A travessia da Floresta Escura - 2° ato

Rituais muitas vezes envolvem runas e símbolos arcanos. Bartolomeu, porém, também faz experimentações com símbolos menos pictóricos, como veremos.

[imagem: grafite medieval, que pode ser encontrado nesse sítio aqui, cujo artigo já está na lista de posts futuros para o blogue]



Nesse ato, Wurren e Bartolomeu se esforçam para pôr um fim àquele trecho profanado nas bordas da Floresta Escura, e o sacerdote de Wee Jas começa a entender melhor a extensão de seus poderes.




A tarde se estendia, e se Pelor por algum momento lançasse seus olhar para aquela clareira profanada às bordas da Floresta Escura, veria os grandes grandes arcos em volta do altar do sacrifício sendo demolidos por com golpes pesados do martelo de um anão em ceroulas e também por um urso pelado jogando todo seu peso e força contra a estrutura bárbara. Que o deus do sol tenha coisas melhores por que zelar.

Eldrin e Gato Preto faziam uma ronda no local, atentos a inimigos ou a um local de repouso, já que os planos de Wurren estender-se-iam pela noite. Bartolomeu, não possuindo nem martelo nem os músculos de um urso, se contentou em analisar melhor os arredores, mas pouco encontrou de útil: afora o ar maligno e o sangue dos cadáveres, não havia ali nenhuma pista que fornecesse mais informações sobre os cultistas. Olhando desapontado ao redor, percebeu, porém, que os arcos e parte do altar eram formados por ossos grandes e robustos. Coçando a cabeça, encontrou, junto aos destroços, uma cabeça de dragão, fato que passou despercebido por seus companheiros, tão empenhados que estavam em suas tarefas maçantes.

Terminada a demolição do altar, Wurren voltou a sua forma humana, esbaforido, e disse que agora precisavam, efetivamente, efetuar a purificação do lugar. O altar profano se fora, mas a clareira estava impregnada por alguma coisa maligna, ainda, ele podia sentir. As tramas da druida maligna penetraram fundo na terra. Wurren explicou brevemente que aquele local tinha servido a ritos dos Ur-Flan, o que não dizia nada para os demais, à exceção de Bartolomeu.

- Pouco se sabe sobre os Ur-Flan, e mesmo os que os conhecem os têm como extintos há muitas eras. Tratava-se de uma tribo flan, originária daquelas terras a oeste das Montanhas de Cristal, e que eram talentosos canalizadores das energias necromantes, diabólicas e demoníacas. Seu nome nunca era associado a qualquer coisa remotamente boa, e sua extinção era vista como algo positivo, pois por mais mal que houvesse no mundo, os Ur-Flan pareciam ter se excedido nisso. Mas não esperavam encontrar cultos contemporâneos daquela linhagem, muito menos ali, nas fronteiras da Floresta Escura -explicou o druida, em tom didático, coisa que raramente faz.

- Eles chegaram a impor um reinado de malignidade em épocas longínquas, mas a herança desses tempos cruéis persiste até hoje, como herança maldita, em cantos recônditos do vale de Shedolmar: terras profanadas, ruínas amaldiçoadas e inscrições em locais inesperados -completou Bartolomeu.

Diante desses fatos, o meio-orc, parecia hesitante em como proceder à purificação do local. Sua intenção era fazer um ramo com ervas aromáticas com significados místicos e orar para que os deuses das matas repovoassem o local.

- O que você acha, Bartolomeu? -indagou o druida.
- Acho a intenção boa, mas você vai precisar de mais que isso para desfazer o mal que foi feito aqui. Orações resolvem problemas mundanos, e não é este o tipo de problemas que temos -disse com convicção o sacerdote, que se sentia bem seguro após o ritual funerário de Adam.
- E você tem alguma sugestão em mente?
- Na verdade, tenho, mas ela não é muito ortodoxa.
- Hum, ok. Faça o que precisar ser feito -disse Wurren, depois de pensar um pouco.

O meio-orc se retirou, não querendo presenciar os ritos heterodoxos do companheiro, se dirigindo então ao local em que mataram a druída caída. Bartolomeu não hesitou; na verdade, desde a fenda milagrosamente aberta na rocha, enquanto escapavam do gigante, ele se sentia mais próximo de sua deusa, e sentia que ela lhe falava, em sonhos, muitas vezes através da voz de Ânn. Essa era, inclusive, a certeza que ele tinha que ela continuava viva mas distante, pois os mortos não tem assunto nenhum a tratar com os vivos.

*****

Bartolomeu já tinha pensado no que faria, durante sua busca infrutífera por pistas. Era um ritual intuitivo, do jeito que ele gostava, sem se apegar a ordens estritas e a palavras pré-formuladas: um ritual que expulsaria dali todas aquelas energias funestas que ele próprio sentia. O lugar estava impregnado em morte e sangue de sacrifícios passados, e o sacerdote tentaria canalizar toda aquela energia para algum lugar, para então desfazê-las. Era um ritual macabro que lidava, de uma forma completamente diferente, com as energias que ele próprio estava se acostumando a canalizar: a energia da morte.

Incapaz de poder, ele próprio, canalizar ou dispersar toda aquela energia, Bartolomeu precisava de algo que servisse como recipiente, algo com que ele pudesse canalizar propriamente tudo aquilo. Olhou para os muitos corpos à sua disposição:havia mercenários, elfos, um minotauro e uma druida caída. Descartou os dois últimos, por serem muito poderosos, preferindo o corpo de um mercenário que morreu quase sem sangrar, e colocou-o no meio da clareira, cada membro apontando para um ponto cardeal, e a cabeça na direção do altar, com alguns ossos sendo quebrados para permitir tal arranjo. Eldrin e Gato Preto ajudavam como podiam, seguindo as instruções de Bartolomeu.

Os dois eram céticos ao que ali acontecia, mas ainda assim ajudavam, e Bartolomeu viu com bons olhos a iniciativa: a única crença que bastava e que podia fazer alguma coisa naquele momento era a dele, mas a ajuda era bem vinda. Bartolomeu pediu para que fizessem uma pira a alguns metros dali, e começou a drenar o sangue do corpo, rasgando fundo as veias do cadáver que mal começara a se decompor. Exortou para que Wee Jas lhe conferisse poder para canalizar aquelas energias necróticas, caso julgasse a causa justa, e fez isso em forma de canção, mas não uma canção qualquer, afinal, não se tratava de uma súplica, como no funeral de Adam, mas de uma demanda de aceitação a um ato sabidamente justo. À medida que o sangue se esvaía, ordenou os espíritos malignos que obedecessem à sua condenação e que se curvassem ao seu domínio sobre as energias da morte. Bartolomeu soube que suas preces foram atendidas quando viu o sangue jorrar do membro como se ele tivesse sido amputado de um ser ainda vivo, pois os espíritos dos sacrificados estavam tomando lugar no cadáver.

Os ali presentes sentiram um frio na espinha. As folhas farfalhavam e havia inquietação no ar. Aos que nada sentiram antes, a clareira pareceu subitamente pesada. Bartolomeu repetiu o ritual para cada um dos quatro membros. Faltava a cabeça.

O corpo cadavérico se debatia levemente, e suas pálpebras se abriram: os espíritos dos sacrificados que rondavam a região se alojaram no defunto, mas faltava atrair a intenção maligna dos seres que ali realizaram seus sacrifícios, faltava extrair do fundo da terra toda a profanação. Bartolomeu rasgou a carótida e pegou uma das pontas dos ossos de dragão do altar demolido e a atravessou na traquéia do cadáver, sem parar seu canto, e ordenou, com sua autoridade de servo da deusa da morte, que todas as forças que causaram morte sem os auspícios de Wee Jas e toda a putrefação e maldade que ali residiam fossem buscar morada naquele corpo. As palavras de Bartolomeu pararam de fazer sentido aos demais, e ele falava numa voz gutural, com consoantes e vogais dispostas sem obedecer a qualquer regra do idioma élfico, ou anão ou keolandês: o sacerdote dobrava a linguagem à sua vontade, impunha aos fonemas o seu desejo, sua própria ordem: uma que expressasse o que ele sentia, o que ele queria, o seu comando para as forças necróticas da área profanada.

Nem Bruenor, nem Eldrin, nem Gato Preto entenderam o que o companheiro dizia, mas as forças a quem Bartolomeu se dirigia ouviram o comando, e a clareira toda ardeu num rebuliço silencioso.

*****

Enquanto isso, Wurren fazia suas orações, e removia da estátua de Obad-Hai as inscrições em Ur-Flan. As inscrições não eram mágicas, e o local não carregava a mácula da clareira em que os demais estavam, mas, ainda assim, era necessário devolver à estátua a dignidade que se devia. As runas, incompreensíveis aos olhos do druida, eram superficiais, e ele as raspava e limpava, enquanto ervas aromáticas queimavam lentamente aos pés da estátua.

Wurren escutou um borbulho vindo do poço em que o corpo da druida caída fora jogado. Protegendo-se com seu escudo, se aproximou e viu que, no fundo do lago, dois olhos vermelhos brilhavam, aquecendo a água e lançando sobre todo o local uma sombra perversa.

- Bartolomeu!!!!

*****

Antes que o grito do meio-orc fosse proferido, o silêncio do ritual de Bartolomeu foi subitamente quebrado com um remexer de ossos, e o sacerdote percebeu que os olhos da cabeça do dragão se acenderam, rubros.

- Bruenor, a cabeça! -apontou o sacerdote
- Bartolomeu!!!! -era o grito de Wurren
- Ahhhh -era Eldrin que soltou um grito de dor, lançando ao chão o pedaço de cetro que encontrara e que agora parecia arder em brasas.

Eita porra!!! Olha a cabeça do capiroto de olhos rubros aí!!! 
[editada magistralmente a partir dessa imagem aqui]

Sem hesitar, uma martelada precisa do mestre anão esfacelou os ossos da cabeça do finado réptil que tentava tomar vida. Depois disso, o corpo do mercenário deu um solavanco, se ergueu do chão à altura de uma lança, e caiu, inerte.

Os aventureiros se entreolharam, assustados. Eldrin e Gato Preto se dirigiram ao local em que Wurren estava, atendendo ao seu chamado. Bruenor continuou pronto para o combate, ao lado de Bartolomeu, que pareceu não atentar ao chamado do druida, tão focado que estava em seu ritual, que precisava ser finalizado rapidamente. As forças do local tentaram se rebelar contra o seu comando, mas pareciam, finalmente, ter capitulado. O osso que atravessou o cadáver estava rachado, e o corpo não mais se movia. Era preciso queimá-lo rapidamente. Com ajuda de Bruenor, colocou o cadáver na pira, e, assim que ela foi acesa, começou a arder com fúria. Estava feito.

*****

Gato Preto e Eldrin chegaram a tempo de presenciar o meio-orc elevar a outra metade do cetro de Eldrin, o objeto que, no fundo do poço, fizera a água borbulhar, e parti-lo ao meio, em frente à estátua de Obad-Hai. Do cetro saltaram as duas pedras engastadas nos olhos, e Wurren as coletou com um pano, com certo receio. Os três voltaram à outra clareira, para encontrar os demais.

- Encontrei isso aqui dentro do poço. Eram os olhos do Cajado da Serpente. Ele pareceu querer tomar vida -comunicou o meio-orc.
- A outra metade desse treco me queimou! -reclamou Eldrin
- Hum, deve ter sido ao mesmo tempo em que as coisas começaram a esquentar aqui. Essa ossada quis tomar forma e nos atacar, tentando resistir ao ritual -explicou Bartolomeu.
- Seja como for, essas pedras carregam uma imensa maldade. Algo com que nenhum de nós seria capaz de lidar.
- Então deixe-as aqui! Não são nosso problema! -propôs Eldrin
- Se fizermos isso, elas podem se tornar um problema para nós depois. E se alguém liberar o que está aí dentro? -argumentou Bruenor
- Concordo com o anão -atalhou Gato Preto
- Estamos adentrando nos domínios do Arqui Druida. Não podemos pedir seu conselho se não demonstrarmos preocupação com esse lugar. Ele deve saber lidar com essas pedras também, seria mais seguro levá-las a ele -ponderou Bartolomeu.
- Mas e se esse for o plano? E se, ao levarmos isso até ele, estivermos causando um dano irreparável? -indagou Eldrin.
- Bom, se o Grande Druida não conseguir lidar com isso, quem dirá nós? -disse Wurren, finalizando o argumento, e orgulhoso que seus amigos, cada um a seu modo, compartilhavam de suas preocupações com a floresta.

*****

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Comentários

  1. Como sempre, excelente narrativa. Gostei (e ri) muito da edição magistral da caveira do capiroto! Kkkkk... Era mais ou menos o que eu próprio imaginava ao narrar a cena, rsrsrs. Agora, acho que a sensatez de Bartolomeu no final do texto, lembrando que levar as pedras malignas até o ArquiDruida pode ser visto como uma afronta, foi, na vdd, uma proposição de outro PJ, ou será que estou muito enganado?!
    Seja como for, a cada novo ato Bartolomeu sedimenta mais seu protagonismo na estória. Será a mão pesada do autor ou, realmente, é o astrólogo quem tem orientado as ações no grupo no mais das vezes? Seja como for, a liderança é merecida.

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    1. Na verdade Bartô disse q seria uma afronta não mostrar respeito pela floresta. Mas alguém falou q poderia ser uma afronta levar as pedras. Quem foi?

      Bartolomeu tem se envolvido com a história e também vem ganhando respeito de seus companheiros, em especial Wurren e Bruenor (Duncan tb, mas esse ficou para trás). Ele parece ser o fiel da balança, entre a belicosidade do anão e a bondade inocente do druida. Mas com dois novos companheiros materialistas e aparentemente com princípios morais rasos, talvez essa disposição mude.

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    2. Mas eu acho q o astrólogo acabou caindo nas graças do autor, e suas ações, opiniões e pensamentos são mais expostas que as do demais personagens.

      Porém, jå disse q qq um pode adicionar passagens dessa natureza no texto, ou solicitar alteração na forma como eu relatei determinada ação, caso não tenha sido consoante com o q ocorreu na sessão.

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