Os Herdeiros de Ânn - 26º Ato

O desafio de enfrentar Kharlixes é grande demais! (desconhecido / http://wallpapersok.com/pt/pictures/104452)

O cheiro de vegetação podre, amônia e enxofre, invade os pulmões dos aventureiros, quando o dragão diante de si abre suas asas de modo magistral, revelando sua gigantesca envergadura.

- Ahhhhhhhmmmmm... – um som grave e profundo ecoa pelo vale, tendo por origem da grande boca dracônica – tudo o que vejo são ratossss, reles ratinhoosss. Onde está a grande ratazana? – os olhos de Kharlixes têm órbitas profundas e aberturas nasais largas, que lhe conferem uma aparência cadavérica.

Bartolomeu recua um pouco neste momento, sentindo que Kharlixes é um inimigo formidável e invencível. Sua face lhe inspira medo. Medo da morte. O astrólogo busca uma reflexão interna em resposta ao temor profundo, lembra do véu de proteção de Wee Jas, mas os tremores no corpo e o suor frio denunciam seu estado de nervos.


- Ahhhhhhhhhhh – Kharlixes suspira com certo tom de satisfação. Suas narinas exalam uma fumaça esverdeada que recrudesce ainda mais as expressões de horror dos aventureiros. A face dracônica, que exibe um par de chifres segmentados que se curvam para frente e levemente para baixo, ladeando a carranca, parece satisfeita quando os aventureiros sentem sob seus pés a água negra dos pântanos de rushmoors subindo pela terra outrora seca e firme, enquanto raízes e galhos retorcidos rapidamente crescem e o céu se escurece transformando tudo num raio de muitas dezenas de metros num brejo mal cheiroso e opressor.

- Pelo martelo de Moradin!!! – Bruenor exclamou, sem nenhum sinal de sua típica afobação e sede de sangue. Entre sua testa cisuda e as maçãs pronunciadas de seu rosto redondo estão os olhos inseguros de pupilas dilatadas que se fixam na enorme criatura.

- Tenham calma – diz Duncan –, temos a clava forte da justiça ao nosso lado. Tenham fé!

Em meio a tudo isso Adan percebeu que Kharlixes estava em dúvida e que sua apresentação até agora serviu para ganhar os breves instantes necessários à sua realização: aquele punhado de aventureiros não era o que ela estava esperando.

- Nós matamos o seu grell! Está acabado Kharlixes! – Bartolomeu reuniu forças para falar, controlando o timbre de voz para não evidenciar o medo - A farsa acabou! O povo lagarto saberá de seu engodo! Seus planos fracassaram!

- Ahh! A insolência! Vou começar por você! Primeiro irei lhe banhar em ácido, e quando sua carne mole começar a se desprender dos ossos o devorarei, lançando seus restos aos meus lacaios! – respondeu o dragão com sua voz absurda.

- Você não ganha nada com isso! E nós não queremos nada de você! Aceite que acabou e podemos encontrar um termo! – insistiu Bartolomeu.

- Hahahahaha! – Kharlixes ri sadicamente – A única coisa que acabou é a sua insolência! Sua mente humana é pequena demais, sua existência finita demais! Reinarei absoluta e serei adorada porque poderosa e imortal, não porque um soi-disant deus de uma subraça se pretende glorioso. Não! Minha glória será genuína e se prolongará pelos séculos dos séculos, e até mesmo os reinos dos homens se curvarão a mim! Mas, não me darei ao trabalho de vos explicar. Vocês não merecem nada senão meu desprezo!

O dragão, então, inspira rápida e poderosamente, inflando o pleito para logo em seguida exalar uma baforada ácida violenta. Antes disso, porém, Adan sentiu o arco vibrar em suas mãos novamente, e o ladino se esgueirou para disparar uma flecha certeira contra o dragão.

Kharlixes conteve a baforada por breves instantes, rugindo ferozmente, mas logo em seguida prosseguiu disparando na direção de Bartolomeu, que tentou saltar para um local seguro e fora do alcance da baforada, mas acabou vencido pelo calor ácido que penetrava em sua pele e atingia-lhe os próprios ossos.

Dramaticamente, o astrólogo cai no chão, precisamente sobre o corpo do grell. Infelizmente, Duncan acabou atingindo por muitos respingos da baforada ácida e sua armadura acabou seriamente comprometida.

Quando os aventureiros criam que nada poderia piorar naquele instante, como um passe de mágica, o céu escurece, água podre emergiu do solo e nuvens espessas começaram a se aproximar. Assustados, Duncan e Bruenor começaram a afundar no terreno pantanoso que imediatamente se formou sob seus pés. Adan, contudo,conseguiu escapar com agilidade.

Wurren era o único cujos pés continuavam secos, de modo que, inspirado nos ancestrais espirituais, orou, e assumiu a forma de um urso marron, tendo em vão emitido um rugido intimidador contra Kharlixes, que apenas riu com desdém.

Duncan deitou sobre a lama e, aumentando sua área de contato com o terreno pantanoso e movediço, parou de afundar, conseguindo se deslocar para uma parte seca usando a luminosa como uma espécie de bastão. Bruenor, contudo, não tinha tanta habilidade e afundava rapidamente.

Kharlixes, então, desferiu três golpes rápidos contra Wurren, abocanhando-lhe e depois o atingindo com suas longas e fortes asas. Adan buscou cobertura e só se descuidava dela para dar disparos sempre certeiros contra o dragão: desta vez o arco parecia ativamente lhe ajudar, mesmo quando as condições de mira eram desfavoráveis.

O meio-orc se aproveitou o momento de distração do dragão para atingir-lhe um golpe que, todavia, parecia inócuo em face da carapaça natural espessa que o protege. Para sua completa surpresa, as nuvens que via se aproximarem no horizonte eram na verdade centenas de gafanhotos e escaravelhos que se reuniram finalmente envolta do mestre dragão, picando e irritando o uso marron.

Logo em seguida, Duncan conseguiu se aproximar do dragão, e de modo absolutamente destemido girou a espada luminosa, estufou o peito e fez prevalecer sua imponente presença com um golpe certeiro que causou sérios ferimentos aos membros superiores de Kharlixes, que quase tombou.

Bruenor continuava afundando, mas os ventos pareciam querer mudar de direção, pois Bartolomeu despertou do torpor em que foi lançado após a ardência ácida. Zonzo, o astrólogo não teve muito tempo para fazer qualquer coisa, senão somente dar uma mãozinha para que o companheiro anão não se afogasse na lama.

Kharlixes, então, se irritou, e avançou contra o espadachim, considerando que o mesmo exalava agora uma aura violenta e para si desagradável. O dragão, porém, se distraiu e acabou enfiando uma pata na fenda aberta no solo pelo desmoronamento da adega. Duncan se aproveitou e desferiu mais um golpe de espada, impingindo grande sofrimento ao inimigo. Adan, de seu turno, saltou para fora da cobertura e disparou outra flecha certeira.

As flechas de Adan doíam como agulhas quentes no corpo do dragão, que começava a demonstrar algum cansaço, animando os aventureiros!

- Ela está arriando! Não desistam! – gritou o ladino. Seu bom humor, porém, recrudesceu quando a nuvem de escaravelhos e gafanhotos se tornou mais agressiva. Os insetos picaram às centenas o corpo de Bartolomeu e Duncan. O astrólogo não tinha mais resiliência e preferiu encomendar sua alma à Wee Jas do que continuar na inglória batalha com tão potente criatura. Duncan, por sua vez, girava a luminosa com ferocidade, mas os insetos eram muitos e especialmente seu rosto acabou muito ferido, fazendo-o desmaiar de dor, colapsando.

Adan e Wurren arregalaram os olhos em sinal de horror, entretanto, Wurren havia conseguido sair da lama antes de Bartolomeu cair novamente e, resgatando as últimas energias de que dispunha, se jogou freneticamentecontra a cortina de insetos e, gritando, atingiu Kharlixes com seu machado:

- Morra Kharlixes!!!! Mooooorrraaaaaaaaaa!!!

Inspirado, Wurren consegiu atingir a jugular do inimigo, que se enfureceu com a resistência dos aventureiros. Como era possível que aqueles fedelhos encontrassem tantas forças para se opor ao seu terrível poder?!

Subitamente, então, uma pesada escuridão mágica recaiu sobre a região, tendo havido tempo apenas para que Wurren e Bruenor vissem o dragão erguer-se em seu voo soberano. Adan contemplou com temor a retirada temporária do inimigo que, ganhando altitude e distância suficientes, inflou o peito novamente, extravasando fumaça ácida de suas narinas antes de atirar-se em um violento rasante que tinha como objetivo destroçar de uma vez por todas seus petulantes adversários!

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Adan sentiu novamente o arco vibrar em suas mãos e, erguendo-o, tencionou o arco com a última flecha élfica de sua aljava. Um suor escorreu por suas têmporas quando o dragão iniciou a trajetória descendente, fazendo o ar assobiar como no último suspiro de esperança do grupo. Adan fechou os olhos por brevíssimos instantes, invocou seu patrono, e soltou a corda disparando o projétil.

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Kharlixes descia com o olhar vidrado em Wurren e Bruenor. Seu pulmão estava cheio de ácido e seu coração repletode ódio! Quando, porém, sua bocarra se abriu para expelir a baforada mortal, uma flecha certeira atingiu seu pescoço vazando-o de fora a fora, fazendo com que o ácido escapasse pelos novos orifícios e, na prática, matando a criatura em pleno voo.

A escuridão, tão rapidamente quanto surgiu, desaparece instantaneamente, fazendo Wurren arregalar os olhos de suspense quando viu o corpo enorme de Kharlixes caindo desorientado em sua direção.

O meio-orc, porém, consegue saltar para longe, e segue-se o som surdo da queda do corpo inerte do dragão no solo.

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Quando a poeira abaixou, Wurren já estava com o corpo de Duncan em seus braços e Bruenor contemplava com os olhos marejados. A vida de Bartolomeu estava salva (uma benção de Wee Jas talvez), mas o espadachim não encontrou tamanha sorte e seu coração parou de bater naquele instante, vencido pelas centenas de ferimentos sofridos.

- Que será de nós agora?! – perguntou Adan,com desalento, quando ouviram o som de cavalos se aproximando e, olhando para o sul, viram a dama de branco se aproximando com duas escoltas e um pavilhão esfarrapado.

- Ânn!!! – Bartolomeu deixou escapar o grito de esperança!

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