Os Herdeiros de Ânn - 30º Ato

Traban é um velho guerreiro, de aparência austera, como Abdel Adrian, um aventureiro de Forgotten Realms retratado na imagem acima (WotC)

Traban caminhou entre as tendas e finalmente chegou à sua (bem mais acanhada do que a de Ânn, mas ainda assim impressionante). Os aventureiros o seguiam e viram-no sentar-se em um “puff” acolchoado depois de parar por instantes em frente a uma mesa, onde uma caixinha de madeira guardava ervas de fumo as quais ele gentilmente recolheu para acender em seu cachimbo.

- Então... Vocês se depararam com Salahadhra afinal de contas. As nossas suspeitas assim se confirmam – disse Traban antes de pitar seu cachimbo, exalando uma fumaça agridoce no ar – Ah, já ia me esquecendo. Vocês aceitam vinho? Ganhamos esse odre de um nobre dos Ermos – disse já se levantando para abrir o garrafão, servindo um pouco da nobre bebida em copos de madeira.

- Eu aceito um pouco do seu vinho. Mas quero que diga logo o que tem para dizer, sem delongas – falou Wurren.

- Vamos deixar uma coisa bem clara: Ânn não os enganou. Nem a vocês nem a ninguém, exceto talvez por si própria. Tudo o que ela disse antes é verdade: nosso acordo com o Lorde Leandonn e também a nossa perseguição ao tomo de segredos inefáveis que foi roubado de Niole Dra. Contudo, ela jamais disse a vocês porque estava atrás do tomo.

- Ahhhmmm... não me lembro de alguma vez ter perguntado... – balbuciou Wurren, enquanto os demais ouviam em silêncio obsequioso.

- Exatamente – Traban respondeu com um sorriso.

- O tomo estava nas catacumbas, perdido e esquecido entre milhares de outros tomos e pergaminhos e quando desapareceu da biblioteca real de Niole Dra talvez ninguém o tivesse percebido e o crime restasse para sempre um segredo. Nesta época os Wyverns estavam acampados nas pradarias ao sul dos Bosques do Machado, retornando de um assalto ao Ducado de Ulek. Lembro-me vividamente que, certa feita, nosso acampamento recebeu a visita de um arauto. Ele se vestia de modo simples. Trajava um manto de pano marrom, muito espesso, com um gorro grande e comprido que escondia completamente seu rosto nas sombras e na escuridão. Além disso, trazia consigo apenas uma algibeira, uma bolsa de couro simples e um grande porta-pergaminhos de metal. Katherina e o arauto se reuniram em sua tenda, onde ele lhe garantiu lhe garantiu uma larga recompensa pelo resgate do manuscrito que, somente então descobrimos ter sido roubado. Ele disse a ela que o livro continha fragmentos de conhecimento mágico antigo, e que, por isso, teria grande valor. Katherina viu grande oportunidade para os Wyverns, mas não foi só isso. Pois seu olhar demonstrava algo mais – Traban prosseguia com seu discurso, procurando manter-se fiél até por demais a realidade, para somente então entrar em território especulativo, pois ele próprio não parecia compreender bem a natureza de Katherina.

- Katherina tinha dúvidas em seu coração, receios que não compartilhou comigo e com ninguém mais a princípio. Eu mesmo não poderia supor do que se tratasse, até mesmo porque não presenciei a conversa dela com o arauto e sequer sei seu nome e qual a recompensa que nos foi oferecida. Mas sabia de suas aflições porquanto a ouvi orar com extremo fervor naquela noite quando me aproximei de sua tenda, e vi que queimou muitas velas, acendeu muitos incesos e fez oferendas à Guardiã da Morte, a Deusa Bruxa Wee Jas. Ânn nunca teve medo da morte, e missão alguma jamais a intimidou. Portanto, fiquei preocupado, mas nada puder fazer a respeito – o olhar de Traban estava marejado e, neste instante, Bartolomeu sentiu uma agulhada no peito. Uma mistura de desconfiança e raiva invadiram a mente do astrólogo, que percebia naquele instante que o homem diante dele narrava os eventos com certa afetação de paixão platônica por Ânn. Mas o sentimento logo passou, a Bartolomeu percebeu que seria tolice julgar a narrativa a partir de um ponto de vista tão egoísta de sua parte. Na verdade, logo suplantou o sentimento de inveja que lhe tomou de assalto, e desejou nunca mais se sentir assim. O velho wyvern continuava a falar.

- Seja como for, minhas impressões se confirmaram logo que chegamos em Stonebridge e encontramos o livro na cabana abandonada de Eimhim, quando Ânn confessou os motivos de seu amargor: o tomo roubado de Niole Dra continha mesmo diversos rituais mágicos e histórias macabras sobre Sess’inek e seu filho profano, o Grell. Contudo, as descrições de coisas macabras foram feitas em um antigo dialeto Flan, um dialeto banido, obscuro e negro, conhecido como Cavitian, uma sublíngua que somente alguns sacerdotes Ur-Flan dominaram na antiguidade, antes mesmo da Grande Migração. Este fato indicou com clareza que estávamos diante não apenas de um tomo de conhecimento mágico antigo, mas de algo muito mais valioso e potencialmente perigoso – uma brisa forte soprou e pelas frestas da tenda conseguiu apagar algumas velas. O olhar de Wurren se encrispou e Bartolomeu tomou aquilo como um sinal.

****

Duncan chegou até a casa do prefeito de Stonebridge, o velho Orren, em frente da qual havia uma grande tenda dos Wyverns Dourados e, sob a mesma, uma significativa quantidade de barris, caixotes e sacas de grãos.

- É... parece que os Wyverns estão fazendo um bom trabalho ajudando as pessoas aqui – falou Bruenor, em tom de voz bem baixo, ao que Duncan respondeu apenas com um olhar condescendente.

O espadachim bateu com o punho cerrado na porta e foi logo recebido pelo próprio Orren. Sua casa estava iluminada por uma trêmula chama de lampião, que ardia queimando óleo de baleia.

Naturalmente, o prefeito ficou surpreso, mas feliz. O velho condestável estava acompanhado de dois cavaleiros de Ânn, inclusive do arauto Oridigg. Duncan não perdeu tempo e fez um breve escorço dos fatos que se passaram em Folly e nos pântanos vizinhos. Eram tantas e tão estarrecedoras informações que ninguém ousou interromper. Ao final, Oridigg se levantou e disse:

- Bem, à luz destas novidades, senhor prefeito, receio que tenha de deixa-lo para reencontrar meus companheiros no acampamento. Essas são notícias importantes que precisam ser transmitidas rapidamente.

- Na verdade, o restante dos nossos colegas já foram pra lá, e devem estar contando a todos o que se passou – retrucou Bruenor.

- Neste caso, a premência é ainda maior! – falou Oridigg com evidente urgência. O cavaleiro estava preocupado principalmente porque Duncan deixou claro o incerto destino enfrentado por Ânn, e sabia que os Wyverns necessitavam mais do que nunca de coesão.

****

Adan continuava a ouvir ao relato de Traban com atenção, mas algo o incomodava: uma inquietude incontrolável. Mas o respeitável cavaleiro não parecia perceber o problema e prosseguia:

- Logo, Katherina percebeu que aquilo que ameaçava Stonebridge e Orlane não era apenas um bando de lagartos ensandecidos, mas que alguma forma de inteligência e sagacidade superior organizara o povo-lagarto em busca de algo mais do que simplesmente restaurar o culto de Sess’inek. Quando vocês retornaram de Folly com tantas notícias trágicas, especialmente quando Adan falou do dragão, foi então que nossa Líder Branca começou a tentar tirar algum sentido de tudo: quem poderia se interessar por um tomo Ur-Flan tão antigo e esquecido senão uma criatura da envergadura de um dragão? E por isso os mandou à frente, para abrir caminho e investigar o rastro da naga, enquanto reunia todos os Wyverns, inclusive aqueles que haviam se perdido nos pântanos, para realizar uma empreitada final.

- Nossa missão de resgate, porém, foi desastrosa, pois sofremos emboscada numa grande piscina ácida. Nossos homens foram aprisionados porque o povo-lagarto queria atrair os Wyverns para uma tocaia. Conseguimos sobreviver e fugir, mas perdemos muitos bons homens e outros tantos ficaram severamente feridos e completamente fora de combate. No calor daqueles momentos trágicos, aprendemos que era mesmo Kharlixes quem comandava o povo-lagarto. Na fuga fizemos reféns, e lembro-me da expressão no rosto de Ânn quando um deles se referiu a Ykrath! – o rosto de Traban ficou sombrio. As chamas das velas tremulavam com a brisa agora leve, enquanto se podia ouvir do lado de fora apenas o crepitar de uma fogueira onde homens inocentes riam e contavam estórias sem suspeitar da gravidade da conversa no interior da tenda.

- Era uma expressão de medo, terror e urgência. Ela me disse, então, que trouxesse os homens feridos para cá, e que seguiria com apenas três dos nossos ao encontro de vocês. Lembro-me da sua justificativa vividamente apesar do forte vento da chuva que caía torrencialmente:

“- O quê?! Mas, senhora! É perigoso! Não podes esperar que iremos contigo?! Que pode ser tão urgente assim?!”

“- Meu bom homem! Cada hora, cada minuto importa! Antes meus presságios estavam envoltos em brumas, mas agora consigo enxergar com clareza, Traban! A mitológica cidade perdida de Ykrath! Aqueles pobres aventureiros estão nas portas da escravidão! Se não os salvar, que retribuição terei nessa vida ou na outra?! Afinal, os mandei para lá inadvertidamente!”

“- Senhora!!! Não! E se tu não voltares? Que será de nós?!”

“- Viverei, homem! A Guardiã da Morte é minha fiadora nas palavras que te digo: viverei! Nada obstante, se a atribulação me atrasar autorizo-te a assumir meu comando. Neste caso, toma meus homens, diga-lhes que eu os amo, reparta meu espólio com isonomia e os faça livres de seus votos para comigo! E que os deuses abençoem aqueles que jurarem lealdade a ti para honrarem o legado dos Wyverns Dourados. Peço-te, por fim, que faça de Adan, Bartolomeu, Bruenor, Duncan e Wurren meus herdeiros também. Separa a parte deles deles da recompensa e entrega-lhes em meu nome o Livro de Borob, que foi roubado por Eimhim.”

“ – O quê?! Mas que diabos?!”

“- Faça como te ordeno! E não se preocupe, pois a preocupação não acrescentará um côvado a tua existência. Obedece e confia, pois a Guardiã da Morte é minha fiadora!”

“- Não! Ânn! Ânn!!!”

- E ela sumiu junto de seus três cavaleiros, deixando-nos com esta amarga missão. Entendem agora? Ela soube de algo mais. Ela alimentou dúvidas e incertezas, que se dissiparam quando ouviu o nome Ykrath e foi então que teve medo. Infelizmente, ela não retornou e sim somente vocês a quem ela chamou também de herdeiros, creio que por retribuição aos seus valiosos serviços – Traban se levanta e caminha até um baú, de onde retira um volume envolto em panos de veludo vermelho.

O wyvern coloca o objeto sobre o chão, que está forrado com tapetes e esteiras de palha, desata o nó do cordão de seda e revela o livro que fora roubado de Niole Dra.

****

A porta de pano da tenda de Traban se abre subitamente. Oridigg, Duncan e Bruenor haviam chegado e se depararam com o Livro de Borob sobre o chão. Todos os olhares se concentravam no artefato.

- Esse é o livro? - perguntou Bartolomeu, maroto.

- É o livro da língua, o livro que encontramos na cabana queimada ao norte de Stonebridge – disse Wurren, respondendo à pergunta do astrólogo.

- Do que se trata isso tudo? – interrompeu o anão Bruenor.

- Senhor! Tenho más notícias! – disse Oridigg para Traban, ignorando do o resto.

- Receio que já estou ciente de tudo o que se passou, meu caro Oridigg. Estes aventureiros já me contaram do triste destino de Katherina...

- Está certo! Mas o que este livro está fazendo aí no chão? – interrompeu o anão, com certa grosseria. A visão do livro o aborrecia de algum modo. Seja como for, apesar da irritação do anão, a pergunta era procedente e sua resposta atenderia o anseio e a curiosidade de Duncan e do próprio Oridigg que, por essa razão, se calaram esperando uma explicação.

Bartolomeu, então, resumiu a conversa com Traban, demonstrando claramente certo descontentamento. O astrólogo esperava algo mais daquela reunião que, afinal, prometia ser mais interessante e esclarecedora. Traban trouxe apenas mais mistério, regurgitando uma longa estória que parecia fabricada, ao menos em parte, para justificar sua própria ascensão ao poder nas fileiras dos Wyverns Dourados.

Uma vez que o relato estava terminado, Traban encerrou a reunião, dizendo ser necessário levatar acampamento para marchar rumo à Orlane já no dia seguinte.

- Precisamos resgatar nossa recompensa junto ao barão Eirig – explicou o cavaleiro, novo líder dos Wyverns Dourados.

****

Os aventureiros deixaram a tenda e buscaram um local próximo para acampar. Mas Adan ainda estava muito incomodado com a discurseira de Traban. Alguma coisa não cheirava bem e o ladino resolveu investigar.

Ele vestiu a sua capa élfica e, cobrindo a cabeça com o capuz, conseguiu driblar a atenção dos soldados que perambulavam pelo acampamento. Adan estava seguindo para a tenda que pertencia a Ânn, mas ao chegar lá notou que, estranhamente, ela se encontrava vigiada por um guarda.

- Merda! Preciso encontrar uma outra forma de entrar – pensou consigo mesmo, pouco refletindo imediatamente sobre o porquê de um guarda estar a vigiar a tenda de Katherina.

O ladino contornou o local, e decidiu desprender um espeque que prendia uma das cordas que esticava a lona da tenda. Com isso, ganhou acesso pela lateral. Com cautela, Adan ergueu o pano e se esgueirou para dentro, sendo pego de surpresa, contudo, pela presença de Traban.

Seu coração veio à boca. Porém, percebeu que Traban estava distraído. O homem estava de costas para Adan, e o ladino percebeu que o cavaleiro estava com o que parecia ser uma camisola de Ânn nas mãos, a qual contemplava e por mais de uma vez levou próxima ao rosto para cheirar.

- Caralho! O cara é um tarado! – pensou Adan.

Traban guardou a camisola no baú do qual a retirou, e deixou a tenda, não sem antes dar ordens expressas ao guarda que estava na entrada da tenda para impedir que qualquer um entrasse.

Adan não se deu ao trabalho de refletir sobre aquela atitude. O ladino tinha pouco tempo, e logo que a tenda ficou vazia, entrou rápida e sorrateiramente, vasculhando com o olhar em busca de algo que pudesse ser “interessante”.

Ele, então, resolveu revirar o baú onde estava a camisola e nele acabou encontrando um porta-mapas e alguns alfarrábios. A maioria dos documentos eram cartas de crédito que Ânn detinha em face de lordes de Keoland e do Grande Ermo – algo muito comum entre nobres, segundo sabia o próprio Adan, já que sua família mesmo já teve de lidar com este tipo de burocracia.

- Ahá! – Adan deixou escapar a vocalização do triunfo, quando entre tantos papéis e outros objetos desinteressantes, encontrou um papiro antigo que emitia uma tênue luz.

- Mas que diabos? – pensou, ao desdobrar o papel com cuidado e notar que as palavras escritas brilhavam com mais intensidade quanto maior fosse a luz do luar que, contudo, estava fraca naquela noite. Adan notou que apesar da aparência antiga, o documento datava de cerca de um ano atrás apenas e, nada obstante o texto esmaecesse toda vez que a lua se escondia atrás das pesadas nuvens que pairavam nos céus de Flanaess, conseguiu ler que se tratava de uma espécie de contrato que Ânn aceitou cumprir para recuperar um certo livro roubado... – Só pode ser o Livro de Borog – concluiu o ladino, que, então, ouviu o som de homens se aproximando, o que fez com que ele tivesse que guardar aqueles documentos com rapidez para sair da tenda sem deixar rastros.

****

- Pessoal, achei algo muito interessante! – Adan se dirigiu aos colegas aventureiros assim que os alcançou. Eles estavam prestes a montar acampamento numa área bem próxima do assentamento dos Wyverns Dourados – Eu fiquei meio desconfiado e fui até a tenda da Katherina, onde encontrei essa carta – o ladino, então, exibiu o documento.

Duncan e os demais olharam com curiosidade.

- O que é isso? – perguntou o espadachim.

- Eu não consegui ler direito, porque a tinta usada parece que está saindo do papel. Parece que brilha com mais intensidade sob a luz do luar... – explicou Adan.

- Tinta lunar, uma antiga arte élfica. Muito rara, por sinal – pondera Bartolomeu.

- Pode ser – disse Adan, dando pouco importância para a informação, pois naquele momento, ele se distraiu ao perceber certa agitação no acampamento dos Wyverns de modo que, receoso que sua atividade na tenda de Ânn fosse a causa do buliço, desconversou o assunto e propôs:

- Eu acho que seria uma boa ideia se voltássemos para Stonebridge. Lembram-se daquela casa abandonada em que nos abrigamos? Aposto que ainda está lá, vazia, nos esperando. E quer queiram, quer não, é mais confortável ficar por lá do que dormir ao relento de novo. Não acham?

- Eu suspeito que sim – falou Wurren.

- Não acho uma má ideia não – Duncan emite sua opinião – Faria bem ter o teto de uma casa sob nossas cabeças. Além do que, estaremos dentro da vila, o que é reconfortamente de algum modo.

Para alívio de Adan, não foi preciso fazer grandes esforços para convencer os colegas a sair dali o quanto antes, pois logo todos concordaram em se retirar para a vila próxima, sendo certo que contribuiu para tal decisão a impressão ruim que Traban transmitiu aos aventureiros – embora ninguém houvesse falado abertamente sobre o assunto até então.

****



– Pois bem, eu não consegui ler o documento por inteiro por causa dessa porcaria de tinta. Mas do que consegui observar, parece ser uma espécie de contrato ou algo do tipo. Creio que seja daquele sujeito misterioso de quem Traban falou, aquele que contratou Katherina para recuperar o tal Livro de Borob.

Todos olhavam para Adan com perplexidade, enquanto o grupo se aproximava lentamente das pequenas muretas de pedra que circundavam a vila para, então, tomar o caminho pelas vazias e bucólicas ruas do pequeno vilarejo rumo ao casebre abandonado que lhes serviria de abrigo mais uma vez.

- Por que estão me olhando? Vejam o documento por si próprios, aqui está – Adan aguardou até que o grupo chegasse na casa abandonada para exibir o pergaminho de papiro, cuja escrita em idioma keolandish brilhava levemente.

– Não está assinado por ninguém, mas tem essa heráldica esquisita no final – falou Bartolomeu, enquanto observava superficialmente o documento contra a luz da lua que insistia em se esconder, tomando o cuidado de verificar se havia alguém na vila os observando.

- Hum... eu não tinha visto isso – comentou Adan.

- Não parece uma heráldica propriamente. Não se parece em nada com um casaco de armas, na verdade – Duncan se aproximou para ver com mais detalhes, percebendo que a caligrafia do documento era muito bem trabalhada, indicando que o autor da peça era alguém não só letrado, mas verdadeiramente estudioso – Realmente está difícil de ler com esse tempo nublado e chuvoso. Tem pouca luz do luar. Talvez amanhã tenhamos mais sorte, mas do pouco que consigo enxergar percebo uma escrita em keolandish de caligrafia perfeita.

- É. Eu notei isso também. Não foi uma pessoa qualquer que escreveu isso não. Vocês já ouviram falar em algo chamado simplesmente de “Os Silenciosos”? – perguntou Bartolomeu.

- Na verdade eu já – respondeu Adan – Por quê?

- É que, realmente, apesar de estar realmente difícil de ler sob essa parca penumbra lunar, eu consigo ver esse nome logo do começo do documento, bem aqui – o astrólogo apontava – Estão vendo? Está escrito “Os Silenciosos”, como se o autor da carta falasse em nome deles, quem quer que sejam. E mais adiante... – Bartolomeu parou por uns segundos para espremer os olhos enquanto manipulava a folha de papiro numa vã tentativa de extrair seu conteúdo - ... mais adiante dá pra ler aqui, olhem, que se refere a um livro roubado da cidade de Niole Dra. Estou certo que estamos diante de uma prova contundente do relato que Traban nos fez.

- Tá bom! – resmungou Bruenor – Mas e esses silenciosos, quem são? – e olhou para Adan.

- É... eu já ouvi falar deles sim – e Adan sentiu um arrepio, num evidente desconforto – Sei que é uma ordem antiquíssima e misteriosa, que está baseada no vale Sheldomar, entre as Fornalhas e Lortmills...

- Se é tão misteriosa como você sabe? – interrompeu, de forma rude, o anão.

- Porra! Deixa eu falar! Eu tenho meus contatos, ora bolas, mas isso não vem ao caso – esbravejou o ladino – O que sei é que são conjuradores ávidos por conhecimento mágico perdido!

- São caçadores de artefatos então? – perguntou Wurren.

- De certa forma sim. Mas eles buscam conhecimento para protegê-lo dentro da Torre Solitária, um local misterioso cuja localidade ninguém sabe dizer, e, na prática, privar o mundo de acesso a ele. Há muitas lendas sobre esses sujeitos, mas a maioria delas são apenas boatos sem qualquer fundamento ou simplesmente estória pra boi dormir. Eu mesmo, na verdade, achava que eles nem existiam de fato, pois só ouvia a respeito deles no contexto das fantasias e delírios de bardos e velhos malucos. Mas pelo visto estava enganado...

- Uau! Então sabemos quem contratou Ânn para encontrar o Livro de Borob – Bartolomeu falou de modo inconclusivo – Mas não to vendo aqui nesse pergaminho qualquer tipo de menção à recompensa que os Wyverns receberiam.

- É. Eu pensei a mesma coisa. Agente tem que tentar ler com calma em um dia com bastante lua. Hoje está ruim mesmo. Mas do que consegui ler, fiquei com a impressão que a tarefa seria uma troca de favores na verdade.

Os aventureiros ainda discutiram o assunto por algum tempo, mas logo o sono os acometeu e foram obrigados a dormir.

****

Na manhã seguinte o assentamento Wyvern estava agitado, com os homens de Traban desmontando as tendas e barracas, recolhendo os pertences, preparando os cavalos e tudo o mais que fosse necessário para partir rumo à Orlane.

E foi com o som das trombetas dos Wyverns Dourados que os aventureiros despertaram na manhã ensolarada.

- Dormimos demais! Se levantem seus preguiçosos – bradou Bruenor ao notar que o sol estava alto o suficiente para que seus raios entrassem pelas janelas da casa.

Rapidamente todos arrumaram suas coisas. Wurren pegou um pouco de suas razões e fez uma prece rápida, enquanto Bruenor pediu que Bartolomeu lhe ajudasse a afivelar com celeridade a sua armadura.

- Por que tanta pressa? Seguiremos para Orlane com os Wyverns? – perguntou Bartolomeu.

- Claro! Não se lembram do que disse Traban e não se recordam do acodo que Duncan fez com o tal lorde Leandonn? Temos uma recompensa a receber! Um gorda recompensa, eu espero! – falou o anão, com alegria.

- Se não formos pra lá, iremos para onde também? – ponderou o espadachim.

- Foi o que pensei – comentou Bartolomeu.

- Eu tenho outra sugestão. Meditei uma parte da noite, enquanto fazia a guarda e vocês dormiam. Vejam que estamos diante de uma sitação insólita, envolta em mistério e, de mais a mais, a Katherina está desaparecida e sinto-me compelido a descobrir mais sobre tudo o que se passou e, se tudo der certo, até mesmo salvá-la. Então, meditando, decidi visitar alguns anciões da minha ordem druídica. Estou certo de que ele poderá nos ajudar.

- Eles nos receberiam? – perguntou Duncan.

- Não sei se receberiam a todos vocês, mas a mim certamente que sim – respondeu Wurren – E também não sei se eles terão as respostas para as minhas perguntas, mas é um começo, sem dúvidas.

O grupo deliberou muito rapidamente, pois a comitiva dos Wyverns estava de passagem pelas ruas de Stonebridge, sendo saudada pelos aldeões e, especialmente, pelo prefeito Orren, que discursava em alta voz para agradecer a ajuda dos mercenários e dar ao povo a notícia de que a ameaça do povo lagarto foi, enfim, debelada.



Wurren explicou que seus anciões habitam círculos antigos nos bosques ao norte de Orlane e, portanto, os aventureiros decidiram que, de fato, o destino o levava novamente para o ponto de partida, onde toda esta aventura começou.

Comentários

  1. E agora? O que acontecerá ao jovem grupo de aventureiros? O contrato de mercenários acabou, e sem a coesão do ouro, como Bruenor e Adam permanecerão? Wurren talvez tenha uma causa ambientalista demais para Duncan e Bartolomeu, e o paladino tem uma moral quadrada que desagrada o malemolente astrólogo.

    Investigar o paradeiro de Ânn certamente interessa a Bartolomeu, por mais que o pmercenárie cause náuseas. Afinal, foi ela quem os salvou, e saber o q aconteceu daria algum sentido àqueles dias estranhos em Icrácia. Sem falar que Ânn tem uma pele macia, cabelosos de ventania e olhos encantadores (além q uma pegada gótica sedutora)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. *pmercenarie = pântano

      Excluir
    2. *cabelosos = cabelos

      Esse tablete é uma bosta para digitar

      Excluir
    3. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Hahahaha... belo comentário! E belos erros de digitação também... hahahah... acontece, e muito! :p

    ResponderExcluir

Postar um comentário