Memória de um Felino das Ruas - parte III

imagem: Shrek (meme inspirado confeccionado pelo autor)


Sobre o passado e coisas dolorosas


Então, as pessoas costumam me perguntar sobre meu passado. Aí eu digo que não gosto de falar sobre isso e, claro, só serve para aumentar a curiosidade dos infelizes. Bem, eu me identifico com os curiosos. Sabem como é, a curiosidade matou o gato… Bem, vou saciar a sanha de vocês!

Nasci em um burgo qualquer desses, imagino. Não lembro de meu pai ou mãe, nem se tinha irmãos. Lembro de mim nas ruas, mendigando. Tive sorte, eu acho. Minha face dava dó à maioria das mulheres, portanto era raro eu passar fome. Mas a vida é difícil, a vida é cruel.

Eu não era o único vagabundo do burgo né? Haviam outros, mais velhos e mais fortes. Lembro de apanhar bastante e ter meus espólios roubados pelos mais aptos. Bem, quem pode culpá-los? Eles também tinham que comer e tal. Percebi que não basta ser uma carinha fofinha que depende dos outros. Neste mundo você precisa ser forte para sobreviver. E quem é mais poderoso neste mundo que aqueles que dominam os mistérios arcanos?

Por acaso, o burgo em que eu morava abrigava em seu seio tal ilustre personagem. Um mago que morava em uma torre um pouco afastada da maioria das casas. Talantyr era o seu nome. Ele alegava ser um ilusionista de poder considerável e naquela época eu acreditei e quis ser como ele. Tanto que resolvi ser seu aprendiz.

Foram necessárias muitas tentativas. Levei sermões capazes de desencorajar até o mais temível valentão. Até apanhei algumas vezes. Mas Tatyana estava observando tudo. E ela ME VIU, realmente me VIU.

Era uma mulher linda, de cabelos negros e pele alva. E olhos negros que sempre achei tristes. Ela era a jovem esposa de meu ansiado mestre. Muito jovem, somente algumas primaveras mais velha que eu, presumo. E ela teve pena daquela criança melequenta e maltrapilha que sempre batia na porta de seu marido só para ser escorraçado. Graças a sua simpatia e súplicas, Talantyr resolveu me aceitar como criado.

Foram dois anos de trabalho duro e mal recompensado. Eu limpava a casa, cozinhava, coletava ingredientes para os rituais e magias e também servia de mensageiro. Tudo isso e Talantyr me enrolava, nunca revelando o suficiente para que eu pudesse fazer o mais básico dos encantos. Eu era inapto, sem talento, dizia ele. Mas bem, gatos podem ser bastante insistentes, não é verdade?

Quando meu mestre não estava olhando, eu bisbilhotava seus rituais e rotinas. Fazia notas mentais dos componentes mágicos e decorava cada palavra mágica dita, tentando tirar sentido de tudo aquilo. Foi bem difícil, mas Tatyana estava lá e ela era o motivo pelo qual eu acordava todos os dias com esperança de melhorar a minha vida. Ela me alimentava e tratava das minhas feridas quando meu mestre Talantyr me dava uma surra. E me afagava quando eu estava quase desistindo. Não foram poucas as vezes…

Acontece que meu mestre Talantyr, que já era um homem relativamente velho, era extremamente ciumento e invejoso da juventude de Tatyana. Tanto, que ele não a deixava de sair da torre por nada. Acho que a falta de sol fazia muito mal a ela. Uma vez Tatyana caiu das escadas, uma queda pequena, mas seu braço se quebrou como um graveto. Talantyr lhe deu uma surra por ser desastrada. Comecei a perceber que eu e Tatyana estávamos no mesmo barco, a mercê daquele ignorante que vestia os trapos de um ilusionista fajuto.

Convencido de que Talantyr nunca compartilharia comigo os segredos de seu ofício arcano, resolvi elaborar um plano para fugir com Tatyana. Eu já tinha conseguido emular alguns truques de meu mestre e confiava que podia aprender o resto sozinho se roubasse seu grimório. Eu já tinha resolvido vários detalhes do ardil, quando aconteceu algo que eu teria previsto, se não fosse tão jovem e inocente. Como eu sempre digo, a vida é dura, a vida é difícil. Vasos quebram, pessoas morrem…

*****

Foi simples o ritual reservado ao enterro de Tatyana. Talantyr disse que ela caiu da escada novamente, só que de uma altura maior e bateu com a cabeça. Mentiroso. Maldito mentiroso. Coincidentemente, um jovem rapaz do grupo também tinha amanhecido morto naquela manhã. 

Mas meus amigos, coincidências NÃO EXISTEM.

Resolvi investigar o assunto, embora já desconfiasse do qual seria o resultado de meus esforços. O rapaz, que se chamava Everard, estava se encontrando às escondidas com Tatyana. Engraçado eu não ter notado isso, mas, bem, eu estava sempre de um lado para o outro resolvendo as pequenas pendências de Talantyr, deve ter acontecido nesses momentos, presumo. E Tatyana era bonita, o rapaz também. Só que o plano dele não deu certo. O corpo dele tinha marcas como se tivesse sido atingido por um projétil, embora não houvesse resquícios de nenhum. E eu conhecia um feitiço que Talantyr era capaz de realizar que resultaria em algo semelhante. Era só ligar os pontos e foi o que eu fiz.

Eu confesso que me senti um pouco magoado com Tatyana, porque quando soube do caso, descobri que eu era apaixonado por ela. Pois é. Apaixonado. Mas não a culpo, caso contrário seria igual a Talantyr, o que seria inadmissível. Preferia Tatyana viva e feliz, com Everard ou qualquer outro. Qualquer um que alegrasse aqueles olhos negros sempre tristes. Só amaldiçoo Everard pela incopetência que resultou na morte dos dois. O rapaz podia ter sido mais discreto. Por sorte, não, por estupidez, Talantyr me manteve como criado. Sabe como é, gatos de rua não costumam esquecer um insulto, principalmente os pretos. Estes sempre te fazem se arrepender de ter cruzado o caminho deles. Dá azar, você sabe…

-Oi mestre. Eis a poção em que você está trabalhando há dias. Seria uma pena se ela estivesse envenenada.

Por azar, uma poção que meu mestre estave fabricando há dias foi contaminada. E que azar! Contaminada com a essência de um cogumelo paralisante. Que infortúnio, que ele mal podendo se mexer, sua torre começasse a pegar fogo. Sim, muito azar e COINCIDÊNCIA. Será que elas existem afinal? Bem, que bom que o grimório dele se salvou do fogo, não é mesmo?

Mais uma cerveja por favor!

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Texto de Gato Preto


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