Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller

Alguns comentários sobre essa maravilhosa HQ, mas não sem antes divagar sobre a natureza perversa das histórias em quadrinhos periódicas, passando pelas minhas experiências com A Turma da Mônica, lacunas literárias da juventude e de uma série sobre a morte fajuta de um herói pérfido que quase tirou minha esperança sobre as séries de HQ.



Definitivamente, não sou fã de quadrinhos. Claro que cresci com muitas histórias de super heróis, mas eles estavam mais presentes nos desenhos animados da televisão que eu via sempre que podia, sentado no sofá puído da sala, do que em páginas coloridas compradas em bancas de jornal. Para ser sincero com vocês, fiéis leitores, as únicas histórias em quadrinhos da minha infância eram os gibis da Turma da Mônica, que eu tinha aos montes, mas não porque os comprava e sim porque herdei dúzias deles dos meus primos mais velhos.


Eu gostava do Cebolinha, mas acabava lendo e relendo os gibis da turma toda, afinal não fazia muita diferença pois os personagens eram basicamente os mesmos. Depois comecei a gostar do Louco, que só aparecia de vez em quando, e foi nessa época que parei de ler os gibis. Pode parecer insólito, mas o Louco foi o primeiro marco de meu amadurecimento do mundo das histórias em quadrinho, e gostar dele representou o fim do ciclo dos gibis da Turma da Mônica, cujas outras histórias começaram a não atender mais minhas agora mais elevadas demandas juvenis por histórias mais caóticas e com mais maluquice, afinal, para todo Floquinho existe um Bidu. [imagem: Cebolinha e Louco, de Will Leite]


Ao contrário de meus primos, porém, não passei da Turma da Mônica para os mangás e HQs de super-heróis, talvez porque já desde cedo eu fosse avesso a comprometimento$ quinzenais nas bancas, ou mesmo porque não cresci em um meio em que fosse comum a galera comprar quadrinhos. Seja como for, se mostrou uma decisão que talvez tenha limitado para sempre minha capacidade de entender essa linguagem tão distinta das prosas a que eu estava acostumado, tendo meu cérebro talvez ficado para sempre preso à lógica das historinhas infantis da Turma da Mônica, incapaz de preencher com a imaginação as lacunas abundantes nos textos concisos das HQs. O mesmo déficit ocorre com a linguagem das peças de teatro, em que a falta de assistir (obrigado, Friburgo) e ler peças de teatro minou meu entendimento desse tipo de literatura.

Por outro lado, não tive que me deparar com a decepção que certamente sentiria depois de anos lendo HQs. Entendam-me: HQs são inerentemente perversas. Condenadas a estarem todas as quinzenas nas bancas, independente de inspiração ou de se ter algo para contar, a única constante dessas histórias é estarem religiosamente disponíveis para venda. Inventar todos os meses histórias protagonizadas por trocentos heróis, durante anos, expõe a fragilidade da imensa capacidade imaginativa humana, substituindo o cuidado e a imaginação por novos inimigos supostamente piores que os anteriores, ameaças ainda maiores, crises, perdas repentinas de poderes, depois, mais próximo do desespero criativo, retcons (continuidades retroativas) e, finalmente, se jogando de vez no fosso da falta de imaginação, a capitulação aos reboots (reinicializações), que nada mais são que confissões que os roteiristas estão enrolando demais os leitores e, portanto, vão reiniciar o ciclo até acabar tudo de novo e começar a repetir material anterior que pouca gente ainda vai lembrar que existiu afinal essas porcarias são descartáveis mesmo. 

Daí por quê, mesmo depois de adulto, não me preocupei em tapar essa lacuna literária, ao contrário do que fiz com as peças de teatro, as biografias e as coletâneas de contos, todas formas literárias que me passaram batidas durante a infância e a adolescência.


Mas nem tudo são trevas, mesmo no mundo das HQs. De vez em quando é possível divisar fachos abençoados de luz que se materializam na forma de séries, designadas a terem começo, meio e fim, ou a contar um arco de histórias. O ponto comum, e a tábua de salvação, é serem pensadas com vistas a um final, e não se arrastar tediosamente enquanto as vendas não caírem.

Dando prosseguimento às dicas de leitura do blog, gostaria de recomendar, fervorosamente, Batman: o Cavaleiro das Trevas, com roteiro de Frank Miller. Eu sei que se trata de uma HQ bastante famosa e que todos já devem ter ouvido falar, mas às vezes tudo o que precisamos é de um empurrão para iniciar uma leitura, ou dar chance a um livro que vira e mexe aparece em promoção e que tem várias e várias tiragens. Se esse artigo for para você esse empurrão, ele terá completado sua missão. [imagem: capa da edição definitiva, da editora Panini]

Quando ainda jovem, um amigo de meus pais me emprestou um gibi, que eu prontamente li e adorei. Pensei nele por anos, e até relê-lo, uns quinze anos depois, ainda me lembrava de muitos trechos. A memória realmente é um troço imprevisível e impressionante. A minha relação com as HQs tinha tudo para ser completamente diferente, tendo eu descoberto ainda cedo seu pote de ouro no final do arco-íris cinzento e perverso dos gibis quinzenais. A resposta estava ali, em minhas mãos. Por que, então, eu só fui redescobrir essas séries maravilhosas anos depois, com Sandman, do Neil Gaiman?

Da mesma maneira como você vai descobrir em O Cavaleiro das Trevas, a verdade é que o Super Homem é um tremendo pé no saco. Animado com esse livro do Homem Morcego, coloquei minhas patas juvenis em outro sucesso arrebatador da época, A Morte do Superman. É essa série, e nenhuma outra, a responsável por eu ter ficado anos sem encostar em uma HQ.

O Batman me mostrou de relance as portas do paraíso, mas logo depois o Super Homem mostrou que aquilo tudo era uma ilusão e que a baboseira das HQs quinzenais tinha contaminado até mesmo esse paraíso. O livro é recheado de clichês e pseudo dramas, e pareceu chato e caça níqueis até mesmo para um adolescente que mal sabia das coisas boas e ruins da vida. [imagem: capa do volume 1 da belíssima edição tupiniquim da maravilhosa série Sandman, também pela editora Panini]

 Me voltei para a prosa, então, e me esbaldei com Tolkien, Bernard Cornwell e, a bem da verdade, qualquer livro de fantasia (menos ficção científica, que ainda demoraria um tempo até eu ler) em que pudesse colocar as mãos, de Harry Potter a Brumas de Avalon, negligenciando os super heróis.


Voltando ao livro do Batman, que tive o prazer de reler este ano: o livro abarca tudo que se pode esperar de uma história adulta: trama densa, boas questões, crítica social, debate sobre o papel do herói na sociedade. O livro nos mostra um Bruce Wayne (SPOILER: esse é o nome do Batman) já velho e aposentado, lidando com questões próprias da velhice e se deparando com a angústia do legado, ante a proximidade com a morte e a decrepitude física.

A batalha de décadas do Homem Morcego contra o crime foi a batalha de um homem só, e o que acontece quando esse homem se for? Como lidar com tudo recaindo nos mesmos erros de antes, mas sem uma figura para se colocar como baluarte de esperança frente a um cenário de corrupção e crime generalizados? Terá ele combatido os inimigos certos? E seus amigos, que caminhos escolheram? Como se colocam a mídia e as instituições nesse contexto, e qual o papel delas, afinal?

Nosso bom e velho Morcegão luta contra tudo e contra todos nesse livro, tentando, ainda, corrigir os erros que no passado o impediram de ter êxito em sua empreitada de luta contra o crime. A edição conta com o enredo original, The Dark Knight Returns, de 1986, e sua continuação, de 2001, The Dark Knight Strikes Again. A trama da sequência está bem amarrada com a primeira, mas acaba escorregando numa série de conflitos em escala mega, com super vilões alienígenas brotando, sendo tudo concluído sem o cuidado que a edição original contém.

É uma pena que a sequência não consiga manter o passo com a original. O Cavaleiro das Trevas funda as bases para uma abordagem adulta e relativamente low profile das encrencas heroicas, o que implica numa maior proximidade do leitor com as questões abordadas, conferindo aspectos bastante verídicos à fantasia. Na continuação da obra, porém, vemos uma escalada nos acontecimentos que transcende esse caráter mundano das ações, nos levando numa espiral de super intrigas e super poderes que leva o enredo à estratosfera, muito longe das possibilidades do entendimento de um cidadão comum -característica marcante da primeira série. [imagem: capa da edição americana da segunda série do Cavaleiro das Trevas, da editora DC Comics] 

A sequência, porém, é boa, e só sofre em comparação com a edição original. Mas é triste vê-la se impregnando com a mácula do "épico" das histórias em quadrinhos: muita pirotecnia, um vilão incomensuravelmente poderoso e uma sequência de acontecimentos freneticamente superpostos e que roubam a potencialidade do drama da narrativa. De qualquer forma, não deixa de ser uma continuação interessante e que vale a leitura.

Li que já existe uma terceira continuação ao livro, e já pelo resumo descartei sua leitura. Ela se apoia apenas nos desdobramentos do livro de 2001, parecendo não herdar nada das questões fundamentais da primeira e segunda séries.

Comentários

  1. Cara, tenho muita vontade ler Sandman... Só não comprei ainda porque aquelas edições de capa dura são muito caras. Mesmo lá fora eu achei caro. Vou esperar uma promoção.

    Já leu Watchmen? É a única HQ que tenho é acho que vale muito a pena. A história é fechada e discute várias ideias interessantes acerca de um mundo mais adulto de super-heróis. Recomendo...

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  2. Eu li o Sandman (não lembro se tudo) pq um amigo tinha a coleção. Eu mesmo só tenho o primeiro livro. Os outros parecem estar esgotados. Mas a qualidade é mto boa, acho uns 90 um valor honesto.

    O Watchmen só vi o filme, e gostei muito. Legal saber q a HQ tb é boa. Tem séries tb?

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  3. Eu vi uma dessas versões absolute por cerca de 150. E não tinha tudo. Era só a parte um... Nos EUA estava 50 dolares, se me lembro bem.

    Watchmen foi lançado no final da década de 1980, foi um sucesso estrondoso, inclusive fora do meio dos quadrinhos, chegou a ser indicado ao Pulitzer e tal.

    Eu não sei se foi o contrato com o Alan Moore que não deixava eles lançarem mais coisas ou se eles ficaram com medo de estragar a obra, vulgarizando-a, mas só recentemente eles resolveram lançar mais coisas no universo de Watchmen, com HQs destinadas aos principais personagens, descrevendo passagens anteriores à HQ clássica. Mas acho que só uma edição pra cada personagem, não virou uma serie (já saiu em português, mas não li).

    Parece que a DC agora vai integrar os personagens no seu universo regular também, pra desgosto do Alan Moore, rs .

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