A Podridão de Ugrasha - 17° ato

Apesar da forte sensação de que caminham diretamente, de peitos abertos, para a boca escancarada do perigo, a confiança inabalável mantém a serenidade no olhar dos aventureiros, que vão aprendendo a confiar uns nos outros.


Nesse novo capítulo, a exploração das Minas de Prata prossegue, e cada combate pode se mostrar mortal, mas o grupo vai aprendendo novos truques para ludibriar as tentativas nefastas dos adversários. Bartolomeu, mais uma vez, divaga sobre a vida e sobre seus recém descobertos poderes divinos.



Bartolomeu toma a frente e avança rápido pelos corredores, procurando um lugar mais estratégico para lidar com os inimigos, caso eles os persigam. Wurren ampara o ferido Duncan, e antes de seguir pelos corredores vê a maçaneta da porta congelar, o que o faz acelerar o passo, alcançando Eldrin. A contragosto, Bruenor segue o rastro dos companheiros, mas ele mesmo sabe que seria incauto entrar a sala daquela maneira, ainda mais com o paladino quase desfalecido. 

O astrólogo os leva até o salão onde encontraram os zumbis. Propõe fazerem um descanso breve, mas indica o que deve fazer caso venham os inimigos. Bartolomeu fala com a propriedade de quem já lutou na guerra e conhece táticas de emboscada, então nem Duncan nem Bruenor questionam a estratégia do sacerdote: os soldados sob os umbrais das portas, uma que dá para aquele longo corredor com degraus largos, a outra, já sem porta, que dá para a pequena sala onde encontraram a aranha gigante. Os demais ficariam atrás. Era o melhor que se conseguiria, sob aquelas condições, ponderou o astrólogo.

Satisfeito, ele próprio foi para uma encruzilhada ao final da escada, de onde tinha ampla visão do corredor por onde vieram e também do corredor que dava para aquela sala com barulho de água, que eles não investigaram. Explicando assim, parece mais complicado do que a forma como esses pensamentos vinham à cabeça do astrólogo que há tempos não lê a sorte de ninguém e tenta, a custo, escrever a sua: Bartolomeu tem na cabeça um mapa claro das minas e também das cavernas anteriores ao rio subterrâneo. Cada lugar que ele passa fica gravado na memória com nitidez, fruto de anos se deslocando por matas sem trilhas ou construções, sem árvores com marcas ou colinas singulares, de forma que aqueles corredores, para ele, eram brincadeira de criança. 

*****

Enquanto os outros falam pouco na sala ao pé das escadas, e seguram suas armas com firmeza, ansiosos a expectativa do combate futuro, a adrenalina ainda alta da fuga e da luta recentes, Bartolomeu relaxa  em seu posto, recostado na parede rochosa, o coração batendo cadenciadamente, e um leve sorriso em seu rosto. Ele se recorda das emboscadas passadas, sente o cheiro da mata molhada da Floresta de Gadhelyn, a que os humanos chamam de Floresta Escura, e também o cheiro pútrido das minas em que trabalhou durante parte de seu cativeiro, muito pior que qualquer coisa que viu ou sentiu desde que adentrou naquela fenda miraculosa na rocha. 

Olha para sua besta, trincada no cabo desde que a roubara de um caçador descuidado. Quem caça com bestas, afinal?, ponderou novamente. A arma era antiga, a mira estava duas unhas mais à esquerda do que deveria, a corda já meio gasta em vários pontos, prova de desleixo. Bartolomeu já estava cansado daquela arma, ansiava por colocar as mãos em um bom arco, para devolver a seus braços a antiga força. Mas, como diziam por aí, "quem não tem cão caça com gato", então por enquanto ia continuar com aquela arma desajeitada e crua que, no fim das contas, estava dando pro gasto.

Morde um naco de fruta seca, e escuta as fibras do alimento sendo rompidas e esmagadas entre seus dentes, se misturando à saliva. Ouve o barulho de água batendo em metais passando por baixo da pesada porta ao fim do corredor a sua esquerda, e, à direita, os pigarros inquietos de Bruenor e o roçar do cabo da espada de Duncan em sua armadura desgastada. Ouve também a voz de Ânn, cantando em sua tenda em meio ao acampamento dos Wyverns Dourados, enquanto ele se aproximava furtivo. De repente, a voz cessa, quando ela o percebeu.

*****

Dessa vez a voz cessa assim que, em meio à escuridão, um narizinho nojento de goblin desponta. Bartolomeu mira a besta, espera a criatura imunda aparecer por completo e enfia uma seta entre seus olhos. Enquanto um goblin cai, surgem outros três, saltitando e grunhindo esganiçadamente, além de um outro que corre para longe. Ah, sim, e um troll com um dos braços gigantesco, bufando e compartilhando algum pensamento sórdido e incompreensível enquanto também corre em direção a Bartolomeu.

Deslizando pelas paredes, o serelepe sacerdote avisa aos demais:

- Está chegando o bonde! Três goblins e um troll de apetitivo.

De seus postos, Eldrin e Wurren não deixam os goblins passarem do primeiro degrau, mas sobre seus corpos pisa o feroz troll. Para sorte dos aventureiros, Bruenor e Duncan estão com as armas afiadas, e Bartolomeu conjura o 'Toque Fantasma de Wee Jas' sobre o troll, fazendo-o ter visões do que o aguarda ao final do combate, visivelmente minando as esperanças da criatura. Caído e decapitado o troll, nenhuma outra criatura se aproxima, o que permite aos aventureiros, finalmente, descansarem.

*****

Como bem percebemos, Bartolomeu não precisa de longos corredores para pensar na vida. Mesmo naquela mina assombrada, ele encontra, no fundo, alguma segurança, pois a verdade é que o medo e o desespero são sentimentos desconhecidos ao jovem meio-elfo desde os tempos finais na prisão. Seguro de suas habilidades, e disposto a não se entregar sem uma boa luta (ou uma escapada providencial pelo rio -que não tem parte pequena em sua certeza de que vai sobreviver às minas), Bartolomeu se permite ponderar sobre algumas dúvidas recentes, mas não sem antes recarregar sua besta e a deixar pendente, ao lado de seu corpo.

Estende a mão esquerda e começa a conjurar a primeira magia que lhe foi concedida: uma mão espectral, imbuída do sabor amargo e prazeroso da morte, tal como a que lançou contra o troll. Os dedos começam a se formar vagarosamente na sua frente, e Bartolomeu brinca com a extensão, formato e aspecto da mão mágica, enquanto se pergunta Por quê? A pergunta martelava em sua cabeça havia um tempo.

Bartolomeu era um bom e promissor arqueiro antes de ter que aprender, na marra, no cárcere, a ser sagaz e escorregadio e, então, ser jogado no meio de um reino humano para se tornar astrólogo, uma ocupação que lhe conferiria sustento e anonimato enquanto perambulava pela Grande Fronteira. E, mal havia começado sua também promissora carreira divinatória, vê-se agora sacerdote. Como as árvores se adaptam às estações, assim Bartolomeu se adaptou aos invernos e primaveras em que se viu enredado. Mas isso não o impede de perguntar: Por quê? e tentar encadear os fatos:

Os deuses não agem sem propósito, e dificilmente Wee Jas teria concedido essa dádiva a mim levianamente. O presente de Ânn não teria o poder de dobrar a vontade de uma deusa, o que permite concluir que  ela estava, provavelmente de maneira deliberada, atendendo a uma mensagem divina. Ok. Mas a partir disso tudo fica nebuloso.

Por que eu? Ainda que os deuses não me tenham abandonado nos anos de prisão, se à época contasse com algumas das magias que sei hoje, a história teria sido bastante diferente. O que mudou? A pergunta era retórica.

Eu que mudei, pensa, com um sorriso amargo.

Se tem uma coisa que toda a história élfica a que deixaram Bartolomeu ter acesso ensinou, é que cada um tem que merecer seu lugar no mundo, lutar por isso e sofrer as consequências. Toda a história élfica trata disso, dos heróis quase esquecidos no tempo aos poderosos reinos que sucumbiram por ingenuidade, ambição ou vaidade.

Talvez, então, ele próprio tenha feito por merecer a dádiva, quando superou, repetidas vezes, a morte, mesmo que para isso precisasse ter conhecido a loucura, a solidão, a amargura, o ódio e o desespero. Essas eram apenas conjecturas, porém, e os túneis continuavam escuros à sua frente, e não seriam traspostos se ele ficasse ali parado pensando na vida.

*****

No limiar do breu, Bartolomeu distingue um velho conhecido: a criatura com membros longos e com garras, que não distingue parede de chão, com um grande olho verde no meio da cara. Tão logo avançam, ele some.

Percorrendo túneis distintos dos que levam à sala em que Duncan fora alvejado, encontram uma sala com um rastrilho, cujas grades estavam já muito enferrujadas. Em uma caverna tão incomum, a presença daquele elemento inusitado, militar, não levantou maiores suspeitas entre os aventureiros, talvez preocupados com o salão cheio de pilastras à frente, talvez preocupados com Bartolomeu, que fitava, perdido, um pedaço da parede.

-Vocês ouviram isso? Era a voz de Ânn através dessa fenda -diz em voz alta o meio-elfo, com o olhar vago.

Mas não havia fenda nenhuma. Bartolomeu mesmo agora só via pedra onde, instantes antes, vira uma fenda intransponivelmente escura, por onde escutava a voz de Ânn, chamando-o.

A vida não está fácil para ninguém nas Minas de Prata, e mesmo 
os mais sóbrios têm estranhos flertes com a loucura vez e outra.

Uma risada macabra, novamente, enregela os ossos de todos, aquela risada louca e sádica que parecia acompanhar seus passos.

*****

Enquanto investigavam a sala com o rastrilho, Eldrin os avisa sobre a chegada de um troll. Mas setas goblins cruzam a sala, da direção das pilastras, dividindo os aventureiros. Buscando cobertura das flechas ao mesmo tempo em que tentavam atacar o troll, ninguém percebeu quando um dos goblins acionou um mecanismo que abria o rastrilho e trazia, pelo outro lado da sala, uma torrente de água que arrastou a todos pelos corredores. 

Em forma de urso, Wurren conseguiu suportar a enxurrada, enquanto Bruenor e Bartolomeu agarraram-se a um portal que dava para um fosso cheio de lanças e estacas afiadas, por onde caíram Eldrin e Duncan.

Atordoados, Bartolomeu e Bruenor trocam olhares de preocupação.

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