Os Herdeiros de Ânn - 21º Ato

O fundo do vale profundo está a centenas de metros de distância ainda. Os aventureiros precisam percorrer um longo caminho na íngreme encosta até a área plana - uma zona de amortecimento formada predominantemente de cascalhos e rochas pontiagudas que se desprenderam do paredão incontáveis anos atrás. A região em questão possui algumas árvores altas, mas não o suficiente para caracterizar um bosque. Em verdade, a maior parte da vegetação é composta por arbustos e outras plantas rasteiras.

Diante de si, o grupo enxerga a possibilidade de percorrer a distância em liça através da trilha pavimentada que aparentemente conecta a saída das masmorras até a cidade abandonada de Ykrath – passando próxima de outras construções esculpidas no paredão rochoso e serpenteando até o fundo do vale.


Nem mesmo o sobrevoo do poderoso dragão Kharlixes sobre o vale esquecido foi capaz de mudar os planos.

É verdade que a opção de abrir caminho pela encosta pode não ser a mais rápida, posto que é preciso constantemente tomar cuidado para não escorregar a cair, mas pelo menos é mais segura: além do perigo representado pelo dragão, não se sabe quem pode estar espreitando, de sorte que descendo pelas rochas, entre arbustos e árvores, o grupo pode obter refúgio contra os olhares observadores de potenciais inimigos.

De outro lado, contudo, o declive é muito acentuado, e os aventureiros ponderaram os riscos envolvidos em um possível (e até mesmo provável) combate naquela encosta. Além disso, o paredão rochoso parece inóspito e não há sinal nenhum de inimigos por perto.

- Acho melhor seguir pela trilha pavimentada, mesmo após ponderar os riscos envolvidos – disse Wurren.

- Vamos logo então! Olhos e ouvidos atentos, senhores! – respondeu Duncan.

Wurren, então, assumiu a dianteira do grupo. A trilha pavimentada é estreita, com no máximo dois metros de largura. No início da caminhada, o lado esquerdo era preenchido pelo paredão e das construções encravadas na rocha. Todas sinistras e vazias. Mais adiante, porém, a trilha se afasta do paredão e traça seu caminho pela encosta assaz inclinada que leva ao fundo do vale, sempre serpenteando muito.

De repente, Wurren vê à distância um grupo de cinco homens-lagartos escoltando uma carroça, trazendo consigo o que parecem ser três homens escravizados. Eles sobem lentamente pela trilha, não tendo se apercebido da aproximação dos aventureiros forasteiros.

- Pessoal, temos um problema. Pela trilha estão subindo homens-lagartos, e eles trazem consigo uma carroça e o que parecem ser alguns escravos!

- Ótimo! Vai ser uma oportunidade de fazermos algumas perguntas! – disse Bartolomeu, confiante.

- Rápido, se escondam então! Vamos montar uma emboscada! Vocês três fiquem acima, naquelas pedras – Wurren falou para Adan, Bartolomeu e Duncan, apontando para algumas rochas grandes que se destacam na encosta e que serviriam de esconderijo – Bruenor, fique mais adiante e arranje um lugar para se esconder. Eu ficarei aqui na estrada mesmo, para atrair a atenção do grupo deles.

Bruenor, então, saltou a mureta que protege os viajantes da trilha de uma queda para o desfiladeiro íngreme à direta. Os demais, obedecendo ao comando de Wurren, subiram a encosta à esquerda e se esconderam atrás de pedregulhos, de onde podiam espreitar a chegada dos adversários.

Eventualmente, os lagartos se aproximaram e Wurren cumpriu seu papel: atraiu a atenção deles. Contudo, a princípio somente um deles mordeu a isca, enquanto os demais ficaram parados numa posição mais recuada e segura da trilha.

Rapidamente, Adan (que estava agachado atrás de uma pedra) se levantou e armou o arco. Contudo, pisou em falso e escorregou, descendo a encosta rolando como uma abóbora madura, vindo a parar bem nos pés do lagarto batedor. Vendo isto, Duncan preferiu comprometer a estratégia do grupo do que sacrificar o colega, motivo pelo qual saiu em desabalada carreira para golpear o adversário duas vezes com luminosa.

O estardalhaço do combate atraiu a atenção dos demais homens-lagarto. Dois deles avançaram para ajudar o batedor. Os demais receberam ordens para recuar com os escravos e a carroça.

Bartolomeu estava atento, de modo que viu o modo como os inimigos gesticulavam e presumiu do que se tratava: a carroça e os escravos recuariam escoltados por dois lagartos, enquanto os outros três tentariam lidar com os aventureiros. O astrólogo, então, fez uma prece à Wee Jas e um dardo mágico surgiu em suas mãos. Ele mirou bem e atirou o dardo na direção dos inimigos, atingindo um lagarto em cheio!

O adversário ficou zonzo, mas não caiu. Um dos escravos reagiu, então, dando-lhe um golpe furioso com as mãos. Bartolomeu tornou a disparar um dardo mágico, desta vez mirando no lagarto remanescente, que desta vez caiu morto.

Enquanto isso, Duncan e Wurren (este transformado em lobo atroz, atitude que já está virando rotina) lidavam com o lagarto batedor e os outros dois que vieram ao seu socorro. Bruenor saltou de trás da mureta para pegar um deles por trás, dando-lhe uma machadada quase letal que o fez cair no chão completamente desorientado.

- Não o mate! Deixe-o vivo! – gritou Bartolomeu, do alto da encosta, de onde podia monitorar todos os acontecimentos.

Neste momento, Duncan e Wurren acabavam de derrotar os lagartos remanescentes. Bruenor, finalmente dando ouvidos à razão, conteve o golpe de misericórdia que pretendia dar no seu adversário.

- Mantenha-o rendido enquanto libertamos aqueles homens e verificamos a carroça – disse Bartolomeu enquanto caminhava em direção à estrada – Vocês estão bem? – perguntou, então, aos escravos.

- S... sim senhor! Oh! Pelor! Obrigado por mandar nossos salvadores! – disse um dos homens se debulhando em lágrimas.

Bartolomou os viu com compaixão, pois os anos que passou no exílio vieram à tona em seus pensamentos.

- Wurren! Eles estão presos com grilhões. As chaves devem estar com um desses lagartos – gritou o astrólogo – Vocês são de onde? – perguntou, então, aos homens.

- De Folly, senhor. Nossa vila foi atacada por lagartos e fomos capturados! Não havia ninguém para nos defender. Somos reles pescadores! – um deles respondeu.

Duncan e Wurren se aproximaram. O espadachim usou as chaves que Wurren encontrou junto do corpo do batedor e abriu os grilhões, ao passo que o druida examinava a carroça, percebendo que ela trazia um barril pesado. O meio-orc se aproximou, ainda em sua forma lupina, e ao cheirar o barril seu estômago embrulhou imediatamente, causando-lhe náuseas fortes.

- O que houve? – perguntou Duncan.

- Parece que tem algo podre aí dentro – comentou Bartolomeu, vendo que Wurren vomitava e revirava os olhos – Vire essa carroça, Duncan. Se livre dela. Vamos esconder os corpos dos homens-lagartos e nos abrigar em algum lugar seguro para interrogar nosso refém.

Assim os aventureiros procederam, só parando para observar o esforço de Duncan, que conseguiu virar a carroça por sobre a mureta, fazendo-a se espatifar contra o cascalho morro abaixo. A ríspida descida fez o barril que a carroça carregava se partir, revelando um amontoado de carne podre que deslizou pela encosta até ficar agarrado em um arbusto.

Intrigado, o astrólogo se aproximou – sob o olhar atento de Duncan – e constatou que se tratava, em verdade, de um corpo abominável: membros e órgãos costurados, de modo grosseiro unidos para formar um corpo inanimado. “Será um gollen?” Bartolomeu se perguntou, enquanto rezava à WeeJas em busca de respostas. “Provavelmente sim, mas não está animado ainda”, completou seu pensamento.

- O que foi Bartolomeu? – perguntou Duncan, da mureta, observando que alguns corvos se aproximavam em claro sinal de mau agouro.

- Nada, já te explico... – respondeu o astrólogo, com olhar preocupado – Vamos subir logo, buscar um abrigo e explico a vocês depois. Temos muito o que perguntar para nosso “amigo” refém.

****

Os aventureiros encontraram abrigo numa pequena gruta, cerca de 150 metros acima na encosta. Bartolomeu explicou aos colegas que aquele amontoado de carne é um gollen, mas ressaltou que lhe faltava a mágica necessária para animar o corpo.

- Por isso estavam o levando ao Olho Tirano! – disse Duncan.

- Como é possível que aquele monte de carne costurada possa ter vida? – indagou Wurren.

- Malditos necromantes! – respondeu laconicamente Duncan.

- Na verdade aquilo não é bem vida né... é alguma outra coisa, uma força mágica que apenas anima o corpo, mas não lhe dá alma – explicou Bartolomeu.

Wurren balança a cabeça negativamente. O astrólogo ficou em silêncio por alguns instantes e depois olhou para o homem-lagarto que estava ali como refém. Então, mandou que Bruenor o prendesse com os grilhões, o que prontamente foi feito. E depois perguntou:

- Quem é o responsável por isso? – Bartolomeu dirigiu a pergunta ao homem-lagarto.

- Meu nome é Slepelechslebleble. O que querem de mim? – o lagarto respondeu utilizando de forma precária o idioma comum dos homens livres de Flanaess.

- Quantos lagartos existem nessa cidade seria um bom começo... – Wurren disse em tom de pergunta.

- Somos muitos! Incontáveis – respondeu o vilão com certa empáfia, o que despertou a ira de Bruenor, que precisou se conter para não lhe dar um tabefe.

- E todos vocês servem o Grell? – Bartolomeu indagou.

- O quê? Apoiamos o quê?

- O demônio que é encarnação do deus lagarto... – completou Bartolomeu

- Sessss’inek você quer dizer... sim... mas nem todos o adoram! – respondeu o lagarto.

- E o dragão? – Wurren perguntou.

- Ele é apenas um subalterno de sacerdotes de Sesssss’inek.

- O dragão é apenas um subalterno de sacerdotes? – Bartolomeu perguntou duvidando da resposta. O astrólogo não estava certo de que o lagarto falava a verdade. Então, o aventureiro decidiu pegar sua adaga e espetar um pedaço de carne de lagarto salgada que surrupiou do templo de Lolth e estava em sua bolsa. Bartolomeu deu uma mordida no bife e, em seguida, apoiou a perna direita sobre uma rocha e o flexionou o braço apontando a faca ainda suja para a cara do refém:

- Se você continuar mentindo pra mim, eu vou te comer vivo seu filho de uma puta!

O homem-lagarto claramente ficou abalado com a ameaça do astrólogo. Seus músculos se enrijeceram e ele disse:

- Está bem! Eu vou dizer o que sei! Mas saiba que isto vai custa a minha vida!!! – sua voz estava embargada (ou pelo menos foi isso o que Bartolomeu pensou) – Os sacerdotes de Sess’inek nos enganaram! Aqueles malditos enganaram nosso povo! Disseram que tudo isso era para o retorno de nosso deus! Para o retorno dos tempos triunfantes de glória! Mas era ela... era ela que estava por trás! O tempo inteiro! Tudo era para a vontade dela! A maldita Kharlixes! Ela cooptou os sacerdotes de Sess’inek e eles nos enganaram e escravizaram o meu povo! Agora escravizará o seu também! Vocês precisam acabar com ela! Mas tenham cuidado! Ela tem aliados muito poderosos! Ela é quase invencível! Mas vocês precisam fazer alguma coisa! – o lagarto demonstra desespero e então complementa – Eu disse tudo o que sei. Por favor, não me matem!

- Quem são os aliados dela? – Duncan perguntou.

- O Olho Tirano! Ele fabricou para ela verdadeiro exército de coisas... – o lagarto aponta para o despenhadeiro onde o corpo costurado caiu – São coisas insensíveis, servos fiéis, incapazes de pensar, extremamente cruéis e vorazes que não sentem dor! Há também muitos homens escravizados! Mas a maioria são lagartos! Não sei o que os sacerdotes de Sess’inek pensavam quando se aliaram a Kharlixes, não sei se foram ameaçados ou talvez estejam enfeitiçados! Sei que traíram toda a nossa raça!

- Nós, que queremos acabar com tudo isso aqui, não poderemos encontrar nenhum aliado aqui, ou poderemos? – perguntou Bartolomeu.

- Muitos dos que se rebelaram foram mortos. Alguns poucos fugiram e devem ter saído dos pântanos! Os domínios de Kharlixes são cada vez maiores! Portanto, devem ter abandonado os pântanos, ido para as terras dos homens, onde certamente foram vítimas nas mãos daqueles que jamais compreenderam a nossa sociedade! Sim! Talvez você encontre aliados, mas todos estão muito amedrontados para reagir!

- E como a gente sai desses vales?

- Existem uma passagem subterrânea que liga a torre de Kharlixes ao exterior do vale. Mas eu nunca vi esse caminho! Se não for por lá, vocês terão que encontrar o caminho pelos portões principais da cidade, que muito raramente são abertos! – respondeu o lagarto.

Enquanto essa conversa continuava, Wurren dava alimentos para os homens que estavam escravizados e prestava atenção ao diálogo.

- Quanto ao Olho Tirano que você se referiu, onde ele fica? – perguntou o meio-orc.

- No antigo templo da Rainha das Trevas, da Rainha Aracnídea, o antigo templo de Lolth – respondeu o refém.

- Ele sai de lá? – perguntou Duncan.

- Eu não o vi sair de lá. Ele está sempre trabalhando no subterrâneo do templo, trabalhando em seus feitiços macabros! Ele não tem paciência nenhuma! Desintegra a todos que o interrompem ou irritam! – explicou Slepelechslebleble.

Bruenor estava irritado, e manifestou abertamente seu desejo de matar o homem-lagarto. Mas o grupo foi uníssono em rejeitar a proposta. Os aventureiros, então, deliberaram sobre os próximos passos: a situação só se agrava, e os problemas parecem ser muito maiores do que suas forças são capazes de lidar.

Foi neste momento que Wurren teve uma ideia:

- Talvez seja hora de falar com Ânn sobre o que se passa aqui.

- Hahaha! Como faremos isso? Acha que voltar pelo templo é uma hipótese? – Bruenor respondeu com tom jocoso.

- Eu sei que voltar não é possível. Mas eu posso mandar uma mensagem – falou Wurren.

- Ah! Vai me dizer que você pode se transformar num pombo correio? – Bruenor continuou resmungando.

- Não. Mas eu posso invocar uma ave mensageira... – o meio-orc respondeu com altivez – Contudo, precisamos saber a localização de Ânn.

- Um corvo serve? – perguntou Bruenor, ao que recebeu em resposta um gesto assertivo do meio-orc.

- Puta que o pariu, Wurren! Como vamos saber onde exatamente está Ânn?! Sua mensagem é inútil!

- Calma pessoal! Ela deve estar em Stonebridge – ponderou Duncan.

- Ora! Mande a mensagem ao prefeito Orren! – disse o anão, referindo-se ao alcaide da vila de Stonebridge – Nós sabemos por certo onde ele vai estar!

- É uma possibilidade. Todavia, acho que ele vai ficar assustado. Neste sentido, ao que é melhor mandar diretamente para Ânn se for possível.

Os aventureiros debateram a possibilidade por alguns instantes, e durante a conversa chegaram até mesmo a discutir a natureza das mágicas incríveis que Wurren demonstrava ser capaz de fazer. Em verdade, todos estavam ainda muito espantados com as transformações realizadas pelo druida, e ele aproveitou para se explicar aos colegas, contando a eles que este é um dom que possui desde criança, mas que só agora conseguiu controlar adequadamente. Segundo Wurren, ao se transformar em uma besta, em um animal selvagem, é preciso grande resiliência mágica para não sucumbir à própria natureza irracional do animal. Esse controle só vem com a maturidade e tende a se aprimorar com o tempo.

- Pois bem. E que mensagem mandaremos? – perguntou Bartolomeu?

- Hummm... precisamos pensar bem. Pois a mensagem não poderá ser respondida – explicou o meio-orc.

Iniciou-se, então, novo debate, ao fim do qual definiram o conteúdo do recado mágico:


“Kharlixes é o problema. A trilha da naga é o caminho. Olin sabe dizer.

Vale além das escarpas. Grande perigo.”



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Comentários

  1. Dragão, demônio voador, olho tirano e exército de golens.
    Por enquanto tudo se ajusta ao plano.

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  2. Plano de fugir dali o mais rápido possível, obviamente.

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  3. Hahahahaha... mas aí não tem aventura! ;) rsrsrs

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