Os Herdeiros de Ânn - 24º Ato




Nosferatu Zodd, mítico monstro do anime Berserk: fonte de inspiração para o grell (por Ferchozki / Deviantart)

Os aventureiros finalmente transpõem o abismo e, assim, alcançam o fundo do vale. A vegetação antes esparsa e predominantemente rasteira agora se adensa e árvores mais altas começam a surgir com alguma frequência. A sensação de que se tem é de estar caminhando em outro plano de existência, pois as muralhas de rocha que circundam o vale lembram a todo instante seu observador que aquele é um reduto perdido em meio aos pântanos obscuros e nojentos.


- Achei que aquela cobra de pedra daria mais trabalho – comentou Duncan, aliviado com o sucesso do enfrentamento. Seu corpo estava dolorido graças a recente rotina de combates. Além do mais, ele tentou acompanhar a corrida desenfreada de Wurren (que por sua vez perseguia um homem-lagarto que tentou fugir da área da ponte para alertar seus companheiros na cidade perdida de Ykrath) e isso o cansou muito.

- Espere, Duncan! – gritou Bruenor, bufando.

Bartolomeu estava mais atrás, preocupado com o tipo de desfecho que essa perseguição poderia ter. “Wurren se arrisca demais! Será que não vê que o lagarto o está levando para dentro da cidade e que isso pode ser uma emboscada?”, pensou o astrólogo, lembrando-se logo em seguida de fazer uma prece para Wee Jas.

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Wurren ainda estava em forma felina e por isso alcançou o homem-lagarto rapidamente. O meio-orc tentou atingir os calcanhares do adversário com uma patada, mas essa primeira tentativa fracassou e o inimigo tornou a ser afastar. Mas Wurren não estava disposto a deixa-lo fugir e correu como nunca, destava feita saltando sobre o adversário com um rugido feroz. Assustado, o homem-lagarto chegou a se virar apenas para ver com horror a besta saltando sobre si. As suas patas eram tão grandes quanto um punho humano fechado, e com elas Wurren derrubou o adversário no chão, cravando suas presas afiadas em seu pescoço sem nenhum tipo de remorso.

Toda a perseguição e o ataque final não passaram de uma fração de segundos do ponto de vista do meio-orc, mas estes foram o suficiente para que os demais aventureiros conseguissem alcança-lo. Seus corpos estavam doloridos graças a recente rotina de combates e a frenética corrida não contribuiu em nada. A perseguição os fez adentrar no perímetro de Ykrath, onde encontram as primeiras construções da cidade perdida. São casas simples de adobe que pontilham erraticamente o terreno amplo e plano que circunda o núcleo duro da cidade antiga: a fortaleza murada que guarnece a torre negra.

Adotando cautela como regra, Adan decide retomar seu papel de batedor, indicando aos colegas os caminhos mais seguros (e furtivos) através das ruas de terra palidamente desenhadas no que resta da vila anciã.

Uma constatação, porém, paralisa o ladino por breves instantes para a contemplação antes mesmo de assumir a dianteira. Ele nota que os habitantes de Ykrath (majoritariamente membros do povo-lagarto) abandonam suas mundanas atividades de vigia e patrulhamento para caminhar apressadamente em direção à torre negra.

- Tem alguma coisa acontecendo no centro da cidade. Vi muitos guardas correndo para lá – comentou o ladino, apontando para a torre. Bartolomeu e os demais conseguiram observar o mesmo, mas antes de qualquer reação, repentinamente, o já inconfundível rugido gutural de Kharlixes ecoa pelo vale e os aventureiros, erguendo os olhares, observam a infame criatura surgindo de modo esguio e sinuoso entre os pináculos da torre negra.

- É de meu conhecimento que há intrusos no vale! Eles desejam a morte de seu deus! – o enorme dragão anuncia de forma enfática, enquanto uma criatura voadura emerge da torre – Encontrem-nos e os destruam! Protejam a cidade e em hipótese alguma permitam eles cheguem até Sess’inek! – completa o dragão, ao que parece fazendo referência à entidade que agora paira em um voo turbulento pouco acima de si observando a tudo com altivez.

- O grell! Pelos deuses! É o grell! – sussurrou Bruenor.

- Mande-os para as catacumbas e se apresse. O tomo de Melza precisa ser encontrado o quanto antes. Sem ele não poderemos abrir a torre. Deixe que eu encontre os intrusos e os destrua! – a criatura verbaliza tais palavras com sua voz monstruosa e assustadora.

- Façam como mandou Sess’inek! Vasculhem as catacumbas! – Kharlixes diz em seguida, sem demonstrar qualquer surpresa com a sugestão do demônio Sess’inek.

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