A Podridão de Ugrasha - 7° ato

a taverna de Ravina Verdejante é pior que a retratada nesta pintura Tavern Scene, de David Teniers (1658), mas é bem mais cara. Fonte: Wikipedia.

Em que os aventureiros se preparam para partirem para as Minas de Prata, mas não sem antes um mercador fazer um vaticínio a Eldrin e o grupo descobrir que, por trás da doença que investigam pode haver um propósito nefasto.



Acordam na manhã seguinte, com os primeiros raios da aurora e o canto alto do galo do galinheiro atrás da estalagem. O desjejum é rápido, e os aventureiros ainda precisam resolver algumas coisas antes de partir, por isso dividem-se em três duplas.

Duncan e Bruenor vão atrás do pretendido guia, filho do açougueiro. Não é difícil encontrar o estabelecimento precário mas surpreendentemente limpo; o que não esperavam, porém, era encontrar um hostil homem de meia idade, com um enorme cutelo na mão, apontando-o em direção a eles, ao saber dos intentos da dupla. Aparentemente o filho já abandonara a vida de aventureiro/guia/explorador da região. Já era tempo, ia dizendo o pai, sem parar de gesticular ameaçadoramente com o cutelo em mãos, que seu filho deixasse para trás essa vida vadia para se tornar um homem responsável e trabalhador, ajudando com o roçado e o açougue, e que tratasse logo de arrumar uma esposa ou ele arrumaria uma para ele -e era exatamente isso que ele vinha fazendo. Não seriam aqueles dois brutamontes que desviariam o filho pródigo da labuta. Ainda que prometessem remunerar os serviços do rapaz -o que, como era esperado, apaziguou a hostilidade do açougueiro-, o filho estava ainda na roça, cuidando do gado, e não saberia dizer quando viria à cidade.


A palavra espera era alérgica a Bruenor, e Duncan também não viu motivos para estender sua passagem pelo açougue, se não havia perspectiva de o rapaz voltar. Resolveram, então, retornar para a taverna, à espera de seus companheiros. Não bastasse se enveredar por missões humanitárias e sanitaristas, que não raro implicava em decepar goblins e serem arremessados a metros de distância por uma infortuita pedrada de gigante, ainda tinham que lidar com os mesquinhos caprichos humanos, sempre colocando obstáculos que não podiam ser superados tão facilmente quanto um monstro numa caverna qualquer, sem arriscar desfazer a casca de civilidade que os permitia dormir com a consciência limpa e receber abrigo nas tavernas das vilas por onde passavam. Ninguém cogitou se submeter a esses percalços desnecessários, quando pensaram na vida de aventureiros.

****

Adam e Eldrin foram obter suprimentos: as mesmas frutas secas e carne salgada a que já estavam acostumados a engolir com água durante jornadas mais longas sem certeza de vilarejos próximos. A incursão à mina bem poderia demorar mais do que um pernoite, então era melhor que a fome não se tornasse também um inimigo. Obtiveram os alimentos e, no caminho de volta, Eldrin ponderou que talvez umas tochas extras não fariam mal. Como o Adam não se opôs, adentraram numa loja de bugigangas no meio de uma travessa curta. O dono da loja era da raça dos gnomos e ofereceu aos aventureiros não uma tocha, mas uma lanterna. Vendo que a proposta despertou interesse, não se conteve: botas de escalada, cordas, apetrechos variados e cada vez mais caros foram sendo apresentados aos aventureiros, tudo me meio a uma torrente de persuasão e ladainhas que certamente pretendiam nublar a razão dos clientes, fazendo-os gastar mais do que deveriam. Adam ignorou os truques do mercador, consentindo, porém, em seu íntimo, que era um vendedor talentoso o tal gnomo, mas ambicioso demais. Pensando ter conquistado o interesse dos clientes, apresentou-lhes um livro de inscrições mágicas, artefato caro aos arcanos mas que custava uma quantidade assombrosa de peças de ouro (100) mas que não despertou o mais ínfimo interessa na dupla. Na verdade, teve efeito contrário: ao se deparar com item tão inútil e caro, Eldrin, até então razoavelmente entusiasmado pelas mercadorias, reconsiderou todas aquelas bugigangas e decidiu que não precisaria delas, e nem teria dinheiro suficiente, a menos que o mercador aceitasse ser pago depois que ele retornasse, recoberto de riquezas, de sua incursão às minas.

Ao invés de um cordial não, o gnomo, que via as moedas de ouro dos bolsos do cliente cada vez mais longe de suas mãos, perdeu a paciência: desatou a falar do destino cruel dos aventureiros mundo afora, com sua ganância descontrolada, sonhos fúteis banhados a ouro e glórias, a pujança da juventude abruptamente interrompida por mortes desonradas em lanças envenenadas de um goblin qualquer que os atacava pelas costas, em brejos cheirando a fezes e sangue. O discurso inflamado não tocou o coração da dupla, e Eladrin limitou-se a pagar pela lanterna, óleo e um punhado de tochas, e foi seguir sua vida de aventureiro.

****

Enquanto isso, a dupla de Wurren e Bartolomeu seguia em direção a uma casa simples próxima a taverna. Mesmo alheio às negociações entre Adam e Eladrin e o gnomo, o astrólogo ponderou:

-Wurren, esse novato é um piromaníaco.

-Como assim, Bartô?

-É um traço mais comuns entre os elfos, pelo que observei, do que entre humanos e orcs, por exemplo. As chamas muitas vezes despertam um fascínio em nossa raça. Ele, assim como eu, apesar de híbridos, estamos sujeitos a isso. Está no sangue - o meio orc fez cara de preocupação, imaginando incêndios nas florestas, animais chamuscados e seu semblante foi ficando cada vez mais pesado.

-Ei, eu não disse que ele é um louco incendiário, acalme-se. Ele só gosta de fogo. Se ele puder botar fogo em alguma coisa sem causar maiores estragos, ele o fará. Não vai usar uma árvore como fogueira, mas talvez use mais lenha que o normal, ou use raios de fogo com mais ardor que usaria raios de gelo, ou proporia queimar uma torre cheia de orcs derrubadores de floresta ao invés de pensar em fazer a estrutura desmoronar.

-Hum - e Wurren deu de ombros, soltando um suspiro de alívio.


Mais tarde, quando descobriram que Eladrin também tinha comprado lanterna e óleo, os dois trocaram um olhar que confirmava as suspeitas levantadas por Bartolomeu.

A distância entre a taverna e a casa era realmente curta, e ao final desse diálogo eles já estavam batendo à porta. Na noite anterior, o astrólogo, dando continuidade a suas experimentações com a magia de Wee Jaz, percebeu que havia alguém naquela casa mais próximo das garras da morte, sendo rapidamente consumido pela mesma doença que os levaram àquela estranha cidade: a bexiga. Encorajado pela cura da noite anterior, e tendo visto como Wurren fez para curar Bruenor na noite anterior, após o anão beber água da fonte contaminada, Bartolomeu se sentiu confiante para encarar o novo desafio (mas não tão confiante, pois fez questão que Wurren o acompanhasse nessa incursão matutina). Dentro da casa simples, uma senhorinha cega se emocionava com a presença de um sacerdote de Wee Jaz em sua casa, e o leva até o neto, que acordou meio mole hoje de manhã e não acompanhou o avô ao roçado.

A criança estava bem, ainda que doente. Provavelmente não resistiria sem cuidados, mas a doença ainda não estava em estado grave. Não parecia ser difícil. Para encobrir sua inexperiência, Bartolomeu dramatizou toda a cena, com gestos largos e falas alongadas, enquanto explicava ao menino o que ele tinha. O que ele não falou era que a morte do garoto significaria também a morte de seus avós, agora velhos demais para tomarem conta de si. A guerra tem o costume de matar os mais jovens e poupar os mais velhos, e Bartolomeu não precisou perguntar aonde estavam os filhos do casal.

Ainda que mortal se não tratada, a bexiga não era uma moléstia particularmente difícil de ser curada. Conforme Bartolomeu entoava os cantos que lera no livro que Ânn lhe deu, ele podia sentir a doença cedendo, e a saúde voltando ao corpo da criança. Em determinado momento, porém, Bartolomeu sentiu uma coisa estranha, como se a doença estivesse lutando para não deixar o menino, como se ela estivesse tentando cravar suas garras ainda mais fundo nos órgãos juvenis. O pobre menino gritou. Uma lufada de um vento que nunca existiu abriu as janelas com força. Bartolomeu sentiu uma presença estranha, e sentiu que a vida do garoto estava realmente ameaçada. Seu sangue se aqueceu, suas pupilas dilataram e os cânticos de Wee Jaz, antes leves, se tornaram pesados como se sua voz viesse das profundezas, reverberando pelo pequeno aposento e sobressaltando Wurren e a avozinha. Concentrado, Bartolomeu foi removendo as garras etéreas da doença de dentro do garoto, e então todos no quarto puderam ver uma criatura amorfa e negra, com dois olhos pestilentos cravados no sacerdote e que tentava, em vão, se agarrar ao menino. O que pareceram longos minutos não passou de pouco mais que um piscar de olhos, até que a criatura se desfez e o ar no quarto ficou mais leve.

Ainda que tenha sido curto, Bartolomeu arfava com o embate. Uma batalha mágica não é tão simples quanto uma física para os não iniciados, e dessa vez ele não apenas afastara o menino das portas da morte, como fizera na noite anterior com o leproso, e sim o salvara das garras de um assassino. Trocou olhares preocupados com Wurren. Antes de sair, disse ao garoto que encarasse aquilo como uma nova vida que ele acabara de ganhar, e que deveria fazê-la valer: nem todos, infelizmente, tinham essa segunda chance.

Após terem deixado furtivamente um punhado de moedas de ouro na casa, os dois rumaram de volta a taverna.

-Você já tinha visto aquilo? - perguntou Bartolomeu

-Nunca nem ouvi falar de doenças assim.

-Então não era uma doença. Eu senti algo, como uma intenção maligna, com um propósito ali. Isso não é uma doença, é algo impregnado de um propósito maligno de adoecer e matar. Nossa epidemia não deve ser algo fortuito tramado por goblins asquerosos. Há alguma outra força em ação, e já sabemos quem é um de nossos inimigos.

-Incábulus - completou o druida.


O astrólogo assentiu com a cabeça. Com passos pesados se dirigiram de volta à taverna.


Próximo Ato                                      Podcast da sessão                                                      Ato Anterior

Comentários

  1. é, ficou uma boa bosta a formatação

    ResponderExcluir
  2. Hahaha, não se culpe. Aliás, VC pode editar sempre que precisar. Estou vendo do celular, qdo abrir no PC poderei julgar melhor.

    ResponderExcluir
  3. A formatação não ficou ruim po! Ficou como sempre (a menos que a de sempre seja ruim tbm... ehehehehe)

    ResponderExcluir
  4. Haha, eu editei um bocado de vezes naquela dia. Depois tenho q aperfeiçoar. Está sem tags, porém

    ResponderExcluir

Postar um comentário