A Travessia da Floresta Escura - 3° ato, parte II

O Santuário do Arquidruida, na magistral representação de Bernardo F. Hasselmann feita especialmente para A Cidadela. 
Mais imagens originais e arrebatadoras podem ser encontradas no deviantart do autor

Bartolomeu girou o punho no ar e o apontou em direção a uma das raízes que empurrava o anão para dentro da terra. Uma seta mágica a acertou em cheio, abrindo uma brecha para que UrsWurren afastasse, com sua força bestial, as demais raízes, e resgatasse o companheiro. Bruenor tinha uma expressão estranhamente plácida, como se estivesse tendo os mais doces sonhos enquanto era sugado para uma morte cruel. 

Com a gritaria, Eldrin e Gato Preto acordaram e se viram em apuros, mas conseguiram se livrar das raízes. Bruenor parecia o mais afetado por tudo, e despertava apenas lentamente, mesmo tendo sido arrancado de dentro do solo por UrWurren. Mas era melhor que o anão reencontrasse logo sua compostura, pois do seio da terra emergiram diversos tentáculos, atacando os aventureiros. Aparentemente, eles tinham acampado em cima de uma criatura maligna!

Vendo que a criatura parecia ter suas raízes fincadas apenas em uma área, todos a atacaram e recuaram, de onde poderiam atacá-la com flechas e disparos mágicos. Todos, menos Bruenor.

O mestre anão, enfurecido e sem armadura, estava no centro das raízes, arrancando-as a machadadas pesadas, girando e descendo a arma com incrível velocidade, já que não tinha os movimentos restritos pela pesada armadura. A criatura começou a se erguer, revolvendo a terra, e disposta a levar para dentro do solo ao menos aquela vítima teimosa.

Mas UrsWurren e Gato Preto mantiveram-se ocupados ceifando todas as raízes ao alcance, enquanto Bartolomeu miravam bem no meio, na miríade de raízes que tentavam envolver Bruenor em um abraço fatal, até que Eldrin lançou contra ela uma enorme bola de fogo, que explodiu e fez a criatura toda se encolher, o que acabou criando uma muralha de raízes retorcidas em torno do mestre anão. 

Após alguns instantes de angústia, surge Bruenor, que abriu seu caminho em meio a machadadas. Era o fim do monstro, e também o fim da breve noite quase sem descanso, pois o local do acampamento estava com a terra toda revirada, com galhos decepados por todos os cantos. Teriam que procurar outro lugar, mas Wurren não encontrou um local seguro até que já quase se aproximasse o dia, quando então preferiram continuar a caminhada.

*****

O dia seguinte foi meio arrastado, mas a noite não dormida não diminuiu a pressa do grupo. Quando a tarde se aproximava do fim, Wurren avisou que o bosque sagrado do Arquidruida estava próximo. Ele já tinha visitado o local, mas era preciso se guiar pelas runas e marcas que os druidas e os nativos da floresta deixavam -aparentemente, essas eram as únicas coisas permanentes numa floresta que parecia em constante agitação. Wurren sabia que nem árvores nem rios tinham lugar definitivo ali, e a geografia parecia mudar dependendo da trilha que se seguia. Essa era uma das características do local que ele fez questão de não compartilhar com os companheiros pois, por mais que confiasse neles, não confiava a ponto de contar os segredos de sua terra natal a eles; por mais bondoso que seja, Wurren sabe que o amanhã cabe apenas aos deuses, e não a seus julgamentos. Ademais, estava preso a juramentos, e mesmo guiar os aventureiros por aquelas matas poderia ser vista com hostilidade por algumas das criaturas que o respeitam.

Apertando o passo, chegaram, a uma clareira com um monolito arcaico ao centro e um lago em sua base. O local era de uma beleza singular, diferente de tudo aquilo que haviam visto na floresta, mas poderia ter passado despercebido, pois a clareira era pequena e silenciosa, sem trilhas. Investigando os arredores, descobriram restos de uma fogueira bastante recente e uma trilha aberta a espadadas -ou golpes de cimitarra, como bem observou Gato Preto, atento às armas dos elfos silvestres que encontraram dois dias antes. Decidiram não seguir a trilha, pois a prioridade era encontrar o Arquidruida.

Ouviram, então, o som cristalino de uma flauta de pã, vindo de mais ao norte e se aproximando. Do meio das matas, surgiu uma criatura mitológica, que todos imediatamente identificaram como um fauno. Seguiu-se um longo diálogo. A criatura tinha uma voz melodiosa, mas falava de maneira pedante, pomposa e era irritadiça, vaidosa, e identificou-se como sendo o Arquidruida.

Um fauno

Wurren demonstrou profunda reverência pela criatura, mas Gato Preto a confrontou: apesar de nada saber sobre arquidruidas, sua vida o ensinou a desconfiar antes de acreditar, e havia algo na pompa afetada da criatura que ele achou muito suspeito, mas Wurren foi incisivo em sua censura, e todos acharam que o julgamento do druida valia mais que o dos demais. Se o druida reconheceu a autoridade, assim deveriam eles.

O que eles não sabiam, porém, é que Wurren não conhecia de fato o Arquidruida. Vejam bem, os druidas não são uma organização militar, e a hierarquia, apesar de existir, é fluida e as figuras de poder não são bem conhecidas a todos -o que é também uma forma de protegê-los. O meio-orc se guiava então, mais por instinto e esperança que por conhecimento, ao reconhecer o fauno como o Arquidruida, ou melhor, um dos Arquidruidas, pois a verdade é que não havia apenas um.

Como a conversa se prolongou, porém, ficou evidente que aquele fauno tinha mais gogó que poder, pois ele se demonstrou temeroso das pedras amaldiçoadas que Wurren o mostrou, e ainda mais após saber da presença dos Ur-Flan nas proximidades. A partir disso sua atitude ficou nitidamente alterada: matinha a pompa, mas era vago e hesitante. Bartolomeu se juntou a Gato Preto em sua desconfiança, e mesmo Wurren vacilou, e não conteve as investidas dos companheiros. 

O fauno não teve saída se não capitular, pois estavam chegando a acusá-lo de ser alguma criatura traiçoeira, algum inimigo querendo ludibriá-los. Apresentou-se, então, como servo da Arquidruida, e demonstrou profunda tristeza ao falar dela -sim, ela. Conduziu-os para cima do monolito, e então desceu por uma escadaria estreita que se inicia em uma abertura em seu topo, escondida por trepadeiras e rochas. 

Ao final da escada, havia o corpo pálido mas vivo de uma belíssima ninfa. Ela estava naquele estado há uns poucos dias, e nada no poder do fauno ou dos outros servos foi o suficiente para recuperá-la. Ele enviou mensageiros pelas matas, mas talvez ainda não tenham encontrado seus destinatários, de maneira que a situação grave permanece. Não havia nenhuma mágica operando ali, foi possível observar.

O fauno acredita que é a própria Arquidruida quem mantém aquelas matas protegidas, e sua doença indica que algo de muito grave deve estar ocorrendo sob as copas altas e escuras, algo que fez com que ela se retirasse momentaneamente desse mundo para focar suas energias em alguma outra batalha, tal como nós desmaiamos quando o corpo sofre alguma trauma muito profundo, o que permite manter as funções mais básicas.

Que mal seria esse, é impossível prever, mas as pistas trazidas por Wurren são as melhores de que dispõem. Ele sugeriu que o druida e seus companheiros fossem procurar os demais druidas, espalhados pela floresta, em busca de informações e respostas. É preciso agrupar os demais, pois algum mal súbito está agindo na Floresta Escura.

*****

Parece que as coisas nunca são simples para Wurren e seus companheiros. O que era apenas uma visita para descobrir mais sobre o paradeiro de Ânn está para se tornar uma missão para manter as próprias fundações da Floresta Escura.

*****

Próximo Ato                                                                                                                        Ato anterior


Comentários

  1. O_O !!!!!!!! Que bela supresa essa arte do Bernardo! :D

    Como de costume, a narrativa ficou ótima.

    Só uma dúvida: o grupo realmente já decidiu procurar por outros druidas?

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    1. Pra mim tinha ficado claro q sim. Iríamos atrás das outras clareiras sagradas.

      Eu omiti a promessa do banquete, apenas. E esqueci os nomes do fauno e da ninfa.

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  2. Eu às vezes me sinto num livro do Dan Brown, mas sem tantos signos ocultos e sem um personagem sabichão e chato. O ritmo da aventura está muito acelerado, e as noites sossegadas são pontuais. Tivemos uma em Ravina Verdejante, quando nos despedimos de Duncan. Foi a primeira em não sei quanto tempo antes disso, e a última até o atual estágio da aventura.

    Nós jogadores acabamos não sentindo tanto isso, por conta do espaçamento entre as sessões, mas imagina para os personagens? Dias a fio juntos, sem descanso, com uma aventura emendando na outra, e a sensação de uma busca sem fim. Pequenos planos não conseguem ser completados: lembro que Bruenor encomendou uma armadura de escamas de dragão em Orlaine, e também que sua própria armadura está carcomida e precisando de reparos.

    E Eldrin e Gato Preto, já definiram por que estão junto de Bartolomeu, Bruenor e Wurren? Talvez eles ainda não tenham tido tempo/oportunidade de parar para pensar nisso, mas o que eles querem? Pagar a dívida de vida, ou se sensibilizaram com a causa, ou acham que junto ao grupo têm mais chances de pilhar e enriquecer?

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