A Travessia da Floresta Escura - 13° ato

A Grande Druida Urinyairoppasath olhou para cada um dos aventureiros e os agradeceu. O fino manto transparente que a cobria, em seu leito, estava no chão, e ela portava sua nudez com naturalidade diante dos aventureiros. Wurren ajoelhou-se em respeito a sua superior, e mantinha os olhos baixos, constrangido que ficou por olhá-la sem roupa, ainda que quase de relance. Nem todos compartilhavam da sua atitude, porém; Gato Preto demonstrava quase volúpia, e mesmo Bruenor e Eldrin não conseguiam evitar que os olhos vadiassem quase que por vontade própria; Bartolomeu, com o corpo de Ânn em seus braços, tinha o olhar embaçado e indiferente. Mas todos, de alguma forma, admiravam a beleza à sua frente.

Wurren, ainda ajoelhado, relatou o que ocorreu na exploração das câmaras abaixo, e pontuou que se aventuraram por elas sob os protestos de Charix. A estranha tumba druídica adornada de jóias, as armadilhas e, principalmente, o templo Ur-Flan oculto e protegido, com um portal para Icrácia e o local onde Bellak encontrou seu fim.

-Então vocês conheceram Bellak? -a ninfa falou com sua voz doce e melodiosa. Ele veio aqui com seus capachos, mas nós fomos pegos de surpresa e não fomos páreo para ele. Para retardá-lo em seus intentos, tudo que pude fazer foi convocar uma reunião urgente do conselho, limpar a memória de meu fiel servo -ela olhou para Charix, com algum pesar no semblante. Desculpe-me, meu querido, mas não poderia deixar que eles o aprisionassem para arrancar informações de você. Ele não sabia de nada -falou, virando seus grandes olhos violeta para os aventureiros-, não se lembrava mais de nada. Eu também não podia nem abandonar o local, nem enfrentá-los, então induzi um coma quase tão profundo quanto a morte, de maneira que eles não encontrariam respostas aqui. Mas eles então encontraram alguma outra forma de adentrar no templo. Fortuita foi a aparição de vocês. Temo que o conclave não iria se reunir a tempo de impedi-lo.

Ela então olha para os aventureiros esperando alguma reação.

-Nós nos encontramos com outra sacerdotisa Ur-Flan a pouco mais de um dia daqui. Ela matou de um de nossos companheiros -Wurren falou, com a cabeça baixa e pesar na voz. Havia elfos com ela, e até um culto primitivo na região, que envolvia o sacrifício humano, inclusive de crianças. Mas é difícil, Grande Druida, compreender por que havia um portal para Icrácia aqui. Nós estivemos lá, fica distante, a pelo menos 3 dias em passo acelerado. E é um lugar maligno, corrompido.

-Vocês estiveram em Icrácia? -Urinyairoppasath não conseguiu esconder a surpresa.

-Sim. Viemos aqui, inclusive, em busca de informações sobre o paradeiro de uma amiga. Não obtivemos resposta do Arquidruida, mas, lá embaixo, combatendo os Ur-Flan, de cuja ameaça ele nos alertou, nós conseguimos encontrá-la. Mas não antes de Bellak. Ela está morta -e Wurren então olhou em direção ao corpo nos braços do seu companheiro astrólogo.

-Os tempos estão mudando, então, se Icrácia já pode ser encontrada. A situação é mais crítica do que eu imaginava. Teremos muito o que deliberar -a Grande Druida parecia falar consigo mesma. Talvez eu não devesse contar isso a vocês, mas vocês já viram muitas coisas, e devem estar com muitas perguntas. É possível que eu tenha que responder por lhes fornecer esse tipo de informação, mas vocês demonstraram seu valor e extirparam um grande mal hoje. Vou lhes contar.

A ninfa discorreu sobre o maldito Vecna, que há muitos e muitos anos caminhava entre os mortais e impôs um governo extremamente maligno e opressor numa vasta região cuja capital era Icrácia. Vecna empregou artes necromantes e alianças espúrias com ogros, trolls e todos os tipos de orcs e goblins, expulsando e escravizando todos os povos da região. Os humanos e elfos foram os que mais sofreram. Após seu colapso, nas mãos de seu amado general Kas, a terra foi lentamente sendo retomada.

- Poucos se lembram dessa história, e cabe a nós preservá-la, e também o que restou, como os templos e os artefatos -concluiu a ninfa, olhando diretamente para Wurren. Vejo que você carrega algo muito perturbador, jovem Iniciado.

A voz melíflua da Grande Druida parecia enfeitiçar a quase todos. Ela dava à história um tom confessional e quase sussurrava, como se lhe arrancassem um segredo, como se ela pudesse se colocar em perigo ao tratar do assunto.

-De fato, senhora. Essas pedras estavam com sacerdotisa Ur-Flan, e, ainda, esse livro junto a Bellak. Ele o tomou de Ânn, que o havia encontrado em Icrácia. Não conseguimos identificar o que são.

-Deixe-me vê-los, por favor, Wurren.

O meio-orc estendeu os artefatos. A Grande Druida fez um esgar de desgosto quando viu as pedras, mas seus olhos miraram o livro estranhamente, percebeu Bartolomeu. Não era surpresa, mas também não era incômodo como a maneira com que ela olhou para as pedras.

-O tomo de Rillikandren. O tomo perdido - a ninfa tentava esconder a ansiedade.

Bartolomeu percebeu o que o incomodou ao vê-la olhando assim para o livro: ela o desejava. Isso fez com que o astrólogo saísse de uma espécie de transe em que as palavras da ninfa parecia ter enredado a todos. Ele não acreditava que a Grande Druida queria a volta de Icrácia, ou que fosse alguma adoradora do maldito, mas havia muita coisa que não estava sendo dita, apenar do suposto segredo que ela contara e que não acrescentava muito a história nenhuma, apesar de que, quando ela falava, dava essa impressão. Sentindo o corpo de Ânn mais pesado em seus braços, falou pela primeira vez, com a voz rasgada e amargurada:

-Por que vocês protegem esse legado nefasto, se ele é tão maligno? Por que preservar esse tipo de conhecimento, tornando-o acessível a proscritos como Bellak? Por que manter abertas as portas para um templo Ur-Flan com um portal para Icrácia, nos subsolos de um templo druídico? - as perguntas eram feitas em tom quase belicoso, acusatório.

Um silêncio incômodo tomou a sala onde, antes das palavras do astrólogo, reinava a harmonia. Agora, surgia uma pontada de dúvida nos rostos complacentes dos companheiros, como se só agora elas ponderassem sobre tudo o que a Grande Druida falou.

-Calma, Bartolomeu, ela tem seus motivos. Não precisa falar assim. -Gato Preto tentava amenizar a situação.

-Você conseguiria perceber esses motivos se não estivesse tão preocupado olhando para os peitos dela. - o tom do sacerdote ainda era frio e beligerante.

-Isso que me pergunta, eu não posso revelar a vocês. Eu já falei mais do que deveria. Nós, druidas, somos muitas coisas, e preservamos a vida e o conhecimento. Tudo tem sua razão, na vontade dos Antigos. A ninfa pareceu intocada pelo tom agressivo do astrólogo.

-Então eu não confio em você. Você sabe muito bem quem é o deus dos segredos, e eu não compactuo dessa crença. Não confio em você como guardiã desse livro. Devolva.

-Se é esta sua vontade, eu assim o farei -e olha diretamente para Wurren.

O druida estava quieto, ajoelhado aos pés da ninfa. Mas as palavras de Bartolomeu alteraram seu rosto, e novos pensamentos o perturbavam.

-Estou muito grato por tudo, Grande Druida. Mas acho que esse livro ficará melhor em nossa posse. -e ele então pega o tomo, e ninguém consegue esconder a surpresa, nem a ninfa, nem mesmo Bartolomeu.

- Vocês fizeram sua escolha. Devo adverti-los que não foi sábia. Isso não vai agradar minha Ordem. Não farei nada para impedi-los de sair daqui, conquanto o façam imediatamente. Quanto aos demais, só posso sugerir que deixem a Floresta Escura o mais rápido que puderem. Eles vão atrás de vocês. E eles não são os únicos que querem esse livro. - a voz da ninfa ainda era melódica, mas era como se algum encanto nela se partisse, e ela parecia como que desafinada.

-Então não temos tempo a perder. -e, com isso, Bartolomeu se retirou, olhando para trás enquanto subia os degraus, observando Urinyairoppasath e seu guardião, o fauno Charix. Talvez pela última vez.

Muitos são os seres que escondem sua malícia através de canto suave ou voz melodiosa. A maior parte do que os ouve encontra um desafortunado destino.


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Os aventureiros pareciam ter certa urgência em sair da floresta, pois mesmo após apenas alguns dias, a sensação de clausura era forte abaixo daquela árvores grossas de copas frondosas em que a luz do sol não conseguia penetrar; por outro lado, a conversa com a Grande Druida não terminou muito amistosamente, e a ninfa deixou claro que eles poderiam ser perseguidos pelos próprios druidas. 

Bartolomeu pensava com raiva. Tão cobiçosos estão em manter e preservar esse conhecimento maligno que já não distinguem mais aliados de inimigos, e não reconhecem que falharam em evitar o ressurgimento dos Ur-Flan. Perdidos em sonhos de grandeza, autointitulados guardiões de um conhecimento sobre o qual querem segredo. Será que não sabem quem é o deus dos segredos? Não à toa são tão escuros os dias sob essa floresta. 

Ordens, castas, congregações, soberanos e vassalos, todos aspirantes à grandeza mas, no fundo, todos parasitas egoístas, atendendo a interesses pessoais em nome de alguma causa maior. Mesmo aqui, no meio dessa floresta suja, esses druidas estão infectados pelo mesmo mal, a mesma gana que pretende angariar poder, ao custo de não compartilhar nada, ao custo de excluir a todos que eles não vejam como iguais. 

Foda-se se matamos um vilão Ur-Flan que quase matou a grande druida e que reabriu as portas para Icrácia, recuperando o tomo que arrancou deles. A gratidão deles se restringe a repetir o que já sabíamos, contar algumas lendas que não fazem diferença alguma agora, e falar isso como se fosse uma grande concessão! Uma concessão! Manter-nos nas trevas das ignorâncias, enquanto eles lidam com um poder escroto, que eles próprios preservaram, e que eles próprios são incapazes de controlar. Fodam-se todos.

Bartolomeu arfa com o peso do corpo em seus ombros e da raiva de seus pensamentos. A caminhada transcorre sem incidentes, até que resolvem parar, preferencialmente longe de qualquer raiz maligna que vai tentar engoli-los durante a noite.

Enquanto os outros dormem, Bartolomeu vela o corpo de Ânn. Pensa em tudo que não pode dizer para ela, pergunta todas as perguntas que esperava serem respondidas, chora de frustração pelas semanas de caminhada infrutífera, chora de dor. Talvez chore de amor, mas não tem certeza. Colocando ambas as mãos sobre o corpo frio, ordena Volte! Volte das trevas, volte dessa morte odiosa nos salões vazios de Icrácia. Mas há apenas mais silêncio, cortado pelo crepitar espaçado da lenha meio úmida na fogueira e pelos soluços do jovem sacerdote.

Sente os vultos da Floresta Escura se aproximarem: parecem sentir o cheiro da carniça, parecem querer tragá-la para a solidão sombria dessas matas. Parecem se comunicar com ele, um tom doloroso e persuasivo que agora ele já não sabe se se dirige ao corpo sem vida ou ao seu próprio, carregado de pesar. Será disso que se alimentam? Do infortúnio das almas da floresta? Isso explicaria muito.

Representação de Bartolomeu cercado pelo espíritos da Floresta Escura. Reparem o semblante do astrólogo, ouvindo as tentações sombrias.
fonte: Marionetes demoníacas, Paul Klee, 1929

Gato Preto se aproxima, fazendo barulho. Bartolomeu sabe que, se ele quisesse, só o ouviria quando estivesse já sentado ao seu lado. Agradecendo mentalmente a consideração do companheiro, enxuga os olhos antes que ele o veja. 

- Vocês se amavam? -Gato Preto também é adepto da objetividade, sem se perder em rodeios sem sentido.
- Ela, eu não sei -as palavras saíram sem que Bartolomeu pensasse.
- É o bastante. Triste que tenha terminado assim. De alguma forma, esses escrotos sempre conseguem foder nossas vidas, pois não se preocupam em poupar a vida de ninguém. O único consolo que nos resta é que Belak não matará mais. Você impediu que ele espalhasse mais sofrimento pelo mundo. 
- É um pensamento reconfortante.
- Mas, sabe, isso não precisa continuar assim. É possível trazer as pessoas de volta do mundo dos mortos. Ressuscitá-las. 
- Você tem o poder de fazer isso? -perguntou Bartolomeu.  
- Não, mas já ouvi falar de clérigos poderosos que podem.
- A ressurreição é algo miraculoso. E muito complicado. Não sei como funciona, mas duvido que seja algo que alguém em um templo faria. Não conheço ninguém a quem poderia pedir isso. Muito menos alguém que faria isso por ela. 
- Entendo. Bem, é só uma ideia. Vou voltar ao meu sono. Boa noite, Bartolomeu.
- Boa noite.

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Bartolomeu passou a noite em claro, velando o corpo. Quando não tinha mais lágrimas para verter, bem depois de a chama da fogueira se apagar, o dia começou a clarear, vagarosamente, pois não há nascer do sol na Floresta Escura. Partem sem demora após um breve desjejum.

Não conseguiu ainda conversar como Wurren. O druida parece menos propenso a conversar do que ele próprio. Imagina o quanto a decisão deve ter custado para ele, sempre tão fiel à hierarquia. Deixa para conversar com ele depois, quando tanto ele quanto o meio-orc já tiverem assentado melhor os pensamentos. Não sabia que não teria mais essa oportunidade.

O caminho de volta os leva pelo mesmo lugar em que cremaram o corpo de Adam. Ninguém questionou a escolha de Bartolomeu, ainda que a inumação seja regra entre os humanos. Os corpos, apesar de desprovidos de vida, não são meros objetos: o corpos mantêm algo da energia vital entranhada em cada músculo, osso e fio de cabelo, algo que transcende a podridão e a decrepitude. Por isso, há animais carniceiros. Por isso, há monstros que abrem covas e sugam até os ossos sujos de terra. Por isso certos componentes mágicos usam partes de monstros mortos. E, por fim, por isso existem necromantes capazes de erguer cadáveres.

Em terreno sagrado, Adam poderia repousar em paz. Mas o solo da Floresta Escura é solo disputado. É um solo de butim. Bartolomeu quis privar o corpo de Adam de qualquer destino triste, e evitar que com ele fosse feito qualquer coisa que seu companheiro não teria aprovado. Por isso, ele foi cremado, e a fumaça e as cinzas do que um dia foram o astuto ladino foram ofertadas aos deuses, e ninguém além dos presentes em sua morte sabe onde ele encontrou seu destino, e em qual encruzilhada foram feitas as preces buscando as graças dos deuses.

As árvores vão se tornando mais espaçadas e Ravina Verdejante fica mais próxima.

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