A Podridão de Ugrasha (6)



Os aventureiros caminharam pelas ruas de terra até a única estalagem do vilarejo, a qual se chama a Parreira do Tio Colen. Trata-se de um local bastante acolhedor que é frequentado pela maioria das pessoas da cidade. Os aventureiros logo percebem que os plebeus não demonstram suspeitar de qualquer tipo de anormalidade na água dos rios e córregos que cruzam o vale.

- Wurren, na sua religião quem é o deus que traz as pragas e doenças?- perguntou Duncan.

- É o Olho Reptiliano, o Lorde das Pragas, Senhor das Moléstias. Os povos livres de Flanaess o conhecem também como Incabulus – respondeu o meio-orc – Por que perguntou?

- Não é por nenhum motivo concreto. Eu estou começando a suspeitar que pode haver a participação de cultistas, afinal, que tipo de pessoa depravada poderia se interessar em contaminar a fonte sagrada de um pequeno e insignificante vilarejo? – explicou Duncan.

Enquanto conversavam, os aventureiros se aproximaram de uma longa mesa e se sentaram. Pediram comida e bebida.

- Diga-me, bom homem, como anda a vida aqui na Ravina Verdejante? Tudo parece tão pacato, mas nada obstante parece que algo não está bem – falou Adan.

- De fato, este é um lugar de paz. Sempre foi. Mas, parece que nada está como era antes. Meu leite azedou, meu vinho avinagrou, e a água da fonte tem um gosto terrível. Você me pergunta se tem algo de estranho, e eu te digo que há um mau presságio sobre estas terras – comenta Colen, o estalajadeiro. Este, aliás, é um homem forte e atarracado, cuja feição, no entanto, é de alguém bem humorado e amigável.

Quando, porém, o estalajadeiro informou o preço da cerveja, alguns dos aventureiros começaram a mudar de opinião sobre ele.

- Que porra de estalagem cara para uma “cidadeca” dessa! – urrou Bartolomeu.

- Ah! Já chega! Esse lugar é uma merda – Adan ficou absolutamente indignado e se levantou da mesa, saindo como um trovão para o lado de fora da taverna. Bartolomeu, que não estava nada feliz, o acompanhou. Lá dentro, Duncan perguntou:

- Senhor Colen, sua cerveja é muito cara! Como você consegue vende-la numa cidade tão pequena e tão distante de tudo?

- Essa é uma cerveja especial, do tipo Stout. Seu processo de fermentação é muito especial, eu mesmo o desenvolvi. E, além disso, é uma cerveja que sempre é servida gelada. Muito gelada! – explicou Colen.

- E como você consegue gelar a cerveja? Estamos em plena primavera... – Duncan indagou.

- Hahaha! Essa é uma ótima pergunta. É uma história muito legal. Eu consegui capturar uns sapos gelados que habitavam uma das turfeiras próximas daqui. Precisei suar um bocado para fazê-lo, é verdade. Mas agora que os tenho, consigo gelar todos os meus tonéis!

Wurren deu uma olhada feia para o taverneiro, enquanto Duncan e Bruenor olhavam com grande interesse.

- Eu acho que há ouvi falar desses sapos gelados... não sabia que eram comuns por aqui – murmurou o meio-orc, claramente chateado.

- Não fique triste. Eu os trato bem, se quer saber... – Colen explicou.

- Sim. Mas, me diga, de que turfeira exatamente você está falando? – perguntou o meio-orc.

- Eu a conheço como Turfeira dos Sapos. Fica ao sul daqui... – enquanto o estalajadeiro explicava, Wurren olhava para Duncan e ele balançou a cabeça negativamente, indicando que a turfeira citada não é a mesma que eles acabaram de investigar.

- Mudando de assunto, bem, e o preço dos seus quartos? – Duncan falou.

Colen cobrou um preço considerado alto novamente, cinco moedas de ouro por pernoite. Desta vez explicou que o preço elevado se deve à pouca procura e, também, ao fato de que os quartos são “bem limpinhos” e são individuais, dotados de cama, baú e escrivaninha.

- É. Acho que quando ouvirem esse preço, certamente Adan e Bartolomeu vão querer dormir ao relento – riu Bruenor.

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A esta altura já era noite. Adan e Bartolomeu conversavam do lado de fora. Em dado momento, quando se abateu incômodo silêncio, o astrólogo decidiu caminhar até a praça da cidade, onde contemplou o poço e viu, por acaso, que um homem dormia, tremendo de frio, sobre o pé de uma árvore não muito distante.

Bartolomeu se aproximou e viu que ele estava doente, com marcas que lembravam a bexiga. Além disso, cheirava a álcool e urina.

- Esse homem é um mendigo, abandonado à sua própria sorte – disse em voz baixa, fechando os olhos e impondo as mãos sobre ele enquanto murmurava cânticos Wee Jasianos aprendidos no cárcere. O astrólogo se concentrava na obtenção de milagre idêntico ao testemunhado no tempo de Duin, quando Wurren livrou Bruenor da doença.

De repente, suas mãos se aqueceram, e seus olhos passaram a ver a aura do pobre homem, que dormia inconsciente do milagre que se operava naquele instante em sua vida.

Bartolomeu, então, limpou a aura dele, extirpando a doença e deixando o local silenciosamente. Orgulhoso de seu feito e grato à matrona Wee Jas, foi ao encontro de Adan novamente.

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- Senhor Colen, o preço dos quartos está muito alto. Eu entendo suas ponderações. Mas isso é demais para nós. Veja bem: é melhor alugar para nós por menos do que o pretendido do que ver os quartos vazios mais uma noite. Não acha? – Eldrin ignorava o esperneio do astrólogo e do ladino bem como o esbanjamento do anão, que sorria de tudo, e tentava negociar da forma mais diplomática o possível.

- Hum... Você até que tem razão. Talvez eu esteja sendo um pouco ganancioso. Está bem. Acho que podemos negociar – falou o taverneiro.

Então, ambos discutiram os preços por alguns instantes, e acabaram decidindo cobrar apenas uma moeda de ouro por cada pessoa, sendo certo que teriam que dividir os quartos, usando sacos de dormir para improvisar camas.

- Estou satisfeito. Vou lá fora avisar meus amigos – falou Eldrin, saindo da taverna logo em seguida.

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- Por uma moeda de ouro eu fico aqui! – diz Bartolomeu, quando Eldrin lhe conta do resultado da negociação.

- Nem pensar! Essa estalagem é uma merda! Posso até acompanha-los na bebedeira, mas esse estalajadeiro está tentando nos roubar!– Adan resmungou.

- Eu pago para você, Adan – o astrólogo insistiu – Temos o saco de dinheiro que peguei dos goblins...

- Paga com o meu dinheiro? Afinal, esse dinheiro pilhado dos goblins deveria ter sido dividido entre a gente.

- Aff! Então pegue o seu dinheiro! – Bartolomeu já estava aborrecido, mas Adan parecia estar sendo ranzinza de propósito, pois acabou desistindo da discussão e retornou com os colegas para a estalagem.

Os aventureiros beberam e comeram confortavelmente.

Antes de subirem para os quartos, ainda fizeram breve caminhada pela cidade e logo retornaram, com a certeza de que o dia seguinte traria notícias melhores.



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