhada nela, mas é tanta coisa, e são tantos números!

    O próximo ato já está quase pronto. Queria só ver se vc se lembrava que informações Bartolomeu decifrou no diário da maga Melza. Mas pode ficar pra outra hora, já que ele vai gastar um tempo estudando o livro.

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    1. Sim, são as Crystalmist. Se não a maior, uma das maiores cordilheiras do continente.

      Quanto à Dragon, é verdade. Estou usando, até porque muito material de Greyhawk só foi publicado em revista nas últimas décadas (agora nem isso). Então, acaba sendo uma fonte muito útil de inspiração e informação!

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  2. Vocês não estão mais jogando?? Eu parei, mas ainda gosto de ler as paradas por aqui, rsrs...

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    1. Estamos sim. Na verdade, ficamos sem jogar desde dezembro em virtude das férias e do carnaval. Mas tem um monte de material para entrar no blog que está represado. Ainda hoje vou soltar uma publicação nova!

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    2. Na verdade a culpa é minha com o atraso na publicação dos diários de campanha.
      Mas tem até biografia no forno!!

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