A Podridão de Ugrasha - 5º Ato

O templo de Santo Bane lembra muito a arquitetura do Partenon grego (FOTO GRATUITA disponível em  http://br.freepik.com/fotos-gratis/parthenon-fachada-oeste_30809.htm <Acessado em 12/12/2016>)


Os aventureiros deixam aquele local macabro, recobrando com dificuldade o caminho colina abaixo.

- É difícil enxergar com tanta neblina. Sorte nossa que a terra está úmida, do contrário não sei se conseguiria encontrar nossos rastros! – falou Wurren, enquanto guiava os colegas até a turfeira.

- Ainda estou achando tudo muito estranho. Essa tal Ravina Verdejante não me entra na cabeça! – Bartolomeu disse em dado momento.


- Hum... Além do que, esses goblins estão tramando alguma coisa – comentou Adan.

- Jura?! – Bruenor perguntou com sarcasmo – O que te faz crer numa coisa dessas?

- Eles estavam coletando aquelas frutinhas vermelhas. Venenosas! E agora esse lodo preto! – Adan respondeu sem notar o tom da pergunta.

- Não é um lodo comum – Wurren diz, recordando-se agora de algumas informações úteis – Druidas bem antigos ferviam as pedras de alcatrão negro e inalavam sua fumaça durante cerimoniais religiosos, especialmente durantes os festivais de luas cheias, com parte de um ritual de augúrio. A tradição conta que muitos druidas, até mesmos os hierofantes, tornavam-se obcecados com a vaporização do alcatrão negro e lendas contam que alguns foram completamente transformados pela pedra negra, tornando-se sombras e, eventualmente, morrendo – explica o meio-orc.

Na verdade, o alcatrão negro possui diversas formas de consumo, geralmente precedidas de algum tipo de preparo ou infusão com ervas, inclusive a ingestão líquida, e, sobretudo, por introdução anal – essa muito difundida em cidades grandes, especialmente entre prostitutas, vadios, ladrões e outros tipos que frequentam as vielas escuras e sujas. Adan conhece o uso porque alguns conhecidos seus em Niole Dra já fizeram ou fazem uso da erva.

- Eu conheço essa pedra aí, com certeza. Mas nunca tinha ouvido falar desses usos! Quanto mais conheço dos hábitos dos povos das planícies, mais me espanto! – diz Bruenor, com sincera perplexidade, sob o olhar atento dos demais aventureiros – Nós a usamos para fabricar betume, e com o betume fazemos pinturas, envernizamos móveis e etc. É algo muito valioso, sem dúvida. Não pela raridade, mas pela variedade de usos.

A conversa distrai os aventureiros, que logo cegam à turfeira. Eles examinam as águas paradas e Wurren acaba notando que ao norte há uma pequena construção abandonada que ninguém havia reparado antes.

- Olhem aquilo lá. Não se parece com uma sacristia abandonada? – falou o meio-orc.

- Sem dúvida. Vamos examinar – Duncan disse já se dirigindo para o local, não mais do que cento e cinquenta metros dali.

****

Aproximando-se, os aventureiros notam que a construção pequena não deve ter mais do que nove metros quadrados. A água da turfeira lhe penetra por uma cavidade que mais parece um canal, o qual atravessa a construção e sai pelo outro lado.

- Ora vejam só! A água passa pela sacristia, é canalizada e desce pelo aqueduto! Estão vendo?! – comentou Eldrin.

- Bem observado. Mas isso só torna o aqueduto algo ainda mais misterioso! – comenta Bartolomeu – Continuo dizendo que essa vila de Ravina Verdejante é muito, muito, estranha.

- Enquanto vocês papeiam, eu vou tentar subir! – Adan diz isso já trepando do muro para alcançar o telhado, após notar que a construção não tem nenhuma janela larga o suficiente, mas somente seteiras estreitas e altas.

- Acho que tem uma forma mais simples de subir, Adan – o astrólogo disse, após o que lançou olhar para Duncan – Me dá um “pé-pé”?!

O espadachim se aproximou, flexionou o joelho e entrelaçou os dedos das mãos. Todavia, quando Bartolomeu pisou-se nas mãos para subir, Duncan se desequilibrou! O astrólogo caiu de costas na lama suja da turfeira e o paladino deu três passos cambaleantes antes de cair na água turva, imergindo na escuridão por breves instantes.

- Hahahahahaha!!! – Bruenor riu muito alto da desgraça dos companheiros!

- Pare de rir e me ajude a levantar – falou Bartolomeu, recebendo a ajuda de Eldrin.

- Você está bem?! – Wurren fez a pergunta para Duncan, que estava de pé na turfeira, com as botas cheias de lama e uma gosma nojenta no cabelo.

- Estou sim. Não se preocupe. Como estou aqui dentro – olhou em volta – Acho que entrarei na sacristia pelo canal. Vejo que é largo e alto o bastante para isso – falou o espadachim.

A esta altura, Adan já estava lá dentro, pois ao chegar ao alto do muro viu que não havia telhado ou laje e, assim pode descer. Notou, neste instante, que o interior da sacristia era muito simples e, nada obstante, estava depredado. Aquilo que antes deveria ser uma estátua de Merikka (uma deusa oeridiana da agricultura e da fertilidade dos campos), estava agora quebrada em mil pedaços.

- Parece que os goblins derrubaram a estátua e a quebraram de propósito – falou Adan ao ver Duncan entrando pelo canal.

- Encontrou algo mais? – perguntou-lhe o espadachim.

- Não. Nada. Acho que as águas da turfeira vinham até aqui para que Merikka as abençoassem. Só isso. Mas foi tudo destruído – o ladino complementou.

****

- Algo de interessante? – perguntou Eldrin.

- Nada. Era uma sacristia de Merikka, uma deusa oeridiana da agricultura – explicou Duncan.

- Neste caso, vamos embora. Não há mais nada para ser visto aqui, e estamos muito debilitados para prosseguir. Precisamos descansar antes – falou Wurren, já descendo o morro rumo à Ravina Verdejante. No que foi seguido pelos demais.

****

Os aventureiros estão chegando ao fundo do vale, se aproximando da cidade.

- Vocês ainda acham uma boa ideia entrar na vila? – perguntou Bartolomeu.

- É claro! Onde mais vamos conseguir uma cama quente e comida de verdade?! – falou o anão.

- Ok. Mas vocês realmente não acham que tem algo de estranho nessa cidade? Há uma guerra aqui do lado, gigantes nas montanhas e goblins nas florestas e, nada obstante, a vida aqui parece pacífica e tranquila como se nada tivesse acontecendo! – insistiu Bartolomeu.

- Nós só vamos ter certeza entrando na cidade... – falou Adan.

- Ele tem razão – Duncan comentou diante da fala do ladino.

- Não é possível... – Bartolomeu falou em voz baixa, incrédulo com a atitude dos colegas.

O grupo debateu o assunto por mais alguns minutos, mas a decisão final foi, realmente, visitar a vila e constatar eventuais anormalidades com os próprios olhos.

- Ademais, se houver carniçais aqui eu os protegerei! – falou Bruenor, com convicção que divertiu os colegas.

Assim, os aventureiros ganharam as ruas de terra da vila. O sol começava a se esconder atrás das montanhas. No centro da vila há uma construção desproporcionalmente grande e antiga. Erguidas com brutais rochas de granito, dezenas de colunas cilíndricas dão suporte a arcos de voltas perfeitas que interligam umas as outras. Toda a construção repousa sobre um patamar com aproximadamente três metros de altura, o qual se pode alcançar escalando os elevados degraus que separam o templo das ruas de terra suja. Nada obstante a imponente construção, os aventureiros ficam maravilhados mesmo é com as elevadíssimas arcadas do aqueduto que se prolonga desde a fonte situada no centro do templo até as encostas rochosas no sudeste da vila – de onde acabaram de descer.

Bruenor se aproxima da fonte, que representa a imagem de um homem barbudo e idoso, porém, austero, que traja uma armadura formada por uma malha de escamas e em sua mão direita segura um tridente que parece arder com a luz do sol, e na mão esquerda ergue acima da cabeça um cálice sobre o qual cai a água trazida das montanhas pelo aqueduto, a qual então verte livremente como um fio perene e tranquilo até seus pés, local em que se acumula formando um reservatório largo e não muito profundo. A água não transborda graças a um ralo que a escoa para algum lugar no subterrâneo, conforme observa o anão, que, então, faz uma cuia com as mãos para recolher aquela água e matar sua sede.

- Não faça isso! – uma voz masculina, porém fina e impúbere, diz em alto e bom som, e então os aventureiros veem um jovem vestido com uma cota de malha velha e opaca (claramente maior do que ele) subindo os degraus do templo e se aproximando com tranquilidade. Ele não demonstra ser qualquer tipo de ameaça, mas a insólita figura obviamente atrai a atenção de todos no grupo.

Bruenor lhe olha de soslaio sem, a princípio, compreender o que o fedelho quer. Mas era tarde, pois o anão bebeu a água.

- Bruenor! Essa água vem da turfeira! – berrou Wurren.

- Ora!!! Como fui tolo! Fiquei tão maravilhado com o templo que nem mesmo percebi! – falou o anão, com cara de desespero – O que vai acontecer comigo?

- Calma. Não deve lhe acontecer nada de mais grave, talvez uma noite de rei. Só isso – o meio-orc tentou acalmar o colega, enquanto observava a jovem figura se aproximando do grupo.

- Desculpe, senhor anão. Mas a água que verte do Cálice de Santo Bane não é para ser bebida por ninguém, senão somente para dar glória a Pelor nos dias de oblação.

- Quem diz isso? – perguntou o anão, ainda preocupado.

- Santo Bane?! – Bartolomeu ecoou a dúvida dos demais colegas.

- Dizia Turgham, meu pai, irmão de Goral, filho d’O Radiante – respondeu o jovem – Eu me chamo Duin e esta é a minha morada – apesar de tenra idade, o garoto demonstra ter os modos próprios de um sacerdote, o que é um indicativo prefacial acerca das verdades incutidas em suas palavras.

Duin é, de fato, filho de Turgham e sobrinho de Goral – o mítico paladino que livrou as minas de prata conhecidas como Árvore Pálida do terrível mal que a assolou quase meio século atrás.

- Reza a lenda que a mina foi descoberta por Sir Cairren, um notável Cavaleiro Guardião, que, observando a particular beleza do bosque sobre a encosta no período entre batalhas, notou que algumas árvores reluziam como metal. Não demorou muito até que Cairren descobrisse que aquelas espécies ancestrais raríssimas, que muito se assemelhavam ao bronzil, tinham raízes tão profundas e poderosas que estavam mesmo é absorvendo os veios de prata escondidos sob as rochas – jovem contava a história com notório prazer, atraindo a atenção de todos os aventureiros.

- Cairren se apressou em contar a notícia para o Rei Tavish III. Naquela época o Trono do Leão enfrentava inimigos por todos os lados e lutava ardentemente para manter o reino unido, de modo que a riqueza do Bosque Reluzente poderia ser crucial para a vitória de Keoland, cujos cofres estavam drenados pela Guerra Curta. Coube ao próprio Cairren a difícil e importante missão de explorar o local, e foi nesta época que se deu a abertura das minas – a esta altura, Duin caminhava lentamente pelo templo, sob o olhar atento do grupo, e com pederneira e isqueiro ia acendendo tochas que estavam presas à algumas das pilastras. É que o sol já se punha neste momento, e somente uma tênue e esquálida luz advinha do firmamento.

- Com o tempo, mais e mais exploradores chegaram ao local, ludibriados pela promessa de riquezas, mas o terreno duro e traiçoeiro vitimava mineradores e destroçava os planos de Cairren. Até que o cavaleiro decidiu pedir ajuda aos anões do Principado de Ulek e seus primos nas montanhas, que enviaram os mais audaciosos engenheiros e habilidosos artífices. Finalmente, a mina poderia prosperar – o garoto prosseguia.

- Ora! Nunca ouvi falar nisso! Meus irmãos vieram pra cá? – Bruenor não conseguiu evitar de falar isso em voz alta. Entretanto, Duin não se intimidou e continuou sua narrativa. Na verdade, o jovem parecia ter o discurso bem decorado, como um estudante aplicado que memoriza lições e brocardos dos mais velhos.

- Negligenciando o aviso de adivinhos e outros sábios, Cairren não cessou as escavações até extrair o último veio de prata, matando o Bosque Reluzente (do qual a Árvore Pálida é apenas um fóssil calcificado) e libertando macabros carniçais que habitavam as profundezas, destarte, tornando a Ravina Verdejante em um local tenebroso.

- A sorte do vale só mudou quando Goral chegou e, segundo se diz, guiado pela própria inspiração divina de Santo Bane, conseguiu destruir os carniçais e selar para sempre os túneis negros, restaurando a paz e o bem nas Ravinas. O templo no centro da Ravina Verdejante é um altar para Bane e seu patrono, Pelor, e serve de monumento e baluarte ao triunfo da luz sobre as trevas.

O jovem Duin concluiu, assim, seu discurso, explicando quem é Santo Bane e porque há um templo em sua homenagem bem no centro da vila.

****

Os aventureiros ainda estavam sob o efeito da narrativa de Duin. As palavras do jovem clérigo sem dúvida eram verdadeiras, mas ainda havia muitas dúvidas a serem tiradas:

- É possível ir até essa Árvore Pálida? – perguntou Duncan.

- Sem dúvida. É possível, sim. Há um platô da Árvore Pálida ao norte daqui. Há uma trilha, que não é muito usada. Mas vocês podem encontrar um guia que queira leva-los até lá. Vocês até poderiam ir sozinhos, porém há feras que devem ser evitadas e um guia os ajudaria com isso – respondeu Duin.

- Ao norte? Não é de onde vem as brumas? – Duncan perguntou para Wurren.

- Ahm, acho que não. Aquele lugar estava mais ao leste eu creio – respondeu o meio-orc.

Duin olhava sem se importar com os comentários.

- Bom, e então, estão prontos para fazerem uma doação de agradecimento à Santo Bane? – Duin perguntou meio sem jeito.

- Por que haveríamos de fazê-lo agora? – Bartolomeu perguntou.

- Ora, porque é sob sua graça que nossa humilde vila perdura a salvo de maiores perigos! Está certo que há uma guerra no oeste, que arde com as chamas das rochas atiradas por gigantes tiranos. E é verdade também que os goblins da floresta se aproximam cada vez mais de nossos campos, matando ovelhas e assaltando os silos. Porém, coisa pior não nos acontece porque Santo Bane impede! É a luz de Pelor, brandida no tridente de Santo Bane, que expulsa a morte que aquele cujo nome prefiro não pronunciar insiste em tentar trazer – Duin explicou.

- Ele está falando de Nerull – Duncan sussurrou para os colegas – O meio-irmão de Pelor, O Ceifador.

- Conheço Nerull, mas ele é filho de Pelor e Beory, os Criadores de tudo, e não irmão d’O Radiante – falou Wurren.

- Como queiram. Isso não é importante. Respeitem Duin, ele disse que não quer ouvir o nome profano, e vocês estão repetindo aqui como tagarelas – disse, respeitosamente, Eldrin.

Wurren coçou a cabeça, alcançou a algibeira e pegou duas moedas de ouro para dar ao jovem clérigo. Duncan repetiu o gesto, mas pegou cinco moedas, as quais foram entregues ao sacerdote.

- Faço isso não só em meu nome, mas em nome de todo o grupo – disse o espadachim.

- Fico muito grato. Agradeço muitíssimo. Tenho certeza que a luz de Pelor brilhará muito intensamente nas suas vidas iluminando seus caminhos – ao dizer isso, Duin balança seu cajado e uma aura dourada tênue se espalha pelo templo inundando as almas dos aventureiros com um sentimento de paz e serenidade.

Wurren não acreditava que o jovem pudesse conjurar , então, vira-se para Duin e pergunta:

- Permita-me fazer mais uma pergunta: você costuma visitar a fonte cuja água alimenta esse templo?

- Não. É um lago em cima daquele morro – o sacerdote apontou com o dedo – A fonte foi construída há muitos e muitos anos atrás, antes mesmo de Goral chegar à Ravina Verdejante.

- Neste caso, temos uma notícia ruim pra você – falou o meio-orc – Eu acredito que essa água que banha sua fonte esteja com um certo princípio de contaminação.

- Jura? – Duin estava espantado.

- Sim – o astrólogo falou, corroborando as palavras de Wurren.

- Percebemos que há uma grande concentração de alcatrão na turfeira de onde vem a água. Isso pode fazer mal a quem dela beber – o meio-orc continuou a explicação.

- Olha! Sabe que isso pode mesmo fazer sentido?! Deve ter sido por isso que os dois filhos do compadre Marel ficaram doentes. Na verdade, os dois filhos dele e também o garoto do Aedir. Eu achei que tinha sido coincidência, mas agora acho que não. A pele deles ficou cheia de bolinhas vermelhas! – Duin contou.

Todos ficaram espantados.

- Quanto tempo tem isso? – Duncan perguntou.

- Deixe-me pensar. Nós estamos em 588 do Calendário Comum, no 13º dia da Plantação. Logo, isso deve ter umas três semanas! – respondeu Duin.

- E como estão os garotos? – Wurren indagou.

- Felizmente estão bem. São meus amigos. Meu pai os curou... – o olhar do jovem sacerdote desviou e se perdeu em direção ao chão, como sinal claro de tristeza.

- Ah! Seu pai! Ele também responde pelo templo? – o meio-orc falou sem perceber a dor no olhar do jovem.

- Meu pai era o sacerdote do templo de Santo Bane, mas infelizmente ele faleceu – Duin diz isso com pesar – Como vocês podem ver, ele faleceu tem muito pouco tempo.

- O que aconteceu com ele?- Eldrin perguntou.

- A mesma coisa que aconteceu com meus amigos. A mesma doença que os acometeu também vitimou meu pai, mas ele não pode se curar...

- Nossa, que trágico. E todos nessa vila bebem da água da fonte? – Bartolomeu, que estava ouvindo a tudo atentamente, entrou na conversa.

- A água do aqueduto abastece a fonte de Santo Bane. E só usamos a água da fonte nos festivais de cerimonial, quando a lua Celene está cheia. Fazemos o festival e bebemos da água, que é sagrada – Duin explicou – Aliás, deixe-me ser mais claro. Bebem da água apenas aqueles que participam dos rituais de oblação a Santo Bane. Fora isso, a água benta é usada apenas para abençoar casas e campos, quando necessário.

- E você sabe dizer se os rios que cruzam essa região vão até Orlane?- o astrólogo continuou.

- Acho que sim, não tenho certeza. Você sabe que faz muito, muito tempo que não vou até Orlane? – o sacerdote falou.

- E sabe se tem mais alguém doente nesta cidade? – Wurren perguntou.

- Acho que não – respondeu Duin.

- Está bem. Agradeço muito suas respostas. Eu sou uma espécie de sacerdote de Beory, e gostaria de sua autorização para conjurar uma magia em seu templo – disse o meio-orc.

- Não tem problema nenhum. Esse é um templo d’O Radiante também. E acho que Beory e ele estão em bons termos não é? – falou Duin.

- É sim – respondeu Wurren.

- Neste caso, não vejo problema – falou Wurren, que no passo seguinte entoou uma canção tribal antiga na incompreensível linguagem druídica. Seus olhos se encheram de energia mágica e, olhando ao redor, viu que a aura de Bruenor estava manchada. E a mancha se espraia para a água que banha a fonte de Santo Bane.

- Mestre anão, acho que você está doente. Essa água está mesmo contaminada – falou o meio-orc.

Nos instantes que se seguiram, Wurren preparou um pequeno ritual, com unguentos e orações, e impôs as mãos sobre Bruenor para curá-lo. Ao término, tendo observado a tudo respeitosamente, Duin perguntou:

- Senhor, se a água está contaminada com tão letal moléstia, como poderei ministrar os próximos rituais? Faltam apenas dois meses até o próximo! Vocês precisam me ajudar a entender o que está acontecendo! Eu poso lhes pagar pra isso.

- Não é necessário. Já estamos investigando isso – explicou Duncan – Viemos de Orlane justamente pra isso.

- Sim, meu amigo tem razão. E gostaria de dizer um detalhe importante. A contaminação da água não é natural, fruto de uma doença comum. Mas sim de algum tipo de toxina, fruto de um unguento profano – falou Wurren.

- Envenenamento? – Bartolomeu perguntou.

- Sim, exatamente – respondeu Wurren.

- Acho que já sabemos, então, porque os goblins estavam catando frutinhas vermelhas e alcatrão negro – complementou o astrólogo.

Duin olhava perplexo, e então perguntou:

- Será que conseguem resolver esse problema antes do próximo festival?

- Quero crer que sim – disse Wurren. Os aventureiros se entreolham brevemente, pois sabem que a questão realmente é urgente.

- Tenho apenas uma última questão – Bruenor se manifesta – Você disse que os meus primos de Ulek chamaram os meus irmãos das montanhas de Lortmills para ajudar aqui, na época em que as minas floresciam.

- Sim – assentiu Duin.

- Mas eu não vejo traço das mãos anãs aqui, em construção nenhuma – falou Bruenor, com desconfiança.

- Eu não sei o que responder – disse Duin – Suponho que isso se deva ao fato de que os anões trabalharam muito nas minas, pois a vila já existia, construída pelas mãos dos Keolandeses e dos Oeridianos.



O anão se desculpou pela grosseria. Os aventureiros se despediram de Duin e rumaram para a estalagem mais próxima, em busca de comida e descanso. Afinal, o dia seguinte prometia ser longo...

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