Os Herdeiros de Ânn - 9º Ato

Já está tarde.


Os aventureiros são vencidos pelo cansaço. Assim como os demais Wyverns, eles se deitam em suas camas improvisadas na mata e sob a luz das estrelas mergulham no sono profundo destinado aos heróis.


Quando Bartolomeu desperta ainda é madrugada. Um vento gelado sopra do sul, vindo dos pântanos. O acampamento está iluminado apenas pelas estrelas e pelas brasas de uma distante fogueira, a qual é observada pelo olhar fixo de um cavaleiro, que ficou incumbido de guardar vigia à noite.


A brisa gelada trás consigo o som tênue e delicado de uma harpa. Bartolomeu é atraído pela música. A melodia atravessa seus ouvidos provocando uma sensação de paz e tranquilidade tão profundas que ele chega a se surpreender tendo que conter um choro que ameaça convulsionar. É um choro de alívio, como se alguma forma absurda as coisas fizessem sentido, e os mistérios não revelados de sua vida de repente não importassem mais.


Enquanto tenta compreender o sentido deste sentimento e ao mesmo tempo procura com todos os seus sentidos a origem da melodia, ele varre o acampamento com os olhos e percebe seus companheiros dormindo. A sensação de paz se intensifica. Existe algum propósito para estar ali, naquela noite.


Finalmente, seu olhar se fixa sobre a tenda de Katherina, e seus ouvidos confirmam que é de lá que vem o som agradável. Em passos lentos, Bartolomeu se aproxima, cuidando para evitar galhos e folhas secas para preservar intacta em sua memória os acordes angelicais que ouvia.


A tenda está com o forro de pano que serve de porta abaixado, mas balançando ao sabor do vento. De dentro, a luz tênue de uma lamparina a óleo projeta a silhueta da mulher que, sentada em um banco, tem uma harpa apoiada no peito. Katherina toca com maestria o erudito instrumento, e o faz com uma paixão que não escapa ao auspicioso ouvido de Bartolomeu.


Movido por uma força interna incontrolável, Bartolomeu começa a acompanhar a melodia, forçando o ar dos pulmões a passar por cada cavidade de seu aparelho vocal até emergir pelo nariz, de modo que, com sua boca fechada, um timbre grave vaza harmoniosamente.


A mulher, porém, produz uma nota errada em sua harpa, desconcertando o astrólogo. Ele nota que Katherina desprendeu a atenção do instrumento musical, perturbada que foi por sua presença. A música cessou.


– Quem está aí? – perguntou, de dentro da tenda, Katherina.


– Sou eu. Bartolomeu.


– Entre – disse a líder branca.


O astrólogo leva a mão direta até o pano que dependura daquela que seria a porta da tenda e o afasta alguns centímetros. Katherina tem a harpa entre suas grossas pernas, as quais estão delineadas pelas apertadas tiras de couro branco que recobrem seu corpo.


Por brevíssimos instantes o astrólogo olha para o chão, não compreendendo como aquela guerreira poderia ostentar essa candura. Seu olhar retorna para as pernas dela. O astrólogo sente o perfume de um incenso que queima na tenda. Seus olhos querem terminar de contemplar as formas melhor reveladas. É uma beleza celestial, angelical, para além do mero desejo concupiscente. O olhar de Bartolomeu não é lascivo, mas sim contemplativo – um elogio ao espírito e não à carne.


– Que fazes de pé? Por acaso te acordei? Nunca minha harpa perturbou o sono de ninguém em nosso acampamento – pergunta Katherina.


– Sim, me acordou. Mas isso não foi ruim de modo algum – respondeu o astrólogo.


Katherina é solícita, educada. Sua voz pode ser fina e suave como o canto de um colibri ou altiva e imponente como o som de um trovão. Percebendo o estado de perplexidade que se revela no olhar de Bartolomeu, ela fala:


– Você disse mais cedo que sonhou comigo… – inicia um diálogo, a misteriosa lady Katherina, enquanto se levanta, escondendo-se praticamente por inteiro nas sombras – … se não sabes quem eu sou, se não conhece meu rosto, nem sabia meu nome, como podes dizer que era comigo que sonhava?


– Eu simplesmente sei que era você – responde Bartolomeu. Para sua decepção ele agora nota que a líder branca ainda não revela suas feições faciais, eis que a parte superior de seu corpo está imersa em sombras.


Katherina vai até um baú e retira dele o que, nas sombras, para ser uma sacola, mas ao final revelou ser um tipo de capuz, que ela veste para ocultar sua face. Depois de um breve e constrangedor silêncio, ela diz:


– E o que você quer?


– Não sei. Pensei que você tivesse algo a me dizer. Afinal, não sei ainda porque sonhei contigo – responde o astrólogo.


Katherina parece irritada com a pergunta. De algum modo, aquilo soou pretensioso aos seus ouvidos.


– Por que teria algo a dizer? Eu não te conheço nem um pouco. Eu jamais quis que sonhasse comigo, e até agora acho isso tudo muito estranho.


Bartolomeu sentiu nas palavras de Katherine um pouco de desprezo. O astrólogo entendeu que não era bem vindo ali, naquela tenda. Entretanto, se surpreendeu quando Katherina continuou:


– A única coisa que eu posso dizer é que, para além de minhas virtudes e qualidades em combate, me gabo de ter uma excelente capacidade de perceber as pessoas. Porém, quando olho pra você vejo apenas um turbilhão. Uma tempestade de sentimentos sobrepostos uns aos outros e sem direção. Quem é você afinal? – a pergunta ao final era retórica.


– Eu já entendi. Não quero te atrapalhar mais – disse Bartolomeu, se retirando dali para fora, onde encontrou uma árvore sub cujos galhos podia se deitar para tocar sua flauta.


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Na manhã seguinte o acampamento acordou agitado. Alguns homens se apressavam em desmontar as tendas, apagar as fogueiras e recolher equipamentos para tornar a marchar.


Wurren se levantou se procurou por um lugar tranquilo e distante onde pudesse meditar. Duncan reservou alguns minutos pela manhã para orar. Bruenor fez um desjejum e juntou-se aos wyverns, enquanto Adan passeava entre as barracas e refletia sobre os eventos da noite passada.


Eventualmente, os aventureiros tomaram pé dos planos de Katherina. Duncan observou quando ela planejava junto de alguns de seus homens uma estratégia para varrer os pântanos em busca do covil dos lagartos, e reuniu a maior parte dos aventureiros para discutir a estratégia.


Katherina pretende formar três grupos para vasculhar áreas distintas dos pântanos. Com um mapa da região, ela mostrou uma divisão de rushmoors em quadrantes, destacando o quadrante sudeste como a área mais perigosa e distante, para onde somente considerava que se deveria viajar com o maior número possível de homens. Já os quadrantes noroeste, norte e oeste (que cobriam o restante) podiam ser verificados pelos grupos menores que ora pretendia formar.


– Por mim está bom assim – disse Duncan.


– Sim. Combinamos de retornar ao cair da noite? – perguntou Bartolomeu.


– Está certo. Tenho dez dos meus homens comigo. Vocês são cinco. Deste modo, fica clara a melhor divisão – respondeu Katherina.


Estava quase tudo pronto para que os grupos partissem em sua missão de reconhecimento. Katherina fez um breve discurso para seus homens, instilando neles a coragem para prosseguir, expondo a necessidade de acabar com o Grell e a ameaça que ele representa para a liberdade de todos os povos do Vale Sheldomar.


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