Os Herdeiros de Ânn - 20º Ato

- Vamos continuar logo, não podemos ficar aqui para sempre – falou Bartolomeu enquanto caminhava para a porta que havia no fundo da sala, no lado sudeste.

Havia pelo menos oito horas que os aventureiros estavam descansando no interior daquela sala, cujo cheiro de mofo já havia lacrado suas narinas.

O astrólogo abriu a porta com cuidado e fez um sinal para Adan, que avançou e examinou com cautela o corredor adiante.


- Não parece ter armadilhas aqui – disse o ladino.

O grupo avançou, com Bartolomeu e Adan na liderança. O corredor, contudo, terminava em uma porta de madeira reforçada da qual ouviam o estardalhaço de muitos lagartos.

- As palavras são irreconhecíveis, mas esse jeito estranho de falar nós já ouvimos antes. São lagartos, definitivamente – falou Wurren.

- ÓTIMO! Vamos entrar que quebrar a cara de todos eles! – resmungou Bruenor.

- Está louco?! Não percebe que são muitos? – perguntou Bartolomeu.

- E daí? Meu machado está bem afiado. Já matamos muitos lagartos antes! – respondeu o anão.

- Até parece! Se esqueceu de como sofremos com eles antes? – Wurren perguntou.

- Aquilo foi sorte deles. Agora será melhor! – o anão insistiu, contudo, ninguém concordou com ele.

- Vamos tomar outro caminho. Temos que evitar confrontos desnecessários – comandou Duncan, tomando o caminho de retorno ao salão principal, onde o corpo daquele que criam ser um beholder estava lentamente apodrecendo.

Adan estava ficando sem paciência com as voltas que davam na masmorra sem encontrar saída ou direção. Talvez o ladino seja claustrofóbico. Talvez só quisesse chegar logo ao seu objetivo. Porém, era forçado a ver os colegas percorrendo corredores inutilmente, em idas e vindas hesitantes que sempre acabavam no mesmo salão principal.

- Ah! Já chega! – Adan foi até a porta dupla de madeira, chutou o corpo do pseudo-beholder para o lado e a abriu, tendo observado que a sala de paredes estrepitosas.

- Luz do dia! É a luz do dia! Hahahahaha! Vejam isso! – Adan estava exultante e deu alguns passos adiante, quando percebeu que a luz penetrava através de outro entreaberto par de portas de madeira mais adiante. Enquanto caminhava lentamente na sua direção, Adan percebeu que o som de água corrente que ouviam a partir do salão principal advinha de uma caverna próxima, cujo acesso se dava por uma abertura nas paredes contorcidas pelo calor.

“Nem pensar que entro aí” pensou o ladino, enquanto se aproximava da luz do dia.

De repente, contudo, viu uma estranha sombra circular. Adan parou. Vendo que ela se aproximava, o ladino recuou todos os passos que deu e, por sim, voltou para o salão principal, onde ficou espiando atrás da porta.

Foi então que viu a coisa mais horripilante! Uma criatura esférica, flutuante, dotada de um só olho enorme, uma boca gigante repleta de presas e muitos tentáculos em cujas terminações olhos pequenos pareciam atentos a todo nos arredores.

- Mamãezinha!!! Isso sim é um beholder! – deixou escapar, estupeficado.

- O quê?! – Duncan perguntou espantado.

- É um beholder! Um de verdade! Daqueles que você já ouviu falar! – respondeu Adan olhando para Bartolomeu – O Olho Tirano!!! – o ladino estava branco, e o grupo se desesperou, pois aquele era um inimigo mortal, contra o qual não tinham a menor chance de êxito.

Os aventureiros se dispersaram sem pensar, porém, a criatura aterradora entrou no salão e ignorou solenemente a presença deles, atravessando num passe de mágica uma porta ainda inexplorada pelo grupo para, então, desparecer.

- Uma ilusão?! – o astrólogo se perguntou.

Os sons de urros e gritos de guerra responderam sua indagação, quando quatro homens-lagartos emergiram da sala ao lado, irrompendo no salão liderados por um que, sem dúvidas, era o xamã responsável pela tola ilusão.

****

Wurren ergueu as mãos para o alto e então apontou para a porta de onde irromperam os inimigos. Invocando os espíritos da tempestade e da terra agitou o solo e fez com que o piso se rompesse em afiadas pedras escarpadas, ferindo mortalmente três lagartos, incluindo o próprio xamã.

Bruenor também não hesitou. Sacou o machado e voou para cima dos adversários, mesmo ainda não completamente recuperado fisicamente e acertou uma machadada certeira na cabeça de um deles. Duncan também avançou, com um pouco mais de cautela, porém ainda assim capaz de desferir dois golpes perfeitos com a sua espada luminosa.

O ladino deu alguns passos atrás e resolveu usar o arco novamente. Desta vez, contudo, errou tudo! Teria sua sorte acabado? Ou será que a maldição de Salahadhra estava ficando mais forte?

Os largartos foram caindo um a um. O xamã ainda tentou resistir, invocando seus espíritos imundos, mas nada funcionou para eles naquele dia. Os aventureiros foram precisos em cada golpe e logo o combate terminou.

- Vamos sair daqui, por favor!!! – disse Adana caminhando nervosamente rumo à luz do dia.

- Calma, eu não acho que seja uma boa ideia – ponderou Bartolomeu indo atrás dele, no que foi acompanhado por todos os demais.

Adan ignora a interpelação. Vai apressadamente até a porta dupla entreaberta e a escancara, recebendo em sua face a tênue luz solar que penetra através das nuvens que recobrem o céu.

- Ar fresco... – ele sussurra, mas logo suas narinas são invadidas por um cheiro podre que traz consigo um presságio lúgubre – ... ou não – o ladino complementa sua fala com certo desânimo, percebendo que diante dos aventureiros estão as ruínas de uma estranha civilização antiga.

A masmorra desemboca no sopé de um paredão de rochas, num ponto elevado muitos metros.

- Estamos do outro lado da falésia, parece – comentou o anão – Na verdade, agora percebo que estamos no fundo de uma grande ravina, cercada por escarpas elevadíssimas.

O demais aventureiros percebem o mesmo o que o anão. Wurren comprime o olhar e percebe que duas fileiras de escarpas se estendem por quilômetros, de modo praticamente paralelo uma em relação à outra. Trata-se de um cânion. Porém, do ponto mais elevado onde se encontram, o meio-orc nota que muralhas imensas de rocha se erguem para formar o vale, interrompendo abruptamente o desenho natural do relevo. Não. Não são, definitivamente, muralhas naturais.

Ao longo de toda a extensão das escarpas, Wurren vê claros sinais do longo e lento processo de erosão que escavou as rochas menos sólidas para formam as escarpas. As muralhas, porém, não exibem o mesmo contorno natural. Elas se erguem no leste e no oeste como uma interrupção abrupta da ravina.

Já o vale diante de si, o fundo da ravina, é muito extenso e eminentemente plano. Nota-se com clareza que pequenas construções arruinadas ocupam quase toda sua extensão. Estas são, aparentemente, casinhas simples e pequenas feitas com tijolos de adobe e telhado de palha. À distância tudo parece intensamente dominado por uma agressiva vegetação que dominou o local, crescendo por cada palmo de chão e parede que era possível.

No centro do vale, em meio às construções mais simples, um grande muro separa prédios de arquitetura visivelmente mais elaborada dos demais. Os muros são impressionantemente largos e verticais, com intricados recortes que parecem esconder antigas torres de vigia. No seu interior há cinco edifícios altos, todos retangulares e verticais como os muros que os guarnecem.

Aos olhos dos aventureiros, aquelas construções não se parecem com nada que jamais tenham visto. As linhas e ângulos retos que predominam não lembram em nada a arquitetura keolandish ou oeridiana: aqui predominam madeira, gesso, barro e cal. Além disso, o interior dos muros exibe um certo planejamento, demonstrando que aquela era uma sociedade organizada e evoluída.

Além destes edifícios, no centro da cidade, no interior dos muros, há ainda outra grande construção que destoa dos edifícios: duas enormes torres que se erguem imponentes sobre todo o vale. A primeira torre tem base retangular e larga, através da qual um grande lanço de escadas sobe a um ângulo de quarenta e cinco graus ao final da qual se ergue o arco ogival das grandes portas de entrada. A torre, então, se ergue vertical e linearmente por aproximadamente dezoito metros. Não se pode ver, a esta distância, detalhes de sua fachada, contudo, pode-se perceber que fora construída com os mesmos moldes dos demais edifícios imponentes da localidade.

A uma altura de aproximadamente dez metros da base, um arco de pedra conecta esta torre à vizinha. A segunda torre é muito maior. Deve medir uns trinta metros de altura e parece ter sido feita com pedras de obsidianas polidas, recortadas e encaixadas umas sobre as outras de modo quase perfeito.

- Chegamos! É aqui! – disse Adan.

- Mas não terminamos de explorar a masmorra! – reclamou Bruenor – Deve haver tesouros lá! De que adianta nos arriscarmos se não pegarmos uns tesouros também?

- Não se trata disso apenas, Bruenor. As masmorras podem esconder segredos que nos deem as respostas que precisamos! – disse Bartolomeu.

- Ah! Parem com isso! Nosso objetivo é claro: vamos matar Kharlixes, Grell e mais sei lá o quê. As torres adiante batem com o que Salahadhra nos contou. Não tem muito o que pensar não!

- Hum... de uma certa forma o Adan tem razão – ponderou Wurren.

- Claro que tenho. Além disso, essa masmorra é perigosa. Se precisamos descansar é melhor estar aqui fora, sob a luz de Pelor – completou o ladino, olhando a o vale profundo.

- Nada disso! Dentro da masmorra é mais seguro, não há dúvidas! – Bartolomeu tentou convencer os demais, juntamente com Bruenor. Por motivos diferentes, ambos queriam explorar melhor aquele local antes de abandoná-lo, mas foram voto vencido, pois Duncan se alinhou com Wurren e Adan.

E, assim, o grupo decidiu abandonar o local e descer até o fundo do vale, na vã esperança de derrotar Kharlixes em sua torre negra.

Bartolomeu olhou para trás e viu que sobre a porta de saída da masmorra havia uma escultura de Lolth incrustada na pedra.

- Esse lugar guarda algum segredo nefasto. Mas acho que nunca descobriremos... – lamento em voz baixa.

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