A Podridão de Ugrasha - 15° ato

Os medos podem assumir as mais diversas formas, apesar que, estranhamente, o nome do fabuloso quadro acima seja Tentação de Santo Antônio, de Bernardo Parentino, de 1494. A imagem pode ser encontrada na wikipedia ou na maravilhosa conta do twitter de @DamienKempf)


Avançando por um túnel aberto pela fera Tríbulo Brutal, os aventureiros acabam inesperadamente chegando a um local do qual haviam desviado e descobrem que alguns rumores e lendas são verdadeiros


Com os túneis órquicos interrompidos pela presença de um inimigo temível, só resta a eles retornar à caverna em que jazia o tríbulo brutal. De lá, só existem três caminhos: retornar à fenda e torcer para que o gigante não tenha patrulhas à procura deles, ou pela fenda natural que se estendia além da alcova do tríbulo e que não contava com nenhuma garantia de que desse em algum lugar, ou então poderiam enveredar-se pelo único dos túneis da alcova do tríbulo que parecia dar em algum lugar, pois Bartolomeu observou que ele era arejado. 

A última opção parecia a mais promissora. Precisavam sair dali, mas evitando um novo encontro com o gigante de que milagrosamente conseguiram fugir. O túnel era bastante estreito, a ponto de precisarem rastejar na maior parte do tempo, mas não muito longo: ao fundo uma luz, ou melhor, um breu de tonalidade não tão fechada, tornou-se visível, e o zumbido insistente que já não se lembravam desde quando os acompanhava se revelou como sendo o barulho de um caudaloso rio!

Com efeito, o túnel ficava no meio de um paredão, mais de dois metros acima de um rio largo e profundo, e dava para uma grande caverna. Era possível divisar, na outra margem, uma praia subterrânea, uma estátua caída e um par de túneis. Transformando-se novamente em aranha, Wurren atravessa o rio e prende uma das pontas da corda na outra margem (fazendo deste o primeiro relato de uma tiroleza em Keoland e região), facilitando a travessia dos demais.

Sempre atento a tudo,  ao colocar os pés na outra margem, Bartolomeu já imaginava onde estavam: numa construção subterrânea humana, a julgar pela altura dos túneis; em uma margem que antigamente era um porto, a julgar pela posição da estátua, de frente para o rio subterrâneo; em um porto precário que escoava os produtos arrancados do seio da terra, pois tratava-se de uma estátua de Zilchus, deus oeridiano do comércio.

Com apenas um dia de atraso, fazendo um pequeno desvio para enfrentar um gigante, ser emboscados por 16 orcs, arranjar um caminho alternativo até a torre, invadir a torre e ser acossados por um gigante das nuvens, buscando refúgio em cavernas esquecidas até terem seu caminho obstruídos por uma besta lendária, avançando então por um buraco na pedra feito por um tríbulo brutal, após esse desvio de um dia e meio, o grupo finalmente adentra nas Minas de Prata aos pés da Árvore Pálida.


*****

Bartolomeu se abaixa para pegar uma moeda antiquíssima no meio dos cascalhos da praia subterrânea. Putz, meu velho. Entramos por uma passagem visível apenas por nós, exploramos parcialmente o antigo templo de Lolth, para acabarmos dando de cara com Icrácia. Digo, exploramos as cavernas de orcs apenas para darmos de cara com as Minas de Prata. As semelhanças não param. Mas o Aboleth, essa cria maldita de Beltar e Incábulos, estaria mais para o beholder que não encontramos. Quem será, então, Salahadra, nessa aventura que cada vez mais parece remedar a anterior?

Eldrin volta com o fruto de suas investigações: um baú com moedas e caneca de prata, um lenço em frangalhos e algumas pequenas barras também de prata, todas com símbolo de Keoland, e o rosto conservado de um monarca que há tempos já não caminha entre os mortais. Seguindo pelo túnel que se bifurca, desceram as escadas, que levavam a uma sala de onde uma luz pálida emanava. Tratava-se de um pequeno aposento que conta com uma cadeira meio empenada defronte a uma antiga e pesada mesa de madeira, encimada por uma lamparina a óleo, acesa, e papéis bem amarelados e mofados.

Quando se aproximam da mesa, surge na cadeira um fantasma, que dispara ordens contra os "preguiçosos" e "moles" aventureiros, exortando-os a "parar com a balbúrdia e voltar à labuta". Se tratava do fantasma do antigo inspetor daquele setor das minas de prata, cargo que ostentava ainda com orgulho, por mais que não tivesse nenhum empregado sob seu comando. Mas o fantasma não sabia disso, ele não se sabia morto. Certamente algum evento traumático tomara sua vida, deixando-o ainda preso demais a sua existência para conseguir, efetivamente, morrer. Os anos ali certamente foram minando qualquer vestígio de consciência, reduzindo-se apenas àquela cena, a de dar ordens para que trabalhem porque "Keoland está exigindo cada vez mais prata". Mesmo ciente disso, Bartolomeu ainda faz um par de perguntar ao fantasma, na esperança de conseguir alguma informação útil.

As perguntas foram o suficiente para romper a fina camada de civilidade que ainda prendia o fantasma à vida: ele virou a mesa, deitando ao chão as pilhas de papel e as lamparinas e avançou na direção dos aventureiros curiosos. Os papéis seculares rapidamente se inflamaram, e mesmo a madeira antiga não era imune ao fogo, que poderia se alastrar a qualquer momento. Preparados para as eventualidades, os bravos aventureiros contiveram rapidamente o avanço do poltergeist (termo que ainda não existia, à época) com magias e armas mágicas, e subitamente as chamas se apagaram e a lamparina desapareceu, junto com a aparição.

Os papéis, espalhados pelo chão, não exibiam marcas de chamuscado apesar de terem aparentado um mini incêndio segundos antes, e eram datados da época em que a mina ainda estava ativa. Era possível ler, numa língua arcaica, demandas cada vez maiores de prata por parte do reino, bem como dados sobre o escoamento de mercadorias pelo pequeno porto subterrâneo. O ano era 392. Apesar da curiosidade, os papéis de desmanchavam ao simples contato, não podendo ser devidamente analisados, mas não havia uma palavra sequer sobre algum mal que possa ter tomado de assalto as minas, apenas apontamentos sobre sua produção decadente, apenas a papelada normal, de dias normais na mina.

Cansado, o grupo resolve voltar à praia para uma merecida noite de sono, após tantas explorações. O barulho do rio era mais agradável que qualquer dos sons que eles ouviram durante o último dia, e nenhum dos turnos de vigia teve qualquer tipo de problema, e a noite foi restauradora.

No dia seguinte, conforme iam deixando o abrigo, todos ouviram um barulho peculiar do lado de fora, como se carne fosse estraçalhada por carne. Bartolomeu imediatamente identificou o som bizarro que os carniçais fazem, e alertou os companheiros que devia haver dois deles à espreita. Wurren, sempre preocupado com os demais, percebeu que Duncan não ouviu o aviso, e se apressou em avisá-lo antes que o facho de Luminosa atraísse os inimigos. Bruenor suou frio mas apertou seu machado.

Seguido para a caverna em que ficava a praia, perceberam que os carniçais ainda estavam no túnel, então os atraíram para uma emboscada, todos os aguardando na entrada do túnel, se deslocando pesadamente e raspando as espadas nos cascalhos, para fazer barulho. Os carniçais mordem a isca e, ao chegar à praia, são alvejados por setas, magias, garras, machados e espadas, não tendo a menor chance. Investigando o túnel logo à frente, veem um corpo decrépito, morto há tempos incontáveis mas ainda assim com alguma carne, que os carniçais estavam comendo.

 *****

Percebendo o nervosismo de Bruenor ao encarar essas criaturas nem vivas nem mortas, e vendo também o quanto lhe custou sobrepujar aquele medo para lançar-se na primeira linha de combate, Bartolomeu discretamente pousa a mão no ombro do mestre anão, enquanto os demais estão dispersos com outras atividades, e lhe diz que "Em sua jornada o herói deve, inevitavelmente, enfrentar todos os seus medos".

O tom, inconfundivelmente, era de um elogio, mas Bruenor ainda fitou Bartolomeu como se procurasse alguma nesga de ironia, alguma pitada de troça. A questão da coragem do anão era decerto algo de extrema importância, e ele não admitira que ela fosse posta em cheque, mas aquela era uma situação em que ele andava no limite, na corda bamba entre sua coragem e um ímpeto quase irresistível de evitar o confronto direto que lhe era tão caro.

Não encontrou, porém, nada além do olhar sério e significativo de Bartolomeu. Olhares podem dizer muito para aqueles que, como o mestre anão, eram de poucas palavras, e o recado que Bruenor entendeu foi que o companheiro entedia seu drama, não o julgava e que ele não estava sozinho nessa empreitada. Sendo clérigo da deusa humana da morte, o recado ganhava ainda mais peso.

*****

Mais à frente encontraram um salão inacabado, com alguns veios de prata ainda aparentes e esqueletos humanos pelo chão. "Mas nenhuma fonte d'água", observou Bruenor. Parecia ser algo importante, uma fonte próximo ao local de mineração. Essa parecia ser uma parte da mina mais recente, devido à precariedade das escoras e falta de cuidado geral. Os esqueletos estavam próximos às paredes, muitos voltados para elas, como se tivessem morrido trabalhando. Intocados, encontravam-se cestos com minérios de prata pela sala. Assim como a sala do fantasma, o ambiente aparentava ter tido sua rotina abruptamente interrompida, sem sinais exteriores, e sem que os trabalhadores tivessem se dado conta do perigo que pôs fim a suas vidas, dois séculos atrás.

A imagem de ossos antigos, poeirentos e jogados não forma o mais agradável dos cenários, mas o corajosos heróis já viram criaturas vivas muito mais apavorantes (Rothwell Charnel Chapel. A foto pode ser encontrada nesse link)

Bruenor ainda ficou por algum tempo na sala, vendo se a pedra nua lhe dizia mais alguma coisa. Enquanto isso, Bartolomeu foi dar uma olhada em outro túnel, e viu uma dezena de zumbis aglomerados num canto do salão, que dava para uma única porta fechada, de madeira. Que existência miserável têm esses monstros. Sem propósito algum, fitando o breu, aquele corpo sustentado e controlado por alguma entidade maligna. Cuidando para não fazer barulho, chamou seus colegas, e rapidamente montaram uma estratégia para a batalha: Duncan e Bruenor se posicionaram na parte mais estreita do túnel, um pouco antes de ele se abrir para a caverna, de maneira que os outros ficariam protegidos atrás e não mais que dois ou três zumbis conseguissem agir por vez.

Bruenor ainda parecia apreensivo, buscou o olhar de Bartolomeu e o encontrou, assertivo. Sentia-se em casa em qualquer mina ou caverna, mas a presença desse tipo de inimigos lhe era incômoda. A verdade é que nenhum deles estava à vontade enfrentando aquelas criaturas que não podiam dar informações, com quem não se podia negociar, aquelas crias nefastas de alguma maldição ou necromante, presas entre a vida e a morte.

Bartolomeu encarava o dever de eliminá-las como sagrado, por mais que soubesse que ainda lhe faltava a força suficiente para combater efetivamente esses inimigos. Incapazes de conhecer a liberdade, essas criaturas são abominações, definitivamente. Ademais, a presença de mortos-vivos apenas dava mais um toque grotesco àquele subterrâneo infindo onde tantas vezes estivera nos últimos tempos. Cada dia naqueles buracos era como um dia de liberdade perdido. A sensação de clausura, por mais que jamais vá enlouquecer Bartolomeu (não após seus três anos de cárcere), não lhe é agradável, e a presença de inimigos nesses locais não afeta tanto a sensação geral de hostilidade que ele já sente debaixo da terra.
Talvez a Wurren doa mais esse confinamento excessivo, essa falta de natureza viva pontuada apenas pela presença de fungos venenosos esporádicos. Duncan e Eldrin, mais reservados, ainda não falaram a respeito.

-Darei um jeito na sua semi-existência miserável, crias nefastas de Nerull!

Essas palavras cortam o silêncio, e uma adaga translúcida, arma símbolo de Wee Jas, deixa um rastro na escuridão, encontrando o peito de um zumbi, que cambaleia mas segue na direção dos aventureiros, que agora se revelaram.

Para tristeza dos aventureiros, os zumbis não pareciam tão amistosos quanto os dessa gravura medieval (BL, Stowe 17)

Duncan e Bruenor seguram mais firme os cabos de suas armas, mas antes que qualquer abominação se aproxime, Wurren conjura uma poderosa magia, que torna pedregoso e perigoso todo o chão imediatamente à frente dos aventureiros: espinhos brotam da pedra, que se torna desnivelada, ferindo e tornando lento o deslocamento na área. Os zumbis se arrastam, sem dor ou preocupação, até que Eldrin vai até a frente dos guerreiros, e, com as mãos espalmadas apontando para frente, grita alguma palavra ininteligível, em alguma linguagem arcana, e de suas mãos sai uma rajada de chamas, ampla o suficiente para flambar metade dos zumbis, que caem.

Quando o primeiro zumbi toca o solo, uma risada malévola toma o ambiente, uma risada feminina, no fio fino entre a loucura e a plena satisfação. Um arrepio corta a todos até os ossos, menos os zumbis, que avançam. Entretanto, a despeito de sua grande resiliência, eles não são páreo para os aventureiros, que sobrepujam o medo com a força necessária para desferir golpes e mais golpes até todos os zumbis caírem completamente, tendo para isso os membros decepados, ou o torso praticamente partido ao meio.

Com uma luta rápida e bem planejada, os aventureiros iniciam, efetivamente, a exploração da mina de prata de Árvore Pálida.

Comentários

  1. As palavras arcanas proferidas por Eldrin em seus ataques elementais do fogo são:

    FAÍSCAM - Uma labareta de fogo, como um raio, sai da ponta do seu indicador em direção ao inimigo escolhido.

    CHAMUSKA - Com as palmas das mãos voltadas para frente um grande feixe de fogo atinge uma área significante, porém não pode ser focalizado em um único alvo, causando em sua maioria das vezes grande destruição.

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    1. Mas vc quer q eu adicione no texto ou pode deixar aqui nos comentários, para toda a posteridade?

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    2. Pode usar como fonte de referência,se vc quiser, nas próximas narrativas. To pensando numa criativa vocalização para os "Misseis Mágicos". kkkkkk

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