Bartolomeu: o astrólogo

A Via Láctea, vista da Terra
[fonte: wikipedia]

O astrólogo

-Onde estão as estrelas? -pergunta o sábio
-No céu -responde o burro
-Em nós mesmos -retruca o mesmo sábio

-aforismo de Niole Dra


O aforismo é bem conhecido no antigo Vale de Sheldomar, mas, de tão inexato, poucos o entendem. As estrelas são o rastro dos deuses, basta se dispor a entendê-las. A cada dia, contam uma história diferente. Várias histórias, na verdade. E eu, Bartolomeu, tento entendê-las ao mesmo tempo que tento contar, na terra e nas estrelas, minha própria história, repetindo o erro de tantos antes de mim. Mas sou mensageiro, e conto a história que bem entendo, ou que vejo, ou que interpreto.

Cheia de furos, é verdade, mas assim são todas as histórias. Jogo minhas pedras e minhas pontas de flechas a cada cair de noite, e a cada amanhecer, e é por essas linhas que vejo o céu estrelado. Enquanto os navegadores veem linhas sólidas, que os levam de um lugar ao outro, em qualquer época do ano, e os adivinhadores veem o desejo de seus amos, eu apenas enxergo linhas de possibilidades, linhas efêmeras e cruzadas, que em geral levam de algum lugar a lugar nenhum, retas tortas, andarilhas, que me levam de carona numa jornada sem rumo, tentando, muitas vezes em vão, perscrutar os desígnios dos deuses.

Vejo as linhas rubras de Nerull, os caminhos maledicentes de Incábulos, trechos das matizes fantasmagóricas de Olidammara, bem como os traços cegantes de Pelor. Tudo isso está nas estrelas, para aqueles que se dispuserem  a olhar para o céu com os olhos e corações abertos, pois os deuses estão presentes nessa vasta Flaness, mas não da maneira como a razão nos permite supor. Eles caminham por meio da fé e vontade dos homens, e essa trilha é sinuosa e vaga, deixando rastros não nas matas, mas no céu, que é o lugar mais próximo de suas moradas. Todos, menos Fharlanghn, cujos caminhos são impossíveis decifrar.

Spheres Between Heaven and Hell. Neville of Hornby Hours, c1440
[fonte: este sítio]

Eu me oriento por essa trilha difusa, espessa e traiçoeira, invisível aos que acreditam em uma ordem cósmica, invisível aos estudiosos do céu, insensível aos anseios dos mortais e inatingível àqueles que buscam respostas: eu semeio no caos, me alimento de meias palavras e me sacio com direções desnorteadas. Sabe aquele sábio que, vendo as estrelas, dá sugestões ao rei? Sabe aquele estudioso que arranca do seio cru da terra as respostas para suas equações divinatórias? Sabe aquele profeta que, por sonhos, compreende o sentido da vida, dos desejos e até as questões mundanas? Pois é, eu caminho pela falta se sentido, pela ausência de compreensão, e mergulho fundo nas perguntas não elaboradas; sou, sob muitos aspectos, o avesso deles, e me embrenho por perguntas não cogitadas e respostas inexistentes.

Caminho pela linha tênue entre a imbecilidade e a loucura, essa linha que é o único caminho para compreender a morte. Não à toa a Deusa da Morte me escolheu, dentre tantos outros candidatos. Se todo aquele que conheceu de perto a morte fosse um servo de Wee Jas, seu culto seria o maior de Flaeness. Mas de nada vale presenciar a morte de um ente querido, de nada vale escapar de um golpe fulminante no clamor da batalha, de nada vale sentir o hálito frio espreitar seu leito moribundo ou seu delírio sombrio: é preciso abraçá-la em toda sua falta de sentido, é preciso querê-la e desprezá-la, é preciso, de alguma forma, recebê-la em sua incompletude e futilidade, é preciso parar de tentar buscar respostas para compreendê-la, e apenas aceitá-la.

É assim que é possível acessar a morte e as estrelas.

Parece o blábláblá do sábio do aforismo, não é mesmo? Uma resposta que não leva a lugar algum. Bom, pois já estamos então no caminho da astrologia, por mais que o sábio do aforismo não tenha ideia do que fala e esteja longe da verdade.

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imagem do artista Joma Sipe 
[encontrada aqui]

Eu, Bartolomeu, abracei o caos em mim e o caos do mundo, e por mais que tente, imbecilmente, impor minha vontade ao meu redor, sei que a tentativa é vã: mas perecerei tentando. Não cabe aos mortais se render à sua insignificância, e sim tentar distorcê-la, cavar uma trilha com um significado tão profundo que nem as miríades de outras vontades concorrentes consiga apagá-la. Eis meu flerte com a loucura.

E é só nesse intervalo entre a prepotência e a consciência do caos que é possível ler as estrelas. E eu as leio melhor do que ninguém. O que consigo ver renova minhas esperanças e guia minhas escolhas -é o imbecil e o sábio dentro de mim falando, vendo o céu e o reflexo de si nas pontas de flechas e pedras pintadas jogadas no chão, antes de lançar o olhar às estrelas.

As estrelas são o reflexo de minha loucura, e seu refúgio. Estivesse ela solta no mundo, e eu andaria com o olhar vago e perdido, tal qual o olhar daqueles que ousaram tentar compreender demais o desígnio dos deuses. Eu ausculto em sua periferia, atento aos sussurros que eles deixam escapar. Sou o stalker das estrelas, o astrólogo sem respostas, sem premissas e sem questões. Por isso, não previ a morte de Adan, os perigos sombrios da Floresta Escura, a antiga Icrácia; surfo, sem jamais ter visto o mar, na espuma das ondas que descem dos céus a cada manhã, cada gota me coloca um universo de possibilidades que eu bebo para espantar a loucura e a certeza de viver.

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