A Podridão de Ugrasha (3)

Goblins são criaturas vis e malígnas e quase sempre atacam em bandos


O meio-orc inicia uma caminhada pelo bosque que margeia a turfeira a fim de alcançar Bartolomeu. Contudo, não presta atenção aonde pisa e acaba tropeçando numa corda estirada sobre o solo, a qual ativa uma perigosa armadilha de estacas! Por sorte, Wurren conseguiu evitar o pior, porém, a barulheira causada principalmente pela colisão das estacas com a vegetação lindeira despertou outros três goblins que estavam escondidos na mata.

Adan não hesitou e disparou um flecha contra um deles, fazendo cambalear de dor. Bruenor avançou correndo o máximo que pode, ao perceber que as criaturas estavam perto demais de Bartolomeu, e se colocou entre o amigo e os adversários. Duncan seguiu o mesmo movimento, mas suas passadas mais largas permitiram-lhe não só alcançar os goblins mais cedo como também desferir e um deles um poderoso golpe com sua espada.

Neste instante, o Ankheg ergueu seu corpanzil para logo em seguida jogar-se de boca sobre a canoa dos goblins. As mandíbulas terríveis partiram um deles ao meio, ao passo que a enorme monstruosidade secretava uma saliva ácida que rapidamente decompunha os restos mortais de sua vítima, facilitando sua deglutição.

Horrorizados, os aventureiros sentiam que era preciso se livrar logo de seus inimigos para fugir dali. Todavia, com seu ataque o Ankheg matou um dos goblins e fez o outro desaparecer sob as águas turvas, o que levou a monstruosidade a se aproximar perigosamente da margem leste onde estava o grupo. Dois goblins estavam diante de Duncan, e um deles conseguiu lhe ferir com sua espada curva.

De repente, então, os aventureiros ouvem rápidas e imponentes palavras mágicas ecoarem pelos ares e um raio de fogo atingindo um dos goblins. Bartolomeu conseguiu ver de onde vinha aquilo: alguém espreitava o combate de uma posição alguns metros mais ao sul e decidira participar.

Adan dispara mais uma flecha e mata outro goblin. O astrólogo se inspira em Wee Jas e sufoca lentamente outro, enquanto Duncan finaliza o terceiro, decepando seu braço com a espada que empunha e, logo em seguida cercando o Ankheg. Sim. Porque Bruenor, vendo tudo isso, não pensou duas vezes antes de concentrar toda sua energia na criatura monstruosa, dando-lhe um golpe forte com o machado sem, entretanto, conseguir vencer a espessa e resistente carapaça do bicho.

Agindo com rapidez e destreza, Wurren se metamorfoseia em um urso pardo enorme, e desfere garradas e uma mordida no Ankheg, que cambaleia com as patas feridas. Bartolomeu vê a oportunidade, percebendo que o dorso do animal não era dotado de um exoesqueleto tão forte. O astrólogo armou sua besta com um virote certeiro, que perfurou o inimigo fatalmente.

O corpo pesado do Ankheg cai sobre o chão, esmagando o goblin que, uma vez tendo desaparecido sob a turfeira, oportunisticamente decidiu nadar até a margem para recolher os pertences de seus aliados para fugir sorrateiramente – sem contar, porém, com o azar de ser esmagado.

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O cenário de combate arrefeceu. Bruenor se aproximou rapidamente do goblin esmagado que, ainda vivo, gemia de dor e blasfemava contra os aventureiros.

- Desculpem se atrapalhei em alguma coisa – disse o estranho conjurador responsável pelo raio de fogo que atingiu um dos goblins (agora falecido). A figurava trajava roupas simples, como um andarilho, tinha cabelos curtos que denunciavam orelhas levemente pontiagudas e falava de modo educado e manso.

- Você não atrapalhou nada. Mas não seria uma má ideia explicar o que estava fazendo aqui – disse Bartolomeu com contida desconfiança.

- É verdade! É melhor se explicar direitinho – falou Bruenor, desprendendo a atenção do goblin esmagado para atentar ao meio-elfo recém-surgido do nada – Eu vi que você fez um feitiço e não gosto disso! Bruxos e magos não são confiáveis.

- Vocês não têm motivos para ficarem desconfiados. Eu explico tudo. Estava escondido atrás do tronco caído de um carvalho. Bem, na verdade, estava dentro do troco, pois ele é oco. Passei a noite ali depois que meu grupo e eu fomos emboscados por goblins nestes bosques. Me perdi de meus colegas e da trilha que seguíamos e acabei forçado a me abrigar aqui, quando em dado momento acordei com a balbúrdia dos goblins. Quando os vi lutando pensei que se quisesse ter uma chance de escapar vivo era melhor colaborar com vocês. Foi o que tentei fazer.

Seu olhar e seus gestos denunciavam a sinceridade de suas palavras e até mesmo Bruenor se acalmou (não sem antes perceber que Dágora se aproximou, como um gatinho inofensivo, para “reparar” no neófito).

- Está bem. Mas isso não explica porque estavam, você e seu grupo, perambulando pelas matas! – falou o anão, dando uma de esperto.

- É que nós fomos contratados por um lorde local para debelar grupos de goblins que estavam assolando a vila de Glenwood. Mas fomos emboscados, terrivelmente emboscados – explicou o meio-elfo, se apresentando em seguida – Meu nome é Eldrin. Eu não sou um mercenário ou coisa do gênero, mas precisava do dinheiro para pagar mais alguns dias da pensão e então seguir meu caminho. A oportunidade me atraiu pelo dinheiro. Só não esperava um desfecho tão dramático!

- Entendemos. Depois você explica isso melhor – disse Adan, olhando para Wurren que arrastava o corpo do Ankheg para dentro do lago. Duncan, então, rendeu o goblin esmagado, para evitar que fugisse.

- Esse está vivo! Podemos interroga-lo – falou o espadachim.

- Ótimo! – respondeu Bartolomeu, futricando nas bolsas de couro mal curtido dos goblins. Nelas encontrou uma luneta quebrada, quinze moedas de prata e cinco de cobre. Além disso, o astrólogo percebeu um embrulho (mal) feito com folhas grandes o qual está repleto de um logo preto e mal cheiroso. Ele não sabe dizer, a princípio, que plantas (ou substrato de plantas, melhor dizendo) são aquelas. Estão tão apodrecidas que sua coloração é preta e seu cheiro é horrível.

O astrólogo exibe aquilo para Wurren, que fica intrigado sem saber identificar o que seja, embora o odor peculiar lhe seja familiar. Adan, então, se aproxima despretensiosamente e diz:

- É piche!

- Há! Pode ser mesmo! É verdade! Como não pensei nisso – falou Wurren. O meio-orc, na verdade, identifica aquilo com uma porção como vegetais de fundo de rio, responsáveis pela formação das pedras pretas e do lodo conhecido como alcatrão negro de turfeira – o resultado de uma metamorfose não exatamente comum, que o transforma num poderoso ingrediente de poções e unguentos.

- Isso está ficando cada vez mais estranho! – resmungou Bruenor.



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