Os Herdeiros de Ânn - 28º Ato

Após a rápida discussão entre Katherina e Adan, o anão se aproxima do colega e diz:

- Não fique aborrecido. Certamente Katherina passou alguns maus bocados também. Eu acredito nela.

Adan estava aborrecido. A dama de branco não fazia ideia de tudo que eles tinham passado, de todos os perigos e agruras. O clima no local do acampamento estava um pouco pesado em razão disso.

- Senhora! Vimos um grupo de homens-lagarto se dirigindo para o sul, há algumas dezenas de escravos também. Estão todos em polvorosa, agitados certamente pela morte do Grell e de Kharlixes – falou em voz alta um dos cavaleiros que havia chegado ao fundo do vale com Ânn, após retornar de uma breve ronda matinal.


- Não é só isso! Sinto algo de estranho, um cheiro de morte... – Ânn praticamente balbuciou tais palavras demonstrando desânimo e consternação, quando um estrondo violento irrompe pelo vale seguido de um tremor de terra que abala as estruturas das construções próximas.

Antes que alguém tivesse tempo de pensar, as reações instintivas foram olhar nos arredores para ver o que estava acontecendo. Duncan, então, percebeu que o corpo de Salahadhra se decompunha com acelerada velocidade, liberava gases e uma espécie de soro que penetrava na terra e parecia agitá-la.

- O céu está caindo sobre nós! – gritou um dos cavaleiros de Ânn.

O chão sob os pés de Katherina convulsionou e a desequilibrou. A dama branca caiu e quando se ergueu viu que a terra se abria no fundo do vale.

- Não! O céu não está caindo! É a terra que nos está engolindo! Corram!!! – gritou a ordem de comando na vã tentativa de não parecer desesperada.

De fato, todo o fundo do vale rachava e se abria. Árvores tombavam e construções inteiras eram engolidas. Na distância, Adan conseguia ver as poderosas muralhas da cidade ruindo e as paredes dos cânions se fechando sobre a antiga Ykrath.

- Saiam logo! Corram! Corram! Por Moradin! Corraaaaaaaam! – Bruenor gritava com aflição conforme fugia em alucinada carreira.

Fumaça e poeira cobrem o vale e o grupo mal consegue enxergar o que há na sua frente. O relincho de um cavalo fez com que Bartolomeu olhasse para trás e visse o pobre animal sendo engolido por uma cratera que se abriu, tragando consigo o pobre ginete.

- Não!!! – Bartolomeu não conseguiu evitar que escapasse uma aguda exclamação quando observou na cortina de poeira a silhoueta de Ânn lentamente se erguendo do chão com espada em punho enquanto diante de si surgia outra criatura muito maior e mais feroz... uma gigantesca e renovada Salahadhra.:

- Ahhhhhh!!! Imortaaaaaal!!! Então era mesmo verdade! Kharlixes tinha razão! A ratazana branca estava mesmo por trás de tudo? Conheço tua laia! Vejo através de tua alma e sei tudo o que ambicionas! Mas sua astúcia não me passou desapercebida, pois governo estes pântanos há muitos anos! E não o irás tomar de mim! Jamais descobrirás os segredos que escondes! Você e seus lacaios seram enterrados com eles!!! – urrava a gigantesca e imponente naga.

- Não sei do que está falando! E nem me importa! Trouxe a morte até sua casa, e da morte não se pode fugir, pois é inexorável! Essa será sua retribuição! Que Thritereon lance sobre você o peso de seus pecados e que Wee Jas te carregue para o inferno!!! – responde Ânn, que despois olha para trás rapidamente, para contemplar os aventureiros que fugiam, e dizer – Vão logo! Fujam seus tolos!

E, então, a cortina de fumaça se torna espessa demais para ver o que se passa com Ânn.

Era impossível se aproximar dela, pois as crateras impediam. Logo, a única decisão plausível para os aventureiros era deixar o vale, o que teriam que tentar completamente às cegas.

Na verdade, Adan bem que tentou encontrar alguma direção, presumindo que o sul do vale escondesse alguma saída já que os lagartos fugiam naquela direção. Seu pensamento talvez não estivesse errado, mas era impossível se orientar em meio à cortina de poeira, com o chão se abrindo sob seus pés e o mundo caindo sobre a cabeça.

Os aventureiros apenas corriam e corriam, desviando dos obstáculos de forma frenética. Wurren, então, vislumbrou ser melhor se transformar em um lobo para ganhar terreno e tentar guiar o grupo. E assim o druida fez, sem contar que Adan o utilizaria como montaria logo em seguida.

Subitamente, então, um troll gigantesco surge em meio à poeira e quase atinge Wurren e Adan com seus braços, para apenas cair num fosso que se abria naquele instante graças ao terremoto persistente.

Os aventureiros desviaram e começaram a subir pela encosta de um outeiro, percebendo, adiante, uma recém aberta fissura na parede do cânion que separa o vale antigo de Ykrath dos pântanos. E como tinham saudades dos pântanos a esta altura!

Wurren e Adan colocaram algumas dezenas de metros de distância à frente dos demais, e na empolgação, não viram que o chão sob seus pés se abria, deixando para depois a oportunidade agora adiada de sair do vale. Ambos caíram pela fenda e atingiram o fundo de um complexo de cavernas mais antigo.

- Onde estão Wurren e Adan? – perguntou Bartolomeu assim que ele, Bruenor e Duncan conseguiram sair pela fenda, alcançando os pântanos, finalmente.

- Não sei! Eles sumiram no meio da poeira! – disse Duncan.

- Wuuurrrrennn!!! Adaaaannnnn!!! – gritou Bruenor.

- Shhhhh!!! – Bartolomeu exigia silêncio – Você tá maluco?! Quer atrair inimigos pra cima da gente? Espere um pouco, eles vão aparecer – completou o astrólogo quando o grupo viu Adan montado em uma aranha gigante surgindo pela fissura.

- Mas o quê?! – Bruenor já sacava seu machado.

- Calma! É o Wurren! Caímos num buraco, mas finalmente o inútil serviu pra alguma coisa – disse o ladino.

- Agora precisamos pensar em sair daqui o quanto antes – disse Duncan em voz baixa, sem pensar em Ânn.



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