A Podridão de Ugrasha - 20° ato

Gato Preto parece estar em apuros, enquanto os aventureiros que deveriam salvá-lo se distraem com outros perigos

O cerco se fecha: Gato Preto encontra um companheiro no meio do grupo, e Ugrasha retorna de sua incursão para ter um breve e final encontro com os aventureiros.


Quando voltaram à sala do prisioneiro, encontraram a gaiola caída no chão e dois carniçais tentando, sem sucesso, abocanhar a presa, que se espremia e afastava as criaturas com chutes, como podia. A gaiola estava bem alta, a dois metros de altura, quando eles saíram, mas agora estava ali, no chão, amassada. Carniçais não são conhecidos por sua inteligência, então como a manivela fora ativada?

*****

O que não foi contado foi que, enquanto todos se dirigiam à sala onde estava Ugrasha (depois de ela desaparecer), Eldrin se aproximou do prisioneiro, intrigado porque algo nele lhe soou familiar. 

- Eldrin, é você? -perguntou o prisioneiro, com a voz ainda zonza.
- Mas quem é voc... Gato Preto?? Pelos deuses! -exclamou Eldrin, surpreso.
- Me tire logo daqui. Blooorg - o prisioneiro regurgitou algo negro como a bile-. Me tire daqui, me arrume um grampo, ou algo que o valha -disse, com a voz sôfrega.

Eldrin tenta abaixar a gaiola com a manivela, mas ela é pesada e a gaiola cai pesadamente sobre o chão, arrancando gritos de dor de Gato Preto.

- Ahhhh! Maldito!! Blooorg.
- Me desculpe! Gato Preto, você está doente, e eu não estou encontrando nada para abrir sua gaiola. Ouço sons de batalha: preciso ajudar meus companheiros. Você estará seguro aqui. Tome esse elixir, vai te fazer melhor.

O líquido viscoso desce pela garganta do prisioneiro com gosto de cerveja velha misturada com leite azedo, mas ele já teve que beber coisas piores em sua vida pelos submundos, então ele dá uma boa golada sem maiores problemas. Imediatamente, assim que o elixir desce, ele cospe uma bola negra esfumaçada, e sente-se completamente saudável, se recuperando também da tontura. A bruxa o fizera engolir um líquido amargo, da cor daquele caroço, que o fazia se sentir cada vez pior, cada vez mais fraco e com os membros e a cabeça dormentes. 

-Obrigado -disse Gato Preto. Mas Eldrin já não estava mais por perto.

*****

Foi assim, então, que Eldrin deixou seu companheiro, entregue a dois carniçais que não estavam na sala dois minutos atrás, quando ele saiu. A magia maligna de Ugrasha certamente deveria parir aquelas abominações de tempos em tempos, a partir da pilha de cadáveres. 

Mesmo ainda combalidos, dois carniçais não poderiam fazer frente ao grupo. E nem os três goblins que avançavam pelo corredor, e que foram fulminados pela magia lunar de Duncan, fazendo com que o troll que os acompanhava fugisse pelos túneis, para longe daquela lua prateada.

Bruenor liberta então o prisioneiro de sua jaula com uma machadada violenta que parte o cadeado. Gato Preto agradece, e já procura uma arma entre os cadáveres. Os aventureiros se agrupam e respiram aliviados. O elixir de Eldrin passa de boca em boca, devolvendo algum vigor aos aventureiros, e dispersando os efeitos da névoa do caldeirão, que deixou a todos um pouco zonzos e com os olhos ardendo.

Antes que pudessem falar alguma coisa, porém, ouvem um grito feminino, agudo e incrédulo, da sala onde derrubaram o caldeirão:

-AAAHHHHHHHHHH. Mas o que aconteceu aqui?

Como não obteve resposta, Ugrasha começou a dar ordens, com sua voz se distanciando.

- Malditos aventureiros intrometidos, eu já estava quase lá! -a bruxa soltou um lamento sua voz partida pelo desespero - Precisamos sair daqui AGORA, vamos, peguem estes livros, e isto, e mais isto.

Mesmo feridos, a determinação em por um fim à maldita bruxa levou Wurren e Duncan a correrem em direção à sala, armas em punho, sendo então seguidos pelos demais. A velhaca estava em um cômodo sem saída, junto a dois goblins magricelos carregando, cada um, uma pilha de antigos tomos. Os goblins estremeceram de medo ao ver os aventureiros, não conseguindo nem ao mesmo gritar para alertar Ugrasha, que remexia seus pertences, completamente alheia à aproximação daqueles que puseram um fim em seus planos -seja lá quais fossem.

Ela não percebeu quando Gato Preto fez com que sua bolsa de componentes mágicos se soltasse de seus trapos, levitando rapidamente até suas mãos. Na verdade, apenas Bartolomeu, próximo ao ex-prisioneiro, percebeu o truque engenhoso. Os demais foram avançando, cercando a bruxa dentro do espaço diminuto de sua alcova. Estantes de livros, uma mesa com instrumentos alquímicos, tapetes e almofadas compunham o cômodo revirado.

Olhando para os olhos dos aventureiros, agora, estava não Ugrasha, a múmia ameaçadora, e sim uma jovem donzela, com não mais que quinze primaveras, uma voz doce e delicada, olhar inocente e assutado.

- Por favor, me salvem. Vocês precisam me salvar, me libertar dessa maldição -disse a jovem, e essas palavras ecoaram nos ouvidos de todos, e o olhar pareceu consterná-los e, por um instante, as armas de todos se afrouxaram nos punhos e houve alguma hesitação.

Ugrasha, em mais um de seus ardis, se revela como uma linda e sedutora donzela, 
como Rita Hayworth em Bonita como nunca (1942)

- É um truque! Acabem com a bruxa! -era Bartolomeu quem falava e cujo sangue élfico talvez tenha sido o bastante para não ser tocado pelas maquinações de Ugrasha.

Como um estalo, a hostilidade voltou ao olhar dos aventureiros, que partiram para cima de Ugrasha. Rolando para um canto do cômodo, a bruxa mais uma vez se revelou, proferindo as seguintes palavras:

- Eu teria conseguido, não fossem por um bando de aventureiros enxeridos! Mas Ugrasha não será morta nesse buraco, por alguns vermes insolentes. Eu voltarei para terminar o que começamos hoje, mortais de carne fraca!

E sumiu num passe de mágica, na frente de todos.


Próximo ato                                                                                                                          Ato anterior  

Comentários

  1. Agora todos os atos, a partir do 7°, contam com links para o próximo ato, o anterior e também o podcast referente à sessão (quando disponível)!!!

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