A Travessia da Floresta Escura - 3° ato, parte I


Bartolomeu, o sacerdote de Wee Jas, conta histórias a seus amigos, sendo observados pelas sombras da Floresta Escura
[arte maravilhosa de Bernardo Hasselmann, o Gato Preto. Confiram a galeria do artista]

‘Floresta Escura’ certamente não está na lista de nomes de florestas mais originais de Flaeness. Ela, antes, constaria da lista de nomes menos inspirados que batizam a geografia, junto de Rio Largo, Campo Lindo e Terra Alta, provas de que a inteligência humana já se prestou a batizar as coisas com profundo desleixo, despindo-os de toda sua história, lendas e características que as tornariam singulares. Ainda assim, apesar de óbvio, conforme os aventureiros adentravam de fato em suas matas, o nome parecia de fato bastante apropriado. A floresta é antiga, com árvores de troncos largos e muito altas, com copas amplas que mesmo ao meio dia não deixam a luz chegar ao solo. O ambiente é carregado lá dentro, sempre úmido e pesado, despertando respeito e temor (coisas que, em geral, andam juntas). Apesar de corriqueira, ‘escura’ é um adjetivo que cabe bem àquela floresta sem luz, mas imersa em trevas que vão além disso. Mesmo se o encontro com o culto Ur-Flan não tivesse existido, ainda assim seria possível sentir que a floresta abriga algo sinistro, cheia de segredos insondáveis e anciãos. A vulgaridade de seu batismo é, portanto, bem acertada.

Um dia inteiro caminharam, até que ficou tarde demais para continuar. Wurren liderava o grupo. Apesar de ter crescido naquelas matas, ele estava muito longe de conhecê-las por completo, mas sabia se mover por entre aquelas árvores velhas, e, mais importante, sabia onde deveriam chegar, sabia que marcas e por mais runas deveria se guiar: a floresta era cheia de símbolos nas árvores e pedras, marcas de diferentes tempos e de diferentes mãos. 

Apesar de escura o tempo todo, é à noite que a floresta faz por merecer ainda mais seu nome: tudo aquilo que ela é durante o dia se aprofunda, e o silêncio se torna quase hipnotizante, não fosse tão perturbador. O ar pesa, uma névoa fina se ergue do chão, e tudo parece mais custoso de se fazer. É a hora de os humanos se recolherem e deixarem a floresta para seus habitantes, sabe Wurren. Então o druida procura um lugar seguro para passarem a noite, e acha um lugar agradável entre uma árvore de raízes protuberantes numa clareira.

*****

Apesar de terem montado acampamento, a noite mal tinha começado, e ainda não havia sono. O grupo tem então um dos raros momentos de paz, desde que se conheceram. Não estavam enfurnados em uma caverna, nem cercados por inimigos, ou em fuga. Tinham a noite inteira livre, no meio da Floresta Escura, é verdade, mas sem perigo aparente, podendo então lamentar a morte do amigo, confessar o medo que sentiram nas minas de Ugrasha, contar histórias da incursão a Icrácia, ou contar anedotas que viveram ou ouviram. Mesmo Bartolomeu, Bruenor e Wurren, que estavam há mais tempo juntos, não se conheciam há mais do que 20 dias, apesar das inúmeras aventuras que experimentaram nesse curto tempo.

Como o grupo falava pouco, Bartolomeu falava compulsivamente, ora fazendo os outros rirem, ou encaixando alguma fábula com algum teor moral, ou mesmo contando uma história triste, pois tudo isso faz parte da vida. Mesmo focado em entreter seus companheiros, Bartolomeu percebeu, com o canto dos olhos, alguma sombra nos arredores. Se levantou de súbito de seu lugar em frente à fogueira (era um noite fria, afinal) e gritou às matas, com voz de comando:

-Revele-se! 

O grito quase assustou seus companheiros, pegando-os desprevenidos, se levantando afobados e pegando em armas. Bartolomeu mantinha o olhar fixo, até que Wurren colocou a mão em seu ombro e disse para se acalmar.

- Trata-se de uma sombra, apenas. Espíritos que vagam pela Floresta Escura. Eles não vão atacar se ficarmos juntos e estivermos atentos. Mas não ousem atacá-las, pois um grande mal recai sobre aqueles que fazem isso. Elas habitam essas matas e, por mais vis que pareçam, estamos em seu território. Deixem-na em paz e ela nos deixará também -informou o druida.

Após esse episódio, os aventureiros retornaram às suas tarefas, e puderam perceber, algumas vezes, sombras estranhas se aproximando e se afastando dos aventureiros. Que buscavam elas? Talvez tenham se sentido atraídas pela carne quente; ou talvez pelas histórias dos vivos, cheias de emoções que eles, algum dia, também sentiram.

Sombras espreitam os aventureiros. Se eles pudessem olhá-las mais demoradamente, seriam mais ou menos assim
[fonte: Demon Wall, encontrado nesse sítio]

*****

Bartolomeu desperta de mais um pesadelo. O sono do jovem astrólogo é frequentemente perturbado por pensamentos desagradáveis, lembranças distorcidas de sua juventude, traumas do cárcere e premonições agourentas. Não era assim, antes: seu sono era profundo e permeado de sonhos, na maior parte das vezes agradáveis. Ele dormia relaxado naquela época, dormia seguro. Agora, desde o começo da guerra, vivia num permanente estado de alerta, e mesmo seu sono parecia uma vigília, parecia sempre disposto a despertar num pulo e pegar suas armas ou correr.

Sonhou que era tragado para o fundo da terra e que se sufocava e se debatia, mas em vão. Seria um sonho premonitório ou apenas mais um peça que seus medos pregavam nele? Achou melhor se levantar a adiantar seu turno de vigia, já que o sono demoraria a voltar. Com essa dúvida estampada no rosto, foi falar com Wurren, que estava sentado em uma pedra na borda da clareira.

O meio-orc também parecia cheio de preocupações, mas, assim que viu Bartolomeu, perguntou o que afligia o amigo. O sacerdote já desculpou, em seu íntimo, a inocência do amigo, pois acredita que ele veja no mundo a mesma bondade que há dentro dele. E, assim como ele se livrou da mácula do sangue ruim dos orcs, ele precisa acreditar que todas as outras criaturas têm a mesma chance. Esse pensamento é errado, para Bartolomeu, mas agora ele o entende melhor. E é por isso que ele ficou tocado pela pergunta do druida, que parece sempre disposto a ajudar e a fazer os outros se sentirem melhor, mas não gosta de colocar sobre ninguém o fardo que carrega.

- Estou bem. Apenas mais um pesadelo, mas ao menos esse foi breve: eu era engolido pela terra, sufocado. Não sei o que significa, ou se há significado para ser tirado daí -respondeu Bartolomeu.
- É, às vezes nós queremos ver coisas demais em coisas simples.
- Sim. Mas esse não é o caso com o que vimos hoje nas bordas da floresta. Aquilo ali tem mais coisa por trás. Como você está?
- Muito mais preocupado do que pensei que estaria quando resolvemos vir até aqui. Aquilo ali não é normal, Bartolomeu, alguma coisa tem que estar muito errada para permitir que uma profanação daquelas aconteça.
- Parece que só tropeçamos com problemas. Mas tem um lado bom nisso: pelo menos podemos tentar resolvê-los -Bartolomeu tentava animar um pouco o companheiro, imaginando o quão difícil é ver sua terra natal ameaçada.
- É. Vamos ver o que o novo dia nos traz. Vou me deitar agora, pensar acordado não vai mais me trazer respostas hoje.

Mas quando se viraram, para seu horror, perceberam que os companheiros adormecidos estavam, aos poucos, sendo engolidos pelas raízes!! Do mestre anão, apenas a pança protuberante era visível!

-Bruenor!! -gritaram ao mesmo tempo

*****

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Comentários

  1. TANDAM! Bela hora pra interromper a narrativa! Fico no aguardo da segunda parte, que vai me ajudar a preparar a próxima sessão! ;)

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    1. Oppa, o desejo do mestre do precioso é uma ordem!! Está no ar a segunda e última parte da aventura, que conta com um singular toque felino! Miau!!

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