A Podridão de Ugrasha - 13° ato

A imaginação corria solta na Idade Média, e monstros estranhos povoavam o inferno e a terra. Mas pouco se falava sobre monstros subterrâneos como os que os aventureiros mais famosos da Grande Fronteira estão encontrando em suas aventuras (imagem sem descrição, Egerton MS 3277, f. 125r, direto do twitter )


Em que os bravos aventureiros continuam suas explorações pelas cavernas onde buscaram abrigo, após derrotarem o temível inimigo. Bartolomeu caminha e se alonga em pensamentos sobre orcs, os deuses, sobre si e também Ânn, e mesmo Bruenor se junta ao coro mudo dos pensadores, com suas dúvidas em relação às suas recentes jornadas e os heróis de outrora. No meio do interminável túnel, encontram, à espreita, um inimigo argiloso e ardiloso, que falha em emboscá-los mas não se entrega facilmente.  


Finda a bem sucedida batalha com o tríbulo brutal, um animal dos subterrâneos familiar apenas ao anão Bruenor, a adrenalina ainda corre nas veias dos aventureiros, que começam a explorar a caverna natural em que se encontram: Bartolomeu examina o corpo de um orc há muitos anos falecido que se encontra junto aos escombros de uma escada que ligava duas plataformas rochosas, muitos metros acima de onde estão, enquanto Duncan reza para seus antigos deuses e cura, com suas próprias mãos, os ferimentos que sofreu na batalha e logo depois anda pela gruta, alerta a novos perigos e olhando apenas de soslaio para o inimigo abatido. Depois de uma ronda pela alta caverna, seguem pelo túnel de onde veio o tríbulo, onde encontram dejetos da besta e quatro túneis toscamente esculpidos, aparentemente pela força bruta das garras do animal, estreitos, irregulares e sem quaisquer pegadas que não as da besta.

Investigando brevemente um dos túneis, com ar mais fresco que os demais (o que indicava que deveria ter uma saída) Bartolomeu encontra vestígios da gosma esbranquiçada do animal em algumas rochas e pelos hirtos, como se a besta fugisse ferida. Sem continuar pelo túnel, ele volta e examina a criatura ferida, e percebe que ela carregava marcas de ferimentos que não foram impostos por seus companheiros, mas por tentáculos poderosos, além de uma rachadura na carapaça do dorso do animal: a criatura que abateram parecia já estar ferida por um combate recente antes de encontrar seu fim.O astrólogo alerta seus companheiros que, de prontidão, fazem um breve descanso próximos aos escombros da escada.

Além do túnel onde a criatura se ferira e fugira, havia outros dois caminhos possíveis para seguirem: pela elevada plataforma ou pela fenda natural, que se estendia além do covil do tríbulo brutal. Wurren, transmutado em uma aranha gigante, rapidamente escala o paredão rochoso, enquanto os demais investigam a fenda. Depois de um tempo, Wurren-Aranha faz um som alto e permanece na plataforma, num sinal de que havia encontrado um caminho. Usando as toras da escada caída, eles improvisam um acesso à plataforma e se juntam ao druida.

*****

Bartolomeu caminhava, com os outros, por um túnel estreito mas com o chão reto, o que indicava ter sido escavado por criaturas semi-inteligentes; como mesmo Duncan, o mais alto do grupo, andava sem ter que se abaixar, era seguro supor que se tratava de um trabalho de orcs asquerosos. Como bem sabe o recém ungido (informalmente, claro) clérigo de Wee Jas, as armadilhas dessa raça não são conhecidas por sua sutileza, sendo bastante rudimentares e facilmente visíveis ou então escondidas de maneira óbvia, próprias para enganar apenas criaturas em fuga ou então com a inteligência limitada de um ser daquela raça animalesca. Com isso, Bartolomeu caminhava em estado de semi alerta, o que era suficiente para a situação, dado seus sentidos aguçados. Seus olhos perscrutavam cada rocha, atentando para os talhos toscos na rocha crua, as irregularidades nos ângulos e a total falta de preocupação estética, qualidade completamente ausente da raça dos orcs, enquanto seus pensamentos iam longe.

Pensou em compartilhar suas ideias com Eldrin, mas o novato pouco falava de si, então não se deu ao trabalho de puxar conversa. O mestre anão andava logo à sua frente, mas o único momento em que Bruenor falava era quando descansavam, ou então em ambiente menos hostis, então era mais prudente, julgou o astrólogo, guardar suas observações para si, até porque elas certamente eram filosóficas demais para os companheiros que gentilmente aceitaram-no no grupo. Mas isso não o incomodava: já fizera amizade com pessoas mais rústicas e completamente burras antes, e até mesmo com orcs já partilhara refeições, então se desconsiderasse toda sua vida anterior ao cárcere e as poucas pessoas sábias que lá encontrara, aquele grupo poderia ser considerado, por comparação, um grupo de seletos eruditos que dominavam distintas artes com maestria.

Limitado a divagar sem fim em seus próprios pensamentos, mais longos do que aquele túnel que parecia se arrastar indefinidamente, Bartolomeu pensava que os orcs eram uma raça moldada ou para a escravidão ou para a guerra, duas atividades que nada acrescentam ao mundo: a primeira, por aniquilar a vontade própria do subjugado, e a segunda, por aniquilar a vontade do opositor. Nada de bom pode se construir a partir dessas duas predisposições órquicas, e é por isso que Bartolomeu os despreza. Não existe história dos orcs, pois eles estão fadados a repetir o mesmo ciclo indefinidamente, o de servir de gado para os desígnios das raças que os subjugam, ou de tentar aniquilar os demais pela força bruta, quando seus números crescem. Os orcs são como as pragas que rondam as cidades, ou limitadas por seus vetores (insetos, animais ou algum foco de contaminação) ou alastrando-se e debilitando todos à sua frente, mas sem construir nada, absolutamente nada, a partir disso. Tempos depois, das ruínas que não foram construídas pelos orcs, as cidades se refazem, superada a doença. Quer praga de Corellon, quer herança sádica de Grunsh, os orcs eram fadados a percorrer sempre a mesma colina, para cima e para baixo, ora sendo escravizados pela força ou malícia alheia, ora guerreando contra os outros e entre si, sem jamais chegar a algum lugar.

diferente das fabulosas pinturas pré-históricas com cerca de 30 mil anos achadas na caverna Chauvet, na França, os aventureiros não encontravam nada nos precários túneis orcs em que vagavam (a caverna Chauvet foi tema de um fabuloso documentário de Werner Herzog em 2010: Cave of forgotten dreams)

Aqueles túneis longos começavam a causar desconforto a Bartolomeu, afeito apenas àqueles formados pelas copas altas da árvores. Por mais que o ar não estivesse tão abafado, a sensação de clausura o incomodava, e aqueles buracos toscamente escavados na rocha remetiam à sua prisão; talvez fossem os mesmos, era possível, se fossem longos o suficiente. se fossem audazes o suficiente esses orcs, para se aventurar assim assim nas fronteiras da guerra, matutava o clérigo.

Pensava agora no milagre que realizara: Com o gigante em seus encalços e uma longa subida à frente, sem abrigo possível mesmo que chegassem ao topo do vale de onde observaram as duas torres na noite anterior, eles estavam completamente à mercê de um inimigo cujo poder superava todas as habilidades e toda a sorte do grupo. Aquele milagre era prova irrefutável que sou protegido pelos deuses, uma espécie de unção, um elo mais forte que a concessão dos recém-descobertos poderes mágicos. Mas quem seria sua deusa ou deus patrono? Wee Jas era a suposição mais óbvia, claro, mas, ainda assim, ela ainda não se revelara, talvez a magia seja uma concessão por portar esse amuleto que Ânn me deu; Sehanine protegia todos os elfos, e sempre me foi a mais próxima de todo o Seldarine. Poderia ter sido Tritereão? Afinal, devolvi a placa à sua estátua, em Folly. Poderia ter sido esse um agradecimento, ou uma demonstração do patrono? Descartou Beory de suas considerações, porque não conseguia pensar em nenhum elo com a deusa  Flan e jamais ouvira falar dela senão há um punhado de anos, entre os prisioneiros humanos.

Mais uma vez se maravilhou com aquela fenda na rocha, invisível tanto da torre quanto da escada de cordas que cortava o vale. Será que ela já existia, ou será que ela era apenas acessível daquele ângulo específico? Como uma fenda que só pode ser encontrada seguindo um caminho específico? 

Essa última suposição pegou o clérigo em cheio. E se a fenda para Ycrath ainda estivesse lá, passível de ser acessada se se refizer aquele mesmo Rastro da Naga? Nesse caso estariam fazendo um enorme desvio sem sentido, quando a resposta ainda está no mesmo lugar! Precisamos sair logo desse buraco e colocar as ideias em ordem. Estamos ainda bastante próximos a Folly, não vai nos custar muito fazer uma última tentativa, ponderou Bartolomeu, enquanto continuava a caminhada.

*****

Enquanto Bartolomeu pensava nos orcs e nos deuses, os túneis avançavam tão monotonamente que até Bruenor se pegou perdido em pensamentos, relembrando as canções dos heróis de seu povo que cantavam as incursões sorrateiras aos covis dos orcs. Cerrou os olhos tentando vasculhar seu repertório de cantigas, à procura de alguma que desse conta de suas aventuras. Decerto as batalhas que enfrentara com seu machado dariam belíssimas canções, regadas a hidromel e gargalhadas retumbantes; mesmo a fuga do gigante poderia ser vista como uma passagem de sagacidade, e aventuras como essa, de incursão e fuga sem confronto, dispõem de um vasto nicho próprio, não tão glorioso, mas totalmente aceito entre os bardos de seu povo.

Pensava com pesar em todas as atividades e percalços que não eram dignos de ser cantados, as tarefas mundanas que eram obrigados a fazer (cozinhar, beber água, mijar), as tarefas burocráticas que deviam desempenhar (erguer os destroços da escada para usar de acesso à plataforma, ou fazer uma ronda na caverna, sem nada encontrar), as horas de procuras infrutíferas, as remexidas nos dejetos do covil do turíbulo, e isso só para ficar nas últimas horas, tudo isso não era assunto narrado nas canções.  Será que também os heróis das cações se perdiam com essas tarefas menores, em sua incessante busca por glórias e riquezas?  Decerto que sim, mas incomodava um pouco o anão esse vagar sem rumo pontuado por tríbulos brutais ocasionais, sem perspectiva de glória nem de riquezas, apenas pulando de um lugar para o outro. entre um confronto e outro, sem alcançar o covil dos goblins que faziam carniçais, sem falar com o tal grande druida. Lembrou de sua encomenda ao armoreiro de Orlaine, mas ainda demoraria um tempo até que tudo ficasse pronto. Antes decepar uns orcs e goblins a ficar parado, esperando, pensou. E retomou mais satisfeito seu caminho.

*****

Finalmente houve uma alteração no caminho: o túnel se estreitava e uma rampa de cascalhos os levaria até uma plataforma recortada por uma profunda fenda por onde corria um rio subterrâneo. Antes, porém, que o grupo continuasse caminho, Bartolomeu, sempre atento, os alertou:

- Parem! Há algo estranho no teto, acima das estalactites.

E com isso disparou um tiro em direção à massa, da cor de argila fresca, que se espalhava pelo teto. Essa massa cobria quase todo o teto da plataforma, e, ante o disparo, veio ao chão, trazendo consigo pesadas estalactites. Espalhada pelo chão, a massaroca foi se juntando, formando primeiro uma criatura amorfa, depois simulando a forma de um monstro de lama que se erguia bastante acima do chão.

Ligeiros, os aventureiros não esperaram a criatura atacar, lançando-se a seu encontro. Bartolomeu não quis dar chance à criatura, e invocou a adaga mágica de Wee Jas, que deixa um rastro fantasmagórico e avermelhado ao atacar. Eldrin também lançou um encantamento de fogo, mas sentiu que o golpe não foi tão eficaz contra a criatura. Enquanto Wurren-Aranha, andando pelas paredes ataca a criatura, Duncan e Bruenor se aproximam dela coordenadamente. Nenhum dos aventureiros esperava, porém, que surgissem oito poderosos tentáculos, bastante ágeis, comparados aos movimentos lentos da criatura. Pegos desprevenidos, todos os aventureiros foram atacados, os mais distantes com o arremesso das estalactites que vieram ao chão quando a criatura se desprendeu do teto, e os mais próximos com golpes de tentáculo. Enquanto o druida conseguiu se desvencilhar do tentáculo que o atacara, Duncan e Bruenor não tiveram a mesma sorte: cada um foi atacado por dois tentáculos, um atacando suas armas mágicas, e o outro desferindo um golpe certeiro no meio do peito dos dois guerreiros. O impacto dos golpes foi menos violento do que esperavam, mas precisos o suficiente para desarmar a ambos, que viram suas armas voarem até o outro lado da plataforma. Os tentáculos não pareciam não muito rijos, deixando uma gosma lamacenta nas armaduras de ambos, seguido de um temido mas bem conhecido ruído de corrosão: a criatura tinha golpes ácidos!

Decerto fora aquela criatura que feriria o tríbulo brutal, e agora queria dar cabo dos aventureiros! Por sorte eles não tinham caminhado direto para sua armadilha, mas ainda assim se encontravam em desvantagem, tendo seus dois melhores soldados perdido suas armas. Bartolomeu redobrou seus esforços, atirando virotes e comandando mentalmente a adaga de Wee Jas para atacar o inimigo. Bruenor atacou o monstro com seu temido martelo, companheiro desde as primeiras aventuras, mas qual não foi sua surpresa ao ver que a arma se desfez, corroída, quando entrou em contato com a criatura argilosa! Wurren-Aranha rapidamente contornou a criatura pelo teto, conseguindo devolver a Duncan e Bruenor suas armas. Ainda tiveram que sobreviver a mais uma sequência explosiva de ataques tentaculares, e graças a Eldrin, que se multiplicara em 3 outros com sua magia, desviando assim a atenção do monstro, puderam contra atacar com violência, as armas mágicas rasgando o monstro, dividindo-o em montes menores de lama, até que o bicho escorregou completamente, deixando uma lama rala pela plataforma toda, chegando mesmo a escorrer pela fenda do rio.

O desvio miraculoso pelas profundas cavernas não era isento de perigos. Ainda assim, entre enfrentar o gigante das nuvens e seguir pelos túneis escavados e há muito tempo não utilizados por orcs, preferiram a última opção.


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