The Get Down - Um musical nada mau



Quando eu vi o anúncio do seriado "The Get Down" na minha página inicial da Netflix (ou pelo menos quando eu prestei atenção nele) estava terminando de assistir Stranger Things. A sinopse é de uma série que conta a história do surgimento do rap e do hip-hop e se passa nas ruas sujas e violentas do Bronx (NY) no final dos anos 70.



Confesso que essa chamada não me atraiu. Isso porque, em linhas bem gerais, não sou apreciador da música hip-hop e nem da cultura associada (embora alguns títulos e artistas do gênero figurem na minha playlist, o que é um contrassenso).

Mesmo assim, por alguma razão que agora não se explicar, resolvi dar uma chance ao seriado e assistir ao primeiro episódio... e não parei mais até ver o último (da 1ª parte, até agora disponibilizada pela Netflix).  Na verdade, dá pra explicar sim.

É que, como sempre (para mim), a ambientação da década de 70, com suas músicas e roupas extravagantes, é absolutamente fascinante e talvez tenha sido isso o que me animou de começar a ver. Porém, o que me fez continuar até o último episódio foi uma história envolvente, muito bem contada e ricamente interpretada por artistas competentes que deram vida aos atraentes personagens do folhetim. A série muda de tom o tempo todo no primeiro episódio (que é muito longo, com cerca de uma hora e meia) e nos primeiros trinta minutos você ainda não sabe se vai gostar mesmo daquilo ou não. Afinal, como opinar se o ritmo da narrativa muda o tempo inteiro? Num momento você está assistindo um documentário de tons pastéis, noutro está vendo um musical colorido e dançante e noutros um romance de profunda complexidade e nuance.

E é essa mistura maluca que me fez continuar o primeiro episódio e até o final da série. Essa técnica narrativa cria uma expectativa grandiosa, quase épica, e você quer saber onde aquilo vai chegar. O primeiro episódio constrói todo o background dos principais personagens e, a despeito do começo realista e (em alguns momentos) sombrio, logo adota o tom que marcará o restante do seriado. E ele não se leva a sério em alguns momentos, se preocupando em mostrar de modo alegórico e romântico as raízes do hip-hop e do rap nos guetos do Bronx, contando como este novo estilo musical teve que batalhar sua trajetória na preferência do povo (primeiro na periferia de Nova Iorque, e depois no resto dos EUA) sobre a Disco Music. Não se confunda: parece que o propósito principal de The Get Down ainda é ilustrar o surgimento do hip-hop e do rap com alguma fidelidade e respeito aos cânones. A forma escolhida é que é exótica, porque te confunde no começo, misturando técnicas de documentário, musical (tipo Moulin Rouge) e romance lúdico e alegórico.

Isso nos leva ao visual, que é incrível. O Bronx é retratado de modo teatral, com muitas imagens em desfoque, num perpétuo tom marrom e pastel que parece servir ao propósito de realçar a atmosfera agreste do bairro pobre e de periferia. Não sei dizer se foi esse o intuito dos produtores e do diretor, mas a mim pareceu que essa atmosfera contribui para ressaltar um aspecto da vida dos personagens que só no começo do primeiro episódio é realmente explorado (o lado da vida real, dura, pobre e violenta na periferia da cidade grande). É esse visual que te faz por os pés no chão da realidade. Pois, como disse acima, os personagens vivem num carrossel que muda do romance ao musical, da aventura ao drama, do funk ao disco music e diversos aspectos da vida real deles é deixado de lado já a partir do segundo capítulo. Parece-me, pois, que é a estética do Bronx e (mais tarde da própria Manhattan) que te faz lembrar que aquilo tudo é uma representação de uma história mais ou menos real.

Bom, essa primeira parte tem apenas seis episódios (outros são esperados para 2017) e não posso detalhar demais os eventos sob pena de frustrar a experiência de quem ainda não assistiu. Mas, em suma, conta-se a história de Zeek e Mylene. Ele um órfão inteligente e cheio de um potencial que não consegue expressar. Ela a filha de um pastor e de uma carola de igreja extremamente conservadores, que canta no coral da igreja e aspira virar uma estrela. Zeek descobre uma forma valorizada pela comunidade de expressar sua inteligência e seus sentimentos e isso o aproxima de Shaolin, um outro jovem que almeja se tornar um DJ. Mylene encontra no tio mafioso uma oportunidade de lançar carreira como cantora, o que faz sob protestos do pai. Como coadjuvantes, somam-se os irmãos de Mylene e outros colegas de Zeek, com especial destaque para o personagem de Jaden Smith.


Jaden, aliás, está irreconhecível. Eu mesmo demorei algum tempo para perceber que o filho do Fresh Prince of Bel Air estava atuando no seriado. Ele não é tratado com estrelismo (pelo contrário, sua participação só se torna relevante no penúltimo episódio da primeira parte desta temporada), mas como seu personagem é um pichador/grafiteiro Jaden acaba tendo uma importância para a contextualização do povo daquela periferia e não deixa de ser, também, uma válvula de escape para a diversificar a história com uma subtrama que se interliga apenas por acaso com a principal. Por outro lado, o grafite faz um papel importante ao dar cores àqueles tons pastéis do Bronx a que me referi alhures.

Em resumo, portanto, The Get Down é um seriado que vale a pena ser assistido, especialmente por pessoas que gostam de música e de musicais ou têm alguma curiosidade sobre a cultura do rap e do hip-hop e suas raízes americanas. Não espere "gritty realism", mas sim uma história com romance (e alguma aventura, vá lá), muitos recursos lúdicos e alegóricos, e uma narrativa envolvente e bacana, com personagens (e atores) carismáticos e atraentes.

Só tome cuidado para não calçar seus patins e polainas e sair por aí dançando... ;p

Comentários