A podridão de Ugrasha (2)

O temível Ankheg ataca os góblins e representa uma ameaça mortal para os aventureiros (ILUSTRAÇÃO: http://magickverse.wikia.com/wiki/Ankheg)


O combate segue feroz e os goblins demonstram incrível resiliência e disposição. Mas quando a situação começa a se reverter, desistem do combate e tentam uma fuga desordenada rio acima, deixando para trás duas sacas de vime repletas de centenas (senão mais) de frutinhas vermelhas.

- Ugrasha vituk tramblaka! – um deles grita em sua língua nativa, o idioma goblinóide, que é incompreensível para os aventureiros.

- Zarrruuuuuuuuuk! – um outro responde, num grito grave, novamente incompreensível.

Quando o cenário arrefece, os aventureiros têm a oportunidade de examinar as frutinhas vermelhas, que vistas com calma, revelam-se na verdade ser a infame erva conhecida popularmente como “beijo de myhriss”.

Bruenor tomou um punhado delas e colocou na boca, pois pareciam apetitosas.

- Pare Bruenor! Cuspa tudo! – gritou Wurren, com urgência. O meio-orc não recomenda a ingestão, pois a aparentemente inofensiva planta é extremamente venenosa a menos que administrada em doses muito pequenas, geralmente misturada em infusões com outras ervas. Normalmente, ainda segundo o druida, estas frutinhas são usadas para controlar cólicas menstruais em mulheres ou até mesmo como abortivo em alguns casos – sendo estes seus usos mais comuns.

- Os elfos, no entanto, costumam conhecer esta fruta apenas como um veneno utilizado em armas com o único propósito de matar aqueles adversários que mesmo feridos, eventualmente pudessem sobreviver – complementa Bartolomeu.

- Está explicado, então. Os goblins queriam fazer veneno! – diz Bruenor – Criaturinhas traiçoeiras! – diz o anão, cuspindo no chão o bolo alimentar

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A caminhada prossegue encosta acima. Em alguns pontos é necessário se afastar do curso d’água, pois o caminho se torna demasiadamente íngreme ou acidentado, com a incidência de obstáculos como paredes rochosas, barrancos escorregadios ou rochas imensas que forçam o contorno por trilhas menos óbvias.

Não há um caminho predeterminado, pois esta não é a passagem para lugar nenhum. Aqui, o bosque tem árvores ainda mais espaçadas e predominam arbustos e trepadeiras que dificultam a caminhada em diversos momentos. Os aventureiros passam por uma pequena cascata, local onde a caminhada se transforma numa escalada leve, e depois, alguns metros acima, se deparam com um afluente do riacho, o qual segue ao norte até desembocar numa grande turfeira.

Trata-se de um tipo de lago, coberto de vegetação, inclusive das belíssimas vitórias-régias, sobre o qual paira uma tênue neblina. Grilos e outros insetos abundam no local, e melhor observando, nota-se que a neblina, na verdade, é uma gigantesca nuvem de mosquitos. O lugar é fedorento como um pântano e o ar parece viscoso. À distância se ouvem uivos de coiotes.

Ao se aproximarem, os aventureiros observam que um grupo de três goblins está cautelosamente examinando as águas paradas e turvas do local. Dois deles estão sentados em um barquinho e um terceiro está dentro d’água. Ele submerge e, então, retorna à superfície em pouco tempo com uma das mãos cheia de musgos, urzos, tojos e outros vegetais que com certeza estavam depositados no fundo lodoso da turfeira.

A criatura exibe aquela mistura pastosa de lodo e vegetais decompostos para os outros dois dentro do barco. Um deles ri efusivamente, enquanto o outro grita:

- Strabluga tyenek! Ugrasha vituk ratuk! – a criatura diz aos berros. Parece que está brigando com o goblin mergulhador, que, então, submerge de novo.

Neste momento, Bartolomeu e Duncan percebem que à beira do lago estão algumas bolsas e outros equipamentos que, a toda evidência, pertencem aos goblins que estão distraídos com seus afazeres no meio do lago. É possível se aproximar sem ser visto, mas é preciso sobretudo se camuflar na vegetação para não ser visto. A tarefa não seria difícil para um ladino, mormente para Adan - porque equipado com a capa élfica presenteada por Ânn. Contudo, ele não tomou iniciativa alguma, e Bartolomeu decidiu assumir o risco.

Aproximando-se alguns metros com cuidado, o astrólogo verifica que há duas bolsas rústicas de couro mal curtido, um feixe com doze flechas, um cinto com uma adaga, duas capas de pano sujas e rasgadas, além de três pares de sandálias horrivelmente conservadas e malcheirosas.

O que chama atenção, contudo, é uma pequena esteira de palha, com não mais do que trinta centímetros de comprimento e quinze de largura, a qual está estendida no chão, sobre a vegetação seca da margem do lago, em cima da qual repousa um monte daqueles vegetais putrefatos, algumas pedras lodosas fedorentas e nojentas, que, aparentemente, também foram recolhidos pelos próprios goblins do fundo da turfeira. Ao lado disso tudo, há uma peneira, tipicamente usada por garimpeiros.

Subitamente, então, os aventureiros ouvem uma agitação entre os goblins. Um deles ainda está na água e tenta desesperadamente subir no barco, mas é empurrado pelos demais, que tentam evitar que a embarcação vire jogando todo mundo nas águas, enquanto borbulhas surgem na superfície antes parada, indicando que alguma coisa grande na turfeira foi perturbada.

De repente, uma grande criatura monstruosa emerge do lago. Dotada de patas e antenas, parece-se com um inseto gigante. A criatura, que deve ter uns três metros de altura (mas seu cumprimento é ainda maior), abocanha o desafortunado goblin mergulhador com sua mandíbula afiada, instantaneamente partindo a pobre criatura em pedaços.

- Glabuuuuugggg!!! – gritam os goblins, tentando remar para longe.

- Pelos deuses! É um Ankheg! – grita Wurren.

Comentários

  1. E agora os aventureiros desmiolados vão querer enfrentar o bicho.

    Wurren e Duncan adorariam q tivesse uma criança goblin junto com os demais, para eles nao precisarem admitir q é o desejo de sangue q os move, e nao a proteção dos inocentes.


    Mas como pode uma vila mequetrefe como essa ser intocada pelos goblins? Que tipo de pacto eles têm?

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Já deu pra perceber que o grupo é destemido. Candidatos a uma morte dolorosa!

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  4. A morte está sempre ao nosso lado. Às vezes ronda, noutras joga seus dados em nossas fuças

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  5. É paradoxal que o sacerdote de Wee Jas tenha medo da morte. Ou seria respeito? Bom, seja como for, parece que os demais aventureiros estão mais dispostos a brincar com a vontade da Feiticeira do que Bartolomeu.

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