Os Herdeiros de Ânn - Epílogo pt. 3 - FINAL


O gigante das colinas é um ser fortíssimo, porém não muito esperto (JUSTINIS /WotC)


À noite, Adan e Bruenor estão sentados à mesa na estalagem do Rancho Quebrado. Seus colegas estão em viagem rumo à Àrvore Pálida, enfrentando uma caminhada pela estrada oeste.

Um grupo composto por três menestréis que chegou à Orlane há pouquíssimo tempo, está tocando uma música alegre na estalagem, animando a noite.

- Vejo que temos um senhor distinto aqui e um, posso supor, verdadeiro mestre anão! Certamente hão de apreciar a qualidade da nossa arte – disse um dos menestréis, no intervalo de sua apresentação, como forma de bajular Adan e Bruenor, claramente no intuito de colher disso alguma vantagem.

- Viemos da Colina do Gancho para o festival de Tanabat, mas chegamos tarde. Atrasamos na Guarda Florestal. Ficamos retidos lá por causa dos rumores de gigantes na Serra de Taura – explica Gennedel quando perguntado de onde vêm por Adan – Agora que já estamos aqui tentaremos ganhar dinheiro, mas esse povo rude não parece apreciar trovas e canções de outrora.

- Ah vá! Gennedel! A culpa do nosso atraso foi sua. Foi você quem deu a ideia de virmos pela Estrada do Grande Rio. Se tivéssemos vindo pela Encruzilhada de Buxton teríamos chegado a tempo, encheríamos nossos bolsos e estaríamos de volta à Colina do Gancho sem demora! – respondeu um de seus colegas menestréis, chamado de Tyrn (um pequenino de pés grandes e peludos).

- Tudo bem. Que ótimo. Bom pra vocês. Mas nós não temos tempo a perder por aqui. Estamos de saída – falou Adan. O ladino soube através de Bruenor que seus colegas se ausentaram da cidade e que rumavam em direção à Árvore Pálida. Apesar da insistência de Adan, o anão continuou firme em seu propósito de só ir embora de Orlane com o tesouro prometido nos bolsos.

- Deve haver algo que você queira aprender, alguma canção que queira ouvir, ou notícias que queira saber sobre o local para onde vai, meu caro! – falou Gennedel – Me dê a oportunidade de iluminar seu caminho!

Adan cedeu. Afinal, ainda estava enculcado com o pergaminho de Ânn e o segredo escondido pela tinta élfica lunar. Por outro lado, o ladino ainda tinha consigo as duas cimitarras que surripiou de Salahadhra, e que ostentavam inscrições na língua negra dos elfos.

- Você conhece algum sábio que possa traduzir isso pra mim? – perguntou Adan, mostrando a lâmina profana e suas inscrições.

- Hummm... Isso parece ser língua negra dos elfos, ou melhor, a língua drow. Não será fácil encontrar alguém que possa te ajudar, mas por uma justa recompensa posso lhe indicar uma pessoa... – falou sugestivamente o senhor Gennedel.

Foi neste momento, quando levou a mão ao cinto, que Adan percebeu que sua algibeira tinha sido furtada!

- Tyrn! Pode parar por aí mesmo! Devolva a algibeira ao bom homem! – falou um elfo que se aproximava do exato local da taverna em que acontecia a conversa – Queira me perdoar, meu caro senhor, eu sou um menestrel também, e Gennedel e Tyrn são meus companheiros de viagem. Já os advertisa contra esse tipo de subterfúgio.

- É mesmo?! – falou Bruenor com muita irritação.

- Sim. É sim. Essa conduta não é adequada. E para provar isso, daremos a vocês a indicação de que precisam sem lhes cobrar nada. A propósito, me chamo Erfyl – disse o sujeito, olhando nos olhos de Gennedel e Tyrn, com evidente reprovação de suas condutas.

Bruenor e Adan a princípio não queriam aceitar as desculpas, mas logo viram que era melhor assim.

Deste modo, Erfyl contou aos aventureiros sobre um sujeito conhecido como Gwynnedin, O Pedinte. Trata-se de um fidalgo geoffita que sempre frequentou as vilas de Orlane, Hochoch e Shiboleth, onde era muito conhecido e querido. Porém, quando os gigantes atacaram sua terra natal, sua família inteira foi assassinada e o homem enlouqueceu. Eventualmente ele veio a perder tudo o que lhe restava com bebedeiras, prostitutas e dívidas de apostas, vindo a se tornar um mendingo maltrapilho e leproso. Então odiado e malvisto, o homem se tornou velho e dizem que se recolheu para uma torre abandonada na antiga estrada do Salgueiro Vergado.

- Mas a estrada antiga está abandonada por uma razão! Ela está infestada de criaturas vis, especialmente de perigosas aranhas gigantes. Só loucos como o velho Gwynnedin passariam voluntariamente por lá – completou Gennedel.

- Sim, é verdade – confirmou Erfyl – Mas se vocês querem saber, Gwynnedin já foi o maior sábio destas terras. Se alguma lucidez ainda lhe sobra, é a pessoa certa com quem gostariam de conversar para saber sobre qualquer coisa.

- Balela! Como você sabe dizer uma coisa dessas? – Tyrn disse com desdém.

- Eu já fui um aventureiro e conheço muitas histórias, você é que nunca as quis ouvir – e os menestréis iniciam, então, um verdadeiro bate-boca que deixa Adan e Bruenor desconfortáveis a ponto de quererem se aproveitar do momento para sair sem nem sequer ter que se despedirem.

****

A viagem de Duncan, Wurren e Bartolomeu seguia tranquila. A estrada de basalto segue ao leste, mas após uma noite e um dia inteiro de caminhada, surge uma bifurcação sinalizada.

- Ah! Há uma placa aqui dizendo que Árvore Pálida fica para o norte nesta estrada – comentou Wurren.

- Então esse é o nome de uma localidade mundada, afinal – falou Duncan.

- É o que parece – completou Bartolomeu, incentivando o prosseguimento da caminhada.

De repente, quando estavam já a algumas léguas depois da encruzilhada, os aventureiros viram uma coluna de fumaça subindo por trás de um outeiro próximo, e ouviram sons de espadas tilintando e o grito de horror de um homem.

Curiosos, desviaram seu caminho e subiram no outeiro, para observar, com horror, que um acampamento de viajantes acabara de ser atacado por um gigante.

A enorme criatura percebeu a intromissão dos aventureiros e imediatamente lançou contra eles uma enorme pedra que levantou do chão. O projétil atingiu Duncan que raspão, que caiu de dor no chão com o ombro esquerdo deslocado.

Wurren, então, se transformou em um urso e partiu para cima da criatura, pegando Bartolomeu de surpresa, já que o astrólogo reputava que fugir seria o mais lógico – já que o gigante ainda estava há algumas dezenas de metros de distância.

- Pelo visto não tem jeito! Vocês são malucos! – falou Bartolomeu, sacando sua besta, armando-a com um virote e disparando-a contra o monstro. O virote o atinge na barriga, e quando isso acontece um estalo alto e surdo denota que o projétil estava encantado graças à uma oração silenciosa que Bartolomeu fez a Wee Jas.

Duncan se levanta com dificuldades. Faz um esforço enorme e consegue reposicionar o ombro deslocado e, invocando poderes dos espíritos que animam a natureza, ele sara as feridas e reconstrói os tecidos lacerados, mirando com fúria divina o gigante ameaçador.

Entretanto, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Wurren (transformado em urso marrom) desfere patadas ferozes contra o gigante, abrindo rasgos profundos em sua pele. Bartolomeu tornou a insistir nos virotes abençoados e, finalmente, Duncan consegue se aproximar para desferir um golpe de espada.

O gingante tentou esquivar, e logo em seguida girou com violência o caule de uma árvore que arrancou do chão para esmigalhar os adversários. Porém, Duncan e Wurren se abaixaram bem na hora. O espadachim o golpeou e Wurren mais uma vez conseguiu penetrar o couro duro do monstro, que não resistiu aos ferimentos e caiu imóvel no chão.

- Caramba! Achei que os gigantes estavam mais longe – comento Wurren.

- É... parece que estão muito mais próximos do que pensávamos – disse Duncan em tom desolador, observando uma montanha grande no horizonte à frente pontilhada com diversas colunas de fumaça, indicando a presença dos vilões na região para onde segue a trilha da Árvore Pálida.

****

Adan foi até o lado de fora da estalagem para conversar com Bruenor e acabou convencendo o anão a ir atrás dos demais aventureiros. O anão, porém, fez questão de pelo menos jantar antes de pegar estrada.

Os aventureiros se sentaram à mesa novamente então e logo perceberam a presença de um grande grupo de soldados Wyvern. Os homens estão espalhados por três mesas e uma parte do balcão, comendo e bebendo loucamente. Eles falam alto e o tom de suas conversas é, aparentemente, de celebração.

- Fildurn! Traga mais uma rodada de cerveja para todos os meus companheiros! Essa é por minha conta – grita um dos homens, erguendo o caneco de lata com a mão esquerda enquanto que com a mão direta coloca descuidadamente um punhado de moedas de ouro sobre o balcão (provavelmente mais do que seria necessário para pagar por toda a orgia).

Bruenor cutuca Adan ao ver a cena e diz:

- Ora! Essa! Parece que já receberam a recompensa. E nós nada?! – bradou Bruenor, enraivecido, antes de caminhar de modo incisivo contra um dos soldados para tomar satisfações.

- Que história é essa? Estão bebendo com o meu dinheiro? Deem o meu dinheiro! – gritou o anão, possesso.

- Do que está falando, seu anão?! E tire suas mãos sujas de cima de mim – respondeu em tom ainda mais agressivo o soldado abordado por Bruenor – A sua recompensa e dos seus amigos ali está com Lorde Traban, se resolva com ele!

Bruenor, então, arrefeceu, percebendo que não era com aqueles reles soldados que deveria lidar.

- Eu não quis acusa-lo de ladrão. Mas quero saber quando Traban pretende nos pagar. Ele não disse nada? – falou o anão.

- O fará amanhã cedo, pois assim o disse. Então, amanhã vá lá e pegue o seu precioso tesouro – falou com um tom de amargura na voz – Merda! Não era pra isso que nos arriscamos tanto. Não foi pra isso que Ânn morreu – lamentou o soldado.

Bruenor ficou olhando por instantes em silencio, com perplexidade no olhar e o olhar encrispado até que finalmente falou:

- O trato não foi justo?

- Não foi cumprido, é diferente – respondeu o soldado.

- Como assim? O barão não pagou o que devia?! Traban não pode aceitar! E a minha parte? – falou o anão, começando a se aborrecer de novo.

- Não seja ridículo! Traban é que não honrou o combinado conosco. Ânn nos prometeu terras, onde pudéssemos plantar e viver com nossas famílias. Mas Traban trocou tudo por um punhado de ouro. Tolo!!!

Bruenor não escondeu o sorriso ao ouvir o soldado falar. A simples menção à palavra “ouro” já o fazia pensar nas riquezas infindáveis dos palácios de seus primos nas montanhas Lortmills.

- Eu entendo seu sorriso irônico, anão. Mas muitos de nossos homens queriam mesmo era um pedaço de chão para plantar e criar umas cabras, e um lorde sob cuja proteção viver. Ânn prometeu que conquistaríamos tudo isso um dia, a começar por aqui. Mas agora ela se foi e Traban não parece crer nos mesmos ideais – explicou o soldado, com tristeza.

- Nem alguns de seus colegas – ironizou Adan, se juntando à conversa, sem perceber que esta atitude chamou a atenção dos demais soldados que estavam nas mesas próximas.

- Infelizmente, é verdade. Nem todos estão tristes. Alguns de nós certamente ficaram muito satisfeitos com o ouro. Mas são tolos, pois a paz se conquista com Poder e não com ouro – respondeu filosoficamente o soldado, deixando o anão desconcertado.

Estava claro, assim, o motivo do burburinho no castelo mais cedo, e também ficava claro o estranho clima dentro da taverna entre os homens (que agora são) de Traban: enquanto havia alegria e regozijo de uns, pairava decepção e amargura entre outros.

De repente, Adan sentiu uma fisgada nas costas e percebeu que um dos Wyverns se aproximou por trás de si e o emboscou.

- Há! Você é o Adan não é? Achou que ia roubar de nós e sair impune? Traban colocou um preço na sua cabeça! – falou o soldado com discrição para não causar tumulto na estalagem.

Adan respondeu com igual discrição, dizendo que o soldado iria se arrepender daquela atitude. Todos que estavam por perto, participando da conversa até então amigável, perceberam o que estava acontecendo.

- Deixe disso cara! Traban não honra nossa líder Ânn! – disse um dos soldados, tentando avitar derramamento de sangue.

- Quem é você pra dizer isso? Ela prometeu liberdade, mas viramos seus escravos na verdade. Escravos da vontade dela. Traban pelo menos paga em ouro. E esse bandidinho aqui andou surrupiando as coisas do nosso acampamento – respondeu o agressor.

Bruenor estava enfurecido, mas se conteve diante da reação de todos. Ele também não queria ser o responsável pelo começo de um tumulto que poderia resultar em uma tragédia. Sem embargo, seus olhos estavam claramente apreensivos e seus músculos enrijecidos.

Adan, então, começou a se virar lentamente para ver nos olhos aquele soldado.

- Nós também somos herdeiros de Ânn. Você não ouviu o que disse Traban? Não peguei nada que não me pertencesse por direito. E quanto a você? Se revelando um ladino sujo e sem honra, me atacando por trás! Vá em frente! Enfie essa faca no meu bucho! Mas olhe bem, porque se você não me matar na primeira facada eu vou esfolar você inteiro com essas cimitarras que tomei como espólio depois de derrotar a mítica criatura Salahadra. E se, ainda assim você tiver sorte e conseguir me ferir mortalmente, o que espera que lhe aconteça? Não vê que tenho um anão guarda-costas sedento pelo seu sangue bem atrás de você? Há! Antes que possa piscar sua cabeça estará no chão, dando trabalho ao pobre Fildurn.

Adan disse isso tudo com verve. Seus olhos pegavam fogo, e sua confiança estava realmente alta. O agressor ficou sem palavras.

- Então?! Não acha melhor ir atrás de mais capangas de Traban? Não vê que aqui está sozinho? – completou Adan.

- Maldito! Eu vou foder você! – disse o sujeito, saindo da estalagem certamente para alertar Traban – Minha vida não vale as poucas peças de ouro da sua recompensa, mas quando contar ao Lorde Traban de sua traição confessa tenho certeza que pagará melhor! E aí sim, nossos homens irão atrás de você e do seu bando de safados!!!!

- É. Isso mesmo! Fuja seu covardão! – disse Adan, para em seguida virar-se para Bruenor e dizer – Acho que essa é a nossa deixa. Agora você não tem mais tesouro nenhum para receber, eu creio.

Infelizmente para o anão, aquilo era verdade. Assim, os aventureiros decidiram ir embora e contaram, para isso, com a ajuda de alguns dos soldados Wyverns fiéis a Ânn que estavam na estalagem, os quais lhes cederam seus cavalos. Deste modo, Adan e Bruenor partiram rumo à Árvore Pálida para reencontrar os colegas com a certeza de que, agora, têm na liderença dos Wyverns Dourados portenciais inimigos.



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Comentários

  1. Esse meio-orc desmiolado e o paladino salvador de trollinhos ainda vão matar a todos!! Bruenor pelo menos é coerente e diz que seu machado está sempre com sede de sangue, e age como tal. Mas o defensor e o adorador da natureza estão sempre nervosos atrás de sangue, e tem uma moral que os lordes e os capitães de exército adoram: fugir é covardia. Todo o resto é permitido, mas fugir, ah, que horror! Não podemos fugir nem matar filhotes recém-desmamados de troll cuja mãe acabamos de matar e queimar na frente deles!!!

    Bartolomeu acha os dois humanos, demasiadamente humanos e fantoches das falaciosas histórias heróicas que os menestréis contam por aí. Mas eles são jovens ainda.

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