Os Herdeiros de Ânn - 29º Ato



Bartolomeu contemplou em silêncio os pântanos e, então, sentiu uma pontada na cabeça e arregalou os olhos ao perceber que estavam no mesmo ponto de ingresso no vale, há dois dias.

- Impossível – disse Bruenor – a entrada que usamos passava pelo malsinado templo da aranha negra.

- O anão tem razão – disse Wurren, abandonando a forma de aranha gigante, que estava lhe causando náuseas e confundindo seus sentidos (afinal, jamais se transformara numa criatura tão distante de sua morfologia habitual).

- É claro que tenho! E, ademais, para sair do centro de Ykrath, onde estávamos, e retornar para o templo seria preciso atravessar aquele enorme fosso! Não se lembram? Por acaso bateram suas cabeças e perderam a memória?


- Uhmmm... é verdade. Você tem razão Bruenor – ponderou Bartolomeu – Mas então como viemos parar aqui? – perguntou o astrólogo, enquanto lançava penetrante olhar para a fenda aberta na parede do cânion, onde ainda podia ver a poeira do terremoto.

- Sei lá. Gosto de pensar que foi providência divina! Moradin bateu com seu martelo e abriu a passagem que necessitávamos – respondeu o anão.

- Mas isso não explica termos saído no mesmo lugar em que entramos, Bruenor – falou Duncan. E neste instante, em que falava o espadachin, Bartolomeu sentiu sua cabeça leve, e percebeu que sua visão estava ficando embassada. O fundo do vale percebido à distância através da fenda começava a esmaecer e logo todo o gigantesco paredão.

- Vocês estão vendo isso? – o astrólogo perguntou em voz alta com o olhar vidrado. E todos puderam ver o paredão rochoso que separava os pântanos do vale de Ykrath esmaecendo como se fosse o produto de uma ilusão barata até desparecer por completo juntamente com qualquer reminiscência do próprio vale, deixando em seu lugar apenas um lago pantanoso desimportante e uma névoa persistente que limitava a visão e conferia ar de mistério.

- Pelos deuses! – disse Bruenor estupefaciado.

- Estou ficando maluco, ou o vale desapareceu diante de nossos olhos? – perguntou de forma retórica o astrólogo, ao passo que os colegas continuaram por breves instantes contemplando de forma incrédula o lago sombrio que jazia ali, bem aonde instantes antes se erguiam muralhas e a vastisão do vale Ykrathian.

- Eu não sei o que está havendo, mas não pode ser bom – falou Wurren, se aproximando do lago em demonstração de evidente incredulidade. Mas não se trata de uma ilusão. O som da terra de movendo sob seus pés, as pegadas encharcadas, o líquen nos caules das árvores baixas, e até mesmo o deslizar esguio de uma cobra albina que escorrega da margem lamacente para o interior das águas escuras e gélidas. Tudo lhe remetia à realidade. Até mesmo o cheiro de enxofre típico da matéria orgânica em decomposição. E isso deixou o druida perplexo.

- Tudo aqui é real. Não sei se estávamos vivendo um sonho, vendo uma ilusão, ou se de algum modo aquela era uma realidade de outro plano. Não sei. Mas Ânn definitivamente despareceu com o vale!

- Vejo agora que subestimamos Salahadhra. Fez-se de fraca, mas na verdade exercia pleno domínio sobre o vale, ou pelo menos retomou suas forças quando matamos Kharlixes para ela, e isso a energizou. Sua derrota nesta madrugada foi mais um subterfúgio para nos enganar. Ganhou tempo para tentar nos trancar e nos destruir no vale! – falou Duncan com tom soturno.

- Dane-se isso! – interrompeu Adan – Estamos perdendo tempo aqui. O que aconteceu, aconteceu e pronto.

- Mas temos que tentar entender, Adan – ponderou Bartolomeu, no que foi seguido por Wurren.

- Entender o quê? Não veem que é ridículo tentar entender esse absurdo? – falou o ladino.

- Ridículo é o que aconteceu agora diante de nossos olhos! O vale inteiro, com centenas ou milhares de metros, simplesmente sumiu!!! - insistiu o astrólogo.

- Sim, isso é absurdo. E tentar entender coisas absurdas é ridículo – falou Adan.

- Ele tem uma certa razão – complementou Bruenor.

- Ah, cara, vai bater uma punheta pra ver se diminui essa agitação. Espere um pouco pelo menos! – falou Bartolomeu, irritado com a pressa de deixa o lugar.

Ele, então, caminhou até a proximidade do lago, de onde Wurren já havia retornado, e se concentrou. Afastou os sentidos o quanto pode para tentar captar alguma essência do local, e foi, então, que sentiu uma estranha reverberação. Primeiro foi o som da vozde Ânn. Um gemido de esforço físico e dor. Depois ondas e ondas leves como marola, feitas de energia mágica que parecia viajar pelos séculos dos séculos, esvaindo-se a cada dia.

- Há uma grande mágica neste lugar imenso. Uma energia mágica ancestral, muito poderosa provavelmente, cuja extrema antiguidade, contudo, não conseguiu fazer apagarem os ecos de seu poder – falou Bartolomeu.

- Seja o que for, acabo de me certificar que esse lugar é e sempre foi assim, pelos menos pelas últimas semanas – respondeu Wurren, para olhar espantado do colega anão – Não se espante. Eu falo com animais.

- Você é esquisito! – resmungou o anão.

****

Perplexos e preocupados, os aventureiros decidiram deixar os pântanos. O rastro da naga estava diante deles em, seguindo-o, chegaram ao barco que haviam escondido, e depois à lúgubre aldeia abandonada de Folly.

Tudo parecia exatamente como deixaram dois dias atrás, antes de adentrarem no vale de Ykrath.

E muitas conversas foram travadas, verdadeiros debates sobre magia, filosofia e realidade. Afinal, tinham muitas horas de viagem a percorrer até seu destino final em Stonebridge. E houve também muitos (e longos) minutos de silêncio, em que os aventureiros se perguntavam intimamente sobre o futuro.

Finalmente, quando chegaram em Stonebridge, Duncan e Bruenor se voluntariaram para visitar o prefeito e dar-lhe notícias, enquanto os demais foram diretamente para o antigo círculo druído, onde encontraram o acampamento dos Wyverns Dourados e foram recebidos com uma mistura de desespero e esperança.

- Ânn está viva! – garantiu Bartolomeu – Mas desaparecida. Ainda há esperança! Pois matamos o Grell e a infame Kharlixes, nada obstante nosso espírito por vezes tenha fraquejado. Mas a terrível Salahadhra emergiu das trevas e se não fosse por Katherina aqui não estaríamos! Ela nos livrou do mal e nos deu e incumbência de voltar, para desfecho de uma história que não gostaria de dar – falou o astrólogo, com impostação de voz, conforme os soldados se aglutinavam ao redor de seu grupo.

- Quem responde pelos Wyverns na ausência de Ânn? – sussurrou Wurren para um soldado próximo.

- Suponho que seja o Mestre Traban – respondeu-lhe o soldado.

- Então o traga até nós – ordenou com polidez o meio-orc, o que logo foi atendido.

Traban é um homem de boa estatura, possui idade suficiente para se aposentar dos campos de batalha, mas não o suficiente para enfrentar os deletérios efeitos da senilidade. Seu rosto ainda ostenta a aparência austera de um homem viril, mas os cabelos brancos e as muitas cicatrizes denunciam a fadiga do material.

- Os herdeiros de Ânn estão de volta! E ela não vem consigo. Sinto que meus maus presságios estavam corretos! – disse Traban.

- Herdeiros? – perguntou Duncan.

- Sim, herdeiros. Afinal, a quem ela confiou a missão de chegar até Ykrath?– e Traban chocou-se com a forma direta como disse tais palavras, demonstrando autocensura neste instante – Venham, é melhor que venham comigo, existem muitas coisas que Ânn não contou e que agora vocês merecem saber! – retomou o discurso, enquando conduzia os aventureiros até sua tenda particular.

Comentários

  1. Acho q seria mais adequado nos chamar de os Cornos de Ânn, já que fomos os últimos a saber da história.

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