Os Herdeiros de Ânn - Epílogo, pt 1

O centro da vila de Orlane tem construções geminadas. A ruas são irregulares e sujas. (Desconhecido / Pinterest)


A cidade estava estranhamente silenciosa, mas com a chegada dos Wyverns Dourados a situação estava prestes a mudar. Os mercenários acamparam no interior das muralhas do castelo do barão Eirig, aguardando até que Traban e os lordes da cidade concluíssem sua reunião. A noite foi tranquila.

****

Pela manhã, os aventureiros se reuniram entorno de uma das mesas da estalagem. Fildurn se aproximou e ofereceu pão, chá e leite para o desjejum.

- Eu aceito o leite e o pão – falou Duncan.

- Já eu prefiro chá, não gosto de tomar leite – falou Bartolomeu.

Adan não respondeu, pois estava pensativo. Durante a noite expôs o pergaminho roubado da tenda de Ânn à luz da lua por diversos momentos e começa a achar que a carta só pode ser lida com a luz plena de Celene, e por isso está ilegível, já que mesmo sob a luz pálida de Luna as inscrições não ficam totalmente visíveis.


- Já que gosta de chá, Bartolomeu, gostaria de experimentar um chá preto totalmente novo? Recebi um carregamento de Niole Dra há pouquíssimo tempo. Os grãos vêm de navio pelo Mar dos Príncipes e são raríssimos! – falou Fildurn, que recebeu uma resposta positiva do astrólogo e logo se dirigiu à cozinha, onde esquentou água, moeu os grãos e preparou a infusão cujo aroma invadiu o salão enebriando os aventureiros.

- Nossa, que cheiro gostoso! – exclamou Bartolomeu, ávido por experimentar a nova bebida.

- Realmente, muito gostoso – completou Duncan.

- É – monossilabicamente murmurou Adan – É, olha só, eu fiquei pensando, e acho que já entendi porque o pergaminho d’Os Silenciosos não está legível. Pensei muito sobre isso porque, mesmo estando nublado, há muitos momentos em que Luna aparece por inteiro, e eu fiquei a noite toda tentando ler e não conseguia, o que me levou a concluir que essa tinta lunar que foi usada pode só funcionar sob a luz de Celene.

- Hum! Não tinha pensado nisso! – falou Wurren.

- O problema é que o último festival aconteceu há pouco mais de duas semanas. Levará dois meses pelo menos até que Celene fique cheia de novo! – reclamou Adan, com mau humor.

- Aqui está seu chá – falou Fildurn, colocando a bebida negra diante de Bartolomeu, que a experimentou e sentiu um leve amargor que, a princípio o incomodou, mas logo o fez sentir-se revigorado.

- Incrível essa bebida, Fildurn! Muito boa mesmo! Ainda mais assim, comendo essa broa de milho que nos serviu! Acho que amanhã cedo repetirei a dose – falou o astrólogo.

****

O tempo encoberto por nuvens trouxe calor pela manhã. Lentamente as ruas ganham movimento e os aventureiros percebem que a vida segue, de fato, normal em Orlane. As ruas de terra batida, sulcadas pelas águas pluviais enegrecidas pelo esgoto atirado a céu aberto, ainda têm alguns pontos alagados pelas chuvas das noites anteriores. Pontos estes nos quais os diversos animais (porcos, galinhas, muitos cães e alguns gatos) que perambulam soltos pela cidade se refestelam, tomando banho e saciando a sede.

O largo que se forma nas imediações do castelo do barão está um pouco diferente, contudo. Nota-se que foram erguidos alguns postes de pau em diversos pontos da grande praça, e cordas finas foram esticadas entre eles, nas quais se perduraram bandeirolas nas mais diversas cores (especialmente vermelho, azul e amarelo).

Wurren saiu da estalagem junto com Bartolomeu e Duncan. Enquanto estes procuravam uma forma de contatar lorde Leandonn, o meio-orc decidiu procurar por Dhubra (a velinha que salvou em sua última passagem pela cidade). Bruenor o estava acompanhando, aproveitando a oportunidade para redescobrir a vila.

Perguntando a um feirante, descobriu que antes de ontem ocorreu o festival de Tanabat, também conhecido como festival das sete irmãs.

- Deve ser um festival religioso – disse o meio-orc, em voz baixa, para o anão emburrado, que se surpreendeu quando seu colega simplesmente deu de ombros para a informação.

“Pensei que esses druidas eram mais interessados” Bruenor refletiu em silêncio, enquanto Wurren ouvia as instruções sobre como chegar à casa da velha.

****

Bartolomeu e Duncan se aproximam do castelo e notam que o portcullis está aberto e dois homens montam guarda, pacientemente, examinando os interesses daqueles que se aproximam da entrada. Vê-se que os Wyverns estão com seu acampamento montado de improviso no pátio interno, e ouvem-se os guardas reclamando da situação:

- Abusados esses mercenários! Estão emporcalhando o pátio, e depois sobrará para um de nós limparmos toda essa sujeita – resmungou um deles, que ostentava um fino e longo bigode.

- Feche essa matraca Claddwel, se o barão te ouve falar desse jeito te mete na masmorra – respondeu o outro, irritado com as reclamações que, pelo visto, está acostumado a ouvir – e vocês, estão olhando o quê? – perguntou se dirigindo à Duncan e Bartolomeu que, tomados de assalto, corrigem a postura e impostam a voz para manifestar o desejo de acessar as dependências da fortaleza para falar com lorde Leandonn.

- Vocês comeram cocô? O barão jamais permitiria que ficassem passeando por aí. Ainda mais tipos sujos e vagabundos como vocês. Além do que, estão pensando o quê? Isso aqui é um castelo! É um lugar para homens de verdade, que empunham armas. Ora! Saiam daqui! – disse o ríspido guarda.

Bartolomeu olhou com desprezo e decepção para os homens e virou-se de costas para ir embora. Não. Ele não estava cabisbaixo, pelo contrário: o orgulho continuava intacto. É que o astrólogo não se rebaixaria a discutir com um guarda zé mané.

- Esperem um pouco! Calma Degan! Não vê que são estrangeiros? Podemos trata-los melhor do que isso, não acha? – havia um tom estranho na pergunta de Claddwel, que interrompeu a caminhada de Bartolomeu e Duncan.

- Er, hum. De fato – ambos os guardas trocam um rápido olhar e Claddwel coça o nariz – Mas o que disse permenece sendo a verdade. O que estão procurando? Porque a depender do que seja, se quiserem, podemos dar uma informação útil – os guardam insinuam a necessidade de uma recompensa pela dica, obviamente.

- Nós queremos falar com o lorde Leandonn, mas pelo visto vocês podem responder por ele, não é? E pelo visto ele não quer ter conosco, mesmo tendo nos contratado para resolver o problema com o povo-lagarto – falou respondeu Bartolomeu.

- Na, não é bem assim. Mas cumprimos ordens e realmente não podemos deixar estranhos entrarem – ia dizendo Claddwel antes de ser brutalmente interrompido pelo astrólogo:

- Neste caso, não temos nada a dizer a vocês. Encontraremos outra forma de falar com o lorde, e lhe diremos do seu comportamento. Passem bem!

Duncan e Bartolomeu, então saíram de perto do portcullis e se puseram a andar pela feira por alguns minutos, quando uma ideia ocorreu ao espadachim:

- Bartolomeu, podemos pedir ao bom Fildurn para que avise ao lorde que estamos de volta e que queremos lhe falar.

O astrólogo não disse nada, mas olhou intrigado.

- Foi Fildurn quem transmitiu nossa mensagem de aceitação da missão ao lorde Leandonn. Acredito que o velho estalajadeiro tenha um meio de falar com ele – completou Duncan.

- Façamos isso então. Falemos com Fildurn – o astrólogo decidiu.

****

Wurren chegou à casa da velha Dhubra, conforme as indicações que lhe foram dadas. Era um casebre com uma vasta horta. O meio-orc ficou observando o local por instantes, e percebeu que uma menina lhe olhava do pórtio de entrada. Quando seus olhares se cruzaram, a menina correu para dentro da casa e se trancou lá.

O meio-orc olhou para Bruenor, e o anão resolveu ficar pela rua enquanto o companheiro caminhava lenta e calmamente em direção a casa. Wurren bateu na porta por duas vezes e, então, ela se abriu cerca de um palmo.

- Q, quem é você? – a menina perguntou.

- Eu me chamo Wurren. Não se assuste. Eu só vim saber como está Dhubra, ela mora aqui não é?

- Você conhece minha vó? – respondeu a menina.

- Sim. Eu acho que a salvei na feira outro dia.

- Ah!!! Então você é o príncipe encantado dela! – falou a menina, abrindo a porta. Mas seu rosto denunciava tristeza, e logo veio e a explicação – Ela está muito doente, desacordada.

Wurren ficou muito preocupado e pediu para ver a pobre senhora, que estava num cômodo em separado, deitada sobre um colchão improvisado, feito de feno, e coberta apenas por uma fina manta. Seu corpo estava repleto de pústulas e claramente, estava febril.

- O que houve com ela? – perguntou, muito preocupado.

- Eu não sei... ela ficou mal assim em poucos dias. Começou com umas pintinhas e, de repente, passou mal e ficou neste estado – respondeu a menina.

O meio-orc sabia que se tratava de uma doença contagiosa muito perigosa, possivelmente, conhecida como “bexiga”. Então, ele preparou alguns unguentos rapidamente e, pedindo licença à menina, ascendeu velas, incensos e, impostando as mãos sobre o corpo da velha, orou com fervor aos espíritos da natureza que, ouvindo seu clamor, atenderam com a cura da senhora.

- As pústulas já secaram e a febre baixou. Logo, logo, sua vó estará de pé de novo – disse Wurren, observando que Dhubra dormia com o rosto muito mais sereno agora.

- Obrigado, moço! Muito obrigado!

- Não me agradeça ainda, menina. Meu trabalho não acabou. Essa doença que sua vó teve, ela pode passar pra outras pessoas. Por isso, eu vou ter que impor minhas mãos sobre você também, mas antes, me ajude aqui, pois temos que levar esse lençol lá pra fora... – Wurren, então, tentou a seu modo livrar a casa da velha Duhbra daquela doença e, depois, teve a ideia de procurar algum sacerdote da cidade, para avisá-lo do risco de uma peste – Qual é o seu nome, a propósito?

- Elaen – respondeu a menina.

****

Fildurn se comprometeu a ajudar os aventureiros, mas garantiu que só poderia fazer alguma mensagem chegar ao lorde Leandonn pela noite e não antes disso. Conformados, Duncan e Bartolomeu decidiram sair mais uma vez para andar pela cidade, pois ainda era cedo.

O espadachim procurou um ferreiro e o astrólogo se interessou em visitar alguns templos da vila.

Foi durante esta caminhada, que ele viu Wurren entrando em um belo jardim florido, ao centro do qual uma construção de mármore branco lembrava um anfiteatro. Bruenor estava distraído do outro lado da rua, conversando com um curtidor, e Bartolomeu o ignorou, preferindo entrar pelos jardins atrás do meio-orc, quando viu, então, que o anfiteatro estava ocupado por algumas pessoas que ouviam atentamente o sermão de um sacerdote de Pelor.

- Pelor, O Radiante, ilumina a todos nós com sua luz incrivelmente brilhante. Sua magnificência é tão grande que sequer podemos olhar diretamente para ele nos céus. Ele é o eterno contendor da escuridão e da morte, e por isso, meus irmãos, é a ele que devemos devotar nossas preces antes de cada batalha! E que momento mais propício é esse que temos nestes tempos para honrar a sua gloriosa majestade! Devemos seguir o exemplo de Mayahene, que tomou sua espada e expurgou os demônios que assolavam sua terra e sob a luz do Radiante triunfou! – dizia, em tom professoral, o sacerdote, gesticulando muito, atraindo a atenção de seus pacientes ouvintes.

Wurren esperou o sermão terminar (período durante o qual Bartolomeu se aproximou em silêncio obsequioso) para somente então se aproximar do clérigo e lhe contar sobre a doença de Dhubra e o risco imimente de uma peste tomar conta da cidade.

A reação do sacerdote, contudo, não foi bem aquela que o meio-orc esperava. Ele respondeu com pouca preocupação, não exatamente com desdém, mas, sem dúvidas, com uma indiferença perturbadora.

- Você não vai fazer nada? – perguntou Wurren.

O clérigo olhou com raiva e respondeu, contudo, polidamente:

- O que quer que eu faça? Não vê que temos assuntos mais importantes no momento?

- Que tipo de assunto pode ser mais importante do que uma praga dizimando a cidade? Você é um sacerdote de Pelor, não é? Por que não faz nada? – insistiu Wurren.

- Gigantes?! Que tipo de imbecil é você? Não sabe que temos gigantes em nossas fronteiras, matando nossas mulheres e filhos e roubando nossas terras? Isso é sem dúvidas mais importante do que qualquer doença, mas eu vejo que você não passa de mais um druida que surge do meio do mato de vez em quando para dizer como devemos nos comportar aqui. Mas quando as coisas estão realmente feias, vocês somem e se refugiam naquela sua Antiga Fé. Ridículo...

Wurren ficou aborrecido, mas não quis retrucar. Tentou, ao contrário, se despedir de forma polida:

- Eu agradeço as lições. Prometo não lhe perturbar mais – e, virando-se de costas, sinalizou para que Bartolomeu o seguisse para a saída dos jardins. Naturalmente, o astrólogo quis saber do que toda a história se tratava (como se já não tivesse conseguido entender pelo contexto da conversa do meio-orc com o clérigo).

- Neste caso, meu caro Wurren, temos que tentar encontrar outro sacerdote que possa ajudar. Mas não se espante com a reação do padre Meidon – Bartolomeu ouviu o nome do sacerdote ser mencionado por um de seus acólitos durante o sermão – ele certamente tem um tom mais belicoso do que a maioria dos sacerdotes pelorianos. Pelo que pude ouvir, ele segue os exemplos da santa Mayahene...

Foi, então, que viram que, descendo aquela rua, uma grande faia se erguia bem no seu centro, cercada por uma pequena praça florida a qual a rua contornava gentilmente. Em frente à grande árvore, de copa frondosa e tão pesada que se deitava sobre a própria praça, havia uma pedra polida, como um monolito, no qual um desenho representa a deusa mãe Beory.

- Ora, ora! – exclamou Bartolomeu, percebendo em seguida que um jovem adorador entrou na pracinha e depositou uma oferenda, fazendo uma prece – Veja, Wurren, acho que aquele homem deve ser um sacerdote!

****

- Perdoe-me, senhor – disse Wurren, com muita polidez, para o jovem que acabara de fazer uma oferenda à Beory – Você é um sacerdote?

- Ahhmm, sim, sou sim, por quê? – respondeu o rapaz.

- Veja, eu sou um druida, um druida da Antiga Fé, e eu descobri que esta cidade corre o risco de sofrer uma preste, mas ninguém parece estar preocupado com isso. O sacerdote de Pelor, por exemplo, está mais preocupado em combater gigantes além da fronteira. Este povo está abandonado, e esperava que você pudesse me ajudar – falou o meio-orc.

Wurren deu diversas explicações e foi até mesmo prolixo demais, mas aparentemente o sacerdote de Beory apreciou a discurseira e, nada obstante tenha dito que está de passagem por Orlane também, garantiu ter disposição para ajudar o povo orlenense.

- Inclusive, uma ideia me ocorre. Eu tenho algum conhecimento sobre herbalismo, e pelo que me descreveu, essa doença parece ser uma moléstia mundana, conhecida como bexiga. Posso ensinar esse povo a preparar unguentos e remédios a partir de meus conhecimentos, o que permitirá que eles próprios tomem conta uns dos outros – explicou o sacerdote, que disse, ainda, se chamar Janos.



Satisfeitos com a solução encontrada, os aventureiros tomaram o rumo da estalagem do Rancho Quebrado, pois a hora do almoço já se aproximava.

Comentários

  1. Eu gosto de "side quests", apesar de estar mais acostumado a elas nos jogos de console, e não no rpg. Elas conferem mais realidade ao jogo. Ninguém caça dragões todos os dias e, se o fizessem, os dragões e as aventuras épicas perderiam sua força. Por isso é bom ter momentos normais, se envolver em assuntos cotidianos que poderiam parecer triviais perto das potencialidades dos personagens mas que são feitos heróicos aos olhos dos camponeses e citadinos presos a suas rotinas.

    Se Wurren tivesse apenas salvado sua princesa e sua filha, já valeria a sessão. Mas vemos agora desdobrar-se uma ameaça maior que poderíamos não ter atentado, tivéssemos partido rumo ao círculo druídico, assim como o sacerdote de Pelor não atentou, entretido e preocupado que estava com o rumo de uma guerra que ocorre longe do conforto de seu templo. Quantas vidas não terão sido salvas devido a uma estada prolongada na taverna do Rancho Quebrado?

    ResponderExcluir
  2. Talvez tenha passado despercebido, mas Bartolomeu carrega a sina dos grandes heróis, que é a propensão para a tragédia. Ulisses, Fausto, Túrin, Édipo, todos esses heróis acabam fazendo cagadas épicas em suas tentativas heróicas ou mesmo em feitos prosaicos.

    Com Bartolomeu não é diferente. Lembram-se da folha do Diário de Melza, que gritou e avisou a todos da invasão da antiga Icrácia? Nesse despretencioso epílogo sua maldição se repete, e seu entusiasmo com a xícara de café servida tem potencial de, assim como a caixa que Pandora abriu, soltar uma grande quantidade de mazelas no mundo. Pois o café é o pai das manhãs sonolentas e da pressa; ele é o amante perfeito do tabaco da manhã e da procrastinação; é ele quem manterá a escravidão mesmo após todas as nações a abolirem e se regorzijará reinventando a servidão quando o mundo descobrir o trabalho assalariado; e as terras sofrerão esgotamento de minerais e erosão, seu líquido se transformando em um sangue negro a devastar as florestas.

    Bartolomeu de nada disso sabia -e como poderia saber?- quando, entusiasmado, bebia inebriado o líquido quente, que descia e lhe queimava a garganta com o veneno dos séculos futuros. Bastava um esgar, bastava ter dito que aquele chá era horrível como ele é, e, quem sabe, os males futuros seriam postergados em séculos -ou mesmo jamais existiriam.

    ResponderExcluir

Postar um comentário