A Podridão de Ugrasha

Adan e Bruenor cavalgam quase a noite inteira, sendo obrigados, por fim a parar para um descanso mais prolongado. Entretanto, já tinham tirado boa parte da distância que os separava dos demais colegas.

Durante a manhã seguinte, apressando-se mais uma vez, encontraram Dunca, Bartolomeu e Wurren descendo a encosta de um outeiro. O espadachim estava claramente ferido graças ao recente combate com um gigante.

- Ei! – Wurren gritou, descendo em desabalada carreira para encontrar o anão e o ladino, que ficaram obviamente felizes em rever os colegas.

- Preciso contar pra vocês uma coisa, e acho que vocês não vão gostar. Mas os Wyverns estão de mal com a gente... – e, depois dos cumprimentos de praxe, Adan passou a relatar os eventos ocorridos na noite anterior e como aquilo tudo afetaria o modo como os aventureiros seriam vistos, dali pra frente, pelos mercenários.



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Os aventureiros seguem ao norte por uma estrada velha e precária que logo alcança o sopé de picos montanhosos outrora conhecidos como Picos de Keljalo, onde o caminho se transforma numa trilha lamacenta e percorre alguns quilômetros apenas antes de mergulhar nas entranhas de vales profundos e densamente arborizados.

Conforme a estrada desce os aventureiros percebem que as árvores escasseiam até revelar de modo esplêndido uma várzea linda. Grandes campos de trigo dourado, cevada e milho sobem e descem as encostas do terreno. Córregos e lagos pequenos e espumantes pontilham a paisagem aqui e acolá. Logo os aventureiros avistam fazendas pitorescas e no distante fundo do vale estreito um pequeno vilarejo.

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A trilha conduz o grupo através do vale até um pequeno vilarejo.

- Será que esse lugar é Árvore Pálida? – perguntou Bartolomeu.

- Acho que já vamos saber – respondeu Wurren, indicando com um gesto a presença de uma torre à beira da estrada.

Era uma construção velha, antiga, cujas paredes de pedra estavam cobertas de musgo e trepadeiras. Poderia bem estar abandonada, mas os aventureiros viam claramente que havia alguém por lá. O meio-orc pensou se tratar de um guarda, mas ninguém se aproximou ou apareceu para tomar satisfações com os aventureiros recém-chegados.

Wurren, então, tomou a frente e andou até a torre para bater à porta. Um guarda gordo e ensebado a abriu e disse:

- Alto lá, viajantes! Bem vindos à vila de Ravina Verdejante!

- Ravina Verdejante? Pensamos que aqui fosse Árvore Pálida! – comentou Duncan.

- Ahhh, já se chamou Árvore Pálida, mas hoje se chama Ravina Verdejante – explicou o guarda – Eu já mandei quinhentas vezes que tirassem a placa de Árvore Pálida  da encruzilhada! Mas parece que não adianta! Aqui se chama Ravina Verdejante, ora essas!

- Que interessante – disse Bartolomeu com um pouco de deboche – Mas me diga, essa cidade não tem proteção alguma? Vocês não têm medo dos gigantes?

O guarda obviamente estranhou a pergunta, dotada de certa petulância. Mas respondeu de bom grado:

- Medo de gigante, quem não tem? Mas a nossa pequena vila é tão pobre, que nada há para ser roubado ou saqueado! Estamos tão isolados, que essa terra simplesmente não tem importância nenhuma. A gente ouve falar dos gigantes, e achamos que alguns deles até moram nas montanhas ao norte, vocês não veem as colunas de fumaça? Então... achamos que são casas de gigantes. Mas eles nunca nos ameaçaram...

- Enfrentamos e matamos um na estrada! Ele tinha acabado de dizimar uma caravana! – replicou Bartolomeu.

- Nossa! Vocês conseguiram matar um gigante?! – o guarda perguntou, e Bartolomeu ficou sem saber se aquela foi uma ironia ou se uma indagação genuína.

- Mesmo assim, a cidade não sofre assaltos, invasões? Não existem outras ameaças? Vocês não têm muros nem nada – falou Duncan.

- Não... acho que as pessoas, mesmo os bandidos, têm medo de vir pra cá – respondeu o guarda.

- Medo? – perguntou Wurren.

- Sim. Medo – o guarda replicou.

- Aff... medo de quê? – Adan falou sem paciência alguma.

- Medo de maldição. Essas pessoas acham que a cidade é amaldiçoada – respondeu o guarda, para espanto e preocupação de uns, e desconfiança de outros. Vendo os rostos dos aventureiros, o guarda prosseguiu – É que existem estórias muito antigas, antigas mesmo, que dizem que este lugar, este vale, é de algum modo amaldiçoado. Mas isso é besteira! Já teve sim uma maldição, mas nos livramos dela há muito, muito tempo!

- Jura? – Bartolomeu não conseguia conter a ironia e o deboche. Essa era sua forma de disfarçar a preocupação legítima que ocupava seu coração e de orientar o diálogo para um fim mais breve, para que os colegas não insistissem naquilo.

Tendo sido claro ou não, fato é que os colegas do astrólogo não insistiram na conversa.

- A propósito, qual o seu nome? – perguntou Wurren.

- Me chamo Mened. Sou o capitão da guarda aqui – respondeu.

- Pois bem. Agradecemos sua atenção, senhor capitão – finalizou o meio-orc.

Mened ficou claramente feliz com a utilização do pronome de tratamento e comentou:

- Ah! Vejo que tem boas maneiras e respeita a hierarquia militar!

- Você mesmo acabou de dizer que é capitão, então... – falou Wurren, sem entender que talvez o velho e gordo Mened jamais tenha sido tratado com deferência antes. Nem mesmo pelos outros dois soldados com os quais toda a vila conta...

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O grupo de afastou da torre, retornando um pouco pela trilha, ao sul.

- Estranho esse lugar não acham? – o astrólogo confessou sua preocupação.

- Sim, muito estranho – comentou Duncan, em coro com Wurren.

- Por que exatamente estão achando estranho? – Adan, realmente, não compreendida tanta aflição.

- Você não viu como era Stonebridge? Mesmo pequena, a cidade tinha lá uma mínima proteção, e todo o povo demonstrava conhecer e temer a guerra na fronteira. Aqui, nada disso se percebe. Não é estranho? Parece que este lugar está em outra realidade – explicou-se, Bartolomeu.

- Acho que vocês ficaram impressionados por causa dos problemas no pântano... – resmungou baixinho Bruenor.

- É estranho sim. Ainda mais com essa conversa de maldição – concordou Wurren.

Duncan assentiu positivamente, indicando que sua conclusão pessoal também era essa. Bartolomeu, então, propôs um “passeio” pelas imediações da vila, através dos outeiros e pequenas colinas próximas, de onde poderiam observar o local com mais atenção.

Os aventureiros seguiram um pouco mais ao sul e depois saíram da trilha para seguir pelo curso de um riacho. Eles caminhavam entre a margem rochosa e escorregadia e as vastas plantações de milho e trigo nos campos adjacentes. Neste trajeto, passaram próximos de um poço largo e grande, onde a água do córrego se tornava negra e profunda.

Alguns cachorros latiam ao fundo, distantes, e, de repente, Bruenor deu um golpe violento de machado que destruiu alguns pés de trigo. Numa fração de segundos os demais entenderam o motivo: goblins! Três deles! E um passou tão rapidamente por Bruenor que somente o anão percebeu, com seu arguto senso de combate.

Interrompida sua correria, rapidamente as criaturas cercaram o grupo. O anão tentou mais um golpe de machado, mas a arma escorregou-lhe das mãos e se perdeu na plantação. O goblin à sua frente deu-lhe uma estocada no peito com um facão!

Bartolomeu deu passos para trás e disparou apenas um virote, subestimando a ameaça goblinídea. Wurren e Adan também agiram rapidamente para revidar a agressão, mas as criaturas eram ágeis e rápidas. Além do que, como eram sensivelmente mais baixas do que os pés de trigo, vê-las no calor do combate não era assim não fácil – até mesmo porque, elas se movem constantemente, agindo como um bando bem treinado.

Nada obstante, Duncan desceu a espada na cabeça de um, cujo crânio se abriu, deflagrando uivos de raiva dos demais monstrinhos.

- Daí vinham os latidos! – gritou Bartolomeu, sem perceber que outros três monstros sugiram, um dos quais bem atrás dele, lhe golpeando pelas costas.

Emboscados, os aventureiros passam grande perigo!



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Comentários

  1. O vilarejo suspeito possui um aqueduto! Um aqueduto!! Muitos dos aventureiros nem sabia o que é isso!!

    Mas o mais digno de nota foi o desarmamento embaraçoso por que passou o arguto anão: um saco de batatas jogou para longe seu poderoso machado!! Um saco de batatas! Um goblin com um saco de batatas desarmou um anão guerreiro!

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