A Podridão de Ugrasha - 21º Ato


A Grande Roda é a descrição mais comum dos sábios de Flannaes para descrever a organização dos planos. Maglubyiet, deus dos goblins, vive em aqueronte, um dos planos exteriores, os quais giram em torno das Terras Exteriores - o centro do multiverso (IMAGEM:  Manual of the Planes, D&D 3rd Edition / WotC)

A sinuosa caverna possui um fim, é claro. E este fim parece ter sido utilizado por Ugrasha para formar seu covil. Trata-se do fundo de uma caverna, claramente escavada com picaretas, pás e outros utensílios tipicamente utilizados por mineradores. Naquele local, duas estantes repletas de livros chamam a atenção. Alguns deles claramente foram retirados às pressas, do que a sacola derrubada pelos goblins lacaios (mortos por Bruenor) são evidência inconteste. Entre os exemplares notáveis encontram-se títulos como “O Estrangeiro do Etéreo”, “O Ferreiro do Solstício”, “Exércitos do Anoitecer”, “Deuses do Vácuo” e “Dos Deuses e Ladrões”. São todos títulos obviamente desconhecidos dos aventureiros, muitos dos quais escritos em linguagem arcaica e de difícil acesso. Um deles, porém, chama a atenção porque a maior parte de suas páginas está em branco e sua encadernação é sem dúvidas mais precária. Ao contrário dos outros, neste não há nomes pirografados na capa de couro ou adornos metálicos úteis para conservação ou embelezamento. Há apenas um pedaço de couro preto costurada estabanadamente às dezenas de páginas amarelas e puídas sobre as quais uma estranha e (sem dúvida) profana escrita pode, talvez, revelar alguns planos de Ugrasha. As runas e os estranhos desenhos não deixam dúvida de que se trata de alguma língua abissal, cuja tradução pode ser muito perigosa. Se as palavras erradas forem pronunciadas, sabe-se lá o que pode acontecer. Talvez um lacaio infernal seja conjurado. Talvez um lorde abissal ouça um chamado... e ninguém quer que as forças do abismo lancem seus olhares para aquele pequeno grupo de aventureiros... certo?

- Ahnn... ahnnnnn – os aventureiros ouvem o gemido de um goblin que, coitado, mesmo com um membro amputado ainda vive, gemendo de dor – Poupem a vida de Shulug. Shulug não fazer mal a ninguém! Só seguir as ordens de madame Ugrasha! Não matar ninguém! Não ferir ninguém! Ou Shulug faz ou Shulug morre! Piedade! – o pobre goblin clama pela sua vida e, apesar do rosto desfigurado, de suas presas afiadas e de seus olhos nefastos, é possível sentir alguma empatia por sua dor. Trata-se, afinal, de uma criatura completamente subalterna, que facilmente é subjugada por qualquer superior. Tola, fraca e praticamente inútil. Uns podem sentir completo desprezo por seu tipo (esse parece ser o caso de Bruenor, que já se aproxima com o machado em mãos), outros (como Wurren e Duncan) tendem a sentir uma nódoa de compaixão por seres tão infelizes. Maglubiyet, Senhor das Profundezas e da Escuridão, um dos lordes do arqueronte, é quem criou esses seres, certamente não como um ato de compaixão e amor, mas sim como uma demonstração de vilania e perversidade. Essas criaturas foram criadas para a guerra e para a morte, não sabem fazer qualquer outra coisa. Suas pobres e condenadas almas gravitam pelo astral até o aqueronte apenas para se juntarem ao seu senhor em suas fileiras de exércitos. Flanaess não é a casa dos goblins, mas sim sua caserna, seu campo de treinamento, onde são forjados na dor e no sofrimento para a batalha. Quando qualquer uma dessas odiosas criaturas consegue romper os inexoráveis laços espirituais e sanguíneos que os tornam tão agressivos e irascíveis, isto desperta nos corações de Wurren e Duncan a esperança de que, quiçá, o espírito de Obad-Hai, que anima a tudo na natureza, possa salvar esses monstrinhos.

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A visão dos muros da cidade medieval de Nuremberg. Para Adan, a visão dos muros de Orlane trouxe a lembrança de que lá ele não era bem vindo.















Adan retornou para Ravina Verdejante e, de lá, tomou a estrada para Orlane. Ele não falou com ninguém na estranha aldeia. Não queria levantar nenhum tipo de suspeita e nem atrair atenção alguma. A carta que trazia consigo era aparentemente muito importante mesmo. Dágora seguia consigo e, como sempre, passava a maior parte do tempo distante, em sua forma mais selvagem. Estava com os pés na estrada há dois dias aproximadamente, quando as muralhas surgiram diante de si. Orlane parecia assombrada, como se uma nuvem muito pesada constantemente pairasse sobre ela. Nada semelhante, em espírito pelo menos, a cidade que deixou pouco menos de uma semana atrás. Tudo não passava de impressão sua, na verdade. É que antes a Adan era inocente de tudo, e não tinha uma reputação para se preocupar (ao menos não ali). Agora, contudo, Adan sente-se como um proscrito. Os Wyverns Dourados gozam de prestígio com os lordes locais. Ele ainda se lembra de quando presenciou o encontro entre a sinistra Ânn e o Barão Eirig. Aliás, naquela oportunidade Ânn lhe disse que sua família estava em dificuldades financeiras e parecia saber quem ele era. Sem dúvidas, sua impressão dela foi a mais bizarra possível e somente mais tarde é que essa imagem se dissipou. Agora, porém, o mesmo calafrio daquela manha fria de baixo verão lhe tomava de assalto.

O entorno da vila não é belo. São campos devastados e lamacentos. Há escombros e ruínas de antigas construções e a estrada serpenteia gentilmente entre elas revelando que, outrora, aqui brotavam flores e outras plantas que animavam a caminhada. Há um grupo de plebeus caminhando de forma aparentemente errante ao norte da estrada, mas Adan poderia facilmente ignorá-los. Afinal, sua cabeça agora está pensando em como entrar na vila fortificada sem chamar a atenção dos guardas...

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Sam e Frodo encontraram um troll quando exploravam as Minas de Mória. Foi preciso todo o esforço conjunto da Sociedade do Anel para debelar a ameaça. O azar do grupo de aventureiros neste caso foi topar com dois espécimes de uma vez só! (IMAGEM: New Line / LotR: Fellowship of the Ring - DIVULGAÇÃO)


Bruenor e Duncan lideraram os colegas para fora do covil de Ugrasha. Os aventureiros recolheram apenas aquilo que lhes parecia útil ou de alguma forma necessário e saíram pelos túneis escavados ao sul por sugestão de Bartolomeu, para quem a inexplorada passagem parecia ser um caminho mais sensato do que o enfadonho retorno pelos corredores já desbravados. Naqueles túneis, horas atrás, foi travado o sangrento combate que quase vitimou o anão, então, quando ele passa por ali sente uma pontada nas costelas. O desconforto é percebido por Duncan, que nada diz para não ferir o ego do astuto guerreiro anão.

Adiante os aventureiros se deparam um um goblin vivo, remanescente do último combate. Assim que avista a aproximação do grupo, ele bem que tenta fugir por um outro túnel escondido sob uma saliência na rocha. Gato Preto, porém, se adianta rapidamente interpondo-se no caminho. Os aventureiros novamente procedem a um interrogatório, desta vez bem menos amistoso, e a pobre criatura não hesita em afirmar que há alguns perigos adiante até a saída, inclusive alguns trolls. Obviamente, a criatura é assassinada ao término da inquirição, o que já está se tornando a marca registrada dos aventureiros - ou pelo menos daqueles que assumem a liderança do grupo nestas horas (leia-se: Bartolomeu). Nerull agradece as oferendas.

O "passeio" pelas cavernas e túneis só encontra uma pausa quando Gato Preto, que desta vez seguia à frente, encontra uma porta dupla, de madeira, à sua frente e, por trás dela, consegue ouvir os grunhidos e conversas fiadas de um grupo de goblins. Os aventureiros se organizam rapidamente para fazer o assalto na caverna seguinte, o que executam com maestria, pondo fim à vida de pelo menos cinco goblins que, para surpresa de todos, estavam espoliando os corpos de outros incautos aventureiros que se perderam nas minas não havia muito tempo.

Quando, porém, já julgavam estarem em segurança, ouviram os rugidos guturais de dois trolls e a paz transformou-se em aflição e dor. Bruenor estava distante, pois em sua fúria sanguinolenta, perseguiu um goblin fugitivo até uma passagem distante. Eldrin, Bartolomeu, Duncan e Wurren estavam encontrando dificuldades para lidar com aquela ameaça gigante. Finalmente quando o anão retornou, o espadachim já estava deitado gemendo a cada suspiro. O sangrento combate estava exaurindo as últimas forças do grupo. Wurren assumiu sua forma de ursídea, mas nem assim a ira dos trolls arrefecia. Um deles chegou a ser derrubado e Bartolomeu gritou:

- Acabe com ele! Finalize-o!

O astrólogo dirigia-se à Gato Preto. Porém o animal aventureiro,  ignorou o ardoroso pleito do sacerdote de Wee Jas. Pensava que o gigante estava morto. Ignorava, entretanto, que esta espécie de gigante conhecida com troll tinha a incrível capacidade de regenerar suas feridas mesmo que seus membros estejam decepados. E, assim, o troll se ergueu para pavor do grupo, tendo sido necessário muito esforço para "deitá-lo" novamente. Quando isto ocorreu, o próprio Bartolomeu se encarregou de deixar as mãos fantasmagóricas de Wee Jas sufocarem a criatura até sua verdadeira e definitiva morte. Nada obstante, havia ainda um outro troll na caverna e todos estavam exaustos. Gato Preto, então, redimiu-se perante o grupo ao se esconder nas sombras e de lá conjurar um encantamento para iludir o monstro. Imitando a voz de Ugrasha, o esperto aventureiro ordenou que parasse de atacar os aventureiros, confundindo o monstro a ponto de fazê-lo um anfitrião amistoso. Sorte que os demais já haviam percebido que se tratava de um truque, afinal, os ânimos ficariam ainda mais exacerbados se, ao invés disso, achassem que a própria bruxa estava de volta ao seu covil...

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Os aldeões estão procurando pelo medalhão de sua mãe. Ele se perdeu no meio da lama e dos escombros quando sua família fugiu dos campos e buscou abrigo no interior dos muros, a salvo das hordas de gnolls que assolavam a região.

Como forma de pagamento pela ajuda do ladino, os aldeões podem lhe indicar o caminho por uma grande nos muros que ainda não foi consertada e, por ser submersa rente a um pequeno lago, é reiteradamente subestimada e esquecida pela guarda da cidade. Adan poderia entrar por ela sem ser visto, certamente, pois possui uma incrível capa élfica. Contudo, o ladino não se dispôs a oferecer tal tipo de ajuda. Ao invés disso, decidiu ludibria-los, convidando o bando para tomar uma cerveja por sua conta em uma estalagem na cidade. Deste modo, conseguiu passar pelos portões sem ser avistado pelos guardas. Dirigiram-se, então, para uma velha estalagem ainda próxima aos muros da cidade. Lá, Adan viu que um anão jogava dados com outras pessoas e que, espertamente, praticava pequenos truques para ludibriar seus concorrentes e, assim, ganhar algumas rodadas de apostas. O ladino, que havia perdido Dágora de vista, se aproximou e voluntariou para uma rodada de apostas com o anão malandro. Astuto, Adan conseguiu vencer mesmo com os truques do adversário e, assim, obteve um recurso para chantageá-lo e conseguir que ele fizesse um favor: entregar uma carta para Zolu contando sobre a aproximação dos gigantes vindos das minas de prata. Com isto, Adan se deu por satisfeito e saiu da cidade antes do completo escurecer.

Ao passar pelos campos lamacentos novamente, resolveu fazer uma busca pelo medalhão na velha casa abandonada. Dágora foi junto, a pedido. Adan, então, foi abordado pelo fantasma de uma velha senhora quando explorava o porão do local. Ele está sozinho, porque Dágora fugiu ao menor sinal do ectoplasma púrpura que brilha magicamente no porão da casa. A fantasma é agressiva, e ameaça ataques ao ladino. Pergunta porque Adan está ajudando bandidos a saquearem aquilo que restou de sua miserável existência, revelando, assim, que as intenções daqueles marginais não era genuína. Adan, porém, se escusa e diz que está ali por curiosidade e não para roubar. O fantasma revela que medalhão de prata foi comprado por ela como um presente para sua filha, que estava para se casar, mas o ataque dos gnolls tomou Orlane de surpresa e ela faleceu (mostra em seu espectro as marcas das mordidas no tórax e nas pernas). Se Adan se comprometesse a entregar o medalhão à sua filha, que se chama Mona, certamente sua maldição acabaria, porém, as pernas do ladino tremiam demais e, ao perceber-se sozinho no escuro, fugiu também.

Comentários

  1. Por mais que reconheça a divindade, Bartolomeu despreza Nerull. Ele despreza a carnificina, e acha que a morte é o fim de um ciclo, e sua abreviação, portanto, é uma profanação, uma atitude maligna. O coração de Bartolomeu não é cruel....

    Porém, temos que considerar algumas coisas, antes de julgá-lo por suas ações. Infelizmente, Bartolomeu possui uma mentalidade medieval, eivada de preconceitos, a ponto de não reconhecer um goblin como um igual. Um goblin, na verdade, para ele é menos que um animal sem inteligência, pois eles usam essa dádiva (ainda que limitada) para o mal. O sacerdote não enxerga esperança de redenção em um ser daquele, pois acredita que sua condição natural é o sadismo, a covardia e a crueldade. Um goblin, ou um orc, ou um ogro, ou um hobgoblin, ou um troll, são criaturas incapazes de bondade, e a continuidade de suas vidas trará mais desgraça que bem ao mundo.

    A ingenuidade de Wurren e Duncan, para Bartolomeu, causa mais mal do que bem ao mundo, pois eles estão dispostos a dar uma chance que, de antemão, só trará prejuízos aos vilarejos e matas vizinhas. Embora o coração de Bartolomeu ache tentador adotar uma visão de mundo tão desprendida e otimista, seus olhos já viram coisas demais (guerra, torturas, prisão, execuções) para acreditar que essa falta de responsabilidade seja possível. Ele não conseguiria dormir sabendo que deixou uma dessas criaturas escapar para semear o mal tão impunemente. Ele se arrepende de não ter conseguido matar Ugrasha, mas sabe também que, sem ela, as criaturas da mina irão se matar no dia seguinte, sem uma liderança a ser seguida. Isso permite que ele durma mais tranquilo.

    Veja o caso dos homens-lagarto: Bartolomeu os poupou. Ele acredita que são seres inteligentes que foram enganados e que podem agir de maneira diferente. Assim são os elfos, os humanos, os anões, dentre outros povos: são raças complicadas, e que deixariam o jovem astrólogo cheio de dúvidas que ele não se coloca com goblins: haverá redenção? será este indivíduo naturalmente mau? Ele sabe que há homens irremediavelmente bons e homens inarredavelmente maus, e a tarefa de distinguir um de outro é árdua, mas ele não hesitará em enfiar a faca na goela de um, se isso significar poupar sofrimentos para outros seres, no futuro.

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  2. É preconceito não reconhecer um goblin como um igual? Ora porra! Rsrsrs. De fato, é um monstro!

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    1. Hoje em dia estão falando até em especismo!

      De qq maneira, só estou defendendo Bartolomeu das acusações difamatórias de crueldade, execução sumária, falta de bondade etc.

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    2. Hahahahaha. De fato, há esse papo de especismo e a i evitável comparação com a escravidão humana, o que, francamente, me parece um acinte. Esse assunto, porém, é muito espinhoso e polêmico para um blog só sobre RPG. Afinal, em Flanaess esse tipo de coisa passa ao largo das preocupações hodiernas de quem quer que seja. Ademais, os goblins são mesmo filhos de Maglubiyet e, portanto, inexoravelmente malignos mesmo.

      Quanto ao Bartolomeu, quem o está acusando? As coisas são como são... E eles fez as coisas que fez. Nossos leitores é que julgarão!

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    3. Você tinha q ver a forma como eu descrevi a cena. Era muito mais cru o assassinato. "Vai pro inferno, goblin filho de uma puta!"

      Acho que não ganharei muita simpatia dos leitores contemporâneos, agindo assim.

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    4. É, mas talvez renda um artigo interessante, falar sobre essa diferença de perspectivas entre o medievo e a atualidade.

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