Os Herdeiros de Ânn - 27º Ato

Katherina se aproximou do grupo desolado. O corpo de Duncan ainda estava quente nos braços de Wurren, que sob o olhar choroso de Bruenor, tentava conter o desespero.

A companhia da dama branca apresentava claros sinais de desgaste. Ânn, que estava acompanhada por apenas três de seus cavaleiros, ela própria, tinha escoriações e cortes pelo corpo, muitos dos quais penetraram em sua carne após romper pelo corselete de couro. Os estandartes estavam em farrapos e os cavalos ostentavam cabeças baixas e patas flageladas.


Mesmo assim, ela não se desesperou ao ver os aventureiros em situação tão dramática. Não. Ao revés, com muita calma, Ânn aproximou-se com seu cavalo sem dizer uma só palavra, desceu da sela, se dobrou um joelho ao lado de Wurren, impondo a palma de sua mão esquerda sobre o peito de Duncan.

Seu olhar não estava perdido, longe disso. A dama branca tinha o olhar firme e pregado no rosto desacordado do paladino.

- Hoje não é seu dia de morrer, Duncan – sussurrou Katherina, quando, então, retirou um colar de seu pescoço e os aventureiros puderam notar o pingente de diamante que nele pendia.

Ânn pressionou o pingente contra o peito de Duncan e entoou uma poderosa oração, cuja vibração reverberou por todo o entorno, enchendo os corações dos aventureiros de temor.

E, então, o som da inspiração de ar: os pulmões de Duncan se enchem. Seu corpo estremece, e o paladino abre os olhos com pupilas dilatadas, emergindo para a vida com a clara sensação de ter escapado do inferno.

Wurren vibra. Bruenor deixa uma discreta lágrima escorrer e, enxugando-a, agradece à Moradin pela chegada de Ânn. Bartolomeu, de seu turno, a tudo observou com uma estranha mistura de ceticismo e adoração.

****

A noite já chegava quando Duncan despertou.

Consumiram-se muitos minutos antes que o alvoroço terminasse. Não é todo dia que os aventureiros presenciam uma verdadeira ressureição!

- Não se trata de ressureição alguma. Mas de um presente divino de Wee Jas – explicou Katherina diante da perplexidade demonstrada por Wurren.

- Seu pingente sumiu! – disse, ainda em dúvida, o meio orc.

- Wee Jas é caprichosa como a morte. Retribuí seu presente com um meu. Nada mais - respondeu Ânn – Agora, me digam, como a situação chegou ao ponto em que chegou?

- Matamos Kharlixes e o Grell. Está tudo acabado! – respondeu Bartolomeu.

Ânn estava impressionada, mas demonstrou que estava interessada em ouvir a toda a história somente nodia seguinte, pois todos estavam cansados e precisavam de uma noite de sono.

Assim, Ânn e os aventureiros decidiram se abrigar nas ruínas de uma casa próxima que, aliás, contava também com um abrigo subterrâneo que veio a calhar.

Todavia, quando já estava bem escuro, houve agitação no abrigo, pois todos despertaram com o alto som de chocalho que soava das imediações da casa.

- Por Thritereon! O que é aquilo – um dos homens de Ânn disse estupefato enquanto olhava por uma fresta na janela – É uma cobra gigante!

Adan estremeceu, mas não hesitou. Tomou a frente de todos e saiu porta afora:

- Cumpri o acordo Salahadhra!

- Ótimo! Fizeram o trabalho sujo por mim! Mas agora não poderei deixar que saiam do vale com vida!

Adan ficou perplexo, mas ainda tomado de espanto conseguiu responder:

- Você é uma mentirosa! Fiz o que me pediu e você deveria honrar sua palavra!

- E honrei! O arco é seu! E sua vida é minha! Hahahahaha – riu a naga, exibindo agora um corpo recheado de carne e músculos, revestido por uma pele cor de ébano e adornado com muitas jóias muito distante da figura esquelética que os aventureiros encontraram antes.

Adan, então, correu para ganhar distância e disparar com seu arco, acertando a naga, que não contava que logo todos os aventureiros, além de Ânn e seus três caveleiros conseguissem cerca-la.

O combate foi rápido, pois logo a naga caiu apesar de seu corpo revigorado.

- Fácil demais! – gritou Bruenor.

- É isso que me preocupa – balbuciou o astrólogo, sem que ninguém conseguisse ouvi-lo.

****

Não era mais possível retomar o sono após o frenético combate. Além do mais, faltavam poucas horas antes do sol raiar. Somente Bartolomeu e Duncan retornaram para o interior do abrigo.

- Quem era essa criatura?! Ela falava como se os conhecessem! – perguntou Ânn.

- Sim, de fato. A conhecemos, matar Kharlixes só foi possível graças ao arco da naga – Wurren explicou com certo tom de inocência na fala referindo-se claramente ao arco nas mãos de Adan, sem perceber isso poderia despertar uma indesejável curiosidade de Ânn, que levou à uma longa explicação do grupo dos passos que se seguiram desde que partiram de Stonebridge.

- Pelos deuses! Fizeram um acordo com uma naga ancestral!!! – bradou Ânn com certa fúria.

- Você não pode criticar! Não sabe pelo que passamos nos últimos dois dias! Quase morremos diversas vezes! Se não tivesse feito o acordo com Salahadhra não teríamos tido a menor chance contra o dragão! – reclamou Adan.

- Repreendendo você pelo acordo que fez, mas reconheço que é impossível julgar mal o resultado. Só não diga que não enfrentamos nossa própria cota de azares e revezes! E olhe o tom! Pois não admito que me desafie desta forma na frente de meus homens!


- Não te devo lealdade, e quero que seus homens se danem! Às favas com sua autoridade! Fizemos todo o trabalho aqui e você vem fazendo esses comentários ridículos! Pouco me importa que desafios enfrentou! Nós matamos a porcaria de um dragão!!!