A Travessia da Floresta Escura - 4° ato

"Parece muita fartura / mas é só tristeza", cantariam os bardos após o banquete
fonte: representação de um banquete no Castelo de Cherveux, em 1470

O fauno Charix se retira para preparar um banquete para os aventureiros, agora que está convencido de suas boas intenções, particularmente Wurren, já que os demais o veem com certa desconfiança -sentimento que é recíproco, afinal, o que faz com que essas criaturas se interessem pelos problemas da Floresta Escura ainda é um mistério aos olhos do fauno. Na ausência de Charix, o grupo faz breves incursões nos arredores, mas com o cair da noite, eles se concentram em torno do monolito, aguardando o retorno do guardião da bela ninfa, a Arquidruida Urinyairoppasath.

Charix não tarda a retornar, levando o grupo pelas matas ao norte, até uma clareira com uma suntuosa e farta mesa, com abundância de carne, raízes, vegetais e um bom e licoroso vinho. Os aventureiros comem com vontade todas aquelas iguarias de dar água na boca, enquanto conversam com os espíritos mais leves. 

De repente, o fauno não está mais entre eles, e o clima fica novamente pesado e a desconfiança volta. Uns olham desconfiados para a comida, mas outros não dão atenção ao detalhe, e continuam comendo vorazmente tudo. Bartolomeu ainda está com a pulga atrás da orelha: não sabe se Charix não é confiável ou se são apenas os costumes do silvestre que são muito distintos dos seus -apesar de ele mesmo ter crescido nas matas. Bartolomeu olha para os céus como que buscando alguma resposta a suas inquietações, mas tudo o que enxerga são estrelas pálidas, muito mais distantes que o habitual, e numa disposição que lembra apenas vagamente a das constelações a que está acostumado, como se se tratasse de uma mímica imperfeita. 

Coçando a cabeça, ele tenta enxergar além dos que seus sentidos conseguem ver, acabando por invocar os poderes que Wee Jas lhe conferiu. O sacerdote consegue, então, ver que tudo à sua frente não passa de um simulacro do mundo real: a terra úmida sob seus pés são um pântano viscoso e fedorento, as estrelas desapareceram num brilho difuso e estrangeiro; a comida que ele segura é o vestígio de algo que foi comestível algum dia, sendo agora tomado por vermes, assim como tudo na mesa, recoberto por larvas e emanando um fedor que deveria atravessar milhas; o vinho é vinagre velho, e a água é salobra; a própria madeira da mesa e dos bancos é enegrecida, podre, e as árvores ao redor são pálidas e retorcidas, com folhas fracas. 

Ainda assim, seus sentidos o traem: sua boca ainda tem gosto de vinho, e o estômago anseia por mais comida. A despeito disso, o sacerdote larga seu copo enfia o dedo na garganta, vomitando sem cerimônia tudo o que havia comido: no chão, boiam vermes grandes e pequenos, em meio a uma pasta de aspecto doentio e putrefato. 

- Parem de comer! Essa comida está toda estragada! -Bartolomeu alerta seus companheiros.

Todos param de comer, olhando surpresos para o sacerdote, que então explica o que viu. Wurren vê, ao longe, uma criatura alta os observando, junto a uma árvore, e se dirige até ela, enquanto os demais procuram um caminho por onde sair daquela clareira sinistra. Ao se aproximar da árvore, o druida percebe que a tal criatura não passa de um espantalho, e nota que atrás dela e ao longo de um caminho comprido se estende uma cerca de espíritos. Indo investigá-la, é atacado pelo espantalho. 

A criatura não é páreo para o druida mas, antes de trucidá-la, ouvem uma voz fina, quase infantil:

-Parem, parem!! Não o matem!! -a criatura parece uma fada, e corre apressada até o espantalho, recolhendo a palha que dele caiu e preenchendo seu corpo murcho- Por que fizeram isso com ele? Ele é um guardião!
- Ele nos atacou.
- Mas vocês não precisavam ter feito isso. Puxa, olha só como ela está… -a criaturinha parecia inconsolável.
- Me desculpe. Não sabia que era seu amigo. Meu nome é Wurren.
- E eu sou Bereen.

Bereen se mostrou um informante valioso, ainda que tenha demorado a entender por que o grupo não sabia de nada. Wurren, sem saber, havia convocado um concílio de druidas, e Charix os tinha levado até o Caminhos dos Mortos, ao final do qual está o local da reunião. Mas ele só falou isso após ter sanado suas dúvidas, se certificando que Wurren se tratava de um Iniciado. Ainda assim, achou estranho que ele não soubesse das coisas, Iniciado que era.

- Vocês devem seguir esse caminho. Posso mostrá-lo, mas não irei até o fim -declarou Bereen.
- E esse caminho é perigoso?
- Apenas para os que não são puros de coração.

As palavras de Bereen não foram completamente honestas, como os aventureiros logo saberiam.

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