Os Herdeiros de Ânn - 23º Ato



Adan avançou através do acampamento de forma sorrateira, mapeando cada palmo adiante de si com cuidado. Seus passos eram lentos e cuidadosos para que os colegas que vinham atrás de si pudessem reproduzi-los nos mínimos detalhes se o quisessem. Essa foi a forma encontrada pelo grupo para tentar ultrapassar a localidade sem serem vistos, aproveitando-se da distração dos lagartos e do fato de que a dupla de vigias que rondavam o perímetro foi rápida e silenciosamente neutralizada por Bartolomeu, Bruenor e Duncan.


Wurren se transformou numa pantera e isso lhe conferiu o silêncio e a sagacidade natural a estes animais. Porém, Bruenor e Duncan continuavam arrastando pesadas e barulhentas armaduras metálicas e, obviamente, todo o esforço furtivo foi em vão afinal.

Combate se iniciou inevitavelmente quando um lagarto, ouvindo a movimentação (e possivelmente a uma panela cheia de bilhas de metal que desgraçadamente estava no caminho do bico do bota do anão) interrompeu seu descanso e saiu de sua tenda somente para flagrar os aventureiros.

A ação, contudo, foi rápida, pois Adan estava afiado em sua pontaria e Bartolomeu especialmente cruel com seu feitiço de mãos gélidas que sufocavam os adversários ao menor olhar. Aliás, justiça seja feita, não só os dois, mas Duncan também reagiu rapidamente com investidas rápidas e brutais.

Os lagartos foram derrotados uns após os outros. Todavia, como eram muitos, ainda assim o grupo teve sua cota de percalços, especialmente quando um homem-lagarto maior e mais encorpado que os demais saiu de uma das tendas de modo ameaçador. Wurren foi atingido por ele não uma, mas sim duas vezes, porém, o druida detinha uma força enorme e sobretudo uma fortitude inabalável e a cada golpe que recebia retrucava com uma ferocidade implacável: o lagarto gigante também não foi páreo para ele.

Os bons ventos sopravam. Até mesmo o ex-escravo que seguia com o grupo deu sua contribuição, utilizando uma azagaia emprestada de Duncan. Neste momento, Adan estava sobre uma mesa que havia próxima ao centro do acampamento, disparando suas flechas com precisão e Bartolomeu, ao seu lado no chão, gritava comandos e orientava os companheiros.

“Pela primeira vez sinto que encontramos uma forma coesa de lutar. Não somos mais um bando” chegou a pensar o astrólogo.

Ele, porém, se olvidou do destemperado anão. Havia algo em Bruenor que somente despertava em combate. Seria sede de sangue? Fato é que ao perceber a chegada de novos adversários através da ponte arruinada, o anão se colocou o caminho para impedir que os colegas fossem flanqueados. E num primeiro momento ele foi bem sucedido, golpeando um lagarto de modo quase fatal. Neste instante, Bartolomeu tornou a olhar para o centro do acampamento, e viu Duncan esfacelar mais um adversário. “Tudo está sob controle”.

- Aaaaaaaaaarggggghh!!! – a voz rouca do anão denunciava algo grave. Adan e o astrólogo olharam para a ponte e viram que um dos lagartos que tentavam cercar o anão investiu contra o corpulento guerreiro e o deslocou alguns passos para trás: o suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio e se perder no abismo!!!

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Bartolomeu sentiu o frio da morte na boca do estômago e voltou sua ira contra os algozes de Bruenor. Adan fez o mesmo em seguida e logo derrubou mais um.

Com o acampamento seguro, Wurren e Duncan partiram rumo à ponte para finalizar o último adversário e constatar que o anão estava dependurado, pela graça de Moradin, a uma saliência no rochedo.

- Me ajudem seus imprestáveis!!! – gritou o anão com satisfação ao vez a cara dos colegas.

- Aguente firme! – gritou Duncan enquanto rapidamente jogava-lhe uma corda de cânhamo em que pudesse se dependurar.

- Ei! Aonde você pensa que vai? – Bartolomeu perguntou com sagacidade para um dos lagartos que, ainda vivo, tentava sorrateiramente abandonar o campo de batalha – É melhor ficar parado. Temos algumas perguntas. E se for obediente, podemos poupar sua vida! – completou o astrólogo.

- Nada direi! – falou com desprezo o lagarto pretenso refém – Tenho nojo de vocês! Podem me subjugar, mas sois lixo perto de Sess’inek – completou ainda com um cuspe grotesco no chão.

- É melhor você colaborar – disse Adan.

- Podemos te dar a liberdade em troca – comentou Duncan.

O lagarto, então, tornou a cuspir no chão em claro sinal de desprezo pela oferta generosa. Mas, neste instante, Bartolomeu já tinha se encaminhado sob seus olhos para mesa próxima do centro do acampamento, onde coletou um alicate de bico fino e uma punção. Retornando em passos lentos e olhando nos olhos do lagarto, o astrólogo extravasou uma porção cruel e sádica de sua personalidade que até então ninguém havia visto.

- Sugiro que repense. Não terei pudor em arrancar de você o que precisamos saber, especialmente como os clérigos fajutos de Sess’inek engabelaram você e seus amiguinhos para servir a um dragão...

A horrível presença de espírito de Bartolomeu matou o ímpeto do lagarto, que cedeu afinal. Entretanto, ao contrário de outros com quem os aventureiros conversaram no passado recente, este inimigo parecia convencido mesmo de que era, por certo, Sess’inek e seu sacerdócio aqueles que lideravam os eventos passados nos pântanos e agora no vale profundo.

- Kharlixes é só mais uma lacaia! Uma fiel serva de Sess’inek! – jurou o lagarto.

- Isso é inútil – resmungou Wurren, vendo que o refém em questão nada sabia que pudesse realmente acrescentar.

- Degolem o maldito! – gritou Bruenor, incitando o ódio.

- Calma, ele ainda pode estar dizer algo de importante – ponderou Duncan. E enquanto o grupo lentamente iniciava uma argumentação, o lagarto saía de fininho rumo ao abismo.

- Ei! – gritou Bartolomeu, e vendo que a presa intencionava fugir subjugou-o com suas mãos fantasmagóricas, fazendo-o dobrar os joelhos à beira do precipício – Você me desobedeceu!

- Deixe que eu cuido dele! – falou Bruenor com sádica felicidade, ao se aproximar e atingir-lhe com a planta do pé direito no peito do peito, empurrando-o para a morte sem que mais ninguém, no grupo se opusesse.

Duncan sentiu um calafrio “mas deve ser o vento desse local estranho”, pensou ou paladino.

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Ao invés de saírem logo dali, os aventureiros resolveram esperar um pouco mais – como se algo de bom pudesse advir daquela posição exposta em que se encontravam. Enquanto buscavam comida pelo acampamento, coletavam algumas moedas de prata de umas poucas de ouro que encontravam e, na medida do possível, tentavam disfarçar os sinais mais óbvios de sua passagem por ali (como se isso fosse, mesmo, possível), Duncan, Adan e os demais imergiram em longo debate sobre o proveito de permanecer no vale.

- Não seria melhor voltar? Já achamos o covil de Kharlixes e desvendamos o que está realmente por trás dos ataques do povo-lagarto. Isso já não basta – perguntou Bartolomeu.

- Eu tenho que matar o dragão! – comentou Adan, maldizendo a hora em que aceitou a proposta infame de Salahadhra.

- Isso! Além do mais! Podemos acabar com isso já! – disse Bruenor.

- Estão loucos! Além do dragão tem o Olho Tirano e um exército de cadáveres ambulantes, de golens, melhor dizendo. Isso sem contar com os próprios lagartos – ponderou o astrólogo.

- Eu concordo. Não podemos enfrentar tudo e todos de frente. Mas eu já disse que posso mandar uma mensagem para a senhora Katherina pedindo ajuda. Só preciso de tempo para isso – falou Wurren.

- É. Eu acho que a melhor solução não é deixar o vale – até mesmo porque isso seria difícil para nós agora, já que nosso caminho de vinda está sendo bem guardado eu presumo. Teríamos que achar outra rota. O mais sensato seria mandar a mensagem para Ânn e aguardar sua chegada – Duncan deu sua opinião também, mas apesar das certezas individuais de cada um, naquele dia, os aventureiros pareciam predispostos ao debate infindável de ideias... tanto que, quando menos esperavam, foram surpreendidos por uma nova ameaça, pois do interior da torre sob a ponte de pedra, uma criatura ofídia emergiu de forma ameaçadora sob o comando de um lagarto xamã.

- Às armas!!!! – gritou Bruenor, antes que o grupo se lançasse, talvez pela última vez, em combate.

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