A Podridão de Ugrasha - 10° ato


infelizmente a intrépida trupe não dispunha de mapas precisos em suas aventuras, o que a obrigava a tomar caminhos tortuosos, tornando-a, por força da necessidade, desbravadora de Flaeness (ou, ao menos, dos arredores de Orlaine, por enquanto)


Neste capítulo, os aventureiros mais carismáticos da Grande Fronteira descansam após a feroz batalha com os orcs xexelentos, interrogam um prisioneiro, se despedem (temporariamente?) de Adam, salvam uma imprudente onça e vislumbram a torre de fronteira agora tomada por nefastos inimigos. Tudo exatamente nessa ordem.


*****

O grupo descansa em um trecho do bosque que cruzaram antes de chegar à estrada, local do confronto com os orcs. Comem suas rações sem falar, e depois se deitam com esforço, cuidando para não abrir ainda mais as feridas que, graças às mãos e à conexão com os deuses da natureza de Wurren, não sangram mais. Uma frase ou outra pontua o silêncio mas, como ela morre sem continuação, só serve para deixá-lo ainda mais evidente. Duncan e Bruenor, mais que todos, têm plena consciência de quão perto chegaram da morte, pois sabem que caíram em meio a um bando de inimigos. Se os demais não tivessem dado cabo de trazê-los de volta e manter o combate, não estariam ali, com aquele gosto salgado de ração na boca.

Por mais que a vida de batalhas seja sempre um flerte com a morte, e por mais que gostem da adrenalina do combate, nenhum deles pensa seriamente em morrer tão cedo, ainda mais com um encontro fortuito no meio de uma estrada insossa. Ver alguém caindo porque o corpo não aguenta mais os ferimentos tampouco é uma experiência agradável àqueles que a veem, pois, por mais que Wurren e, recentemente, Bartolomeu possam trazê-los de volta das portas da morte, nem sempre há tempo hábil para fazê-lo, cercados de inimigos ferozes.

Bartolomeu sente-se pesado, esgotado não dos ferimentos que o combate lhe trouxe, mas de um cansaço que ele jamais sentira. Ele bem sabe que a magia não é infinita para os mortais, pois seus corpos apenas aguentam canalizar uma quantidade limitada de magia. Sente-se à beira desse limite, e experimenta com curiosidade e preocupação isso. Começa, então, a cantarolar uma canção que ouvira quando ainda jovem mas já em tempos de guerra, e esquecida até então. A canção versava sobre a morte, não de uma forma ameaçadora, mas serena, ao mesmo tempo em que celebrava a vida dos que ali estavam para ouvir e se juntar ao coro dos sobreviventes. Sentiu que a canção revigorava suas energias, que supusera esgotadas, e então o astrólogo acende umas ervas secas que trazia consigo, e, sem parar de cantar, se ergue e anda entre seus companheiros, rompendo o silêncio pesado que os havia tomado. Celebra Sehanine, patrona élfica dos sonhos e das viagens, celebra Wee Jas, deusa da mortes em seus diversos aspectos e, consequentemente, deusa da bem aventurada jornada a ser transposta até os portais que ela guarda. Ainda que não tenham compreendido as palavras do meio-elfo (à exceção de Eldrin, ele também um), todos se sentem mais dispostos e revigorados, libertos da prostração que os abatera há pouco.

Voltando-se para o prisioneiro, Bartolomeu comunica aos demais:

-Hora de conseguirmos algumas respostas.

Wurren havia feito um prisioneiro. Enquanto todos se preocupavam em sobreviver a qualquer custo, o meio-orc teve a frieza de manter um deles apenas desacordado, para poder, mais tarde, esclarecer o que significava aquele contingente tão próximo aos limites da Grande Fronteira.

Enquanto todos se levantavam e esperavam o orc acordar ante os tapas que Bartolomeu lhe aplicava, Duncan afastou-se, sabendo bem o que se seguiria, e foi montar guarda, mais afastado dos demais.

Não era a primeira vez que Bartolomeu interrogava um inimigo, desde o pouco tempo em que se conheciam. Era sempre ele a fazê-lo, e ele o fazia sem satisfação, mas considerava-se o mais apto dentre todos à função. Duncan e Wurren tinham uma moral muito enviesada e previsível para conseguir extrair qualquer informação, enquanto Bruenor era bruto e impaciente e Adam não parecia apto ao desafio, quer por indiferença, quer por falta de atributos a um bom interrogador.

O interrogatório era também sempre previsível, aos olhos de Bartolomeu. As alfinetadas no começo, as injúrias e o praguejar, depois o olhar de ódio enquanto o cativo berrava que jamais falaria nada e que preferia morrer, tudo isso fazia parte de um teatro pois a verdade é que todos falam, cedo ou tarde. A morte imediata não é uma alternativa.

-Você nos diz o que queremos saber e então pode ir embora. Você não é mais uma ameaça, e não queremos mais sangue em nossas mãos. Já vencemos a batalha.

É mais ou menos isso o que diz Bartolomeu, talvez não de maneira tão direta, mas o importante é deixar o cativo acreditar que pode viver. A esperança é fundamental, é o que torna todo o processo mais fácil. Com alguns incentivos, claro, pois ele não pode ter certeza de que não vão matá-lo.

-Ahhhhhhhhhhhh

O orc grita enquanto Bartolomeu pisa em suas bolas, e quando o orc chama por Grumsh, o deus bárbaro de sua raça, é-lhe proposto ficar caolho, tal como seu deus, se ele não começar a falar. Quando vê a adaga se aproximando de seu olho, o orc se quebra e começa a falar.

Descobrem que há muitos goblins na caverna adiante, que leva à torre, onde um batalhão de orcs como os que eles derrotaram montam guarda. Há, ainda, dois capitães liderando o grupo. Um grande exército se aproxima pelo norte, pronto para desferir um ataque maciço em Orlaine, assim que Hochoch cair, dali a poucos dias. Trata-se, portanto, de um grupo de batedores, como suspeitava Bartolomeu. O exército dos gigantes espalha vários desses grupos pelo perímetro de seus domínios, e eles servem tanto como grupos de assalto quanto de ocupação, guardando as fronteiras e preparando o terreno para o avanço das tropas principais. A informação que o exército está a caminho é perturbadora, mas dá aos aventureiros a garantia de que, se agirem rapidamente, não serão pegos pelo exército principal. Munidos das informações de que dispunham, Bartolomeu assente para que Bruenor execute o prisioneiro, que protesta, dizendo que disse tudo o que fornecera todas as informações que o grupo queria saber, e agora pedia a liberdade prometida.

-Mande saudações a Grumsh, escória.

Bartolomeu poderia tê-lo matado também, mas não quis tirar esse prazer do mestre anão, que claramente se regozijava ao eliminar seus inimigos. Poderia também tê-lo deixado viver, se isso não tirasse deles o elemento surpresa de que dispunham. E se ele não fizesse parte do exército que arrasara sua comunidade élfica e fora responsável por 3 longos anos de cativeiro. Ou então se ele não fosse um orc bárbaro, assassino e sanguinolento. Claramente esse não era um bom dia para ele conseguir sua liberdade.

Bartolomeu evitou o olhar de reprovação de Wurren, que felizmente manteve-se quieto enquanto Bruenor aplicava o golpe de misericórdia. Em breve ele teria que esfregar na cara do druida e do paladino, que dessa vez se escondeu, a moral enviesada, infantil, que eles seguiam, capaz de evitar uma morte covarde como a que presenciava agora mas incapazes de se responsabilizar por todas as atrocidades que aquele orc certamente faria com a liberdade. Há tempo para redenção, e outros para punição. O orc certamente não expiou todas as barbaridades que tinha feito com sua morte, mas pelo menos não acrescentaria mais nenhuma à lista. Sem vestígio de vingança, Bartolomeu acreditava ter feito um bom julgamento, justo a seus olhos bondosos, mas longe de ser justo aos olhos dos que, como ele, presenciaram as incursões assassinas daquele exército nefasto, conspurcando, torturando, estuprando, queimando e matando sadicamente. A morte prematura era punição suficiente para encerrar uma vida criminosa, cabendo aos deuses julgar essas almas no pós-vida.


*****

Em meio aos orcs mortos na estrada, havia também o corpo de um soldado, caído há não mais que dois dias. Na tenda dos orcs, logo após a curva na estrada, descobriram pouca coisa de valor, mas encontraram um mapa tosco dos arredores, cujo centro eram as minas aos pés da Árvore Pálida, bem como uma carta, escrita às pressas mas com caligrafia bem feita. Essa carta alertava o ataque surpresa à torre, e devia ser entregue aos lordes de Orlaine, preparando-os para o ataque iminente.

Confrontados com a escolha entre seguir para a torre ou alertar a cidade, Adam propôs que ele se infiltrasse em Orlaine, onde agora eram persona non grata devido ao seu desentendimento com o líder dos Wyverns (o que o levou a sair galopando rapidamente da cidade), para completar a missão que o soldado não fora capaz de fazer. Ponderou que se todo o grupo rumasse para a cidade, seriam certamente notados, e como os Wyverns eram agora parte da guarda, poderiam se encontrar em apuros. Se ele fosse sozinho, porém, seria mais fácil entregar ou espalhar a mensagem: cidades possuem um submundo agitado, e essa era sua especialidade. Ainda que desconfiassem das intenções do repentinamente voluntarioso Adam, a verdade é que cada um é dono do próprio nariz, e não poderiam impedi-lo de partir se ele assim desejasse e, mesmo que duvidassem de suas intenções, não poderiam duvidar que ele cumpriria a missão, se assim se dispunha. Escoltado por Dágora, a fera amiga de Wurren, os dois embrenharam-se nas matas, em direção a Orlaine.

*****

Os aventureiros sabiam que um  confronto com os goblins não seria inteligente, ainda mais agora, subtraídos do ladino. Apesar das poucas palavras e subterfúgios, Adam se mostrara um companheiro valoroso mesmo em batalha, e ele e seu arco encantado foram cruciais para o desfecho dos mais perigosos embates. Mesmo que fossem bem sucedidos em um ataque direto -façanha de que duvidavam, pois há pouco tiveram uma batalha sangrenta e exaustiva-, certamente alertariam a torre, e, com isso, diminuiriam suas chances da empreitada. Assim como os orcs, eles precisavam atacar de surpresa.

Seguindo a estrada, encontraram a entrada da caverna, desguarnecida, o que parecia natural devido à proximidade com o acampamento orc. Bartolomeu bem sabia que a coesão entre diferentes raças selvagens demandava alto grau de controle e medo e, na ausência de quem os pudesse inspirar ambos, a distância era o melhor meio de assegurar alguma unidade. Rastrearam então o caminho,  mas não encontraram nada para além da entrada da caverna, sugerindo que aquele fora o único caminho tomado para o assalto à torre,

Wurren, porém, não se dera por vencido, disposto que estava a encontrar algum rastro de caminho alternativo. Encontrou marcas de tinta numa parte mais baixa do paredão à frente, que batiam com o tinteiro que havia encontrado mais abaixo e que certamente escapara, junto de outras coisas de pouca monta, da mochila do infeliz soldado que levava a carta. Continuando pela trilha, teve certeza de que foi aquele o caminho usado, antes de ser emboscado e trucidado pelos orcs.

Serpenteando entre os paredões, e adentrando em trechos íngremes entrecortados por algumas áreas planas, os aventureiros meio escalaram, meio caminharam, refazendo a jornada de fuga do soldado. Cavernas abundavam, e escadarias desgastadas foram galgadas com cautela. Eladrin escorregou e rolou alguns metros, caindo à entrada de uma caverna, de onde uma onça o encontrou, com os dentes para fora. Bartolomeu agiu mais rápido do que todos, encravando fundo um virote no flanco da fera. Wurren, desceu quase descontroladamente pela encosta, dizendo para não a machucarem. Bastante ferida, a besta não se deu por vencida, e o druida percebeu que na verdade ela protegia a cria. O druida aos poucos ia acalmando a fera, que ainda assim atacava, mas a imprudência dos companheiros tornava a tarefa mais difícil: Eldrin cismava em escorregar pelos degraus, e Bruenor descera para evitar que a fera atacasse alguém, o que só a tornou mais agressiva. Por fim, Wurren a prendeu com um encanto, evitando que saltasse sobre os demais e, consequentemente, encontrasse uma morte prematura. Bartolomeu, mais do que os outros, entendia o ato do druida, mas, talvez por sua incapacidade de argumentar com tais bestas e considerando também o tempo que perderam com a negociação, achava mais prático cravar-lhe uma flecha nas costas e se deliciar com sua carne e de seus filhotes. Preferiu, porém, respeitar o druida, pois a vida da criatura parecia significar muito para ele.

Continuando o caminho, chegaram, finalmente, ao topo da montanha, que dava para um vale com duas torres encravadas em dois altos penhascos ao centro. Uma delas estava parcialmente desmoronada no cume, mas isso não diminuía sua imponência nem sua efetividade: havia apenas um caminho possível até elas, através de duas estreitas pontes: uma, ligando à faixa de terra em frente à boca da caverna e a outra, ligando uma torre à outra. Era muito difícil aquele ser um recorte natural no terreno; se assemelhava, porém, a trabalhos arcanos, que moldaram a geografia perfeita para uma posição defensiva. O descuido com a vigilância, porém, não os poupou da tropa de assalto, que agora ocupavam ambas as torres e também o trecho entre a torre com o topo em ruínas e a entrada da caverna. Um caminho alternativo certamente seria mais prudente, considerando a posição estratégica de que os inimigos dispunham.

Olhando pacientemente ao redor, encontraram um caminho apagado, recortando a encosta que afundava no vale. Ao fundo, mas sem poderem precisar a distância, havia um ruído de águas revoltosas, e, cerrando os olhos, era possível distinguir algo como uma ponte, ligando ao rochedo sobre o qual a torre mais afastada se erguia: eis o caminho do soldado, desfraldado a seus olhos.

Resolveram então descansar, e iniciar a empreitada sob o véu da noite nublada que já era possível divisar.


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