Os Herdeiros de Ânn - 25º Ato

Bartolomeu sentiu uma agulhada na cabeça. Seu estômago embrulhou e o suor frio desceu por sua testa: o diário de Melza!

O astrólogo não havia dado prosseguimento na leitura do tomo. Os textos eram confusos, a escrita arcaica quase indecifrável. Auxiliava-o a presença de alguns desenhos e esquemas. Aquele bem poderia ser, na verdade, um tomo arcano, chegou a pensar. Mas agora, diante da quadra vivida, Bartolomeu começou a entender algumas frases que eram enigmáticas demais para serem compreendidas antes.



Lá vem a noite profunda e com ela os espíritos das sombras,

Ergue-se o baluarte como a tocar-lhe a própria face.

Proclamai o nome do glorioso general e sua vorpal;

Para que os segredos do coração negro se revelem de corpo inteiro!



De súbito, então, o astrólogo deve que abaixar a cabeça e se esgueirar por trás de arbustos:

- Rápido! Todos se escondam! – disse Bartolomeu, quando o grell sobrevoou a região, rodopiando duas vezes nos céus antes de dar um razante, agarrando pelos ombros o pobre ex-escravo que ainda acompanhava o grupo. Ele fora o único que não teve a presença de espírito para se esconder a tempo – até mesmo Bruenor e Duncan, com suas pesadas armaduras de metal, conseguiram esconder-se com sucesso. A criatura ergueu o ex-escravo cerca de dez metros e o atirou cruelmente na estrada, matando-o instantaneamente.

Deitado atrás de uma parede em ruínas, Adan olhou aterrorizado e só ficou reconfortado quando se recordou da capa élfica que ganhou de Katherina. O ladino puxou o capuz e abaixou a cabeça, mesclando-se ao solo e às rochas. Wurren engatinhava entre a vegetação, sorrateiramente deslizando para perto dos demais, quando viu que Duncan teve a sorte de se esconder nas ruínas de uma casa com porão. O espadachim abriu o alçapão e fez um sinal para que o meio-orc avisasse aos demais. Wurren varreu o local com os olhos em busca dos companheiros, mas não viu Adan. Era preciso tomar cuidado para não atrair a atenção do grell, que ainda sobrevoava o local. Bartolomeu e Bruenor seguiram rastejando atrás do felino, e Adan, que viu a movimentação, se deslocou agachado – protegido que estava pela capa élfica.

- Rápido! Todos pra dentro do alçapão! – sussurrou Duncan, abrindo a escotilha e revelando-lhes uma pequena adega subterrânea.

Assim que todos entraram, Bruenor falou:

- Estamos enrascados! Fudidos é o que estamos! Com vamos fazer agora?

- É melhor aqui dentro do que lá fora! – retrucou Adan.

- Vocês ouviram? Kharlixes chamou o grell de Sess’inek – falou Bartolomeu.

- Sim, todos ouvimos – respondeu Duncan – Mas não acredito nem um minuto. O diálogo pareceu ensaiado para impressionar os lagartos.

- E por que o dragão diria isso tudo em voz alta, sabendo que havia intrusos no vale? – tornou a perguntar o astrólogo.

- Talvez não achasse que os “intrusos” estavam tão próximos – ponderou Bruenor.

- Nada disso interessa! Temos que sair daqui! – diz Adan.

- Não. Ficaremos até a situação arrefecer. Se sairmos agora o grell irá nos ver. Podemos aproveitar o tempo para discutir nossos próximos passos. Kharlixes falou de catacumbas...

- Será que eram as catacumbas do olho tirano? – replicou Adan.

- Não creio. Acho que devem estar sob a torre negra. Foi o que pensei naquela hora – respondeu Duncan.

Enquanto os aventureiros discutiam, Bartolomeu tirou de sua bolsa o livro que achou junto à forja elemental e o folheou rapidamente mais uma vez, revendo a passagem que veio à sua mente há pouco. O astrólogo repetiu em voz alta os versos que lhe chamaram a atenção anteriormente.

- O que significa isso? – perguntou Adan.

- Ainda nãoestou certo, mas parece ser aquilo que Kharlixes busca. Penso que este é o Tomo de Melza, e esta passagem que li para vocês parece conter a chave para as catacumbas – explicou Bartolomeu.

Wurren estremeceu, mas nada pode dizer, pois ainda estava em sua forma animal. Algo fez sua alma se inquietar, contudo, não sabia identificar ao certo o quê.

Bartolomeu, então, rasgou a página do livro que contém os versos de interesse do grupo.

- Não faça isso!!! – gritou Bruenor, não antes de um forte clarão iluminar a adega e um violento deslocamento de ar seguido de um trovão explodissem no subterrâneo, arracando os aventureiros do chão e fazendo uma grande fenda surgir no solo, revelando suas posições à criatura maligna que até então apenas sobrevoava o vale. Bartolomeu caiu atordoado no chão, pois a explosão sonora o atingiu diretamente. Wurren subiu as escadas até o alçapão, e sentiu um frio na espinha quando ouviu o som surdo do grel pousando uma carcaça pesada diante do refúgio subterrâneo agora exposto à luz do dia!

****

A criatura feroz abriu suas asas ameaçadoramente e rugiu.

Duncan se apressou. Correu até o fundo da adega, utilizou as prateleiras como atalho e num pulo subiu ao nível do solo, sacando a sua espada luminosa e desferindo um poderoso golpe no monstro. A criatura revidou com o golpe violento de suas garras. Inspirado pelo exemplo do paladino, Bruenor seguiu seus passos e com o machado atingiu o monstro no torso, comum golpe transversal que bem poderia ter dilacerado um de seus rins (se ela tivesse um).

- Ele é feito de puro mal! – gritou Bruenor, antes de ser atingindo por uma mordida violenta desferida pelo adversário infernal.

O anão e o espadachin estavam mortalmente feridos. As garras e as presas do grell são extremamente afiadas e o sangramento imposto por elas é severo. Adan, então, também saiu da adega e buscou cobertura atrás de um pedaço de parede em meio às ruínas. De lá, trêmulo, disparou um flecha que, nada obstante, partiu certeira rumo ao peito do monstro. Já Wurren, avançou e saltou sobre a criatura!

Bartolomeu olhou para os céus e viu a sombra de Kharlixes. Seu sangue gelou.

Duncan atingiu novamente o grell que dobrou os joelhos. Os aventureiros estavam levando muita sorte, pois cada golpe parecia certeiro e o grell, enfurecido, abriu completamente sua guarda para lançar sobre o espadachim e o anão os golpes sangrentos que quase os levaram ao chão.

Bruenor se aproximou do monstro, flanqueando-o, e girando o machado decepou-lhe a cabeça!

- Há! Problema resolvido! Se soubesse que seria tão fácil! – regozijou, antes que percebesse que Kharlixes desceram de seu vôo soberano para confrontar o grupo.

- Adan! É sua hora de brilhar! – comentou Bartolomeu com voz de desânimo.

O ladino cerrou a mão envolta do punho do arco de Salahadhra que emitiu uma estranha vibração.

Comentários

  1. Ficou muito bom, Mario!!

    Que os deuses nos ajudem amanhã, pois iremos precisar de muito auxílio...

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  2. Ficou muito bom, Mario!!

    Que os deuses nos ajudem amanhã, pois iremos precisar de muito auxílio...

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  3. Vamos ver! É HOJE!!!

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