A Podridão de Ugrasha - 18º Ato

Bruxas povoam os piores pesadelos de qualquer aventureiro, plebeu ou nobre do Grande Ermo. Nefastas e subversivas, as bruxas almejam conspurcar a virtude e transformá-la em vilania, o amor em obsessão, a compaixão em ódio, a devoção em desprezo, a generosidade em egoísmo (Imagem: Tezad The Darkmaster by Majentta / Fonte: Pinterest)

Gato Preto abre os olhos. Suas costas doem e sua cabeça ainda está pesada, girando. Tudo o que ele se lembra é de um vapor pulverizando o bosque rapidamente. Só pode ter sido um feitiço. O cheiro de carniça era muito forte. A visão ficou turva e, de repente, tudo ficou escuro.
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Depois de Duncan e Eldrin caírem na armadilha, os aventureiros lentamente se recuperam do susto. Não fosse pelo pensamento rápido do feiticeiro, e provavelmente ambos estariam mortos como porcos no espeto no fundo daquela sala.

- Como você fez isso? - perguntou Duncan, ainda arfando.

- Eu ainda não sei ao certo! Na hora parece que as palavras surgiram na minha mente e eu apenas movimentei os lábios. Foi tudo muito rápido! - respondeu Eldrin.

Bruenor não gosta e não confia muito em arcanos, muito menos em elfos (ou meio-elfos), logo, olhou com desaprovação para Eldrin. Nada obstante, era o anão se via obrigado a reconhecer que, se não fosse pela ação do feiticeiro realmente os aventureiros poderiam estar chorando seus companheiros mortos agora.

- Vamos! Vamos logo daqui! Não podemos ficar parados! - falou Bartolomeu, tentando manter os espíritos elevados.
Wurren ainda estava em sua forma ursidea e se aproveitou dela para farejar o melhor caminho para saírem dali. Viu que junto às estacas no fundo da sala da armadilha, havia um passagem aberta na rocha, uma caverna possivelmente. Mas seu faro (e seus ouvidos) apontavam o caminho pelo corredor norte, que antecede o ponto onde a torrente de água e escombros solapou Duncan e Eldrin.

Os aventureiros decidiram seguir por aquele caminho. Duncan foi à frente, com sua espada luminosa em riste, rompendo as trevas pouco a pouco até revelar uma bifurcação. Adiante, o corredor terminava numa alcova sinistra, onde uma carranca demoníaca despejava água corrente em uma bacia de pedra.

- Há uma fonte de água aqui! Cuidado! Pode estar podre! - sussurrou o espadachim.

Na esquerda, o outro caminho da bifurcação os levou para um corredor que se prolongava poucos metros até dobrar à direita e seguir em direção ao norte

- Façam silêncio! Ouço gemidos adiante. Parece que estamos chegando em algum lugar, afinal - disse novamente o espadachim.

- Pelo jeito, um lugar não muito agradável - resmungou Bruenor.

- Esperem um pouco - interrompeu Bartolomeu - Há algo de estranho nesta esquina - O astrólogo se referia ao brilho intenso e sobrenatural que a rocha escavada ostentava ali. A parede parecia úmida, mas seu tato não percebia o mesmo. Bartolomeu, então, forçou a mão e para sua surpresa, ela atravessou a rocha como se não estivesse ali.

- É uma passagem secreta! - falou o astrólogo - Venham por aqui!

O caminho não se adiantava muito. Na verdade, apenas uns poucos metros. Porém, no corredor, à esquerda, uma porta de madeira revelou uma verdade dispensa, repleta de víveres, o que indicava que, de fato, a caverna estava habitada por algo mais do que carniçais e zumbis.  Os aventureiros aproveitaram para selecionar alguns alimentos e reabastecer suas provisões, exceto por Bruenor, que se recusava a arriscar aquela comida que julgava profana e estragada. 

- Vamos logo! Não demorem demais! - Duncan cobrava celeridade, após o que o grupo seguiu pelo estreito corredor ao norte. Bartolomeu, então, assumiu a dianteira e viu que no final havia uma porta de madeira, a qual estava entreaberta. O astrólogo se aproximou com cuidado e viu uma soturna criatura de voz esganiçada e seu lacaio. 

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- Rápido, Grumugdush! Eu preciso dele vivo! Cadáveres eu já tenho aos montes! Coloque-o na minha bancada, e seja gentil! Não queremos que nosso convidado sofra... Ainda! Hahahahaha.

Gato Preto ouve a voz feminina esganiçada, cansada. Uma voz velha cujo timbre inspira um horror sádico que arrepia a alma. Os seus sentidos ainda estão se recuperando. Gato Preto olha em volta e percebe que está preso em uma jaula, uma cela que fica dependurada em uma trave de madeira muito alta. Naquela caverna há apenas uma penumbra, uma luz errante que projeta sombras assustadoras nas paredes. Mas ele pode ver a velha curva sob seu manto de cânhamo esfarrapado. Sua corcunda protuberante, suas pernas finas em pele e osso. E que pele! Nojenta, azulada e cheia de cancros fedorentos e verrugas ressecadas. E os ossos? Os ossos são protuberantes, como os da patela, no joelho, e os dos finos e longos dedos, cujos ligamentos são inchados como se sofresse de artrose. Gato Preto não consegue ver seu rosto, eis que coberto completamente por um longo capuz.

Grumugdush é um orc, mas seu espírito parece quebrado como se estivesse enfeitiçado. Ele obedece as ordens da asquerosa velha.

- Sim, Madame Ugrasha! Este aqui ainda está vivo! Eu mesmo o tirei da jaula!

- É bom mesmo que esteja! Não sei se aqueles intrometidos já morreram ou não! Então se esse cão imundo não sobreviver, e aquele outro também não, só me restará testar meu elixir em você!

Do alto daquela gaiola, Gato Preto vê que algo se move entre os cadáveres enquanto leva as mãos aos bolsos em busca de sua discreta carteira. A velha ergue uma das mãos e uma profana centelha de energia negativa ergue três corpos.

- Meus amados! Há alimento o suficiente para vocês! Só fiquem de olho no nosso prisioneiro! Não é mesmo? – e ela dirige um olhar lancinante para Gato Preto, o que quase congela sua alma. O rosto da velha é completamente enrugado e assustador. Seus olhos são negros e úmidos como piche, sua boca desproporcionalmente grande e seus dentes amarelos e pontiagudos como os de um demônio! O nariz é longo e pontudo!

A velha asquerosa deixa a sala, com seu obediente servo arrastando o corpo de outro prisioneiro, Dobhar. Sim. Gato Preto não o conhecia há muito tempo, não. Na verdade o conheceu há poucos dias, talvez, a depender de quanto tempo tenha ficado desacordado. O sujeito estava com Eldrin, um meio-elfo, salvo melhor juízo. Um arcano, de certo. Mas na correria após a emboscada nas matas, o feiticeiro conseguiu fugir. Quanta sorte! E o maldito jamais teria a coragem (e a motivação) para voltar por vocês. É claro! Não passam todos de uns mercenários. Cedo ou tarde essa hora melancólica poderia chegar para você também, pois o mundo é um lugar cruel. Sempre foi. Mas os últimos cinco anos têm sido especialmente terríveis, graças à invasão dos gigantes. Nos becos de Hochoch (rocótch) havia bastante espaço entre os mendigos e outros vagabundos para se esconder, porém, quando os gigantes desceram as Cristalistas, tudo mudou. A cidade ficou cheia de soldados e muitos Cavaleiros da Guarda e nem mesmo Dusa, o Senhor da Favela, conseguiu evitar a dissolução de seus domínios. A saída foi fugir, e em tempos de guerra não há muito para roubar. Quando surgiu a oportunidade de se juntar aqueles mercenários para conseguir alguma recompensa, a proposta pareceu tentadora. Ainda mais porque eram umas merdas de uns goblins! Goblins! Não uma bruxa!



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