A Podridão de Ugrasha - 14° ato



Há tempos nosso grupo não saboreia uma refeição em uma boa e sólida mesa de madeira, acompanhada por vinho e conversas triviais. O clima é pesado, e cada esquina pode esconder um inimigo, então as refeições são frugais e sem sal, com os olhos não na comida, mas nos arredores (Harley 3448, f. 2v)


Nesse capítulo, os aventureiros pretendiam continuar explorando os toscos túneis órquicos, mas uma criatura antiga e maliciosa, filha da união de Beltar e Incábulos, os impediu de continuar. Retornando pelo longo túnel, Bartolomeu tem mais uma sacação que o inquieta. 



Tomando cuidado para não pisarem na lama viscosa que sobrara da criatura, e que se mostrou ainda ser ácida, os aventureiros contornaram a plataforma, que dava para uma segunda rampa, seguida por mais um túnel toscamente escavado. Tomando a dianteira, Bartolomeu, com seus instintos sempre aguçados e atentos, vê de relance a mesma criatura que viram nos túneis da antiga Ykrath, de olho verde esbugalhado e com membros arqueados e aptos a rápidas escaladas. O animal não andava, e sim se deslocava pelas paredes, teto e chão com uma desenvoltura surpreendente. Seguindo-o, chegaram a  mais uma rampa, onde escorria uma nascente de uma pequena fenda na parede e que  dava para uma sala inundada, sem saída aparente. 

A água era cristalina, como costumam ser as águas subterrâneas, e, com seus olhos que devassam os corações dos homens e os segredos que o mundo não quer revelar, Bartolomeu notou marcas úmidas de garras nas rochas da parede da caverna e uma fenda muito discreta na parede bem acima da água. Com isso, Wurren, ainda em forma de aranha, foi investigar a fenda, ao mesmo tempo em que Duncan se dispôs a explorar as águas, para saber se havia algum caminho aquático. Eldrin estendeu-lhe uma armadura de couro escamado, que encontrara na torre do finado mago. Julgando-a mais adequada à natação que sua cota, agora combalida após os ácidos da criatura viscosa e amorfa, o paladino achou sensato vesti-la. Curiosamente, a armadura se ajustou perfeitamente a seu corpo, e no momento em que Duncan mergulhou, sentiu-se mais à vontade na água, nadando rápido como jamais nadara. Viu uma passagem bem grande pouco abaixo do nível da água, e voltou para avisar aos demais, enquanto Wurren-Aranha nada conseguiu ver além de breu na fenda, com nenhuma indicação de passagem ou criatura.

Bartolomeu e Eldrin prontamente seguiram Duncan, mas Bruenor, estava encontrando dificuldades devido ao grande peso que estava carregando na mochila e alforges, além da sua própria cota de malha, que tivera que tirar. Já Wurren-Aranha não estava conseguindo controlar seu corpo aracnídeo com a desenvoltura necessária para o mergulho, talvez por ainda ficar um pouco desorientado durante essas transformações mais radicais (tendo que lidar com oito patas e oito olhos, por exemplo), talvez porque o corpo animal era de tal forma inadequado ao mergulho que todos seus esforços eram inúteis. Fato é que os dois permaneceram na sala, cada um tentando superar suas dificuldades, enquanto os outros três rapidamente atravessaram a passagem e deram em um grande salão completamente inundado, pontuado por ilhas e com teto bastante alto. 

Enquanto Eldrin se perdia medindo a altura do teto e fitando as ilhas, Duncan olhava para os lados, mas pouco via, limitado pelo lume de Luminosa para enxergar em meio ao breu. Bartolomeu, porém, acostumado a fazer e a sofrer emboscadas, carregando na pele as feridas dos ataques inesperados e imprevisíveis, sentia que o perigo estava nas águas, onde eram mais vulneráveis, e não na superfície. Mergulhou então, e procurou, com os olhos abertos na água límpida, alguma ameaça.

Lá estava: uma criatura horrenda, filha das profundezas, com tentáculos, uma boca dentada aberta, e olhos vis. Bartolomeu é cauteloso em relação aos combates que trava, pois nunca se sabe quem se está enfrentando. Entre Bruenor e um anão sem experiência em batalha, poucos perceberiam a diferença, mas certamente um encontro com Bruenor é muito mais mortal. Esse inimigo que Bartolomeu via se deslocar, porém, não deixava margem para dúvidas, pois ele parecia exalar, de longe, a perfidez de uma existência predatória nos subterrâneos. Definitivamente, não era acertado lutar com ela ali. Voltou à superfície apenas para falar:

- Vamos voltar agora, tem um bicho muito escroto vindo em nossa direção!

E, dito isso, sem deixar espaço para qualquer pergunta, mergulhou passando pela passagem que levava à sala anterior, sendo seguido pelos demais. Encontraram Wurren já em forma de meio-orc, preparando-se para mergulhar, e Bruenor ainda coçando a cabeça, pensando como conseguiria levar todo seu equipamento a nado. Bartolomeu os alertou, com urgência na voz, para saírem da água pois um monstro estava vindo, mas eles não agiram com a rapidez necessária, e a criatura maligna não deu tempo para mais nada, de uma só vez atacando Wurren, tentando puxá-lo para as profundezas, e mesmo Bartolomeu e Duncan, já quase na rampa, com a água mal chegando à altura de suas canelas, foram atingidos. Bruenor e Eldrin aproveitaram a brecha para subir por toda a rampa, e lá chegando jogaram uma corda para ajudar seus companheiros na escalada, que se livraram do alcance dos tentáculos e agradeceram o providencial auxílio.

Apenas nos tempos contemporâneos ousaram os humanos chamar o temível abolete de 'bobolete'. Nos textos medievais, vemos esse vil monstro espreitar mesmo os leitores, nos locais mais inusitados (HarleyMS1916)

 Agrupados na saleta acima da rampa, Eldrin e Bartolomeu alvejavam a criatura, mas para pouco efeito. Enquanto isso, o monstro tentava se arrastar para cima, com seus tentáculos delgados, sem sucesso. De repente, uma parede de pedra cai atrás dos aventureiros, bloqueando o túnel de volta! Há um breve momento de desespero: Duncan olha incrédulo, tentando retirar as pedras, vislumbrar alguma passagem possível em meio à poeira que levantou, enquanto Bruenor começa a vestir a armadura, preparando-se para o iminente combate. Eldrin e Wurren compartilham olhares desamparados, mas Bartolomeu, depois que a poeira assenta, se aproxima do muro, e percebe que a poeira não o força a fechar os olhos, e a parede parece tão habilidosamente esculpida e lisa, tão diferente de tudo o que fora escavado naqueles túneis, que, ao se aproximar Bartolomeu tem a impressão de que aquele muro de pedra era perfeito demais para existir, tal como a maçã descrita por uma criança, sempre simétrica e vermelha, carnuda e brilhante, tal como nenhuma maçã é. 

Com um golpe do cabo de sua adaga, a muralha se desfaz ante seus olhos céticos, a ilusão ruindo. Certo de que seus companheiros tinham visto tudo, ele adentra pelo túnel, ouvindo os guinchos do monstro ao fundo, sem êxito em sua escalada pela rampa. 

-Vamos, rápido! -ele exorta seus companheiros a voltarem pelo túnel.

Mas ficam todos parados, atônitos, vendo Bartolomeu passar pelo muro como se ele não existisse. Dando-se conta que seus companheiros não o acompanharam, ele volta, chamando-os. Ele percebe que eles ainda enxergam a muralha e a percebem como real, e não como ilusão, a confusão estampada nos seus olhares vazios, perdidos, incapazes de lidar com aquela aparente quebra na lógica. Em uma palavra, estavam completamente absortos na magia. Sem tempo para convencê-los verbalmente, Bartolomeu, que queria sair de perto daquela criatura, puxa então  Duncan pelo braço, dizendo apenas para segui-lo, fechar os olhos que fosse, não faria diferença pois aquilo tudo não passava de uma ilusão. 

O paladino atravessa a parede ilusória, e então os outros, ainda que descrentes, o seguem, apesar de não atinarem para o motivo de como pode ser possível atravessar uma parede, para eles, de pedra maciça. Caminham para longe em silêncio, quase correndo, até que fazem uma pausa pelos corredores estreitos. Aos poucos, eles vão se dando conta de que a parede era, de fato, uma ilusão, provavelmente conjurada pela criatura asquerosa. Bruenor, arrumando os pensamentos, diz que era possível que aquele bicho fosse um dos temidos aboletes, um monstro aquático lendário, com vastos poderes dentro de seus domínios, e que eles fizeram, mais uma vez, bem em evitá-lo.

Não era preciso ser um astrólogo acostumado a ler presságios nas estrelas, labaredas e brasas de uma fogueira ou no padrão que rochas de diferentes formatos se espalham pelo chão de terra para perceber o que estava acontecendo ali. Os fantasmas de questões mal resolvidas voltavam para assombrá-los, na forma de cavernas cheias de perigos, de criaturas que se repetiam: não apenas o bicho de olhos esbugalhados, mas também com Kharlixes e Salahadra sendo substituídos por seres bem mais poderosos: um gigante das nuvens e um ser das profundezas aquáticas; o próprio tríbulo brutal era uma nova versão do troll que guardava a entrada da fenda no pântano. Nossa, e tinha ainda aquele lagarto, que os espreitara acima da entrada da fenda. Na confusão que se seguiu, acabei não atentando para o fato, mas ele estava lá, como mensageiro. Era óbvio que tudo isso não podia se tratar de coincidência, pois não existem tantas coincidências. Que mensagem estariam tentando me passar? Era claro que havia uma mensagem, e era óbvio que devia ser algo urgente, tantas e tão óbvias eram as semelhanças com Icrácia.  Assim que nos livrarmos dessa enrascada e tivermos algum sossego (algo raro ultimamente), pedirei alguma orientação divina, para ajudar a ver com mais clareza e escolher um curso. Esses eram os pensamentos do sacerdote de Wee Jas.


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