Filhos do Éden, de Eduardo Spohr

Apesar de poder parecer uma surpresa para vocês, fiéis leitores e ouvintes da Cidadela do Mestre Cavernoso, nem só de RPG nós vivemos. Todo o conhecimento esbanjado antes de iniciar as sessões semanais e ostentado durante os maravilhosos podcasts disponíveis no blog provém de uma vida paralela que todos temos, onde geralmente escondemos dos demais mortais toda a nossa nerdice.

Essa vida paralela, que invariavelmente todos possuem, normalmente traga os pobres mortais para as demandas horrendas do trabalho, que, ao invés de dignificar o homem, o aliena, esmaga, suga, traumatiza e depois cospe, com o que sobra, um arremedo de pessoa que só quer comer salgadinhos e ver TV, entre outras coisas piores, restando, ao longo dos anos, um simulacro daquele adolescente cheio de sonhos e fantasias que comia biscoito Fof e que bebia suco integral de uva jurando que tinha efeito embriagante (na falta da iguaria, servia Tang, mas com consequências mais sutis).

Mas não os nerds desse blog! Lutando contra as forças padronizadoras e que buscam tirar as cores das vidas dos reles mortais, erigimos nosso próprio baluarte de defesa, dentro do qual nossas fantasias ainda vivem, às vezes disparando pelas seteiras e noutras tendo que conter a investida inimiga que destroçou o portão principal e adentrou pela edificação. Mas, independente da adversidade imposta, a Cidadela sempre é retomada, e a fantasia sobrevive para ver uma nova aurora.


As fundações da Cidadela fincam-se profundamente no solo pedregoso de nossas vidas, sustentadas magicamente pela força de nossas fantasias, alimentadas pelas nossas sessões semanais de jogo, e também por uma miríade de outras fontes, entre as quais a música, as séries e filmes e também os livros.




Compartilho hoje com vocês minha mais recente leitura fantástica, a trilogia Filhos do Éden, do tupiniquim Eduardo Spohr.

Tomei contato com o livro por acaso. Numa jogada de marketing bastante inteligente, a Amazon me deu um ebook de presente, após eu realizar uma compra por lá. Dentre uma lista de títulos, todos eram parte de uma trilogia ou série. Não fosse isso, dificilmente saberia da existência do livro, e mais dificilmente ainda o compraria, pois, com o passar dos anos, a lista de leituras acaba que só aumenta. Lendo as sinopses dos ebooks apresentados, acabei me interessando pelo livro, e aproveitando o começo das férias, me pus a ler.

Adorei o livro. A despeito de todas as críticas que tenho -e as críticas me vêm bem mais fácil do que os elogios, em todas as esferas da vida-, o livro é realmente bom. Não é um livro denso, e como a escrita é fluida e o universo criado é estimulante, a leitura é rápida. Pode-se lê-lo por horas a fio, e foi o que fiz. Não por acaso, a jogada de marketing colheu os frutos que pretendia, e eu comprei os dois outros livros logo após acabar o primeiro.

Baseado em elementos das religiões judaico-cristãs, o autor parte do mundo tal como o conhecemos e dá forma a um universo espiritual em que Yahweh (Deus) ainda descansa, pois estaríamos ainda no sétimo dia da criação. Com isso, são os 5 arcanjos os regentes do mundo até o dia em que ele despertar, o que acaba por gerar uma série de conflitos entre eles, que se tornam inimigos. Enquanto Lúcifer deseja o poder apenas para si e é banido para o inferno, Miguel crê que a humanidade deve ser erradicada, tendo falhado em honrar a obra do criador, despejando eras glaciais e o dilúvio sobre a Terra. Gabriel em determinado momento se desentende com seu irmão Miguel e se coloca como árduo defensor dos humanos, dando início a uma longa guerra com o irmão, que se estende aos dias de hoje.

Os humanos, os Herdeiros do Éden (a Terra), são a última criação de Yahweh, motivo de inveja entre anjos e arcanjos, por terem, cada um, uma alma, a dádiva suprema de Deus, a centelha divina que confere uma capacidade de adaptação inigualável e o livre arbítrio, características ausentes ou presentes apenas marginalmente nos anjos, que carregam um desígnio específico, um fragmento objetivo da vontade divina. Divididos em castas, os anjos apenas agem, pensam e têm poderes específicos a cada uma delas, sendo portanto mais previsíveis, destinados a obedecer para sempre o desígnio que Deus conferiu a cada casta.


Ainda que formalmente a Terra seja um campo neutro, o livro nos conta as aventuras dos anjos na Terra, adentrando em cidades antediluvianas esquecidas, enfrentando os aliados dos outros arcanjos e lidando com o racionalismo cético que tomou conta das civilizações, o que causa limitações às energias espirituais no mundo. Não me darei ao trabalho de fazer uma sinopse do livro, pois seria uma tarefa maçante, mesmo porque o universo criado é complexo, com alguns fatos remontando há milhares de anos, passando por civilizações majestosas anteriores à idade da pedra e outros explicando os diversos níveis espirituais, com deuses e entidades distintas do panteão celeste. A construção demandou fôlego e está bem construída e é instigante ver como o autor conseguiu criar uma lógica em que todas essas mitologias paralelas formam um todo coeso. Independente de acreditar ou não, ou de ser fiel às fontes, o universo construído é instigante.

Colhidos os louros da trilogia, vamos aos problemas. Cabe ressaltar, mais uma vez, que os pontos positivos dos livros superam e muito os negativos, tornado sua leitura altamente recomendável.

Desenvolvimento psicológico não é algo que você vai encontrar nessa trilogia, a não ser por um personagem, Denyel (que tem boa parte do segundo livro a ele dedicada) e a trechos contados a dedo no terceiro livro e que se propõem a desenvolver algumas questões que foram arrastadas ao longo dos outros livros, como o papel dos sentinelas, sua missão e tal. À exceção de Denyel, então, o livro é raso em termos de personalidades de personagens. 

Isso em parte é explicado devido à natureza dos anjos, pois como dito acima, eles não possuem livre arbítrio, sendo sempre compelidos a obedecer os desígnios de suas castas: querubins lutam, ofanins salvam e assim por diante, o que cria um ambiente interessante para coadjuvantes mas complicado para protagonistas, tanto que o autor se liberta dessa limitação ao longo dos livros, conferindo aos personagens características cada vez mais humanas de decisão. Mais uma vez, a justificativa para isso é muito fraca, pois seria a convivência no plano material que despertaria neles essas características. No caso de anjos há milênios entre humanos, até podemos comprar essa história, mas é difícil acreditar que uns meses na Terra tenha esse efeito todo sobre sua natureza celeste determinada por Deus. Assim,  Kaira, a protagonista, termina a trilogia apenas com sua história desenvolvida, mas sem se definir como personagem. A trama, claro, responde a parte dessa sua superficialidade, com uma amnésia bolada e tal, mas, ainda assim, permanece o fato de ser uma personagem plana, assim como são seus companheiros, salvo por eventuais surtos de "humanidade".

Com isso, o foco fica excessivamente restrito ao desenrolar da história, o que se sustenta por dois livros, mas desaba no terceiro, que superpõe fatos, mitologias e antecedentes históricos que mais parecem uma forma ou de aturdir ou de seduzir o leitor, desviando-o dos furos de narrativa que inevitavelmente vão crescendo. O terceiro livro, com efeito, é o mais fraco da trilogia, apesar de ser o mais rico em termos de história. Visitamos o plano dos deuses nórdicos, nos perdendo em aventuras sem fim mas com nenhuma relação com a principal, depois somos jogados milhares de anos no passado para cenas interessantes mas também sem relação alguma com o enredo. É como se vários spinoffs fossem anexados à missão, sem contribuir para ela senão marginalmente. Os trechos são interessantes, mas dezenas deles superpostos não formam um livro. No segundo livro o mesmo artifício foi utilizado, mas muito mais adequadamente, pois nele foram vislumbrados os fantasmas e traumas de Denyel, criando um vínculo de empatia com o personagem (além de um muito bem vindo desenvolvimento psicológico), enquanto nesse terceiro livro essa multiplicidade de eventos pouco adiantou para conhecermos melhor algum personagem, ou para amarrar alguma ponta solta sobre eventos pretéritos, pois eles apenas eram jogados, a conta-gotas, mais com objetivo de inserir um suposto mistério ou algo espalhafatoso do que de contribuir para o entendimento do enredo.

Imagino que a um público mais novo esses deslizes passem despercebidos, mas ficam evidentes a um leitor com alguma bagagem. A questão que é o ensejo do segundo e do terceiro livro (a caçada ao sentinela) nunca é colocada em xeque, a despeito da fragilidade factual da empreitada, o que leva o autor a uma série longa e cansativa de flashbacks que nada acrescentam à questão, apenas apresentando o antagonista de uma forma que não o faz parecer antagonista, ou inserindo aventuras que pouco ou nada contribuem, favorecendo sim um clima épico, mas às custas de um enredo mais elaborado, em especial no tocante ao desenvolvimento de uma empatia com os protagonistas. A cena final, desenhada para ser um enfrentamento épico, fica sem drama, pois o leitor não entende e fica sem entender por que diabos todos querem matar o sujeito, quando os próprios arcanjos padecem das mesmas mazelas.


Para concluir, acredito que o livro valha muito a leitura, principalmente para fãs de fantasia, contando ainda com pitadas instigantes de elementos religiosos, debates sobre a humanidade, e, no segundo livro, um relato interessante sobre a segunda guerra mundial. O autor escreve bem e de maneira fluida, e várias passagens contam com descrições críveis dos lugares, o que ajuda muito para a imersão em um universo fantástico mas coeso, com uma lógica que conseguiu agregar diferentes mitologias.


Materiais extras, como imagens, novas publicações no forno, podcasts, capítulos e também as regras para o RPG (!!!), entre outras coisas, podem ser encontrados gratuitamente em http://www.abatalhadoapocalipse.com/



Comentários

  1. Roberto está animado mesmo, rs...

    Achava que o primeiro livro fosse aquele "A Batalha do Apocalipse", mas, pelo que entendi, essa é uma trilogia à parte, né?

    Interessante... Vou colocar na minha lista de leituras. Vou ver se aparece em alguma promoção...

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  2. A Batalha do Apocalipse é o primeiro livro do autor. Essa trilogia se passa no mesmo universo, mas antes do apocalipse.

    Comprei os e-books bem baratinhos, é só ficar de olho.

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