A Podridão de Ugrasha - 4º Ato

Adan se aproxima de Eldrin e pergunta:

- Você disse que estava executando uma missão aqui, mas exatamente de onde você vem?

- Eu venho de Tamlin, uma vila próxima de Orlane – respondeu o meio-elfo – Bom, não da vila propriamente dita. Eu nasci numa pequena fazenda afastada, ao norte, próxima das bordas da floresta sombria.

- Ahmm.... ok. O que acha Bruenor? – perguntou o ladino.

- Não sei exatamente o que achar. Eu não fui, assim, exatamente com a cara desse sujeito. Mas ele não parece estar mentido. De qualquer modo, é preciso estar de olho, afinal, não se confia na palavra de um elfo – respondeu o anão.

- Mas ele é apenas metade elfo – completou Adan.

- Pois é. Mas os homens também não são renomados por sua reputação de alto caráter, diferente de nós anões – explicou o anão, mudando, então, de assunto – Bom, mas deve existir um covil de Ankheg por aqui e deve haver tesouros. O que acham de procurar?

- Como assim? Se houver um covil deve estar cheio desses bichos! – Adan replicou.

- Esse monstro morreu muito facilmente. Se houve mais matamos todos – Bruenor disse exibindo seu machado, diante do que Bartolomeu não conteve uma risadinha irônica. O astrólogo vem nutrindo uma mistura interessante de admiração e precaução ante a atitude extremamente beligerante do mestre anão.

Enquanto a conversa se desenvolvia e se desdobrava em outros assuntos de menor relevância, Wurren terminava de arrastar o cadáver do Ankheg para dentro da turfeira.

- Eu não entendo. Vocês saíram de Orlane por causa da doença, e o que esses goblins têm a ver com isso? – Adan perguntou, em dado momento.

Wurren, que havia terminado sua tarefa, se aproximou ao ouvir a pergunta e respondeu:

- Ahm. A vila não estava sofrendo uma peste nem nada, mas tenho esse temor. Por isso viemos pra cá. Porque percebemos que as fazendas próximas tinham muitas pessoas doentes, e elas são abastecidas com as águas de um córrego que nasce nesta região. Como a maioria das doenças são passadas por água contaminada, resolvemos investigar. E acho que esses goblins podem ter alguma coisa a ver com isso.

- Concordo – falou Bartolomeu.

- Entendi – comentou Adan – Nesse caso, realmente, os goblins podem ter algo a ver. Pelo visto estão coletando ingredientes para fazer algum tipo de unguento. Eles podem estar contaminando a água.

- É bem provável. Na verdade, acho que a leitura está correta – disse Bartolomeu.

- Não creio, é muita água pra muito pouco veneno – ponderou Wurren – Mas acho que estamos na pista certa. Alguma coisa aqui está cheirando mal.

- Deve ser o seu sovaco de orc – grunhiu Bruenor – Ninguém gostou da ideia de procurar o covil do Ankheg?

- Não! – secamente falou o astrólogo, pondo um ponto final da história.

- Vocês não tem recompensa nenhuma para fazer isso tudo então? – Eldrin, finalmente, se intrometeu após ouvir atentamente, recebendo como resposta apenas o balançar negativo das cabeças de Duncan e Wurren.

- Neste caso, vocês podem se juntar a mim. Podemos resolver o problema dos goblins, achar meus amigos que se perderam nos bosques e ainda clamar a recompensa que nos foi prometida pelo condestável de Ravina Verdejante – Eldrin propôs.

- De quanto estamos falando, já que falou nisso? – perguntou Bartolomeu.

- Nos foi oferecido apenas vinte moedas de ouro, para cada um – respondeu o meio-elfo.

- Só isso? Vocês arriscaram suas vidas só por isso? – Bruenor se espantou – Bom, é melhor do que se arriscar por nada, como nós! Afinal, ficamos sem ouro algum! Perdemos nossa recompensa prometida por Leandon!

Adan olhou espantado e não resistiu em contradizer o colega.

- Absolutamente nada?! Nada?! O que é esse machado na sua mão? – o ladino se reportou ao machado mágico “morte lenta”, de gume afiado e bem balanceado, que foi presenteado ao anão por Ânn.

- E aquele trabalho que encomendou no ferreiro de Orlane? Eu bem vi que o serviço não ficou barato... – Bartolomeu também cutucou.

- Ora!!! Estou falando de ouro! – Bruenor se irritou!

- Vocês receberam esse ouro todo, que foi prometido por Lorde Leandon? Não. E, além disso, ficamos sem a herança de Ânn, a qual fazemos jus. Pelo contrário. Tivemos que sair correndo como proscritos! – o anão estava esbravejando.

- Ah! Agora já sei porque os reinos anões estão se esfacelando. Se todos os anões são como você, devem ter ficado de saco cheio um do outro, reclamando e reclamando – Bartolomeu provocou, mais uma vez, causando um rubor de raiva na face de Bruenor.

- Ora, Bartolomeu! Você vai me desculpar. Mas que eu saiba as sete famílias anãs continuam existindo em Oerth bem como seus respectivos salões. Diferentemente dos cinco antigos reinos élficos, que desapareceram, dos quais apenas Celene perdura, aos pés das montanhas de Lortmills. Parece-me que em matéria de um unidade, os anões são muito mais íntegros do que os elfos, dos quais você descende. Ocorre que nós anões não gostamos de ficar parados, e por isso nossos salões são magníficos e repletos de tesouros de toda a terra – disse com efusiva defesa o mestre anão – Entretanto, não vou mais perturbar vocês com meus comentários. Vejo que isto os está incomodando.

- Chega disso! Quanto perda de tempo! Mais importante do que qualquer recompensa é resolver a doença que está assolando Orlane. Eldrin pode não ter entendido, mas estamos aqui altruisticamente, para evitar que essa doença fatal se alastre, potencialmente dizimando o povo de Orlane e de vilas vizinhas – Duncan explicou – Vocês não acham que nossa maior recompensa é fazer esse bem maior? Não é essa nossa maior paga?

- Não, não acho – grosseiramente respondeu Bruenor – Todavia, já disse que não vou mais falar em recompensas com vocês.

- Eu também não acho, não. Eu só estou nessa porque tenho esperanças de encontra o grande druida, amigo do Wurren, para resolver aquele problema pessoal que temos – comentou Adan.

- Isso. Vamos resolver essa questão da doença aqui e aí sim ir para o norte, para encontrar como grande druida – explicou Bartolomeu, causando desconforto no meio-orc.

- Não é assim que funciona... – mas antes que ele pudesse concluir, Eldrin emendou uma pergunta:

- Vocês conhecem o grande druida?! – o meio-elfo teve sua atenção captada em especial pelo comentário.

- Não é bem assim, como eu disse. Eu sou apenas um aspirante a druida. Na minha fé existem diversos círculos druídicos e o grande druida, ou hierofante, é alguém recluso e ele pode não se interessar na nossa causa e nos ignorar completamente.

- Desculpe perguntar assim abertamente. É que eu tenho muita vontade de conhecer o grande druida, pois sei que ele é um ser muito sábio e acredito piamente que o hierofante pode me ajudar a explicar melhor alguns fenômenos que acontecem em minha vida, que agitam a minha alma e, de alguma forma, determinam a minha sorte – explicou Eldrin, fazendo jogo de palavras para não dizer abertamente algo que já estava claro para os demais interlocutores.

- Bom, eu não posso garantir que o hierofante nos vá receber... – Wurren falou com desanimo na voz.

- A casa é sua. Você está nos convidando – comentou Bartolomeu.

- A floresta escura é a casa de muitos seres, inclusive a minha casa. Pode ser a de vocês também. A antiga fé nela habita, mas nela não manda. Não conseguirei explicar isso para vocês agora, mas fiquem tranquilos, pois sua visita à floresta não perturbará os druidas. Nós só chegaremos à sua morada se eles quiserem ser encontrados. Se não, será apenas uma passeio no bosque... com os perigos que lhe são imanentes – Wurren disse com muita seriedade.

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A conversa entre os personagens perdurou ainda por alguns longos minutos. Nestes instantes, Duncan assumiu uma postura de liderança para resgatar o foco dos colegas e reorientar seus esforços a fim de concatenar os objetivos: primeiro desvendar o mistério da doença e dos goblins, depois buscar pelo conhecimento dos druidas.

As distrações com as conversas foram tantas, que o grupo se esqueceu completamente do goblin sobrevivente: aquele que quase morreu esmagado pelo corpo do Ankheg, e que agora estava a uma razoável distância, empreendendo uma fuga furtiva pelos bosques que só foi percebida inicialmente por Bartolomeu.

O astrólogo fez um sinal para Adan e imediatamente começou uma perseguição furtiva ao monstrinho fugitivo.

- Pessoal! – Adan sussurrou para chamar a atenção dos colegas, que ainda demoraram alguns instantes para entender tudo o que se passava.

E, assim, o grupo liderado por Bartolomeu, empreendeu uma discreta perseguição ao goblin, que se embrenhava na mata até desparecer nos brumas algumas centenas de metros colina acima.

- Uma cerca de espíritos! – o astrólogo parou de súbito ao perceber uma estaca fincada na mata ornada com uma caveira e bode. As brumas que ase adensavam no local lhe deram um frio na espinha e um mau presságio lhe acometeu.

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- Cadê o bicho?! – Adan perguntou a Bartolomeu assim que o alcançou, somente então notando a neblina pesada que cerva o local.

- Faça silêncio, há uma cerca de espíritos bem ali – o sacerdote de Wee Jas apontou para a estaca bizarra – O goblin sumiu. Aquideve ser seu território. Seu covil está protegido por um xamã.

Duncan, Wurren, Bruenor e Eldrin alcançam os dois.

- O que houve? Por que saíram rapidamente? E que lugar é esse? – Duncan indagou.

- O goblin fugiu enquanto nos distraíamos com aquela conversa inútil. Agora estamos diante de uma cerca de espíritos! Tomem cuidado. Talvez seja melhor recuar – Bartolomeu sentia o cheiro da morte, e temia que aquele fosse o sinal de alguma desgraça.

O augúrio do sacerdote não estava totalmente equivocado, eis que a morte realmente espreitava de forma muito mais sórdida do que podia imaginar a princípio.

- Atenção! – falou Bartolomeu, ao perceber que criaturas cercavam o grupo, saídos da “escuridão” das brumas – São carniçais,, crias profanas de Orcus! Seu toque gelado pode paralisar suas almas e roubar vossos espíritos! Acautelem-se!

Os monstros se aproximam e os aventureiros já podem sentir o ar frio que lhes acompanha. Suas respirações aceleram e o ar de seus pulmões se condensam. Um risada maligna ecoa ao longe, juntamente com sons bizarros. O cheiro de enxofre invade as narinas de Duncan:

- Mortos vivos! Este local está conspurcado pelo mal! – o paladino saca sua espada – Preparem-se para o combate!!!

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Os carniçais são mortos-vivos, mas não são lentos como zumbis. Ao revés, são rápidos e ágeis. Rapidamente conseguiram cercar o grupo de intrépidos aventureiros, a despeito do esforço de Bartolomeu para organizar uma batida em retirada (à qual, desta vez, os colegas pareceram respeitar).

Duncan orou com fervor, invocando os poderes místicos dos espíritos da natureza assim que viu Adan ficar paralisado pelo toque gelado de um dos carniçais. Wurren transformou-se em um urso pardo e avançou sobre dois monstros que cercaram Dágora.

Já Bartolomeu tentou manter a distância, como de costume, mas viu-se alvejado pelas costas e só não foi cercado porque Bruenor chegou para confrontar outra criatura.

Naquele fim de tarde tenebroso a sorte não parecia estar ao lado dos aventureiros, pois muitas foram as chances desperdiçadas de dar um fim rápido aos monstros. Contudo, os carniçais demonstravam avidez de sangue e carne frescos e resistiam os golpes e flechadas.

Eventualmente, Dágora sofreu uma mordida e, paralisada, caiu no chão inerte provocando o furor de Wurren que atacava com ainda mais vontade. Porém, de uma cova rasa, um outro morto-vivo emergiu.

Eldrin conseguiu ler a discreta lápide que jazia sob a cova, no pé de um olmo velho:

- Droga! Esse carniçal era meu colega! Transformaram-no num monstro! – disse o meio-elfo com horror.

- Essas criaturas são mais fortes do que pensávamos! Vamos! Lutem como se não houvesse amanhã, pois se não lutarem pode ser que realmente não tenhamos! – bradou Duncan em incentivo aos colegas, que se encheram de esperanças para realizar uma última investida organizada contra os monstros.

Felizmente, dessa vez as criaturas não resistiram. O espadachim decepou o braço de um e depois a cabeça de outro em dois golpes rápidos de espada. Bruenor destroçou o abdômen de outro e Adan acertou uma flechada certeira.

Um a um os monstros iam caindo.

E quando o combate finalmente acabou, Bartolomeu rapidamente tratou dos ferimentos de Dágora, que ainda vivia, espantando as chagas espirituais que sufocavam sua alma felina.

- Temos que ir embora! Não podemos prosseguir mais! – falou o astrólogo com tom pesado na voz.

- Vamos voltar para a civilização. A vila de Ravina Verdejante não é longe – falou Eldrin.



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