Memórias de um Felino das Ruas - parte IV

 Gato Preto deixa suas marcas nos papéis e em nossos corações, em mais uma história emocionante


Sobre a vida nas ruas, telhados e tudo mais


Muitos me perguntam como é viver nas ruas e sarjetas. Bem, não é diferente de viver em QUALQUER outro ambiente, meu amigo. Existem os fracos e os fortes. Os abusadores e os abusados. O gado e os predadores. A vida não é fácil, meu amigo. Não é mesmo. E eu, a princípio, era um dos fracos e abusados, só mais um do gado.

Não que os fracos não tenham suas armas. A pena é uma ferramenta extremamente útil para os vagabundos e mendigos. A dissimulação também, mas meu rostinho fofinho de criança mascarou essa realidade por algum tempo. Sabe como é... para mim era mais fácil, eu tinha que me esforçar menos. As pessoas, principalmente as mulheres, tinham muita piedade de mim, uma criança suja e maltrapilha, mas com um rosto inocente e triste de dar dó. É CLARO que isso atraiu inveja e uma atenção indesejável sobre minha pessoa, na época.

Longe de ser uma figura imponente mesmo agora que sou adulto (afinal, sou uma ou duas cabeças mais baixo que a maioria dos homens), quando eu era criança eu não passava de um pequeno rato, magrelo e mal alimentado. Os outros vagabundos eram mais fortes, mais espertos, mais experientes. E, ao contrário das pessoas que tinham boa vida, eles não eram nem um POUCO bem intencionados. Pois é, apanhei que nem boi ladrão e tive minha “cota” roubada de mim inúmeras vezes.

 Fonte: aparentemente o livro de A. E. Youman, A Dictionary of Everyday Wants (1872)

O que me levou aos seguintes parâmetros e definições. Existem os ratos, as baratas, os gatos e os cães. Os cães são parrudos, agressivos e sempre andam em matilha, os covardes. Eles tiram sua comida porque você não é forte o bastante para se opor a eles. Se reagir, apanha. Triste, não é? Os ratos escondem o jogo. Eles parecem fracos, e na verdade eles são fracos mesmos. Eles usam isso pra se fazer de coitados e fingir que são seus amigos, mas quando a oportunidade aparece, roubam o que é seu e fogem, deixando você para os cachorros atormentarem.

E eles te enganam mais de uma vez, porque eles são vários e eles trocam informação e se você for um tolo, todos os ratos da cidade SABEM que você é um tolo. E tem as baratas: fracas, numerosas, resistentes, mas no fim, comida para os ratos e brinquedo para os cães. Eu era só uma baratinha.

representação do jovem AfroGato perambulando pelas ruas e festas medievais
(sim, vendem dessas "fantasias" na internet)


E tem os gatos. Tal como o animal, eles são graciosos, independentes, solitários e eficientes. Eles comem os ratos, enganam os cães e brincam com as baratas. Eles são o topo da cadeia alimentar nas ruas. Nem os pombos escapam. Eu queria ser um gato. Eu queria estar no topo.

Era assim que AfroGato se via, em seus sonhos tresloucados


Bem, depois de todo aquele rolo com Talantyr eu já não era o mesmo né? Eu tinha aprendido muita coisa. E eu era capaz de feitos que ninguém das ruas era capaz de explicar ou sequer entender. E eu era finalmente um gato. Eu estava no topo. E minha cor era preta, porque ai de quem cruzasse meu caminho.

*****

Do jeito que falo posso parecer amargo e vingativo, mas a verdade é que fui até bastante generoso com os ratos e cães que no passado haviam me atormentado. Afinal, quem pode culpá-los, não é? Só alguém que nasceu em berço de ouro e teve boa vida seria capaz de moralizar os abusadores como vilões e os abusados como vítimas. Coitados…

A vida nas ruas é assim, meu amigo, e acredite quando digo que pode haver simbiose entre cães, ratos, baratas e, claro, gatos. E são os gatos que, do topo, conseguem perceber isso com mais facilidade. Se você se deixa levar pelo rancor, você perde o real escopo das coisas. Tudo nas ruas se trata de sobreviver, usando as ferramentas que você tem. Com um pouco de cooperação, podemos reduzir a crueldade entre aqueles que, de toda forma, já são oprimidos e vitimados.

É só o que eu acho…

*****

Texto de Gato Preto


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Comentários

  1. Achei essa parte aqui particularmente inteligente: "Só alguém que nasceu em berço de ouro e teve boa vida seria capaz de moralizar os abusadores como vilões e os abusados como vítimas". Inspiração pura!

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  2. Acho que a expressão correta seria: só quem tem moral pode fazer um julgamento moral dos abusadores como vilões, etc.

    Quem não tem moral, quem foi criado na barbárie, não pode fazer esse julgamento. E não é porque ele não se enxerga vilão que ele de fato não o seja. E não é porque ele não se enxerga vilão que aquele que tem moral assim não o possa enxergar. Nada há de injusto nisso. São apenas pontos de vista diferentes de um mesmo todo.

    A questão é: gato preto se colocou ali como um amoral, ao lado dos vilões? Ou será que está importando discursos da Irmandade Escarlate e seus enganos que, reza a lenda, irão se espraiar pelo mundo causando desordem social, trocando certo pelo errado, abdicando do julgamento moral em prol de um falso senso de justiça que, na vdd, o torna tão culpado quanto o agressor?

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    1. Um amoral não poderia estar do lado dos vilões, visto que estes são imorais e portanto ainda presos no eixo da moralidade.

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