A Podridão de Ugrasha - 22° ato


Em meio a tantas aventuras, finalmente os aventureiros gozam de uma merecida pausa para trocar anedotas, contar vantagens e fazer piadas


O troll leva rapidamente os aventureiros até a saída da mina, em meio às exortações de Ugrasha. Trolls são criaturas muito burras, e sua hesitação em obedecer à voz da bruxa não foi fruto de desconfiança, e sim da angústia: tudo o que ele desejava era esmigalhar aqueles invasores inúteis e depois se refestelar com suas carnes antes que os odiosos goblins e carniçais viessem se apropriar do seu espólio. São tantas e tão diferentes as criaturas com quem Ugrasha têm pactos, que aqueles homens horrendos não seriam os mais odiosos; não depois dos orcs com quem ele foi obrigado a dividir as cavernas; não depois dos mais odiosos ainda ettins, a quem ele tinha que obedecer. E os goblins. Como era difícil não torcer aqueles pescocinhos asquerosos cada vez que eles apareciam com uma risada esganiçada, uma risada pedindo para tomar uma porrada no meio da fuça! Havia também os mortos-vivos, de carne ruim, mas com esses o troll quase não cruzava o caminho. Tudo isso aguentava o nosso pobre troll, em sua vida nefasta nas Minas de Prata, por medo da dor que Ugrasha era capaz de infligir na sua cabeça, e fazê-lo obedecer ordens que ele mesmo não queria obedecer. A voz de Ugrasha causa um frio na espinha do troll que inimigo nenhum jamais causou, e por isso ele leva os aventureiros até a saída da mina, rangendo os dentes.

*****

A parte da mina próxima à saída era peculiar, pois parecia muito pouco usada. Corredores de piso embaçado de umidade e sujeira, sem marcas que não as dos musgos ralos, levavam a salões que talvez estivessem fechados há décadas. As hordas de Ugrasha não perambulavam por aqueles cantos, devendo utilizar outros caminhos para deixar as minas. Um cheiro de enxofre era bastante nítido no ar, mas ninguém queria mais investigar nada naquele subterrâneo que já se arrastava por dias.

Escavado na pedra e carregando os sinais do tempo e dos saques, um altar a Ulaa permanecia guardando na verdade o que é a entrada da mina, tomada por fungos ácidos de quem bem se lembra Eldrin. Aparentemente ninguém reparou no altar, tamanha a ânsia por sair da mina, mas Bartolomeu, a quem nada escapa, parou para fitar o altar que, ainda decrépito, mantém algo da imponência dos dias de glória: o altar representava uma montanha irregular em cujo seio foram cavados túneis e salões -uma representação da mina e da própria deusa, da raça de Bruenor. No centro, um buraco onde algum dia repousava um grande rubi, o presente da deusa para os trabalhadores de seu marido oeridiano, que cavucam as rochas à procura de minérios. 

A tarde já corria mais para perto de seu fim que de seu início, e a árvore pálida refletia os raios oblíquos do sol, mostrando-se em toda sua majestade morta. Apesar da beleza, ela pareceu agourenta a Bartolomeu, como uma árvore morto-viva, com aparência de vegetal mas carregando a palidez da morte, deslocada do reino dos vivos e guardando o reino das aberrações sob a terra, como uma guardiã prateada. 

O ar fresco fazia com que todos se sentissem mais à vontade: os aventureiros quase se espreguiçavam sob a luz do sol, esticando os músculos retesados porque tensos, e inspiravam o ar em grandes goles. Wurren olhava em volta, e Bartolomeu, como pudemos ver, trocava a filosofia pela poesia, que, mesmo lúgubre, é mais afeita ao ar livre. Mesmo sem falar entre si, foram todos tomando a trilha sinuosa que levava ao vilarejo de Ravina Verdejante. 

*****

A noite começava a cair quando chegaram ao vilarejo. Alguns cachorros latiam, o cheiro de comida sendo preparada tomava as ruas, e o cansaço foi aos poucos pesando nas pernas dos aventureiros, que ansiavam por uma boa bebida e uma refeição quente. Tudo isso, e ainda um bom banho, podiam encontrar na Estalagem do Tio Cohen, conquanto pudessem pagar seu preço abusivo. Mas, nessa noite, pagariam o dobro, se necessário fosse. 

*****

Bartolomeu deitou cedo e despertou cedo no dia seguinte, e com uma ótima disposição foi andar pela cidade, sem mochila, sem armas nem nada, carregando apenas seu cachimbo. A vila já estava desperta: era época de colheita, então o trabalho era incansável, de sol a sol. Fora os campos, porém, a manhã ainda se arrastava preguiçosa, e apenas aos poucos ia se sentindo o cheiro de lenha nova começando a queimar. Olhando pela estrada, Bartolomeu via um viajante caminhando lenta e distraidamente, acompanhado discretamente por um gato. Bartolomeu voltou a estalagem para avisar os companheiros.

*****

Os amigos se reencontram, após altas aventuras e batalhas, para mais uma noite sem sexo, drogas ou rock and roll, ao contrário dos encontros dos Rolling Stones  (#medievalproblems)

Quando Adam chegou na estalagem, encontrou os amigos recém-despertos, com a mesa do desjejum já posta. Parecia fazer muito tempo que tinha se separado, mas na verdade não foram mais que 5 noites. Adam se sentou na mesa como se tivesse apenas dado uma volta na cidade e voltado, e os outros agiram de acordo, mas era bom ver que todos estavam bem. 

- A mensagem foi entregue. Orlane já está avisada. Enviei a mensagem para Fildurn. E, Bartolomeu, você se declarou para Zulu, hehe. -Adam falava no tom de frases curtas e objetivas como o da mensagem que ele mesmo deve ter entregue; acrescentou a última com um tom malicioso, deixando claro que não precisava ter feito aquilo mas queria apenas embaralhar um pouco as coisas pelo mundo.

Bartolomeu esboçou um protesto, mas acabou pensando melhor e deu apenas um sorriso maroto para Adam, e acabou perdendo parte da conversa que se seguiu, pensando na bela e doce Zulu, cujo amor ele não poderia corresponder, pois seu coração por hora pertence ao vasto mundo e aos caminhos por onde seus pés o levam.

- E agora, o que faremos? -perguntou Wurren, até então calado.

- Um território goblin na superfície (lembram da cerca de espíritos?), um exército com um gigante das nuvens nas proximidades, um pacto desconhecido entre Ugrasha e alguma entidade demoníaca e o desaparecimento de Ânn -resumiu Duncan, contando nos dedos o número de problemas que se iam acumulando.

- Sim, e uma família amaldiçoada pelo fantasma de uma mãe super protetora, cuja filha seria bom encontrar -acrescentou Adam

- Oras, e uma mina cheia de tesouros escondidos e sem Ugrasha para protegê-los! Os vermes devem estar se matando lá dentro, é só uma questão de tempo antes de chegarmos, encontrarmos só corpos e nos apoderarmos dos espólios -disse Bruenor, com um sorriso estampado na cara, buscando aprovação dos companheiros.

Eram muitas as opções, e muitas as motivações que poderiam levar a um caminho ou a outro. No meio da discussão, o estalajadeiro se sentou com o grupo e começou a compartilhar sua própria história de aventuras. O grupo ouvia atentamente, imaginando suas prosaicas aventuras, que foram abruptamente abreviadas por uma flechada no joelho, tornando-o, então, o descobridor da cerveja gelada. A história não fazia nenhum sentido, ainda mais que a estalagem dele era em Ravina Verdejante, um lugar esquisito, perdido no meio do nada. Bartolomeu despertou de seu breve torpor com a voz arrastada do estalajadeiro Cohen, cujo sobrinho ninguém sabia onde estava. No fundo, o meio-elfo tinha a suspeita de que, quando saíssem de Ravina Verdejante e olhassem para trás, nada encontrariam senão um vale verdejante, sem qualquer vestígio de vila, tal como ocorreu em Icrácia.

- Mas me digam: então sua empreitada teve sucesso? Não quis incomodá-los ontem, pois pareciam muito cansados. Conseguiram entrar nas minas? -Tio Cohen não conseguiu mais segurar a curiosidade.

- Entramos e saímos -respondeu Wurren

- E ela é de fato amaldiçoada como dizem?

- Sim. Havia carniçais, zumbis, aranhas gigantes, goblins, trolls, trolls de duas cabeças e uma bruxa maligna lá dentro.

- Por Santo Bane!! Ele já nos livrou dessa ameaça uma vez e dessa vez estivemos desatentos e não a vimos se erguer de novo!! O que será de nós?

- Acalme-se, bom homem. Derrotamos a bruxa e acabamos com seu plano diabólico. Se tudo der certo, voltaremos lá para acabar o que iniciamos -disse o meio orc, olhando para Bruenor.

- Sim, sim, daremos conta de tudo, podem ficar tranquilos -acrescentou o mestre anão.

- Diga-me, Cohen, alguma estrada que ligue Hochoch a Orlane passa aqui? -interrompeu Bartolomeu.

- Erh, bem, não, a estrada velha passa muito ao norte, se bem me lembro, e a estrada que se inicia ao sul encerra aqui na vila. Nossos antepassados a abriram.

- Ah, então vocês podem ficar tranquilos mas não muito, porque em breve haverá um exército de gigantes ao norte, perto da torre de vigia do Grande Ermo acima das minas. Não é longe daqui, mas como a vila não oferece valor estratégico e se vocês esconderem bem os mantimentos para não chamar a atenção dos batedores, é capaz de a colheita se encerrar e vocês terem que lidar apenas com alguns batedores e orcs famintos. Sugiro que você leve isso ao conhecimento dos demais -Bartolomeu falou, certo que um pouco de medo ajudaria o estalajadeiro a relembrar melhor de seus dias de aventureiro.

- Oh, por Santo Bane!! O que será de nós! Nós somos apenas velhos moradores, há poucos jovens aqui e dois guardas apenas, meu senhor! O que faremos?? -o estalajadeiro não perdeu a compostura, mas suas palavras denotavam desesperança.

- Eu ficarei. -anunciou Duncan, em tom solene- Não deixarei essa vila à própria sorte: treinarei seus homens e a protegerei dos ataques. 

- Oh, meu bom homem, como você é corajoso! Você faria isso por nós?

- Por vocês e por qualquer vila necessitada. Não posso fugir ao meu dever.

Os aventureiros olharam-se surpresos, mas Duncan não deu tempo para que eles falassem:

- Não ficarei aqui para sempre. Serei mais útil neste vilarejo do que encontrando o Grande Druida, apesar de querer muito conhecer um grão sacerdote da antiga fé. Mas meu coração me diz que devo ficar. Passem aqui quando retornarem com respostas. Eu tenho que pagar minha dívida com Ânn.

De fato, todos tinham uma dívida com Ânn, e teriam chegado a essa conclusão se não tivessem ser interrompidos pelo estalajadeiro. Não fosse por ela, afinal, e jamais teriam saído do Vale Perdido de Icrácia. O destino deles estava definido, então. Gato Preto os seguiria porque tem uma dívida com o grupo, que o salvou de se tornar um morto-vivo sob controle de Ugrasha. 

Comeram o resto do desjejum em silêncio. Ao final, se despediram do amigo, que esperavam reencontrar em breve, e partiram rumo ao norte, longe das estradas e vilas, evitando encontros desnecessários (como se isso estivesse sob o controle deles…).

*****

Próximo ato                                                                                                                            Ato anterior

Comentários

  1. Excelente! Mas o nome do estalajadeiro ela Cohen, e não Eli! kkkkk... pelo visto de nada adianta deixar uma anotação no Roll20, porque ninguém lê! :(

    Quanto ao mais, perfeito! Gostei da fotinho dos Stones e da hashtag!

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    1. Ainda não internalizei aquele bloco de notas, mas não perca as esperanças!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Kkkk... Boa sacada a dos stones

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