A travessia da Floresta Escura, 1º Ato - A Despedida de Adan

A música da morte, conforme retratada por Frans Francken, O Jovem, inevitavelmente é escutada por todos. Mas, às vezes, cedo demais, como descobriram nossos aventureiros.

Há poucas horas os aventureiros se separaram de Duncan, que quis ficar em Ravina Verdejante e protegê-la das tropas inimigas que, em breve, marcharão ao redor (e torcer para que elas não resolvam atacar o pacato e desarmado vilarejo). Mas a essa despedida, que talvez seja apenas temporária, junta-se outra, definitiva e dolorosa, e cada um lidará com ela de uma forma diferente.


O sol atinge seu apogeu e começa a rumar em direção ao crepúsculo, e os aventureiros, atentos, continuam seguindo Wurren, que os guia a norte e a leste, por uma trilha muito pouco usada, rumo à Floresta Escura, para encontrar o Arquidruida, uma criatura lendária cujo imenso poder só é comparável à sua imensa sabedoria. Ele permeia muitas lendas de Geoff e da Grande Fronteira, e suas histórias podem até ser escutadas na distante Niole Dra, capital de Keoland. Muitas canções afirmam que o Arquidruida não é um homem, mas um animal, antigo e venerável, que se traja e fala como um humano; outras, que se trata de um antigo carvalho, o primeiro a nascer na floresta, e que fala por meio de profecias que só podem ser escutadas por meio do farfalhar de suas folhas; outras, que é um antigo feiticeiro élfico, criado pelos ursos. De qualquer forma, tão poderosa é sua magia, que ele conseguiu manter a Floresta Escura intocada pela invasão do exército liderado pelos gigantes e que destroçou Geoff. Seu poder se estenderia até o Bosque dos Chifres (e antigamente elas formariam uma só floresta). 

Bartolomeu nasceu e cresceu nas Matas de Gadhelyn, conhecida entre os humanos por Bosque dos Chifres, mas nunca ouviu falar sobre estar nos domínios do Arquidruida. De qualquer forma, se ele tivesse escutado essa história, consideraria uma possibilidade, afinal, era jovem demais para perceber tudo que se passava em sua floresta natal. Ficou sabendo, para sua surpresa e dor, que a floresta que supunha arrasada pela guerra era agora um foco de resistência em Geoff, o que significa que alguma coisa aconteceu para reverter a maré da guerra naquele local, já que os invasores penetraram fundo na floresta. Tivesse seu grupo conseguido retornar conforme o planejado, naquele dia anos atrás, e talvez a história do jovem astrólogo fosse bastante diferente.

*****

Enquanto avançavam pela trilha precária, marca óbvia que acompanha os pés dos homens, ouviram à distância uma voz rouca, em tom de adoração e súplica, e acharam melhor ir ver do que se tratava. A memória dos eventos recentes não deixava com que baixassem a guarda um segundo que fosse, então, embrenhando-se pelas matas, com as armas em punho, avançaram em direção ao rebuliço que contrastava com a calma da jornada desde Ravina Verdejante.

A cena que viram transportou Adam, Bartolomeu, Bruenor e Wurren diretamente para a clareira conspurcada próxima a Stonebridge: um homem velho, em trajes esfarrapados com alguns símbolos profanos, dentro de um círculo feito com o que pareciam ser longos ossos, enfiava a mão no ventre aberto de uma criança, empunhando uma adaga ensanguentada na outra. A atrocidade da cena fez com que parte do grupo denunciasse sua presença, trazendo do fundo da garganta um som de estupefação e ódio, e foi com esse tom que Wurren, imediatamente, invocou seus espíritos protetores, dois ursos pardos formados pela graça que os deuses da floresta concederam ao jovem druida. 

O velho estava acompanhado por um pequeno grupo de mercenários, e continuou, apressado, seu ritual macabro. Os mercenários não foram páreo para a ira do grupo, caindo sob patadas, espadadas, raios flamejantes e flechas. Mesmo o líder do grupo não conseguiu manter nada próximo de um duelo, atropelado por um enraivecido Wurren e degolado por Gato Preto. Bartolomeu, ainda escondido nas matas, viu o velho convocar uma besta selvagem, bípede e com cabeça de touro: um minotauro, armado com um imenso machado já sem gume e manchado de sangue. A arma, de tão pesada, não precisava de fio, funcionando quase como um martelo sob os braços fortes da criatura.

Todos se prepararam para enfrentar a criatura, menos o velho, que ficou com os braços erguidos, admirando sua conjuração com um sorriso louco no rosto, um mercenário que aproveitou a distração para fugir, e também Bartolomeu, que saiu de seu esconderijo para disparar uma seta mágica vingativa em direção ao velho. O sacerdote de Wee Jas não imaginou que seu ataque tivesse o efeito que teve: a seta atravessou o ventre do velho, acertando inclusive um dos pilares atrás dele de raspão, arrancando um bom pedaço da estrutura. Contra um bruxo que parecia tão poderoso, Bartolomeu errou ao calcular a força de seu ataque, pois na verdade não pensava em matá-lo, e sim em descobrir mais sobre o que ali se passava. 

Adam, vendo o mercenário fugir, foi atrás dele, enquanto os demais voltavam sua atenção para o minotauro. Cercado pelo grupo, nem mesmo a ferocidade da besta evitou que, antes que conseguisse erguer seu machado pela segunda vez, ela já estivesse de joelhos, seu sangue escorrendo largamente pela relva conspurcada.

Alheio a todos menos a Bartolomeu, que estava mais afastado e mais vigilante, aproximaram-se uma dezena de elfos selvagens. Bartolomeu já lidara com eles antes, em sua floresta natal. Eram criaturas bondosas, mas territoriais e desconfiadas, além de belicosas. Saindo de dentro das matas, o sacerdote falou, lentamente, em élfico, que eram amigos, e não desejavam lutar. 

O olhar que teve como resposta não lhe deixou dúvidas que o momento para diplomacia já tinha passado, então correu para junto de seus companheiros, alertando-os.

A decisão dos elfos se mostrou suicida: em pouco tempo seu grupo estava reduzido à metade, então Bartolomeu, vendo mais vidas sendo destruídas em vão, mais uma vez se dirigiu aos seus parentes distantes, dessa vez deixando à mostra as orelhas:

-Vocês já perderam companheiros demais em vão hoje. Não lhes queremos mal, então parem com essa luta sem sentido!

Mais elfos foram ao chão, dessa vez desacordados, e não mortos, e os demais fugiram.

Olhando em volta, a relva verde ia se tornando rubra, e era possível, aos de audição mais aguçada, ouvir a terra sugando com vontade o sangue, nos locais em que se formaram poças. De uma forma ou de outra, o ritual macabro de sacrifícios se estendia.

Mas ao menos a morte covarde da criança, uma menina, fora vingada, e seus cúmplices, passados ao fio cortante da navalha. Wurren se apressou em socorrer a menina, mas ela claramente estava além de qualquer salvação física, pois as tripas saltavam de seu pequeno ventre aberto. Ele a retirou, do jeito que pode, daquele altar maligno. Gato Preto e Eldrin caçavam tesouros, nos corpos caídos, vasculhando bolsos em meio ao sangue ainda pulsante da vida que se esvai mas ainda não se foi totalmente. Bruenor olhava nervoso para os lados, à procura de mais inimigos escondidos e, na verdade, com esperança e vontade de encontrá-los, pois a batalha curta não fora suficiente para dar conta de toda a adrenalina que corria nas veias do mestre anão. Bartolomeu olhava em volta, tentando achar algum sentido para tudo aquilo: um sacrifício, uma criatura poderosa conjurada por um cultista fraco, o ataque imbecil dos elfos selvagens. Faltava Adam.

- Onde está Adam? -perguntou Brunor - Não o vejo.
- Ele foi atrás do mercenário fujão. Mas já deveria ter voltado - disse Bartolomeu.
- Ah, daqui a pouco ele volta. Não precisamos nos preocupar com isso -acrescentou Eldrin, enquanto pilhava os cadáveres. 

Bruenor e Bartolomeu, porém, trocaram um olhar preocupado, e o sacerdote resolver ir investigar. Ele foi na direção em que rumou o mercenário quando da sua fuga, rápido e atento. Viu que dava em uma outra trilha, a norte, mas não teve tempo de andar muito por ela pois logo escutou um grito.

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhh.

Era a voz de Adam. 
Bartolomeu ergueu então a voz em direção ao local onde estavam os colegas:

- Venham rápido! Adam está em apuros!

*****

O grito pareceu vir de mais perto do que de fato estava. A trilha se estendia ainda por alguns minutos preciosos até chegar a uma pequena clareira. Nela, havia quatro seres: Dágora, em posição de ataque, o mercenário que fugiu, com um sorriso sádico no rosto, uma mulher de feições decrépitas e sujas, vestida em farrapos e peles carcomidas, deixando à mostra sua própria pele, suja e embolorada, de aspecto doentio, segurando pelo cangote, com unhas longas e afiadas, Adam, com a cabeça caída e as costas cobertas de flechas. 

A criatura soltou um riso de satisfação, a aparência distante como a do velho louco do altar, com dentes podres e banguela. Jogou Adam no fundo do poço que ficava atrás dela, e disse:

- Já é tarde demais para parar meu plano. Está feito, muahahahahha.

O grupo não teve tempo, nem estado de espírito, para pensar que plano seria esse, ou por que todas as criaturas que encontram têm planos, ou por que todas elas compartilham do mesmo olhar de insanidade e risada louca para pontuar o final das frases; só puderam exclamar, cada um a seu tempo, o nome do amigo, e se preparar para o que estava por vir: a criatura se livrou do ataque de Dágora, e lançou em direção ao grupo um raio conjurado de suas mãos que destruiu toda a vegetação em seu caminho, e os acertou em cheio, arrancando gritos de agonia enquanto eram eletrocutados e matando até mesmo o mercenário sobrevivente. Apenas Bruenor e Gato Preto conseguiram escapar do ataque, e foram os primeiros a se aproximar da druida decaída, encurralando-a em frente a uma estátua de pedra recoberta de musgo e runas arcanas. A criatura tentou reagir, mas as machadadas de Bruenor eram pesadas de raiva, e mesmo em meio aos ferimentos ela ria esganiçadamente, repetindo que “o plano não poderia mais ser desfeito, não seria mais desfeito”. Mas quando ela foi empurrada para dentro do poço, não dizia mais nada.

*****

Bartolomeu e Gato Preto desceram no poço, o primeiro resgatando o corpo de Adam, e o segundo, procurando algo de valor em meio ao corpo coberto de farrapos e com as veias abertas, com o sangue escorrendo ainda quente e se misturando à água do poço. Deitando o corpo do amigo aos pés da estátua de ObadHai (agora era evidente que a estátua e o poço eram, antigamente, parte de um santuário), Bartolomeu tentou encontrar algum resquício de vida ao qual pudesse agarrar com sua magia, e trazer Adam de volta. Bartolomeu impôs as mãos sobre o peito do amigo, apenas para sentir as pontas das flechas que o perfuraram pelas costas, e sentir a magia de Wee Jas falhar, pois já não havia ferimento que pudesse ser curado ali. Adam se fora. Olhou com olhos marejados em volta, para Wurren e Bruenor, que estavam ao seu lado esperando que algum milagre pudesse ser feito, mas o sacerdote tinha apenas desconsolo para lhes oferecer. 

Mais atento, Wurren disse para retirarem o corpo de Adam dali, pois o local não era bom. Bartolomeu não questionou, mesmo não tendo reparado nas runas em Ur-Flan que adornavam a estátua do deus das florestas. Levaram o corpo para a encruzilhada da trilha que, ao norte, acabou levando Adam até sua morte, e a leste, deu cabo da vida da pobre menina do altar. 

Wurren e Bruenor olharam para Bartolomeu, esperando o que seria mais acertado fazer, afinal, o sacerdote da deusa da morte era ele. Bartolomeu poderia realizar um ritual e depois enterrar o corpo, ou jogá-lo ao poço, ou mesmo deixá-lo ao relento, para virar alimento. Todas essas saídas eram aceitáveis, desde que fizessem sentido e os ritos fossem executados. Mas Bartolomeu não queria deixar o corpo do amigo ali, em meio a uma mata hostil povoada por criaturas malignas. Não, assim como a coragem de Adam, seu corpo deveria arder.

Improvisaram uma pira para os dois corpos. Wurren colocou moedas nos olhos do companheiro, e Bruenor, visivelmente abalado, se despediu sem esperar que Bartolomeu começasse a falar qualquer coisa.

- Tínhamos nossas desavenças, e eu não o entendia direito. Mas era valoroso, e mais do que uma vez me salvou em combate. Hoje, eu perdi um amigo, e que Moradin o veja dessa forma, caso seu espírito chegue a vagar perto de seus salões -e o anão saiu, antes que a voz embargasse e ele não pudesse falar mais nada.

Ficaram Bartolomeu e Wurren próximos, avivando as chamas, espalhando a fumaça dos ramos de ervas que lentamente queimavam e que Bartolomeu improvisou como incensos. Bartolomeu ficou tocando longamente uma música triste em sua ocarina, numa melodia sem palavras que tentava, de alguma forma, contar quem tinha sido Adam, no breve tempo em que se conheceram. Quando achou que sua música tinha conseguido chamar a atenção dos deuses -coisa essencial para qualquer ritual de morte-, o sacerdote deixou de lado o instrumento e cantou para os deuses, cantou quem era Adam Savoyée, suas qualidades, seus defeitos, suas proezas e desventuras, e, não sabendo quem era o patrono do amigo, rogou para os deuses, um a um, por que deveriam acolher o espírito que partia. 

Berei, acolha Adam por ter honrado sua família, indo até Orlaine levar a cabo os assuntos dos Savoyée; Cyndor deveria acolhê-lo, se aquela morte prematura era inevitável e prevista; Gadhelyn, por prezar a independência, a irreverência com a lei e os bons prazeres da vida, verá nele alguém de muita valia; Johydee terá um servidor que esconde bem suas reais intenções, consegue não ser visto e que sabe a hora certa de agir (ou de fugir); Kord encontrará alguém que, apesar de franzino e mirrado, é corajoso e gosta de uma peleja, quando inevitável; Kuroth teria feito bem em acolher Adam ainda em vida, e melhor ainda agora, pois o companheiro parecia talhado para servi-lo; mesmo Lirr poderia encontrar em seus salões platéia para ouvir as história do jovem, e rir de seu mau humor ocasional; ou talvez Lydia possa ajudá-lo a encontrar um sentido em uma vida tão abruptamente encerrada; Myhriss poderia querê-lo como amante; Norebo, como um companheiro de jogatina; Olidammara teria com quem compartilhar piadas incompreendidas e artimanhas; Osprem poderia levá-lo para conhecer mares e rotas mercantis que os mortais jamais conhecerão; Phaulkon terá alguém que sabe empunhar bem um arco, e enfiar uma flecha no âmago do mal; Ulaa e Zilchos, por ele ter ajudado a livrar um local a eles dedicado de uma bruxa maligna, e também porque Adam amava as gemas, as moedas e o comércio; Zoldal, por misericódia; os deuses da Antiga Fé, pelos préstimos do jovem, desbaratando cultos profanos em florestas sagradas e, se por nada mais, pela amizade com o jovem Wurren; Moradin, porque Adam não fazia feio no combate, também pelo amor pelo ouro e, se por nada mais, pela amizade e respeito do mestre anão Bruenor; Tritereão teria no finado companheiro um espírito livre, que levou justiça aos que foram injustiçados, e que desprezou a rigidez das normas em prol do bem; Sehanine, tão próxima desse fiel servo desde a mais tenra idade, deveria, se me tem em boa consideração, guiar o espírito de Adam pelas moradas dos deuses, até que algum veja nele a merecida serventia; e, por fim, Wee Jas, a quem Adam encontrará primeiro e por último, se já na primeira vez não acolhê-lo, acolhe na última, por consideração a mim e ao bom trabalho que ele fez em vida, e não o deixe vagando perdido e sem rumo.

Tal foi o conteúdo da longa canção de Bartolomeu para os deuses. O sacerdote não se esqueceu também da criança que fora tão barbaramente sacrificada. Encaminhou-a aos deuses bondosos, pois, mesmo nada sabendo sobre sua vida, a ingenuidade de seus tão poucos anos de vida, e a covardia de seu fim, seriam suficientes para encontrar refúgio nos salões de alguma divindade. Tomou cuidado apenas para espantar a sana dos deuses malignos, oferecendo a eles os espíritos do velho e dos mercenários ceifados naquela tarde. A troca era justa, ponderou o astrólogo.

o funeral de Adam não teve a pompa do da Rainha Elizabeth I, mas foi um funeral digno e tocante aos olhos dos deuses e também para os aventureiros mais próximos ao jovem Savoyée

*****

Enquanto o sacerdote de Wee Jas exercia seu amargo ofício, cantando a dor da perda para garantir que seu companheiro encontre descanso após sua prematura morte, Bruenor mantinha guarda a alguns passos, machado em punhos, mas perto o suficiente de Eldrin e Gato Preto para poder ouvir sua conversa.

- Veja, eu encontrei esse pedaço de cajado, caído onde estava aquela criatura que matou Adam - disse Eldrin
- Legal. Mas parece partido ao meio. Terá serventia?
- Parece mágico, mas deve precisar da outra metade para funcionar. Depois vou procurar melhor. Que será feito dos pertences de Adam, Gato Preto?
- Eu não sei nem o que ele tinha -respondeu o companheiro, mirando a cimitarra que pegara do chefe dos mercenários. Era simples mas bem acabada, e sem lascas aparentes na lâmina, revelando que se tratava de um belo trabalho de um competente ferreiro.
- Ele tinha um arco mágico, e uma cimitarra mais bela que essa que você está empunhando. Ah, e também uma capa élfica que te deixa quase invisível! Acho que ficariam bem em você.
- Sim, pelo que você fala, parecem ótimos bens -respondeu Gato Preto, mas sem compartilhar do entusiasmo com os espólios do finado Adam, aparentemente contente com o seu quinhão.

À menção displicente ao nome do amigo caído, Bruenor não se conteve:

- Que pensam que estão fazendo? Que baboseira estão falando? Mostrem mais respeito, o corpo de nosso amigo ainda está quente!
- Haha, quente mesmo, olha só -disse Eldrin, apontando para a pira improvisada. 
- Seus moleques! Calem essa boca e mostrem mais respeito, ou vou ensiná-los na marra como se faz. Bruenor segurou firme o machado e o apontou em direção aos dois. Era uma figura imponente, e um guerreiro mais do que capaz. Mas sua voz traiu sua emoção, e sua ameaça soou, por um momento, como um lamento, o que foi suficiente para que Eldrin percebesse que o anão não a levaria a cabo.
- Cuide dos seus assuntos, que eu cuido dos meus, anão - e, junto com Gato Preto, o feiticeiro se afastou, para continuar sua conversa.

*****

Quando Bartolomeu encerrou o ritual, jogou o ramo de ervas ao fogo, mas o aroma era insuficiente para se sobrepor ao cheiro de carne queimando. O sacerdote ainda era um novato nesse tipo de coisa, e se afastou respeitosamente da pira, junto com Wurren.

Bruenor, vendo que Bartolomeu já tinha feito o que podia, se aproximou, raiva misturada à dor em seu olhar.

- Aqueles dois não mostraram respeito algum ao nosso amigo. Vocês sabem que eu tinha minhas desavenças com Adam, mas sempre o respeitei, vocês são testemunha. Mas aqueles parecem estar preocupados apenas com os espólios. 

Olharam para a pilha com os pertences de Adam. Era uma decisão inevitável, por mais fria que parecesse. O amigo deixara itens, muitos dele mágicos, e deixá-los apodrecer por ali não faria sentido algum.

- Vocês o conheciam há mais tempo. É justo escolherem o que quiserem -disse Bartolomeu. 

Wurren quis ficar com o pergaminho da lua que Adam encontrara, furtivamente, dentro da tenda de Ânn, antes que Traban se apoderasse de tudo. Descobrir o que significava aquele pergaminho parecia algo caro a Adam, e o druida queria levar a cabo aquela missão. Bruenor queria apenas alguma lembrança, e Bartolomeu estendeu a ele o sinete da família Savoyée, bem como o alforge de moedas e gemas de Adam. O anão veria mais valor naquilo que Wurren e o meio-elfo. Bruenor assentiu com pesar, mas agradecido. Bartolomeu ficou com os itens restantes: o arco que Adam negociara com Salahadra, a cimitarra que ele pegou após a primeira vez que a mataram, e também a capa élfica, presente de Ânn. Bartolomeu suspirou por um momento, quando lembrou dela.

- E aqueles dois gananciosos, não devemos fazer nada com eles? Eles queriam uma parte -ponderou Bruenor.
- Se eles quiserem, que o digam. Não conheciam Adam, então posso entender porque não sentem o pesar como nós. Mas a ganância é algo que consome por dentro e que ao final toma tudo -disse o sacerdote.

ganância

- Eu ainda gostaria de resolver uns assuntos aqui, antes que possamos partir -acrescentou Wurren.
- Purificar essa clareira e a outra, eu imagino.
- Sim. Esses eram locais de adoração dos deuses das florestas, e acho que está ao nosso alcance, Bartolomeu, torná-los novamente.
- Mas e eu, posso ajudar em alguma coisa? -perguntou Bruenor, que, mais do que nunca, queria alguma ação para espantar pensamentos ruins.
- Na verdade, sim.

E enquanto Wurren e Bartolomeu vasculhavam a clareira, Bruenor usava seu martelo para destruir o altar macabro onde a jovem menina fora sacrificada. Eldrin e Gato Preto, aninhados com seus espólios, descansavam, desatentos a tudo, inclusive aos dois elfos que o grupo tinha feito de prisioneiros e que escaparam enquanto Bruenor, Bartolomeu e Wurren conversavam após o ritual de morte de Adam ter acabado.

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