Os Herdeiros de Ânn - 8º Ato

Diversos lagartos sugiram nos bosques e imediatamente um combate violento começou. Os cavaleiros sob a flâmula da líder branca pelejam com bravura. A mata densa impede que eles mantenham uma formação coesa, e logo a batalha se torna esparsa. Para os aventureiros a situação é crítica, pois o grupo foi cercado por seis homens-lagartos.


As violentas criaturas se aproximaram muito rapidamente, quase sem deixar tempo para que os heróis se reagrupassem. Todos estão de alguma forma exauridos, seja devido aos ferimentos, seja pela estafa física ou mental.


Percebendo as difícil circunstâncias do momento, e relembrando o feroz combate à beira do riacho dia antes de chegarem à Stonebridge, Bartolomeu recua rapidamente gritando para seus companheiros:


– Recuem! Recuem! Não há nada para nós neste combate!


Adan percebia o mesmo perigo e se comportou de acordo com a liderança assumida pelo astrólogo.


– Vamos embora rápido! São muitos! – gritou Adan.


Duncan sentia que era necessário mesmo sair dali, embora seu desejo de lutar fosse grande. O senso de responsabilidade do paladino, porém, o impedia se se lançar loucamente no embate.


– Aaaaaahhhhh!!! Lagartos malditos! Vou passar todos vocês ao fio do meu machadoooo!!! – Bartolomeu ficou perplexo com a atitude de Bruenor, que gritando tais palavras correu para cima dos lagartos que a esta altura já estavam bem próximos. O anão se jogou no meio de três inimigos e balançou seu machado com violência, sem atingir ninguém, contudo.


Wurren ficou parado, olhando por instantes a ação insana do colega anão, ao passo que um dos lagartos usou uma clava enorme para golpear o anão no torso. O golpe foi violento, mas a resiliência anã impediria Bruenor de cair imediatamente. O filho de Moradin cambaleou antes, sofrendo um novo golpe lateral na cabeça, dado com o lado posterior do escudo do lagarto.


– Merda! Mas que merda! – Bartolomeu blasfemou com a boca suja ao ver o anão cair no chão!


– Não podemos fugir agora! Temos que salvar o Bruenor! – gritou Duncan instantes antes de avançar com coragem para junto do corpo do amigo, balançando a espada no ar e atingindo um dos lagartos num golpe transversal poderoso que quase decepou um dos braços do inimigo.


No fundo, o espadachim ficou satisfeito. Ele nunca quis fugir do combate. Agora tinha o pretexto ideal para ficar e lutar!


O meio-orc avançou também, mas logo viu que Duncan e Bruenor estavam cercados. Ele decidiu tentar contornar o local do confronto para se aproximar do anão sem ser percebido: havia uma única chance para tentar salvar a vida do colega. O meio-orc poderia suplicar a ajuda dos espíritos da natureza somente mais uma última vez antes de tornar a descansar.


Mesmo com o braço direito praticamente inutilizado, o lagarto revidou o golpe de Duncan. Ele tenta um movimento com a clava e com o escudo de casco de tartaruga. Sua debilidade física, porém, foi um impeditivo crucial e o espadachim desvio com astúcia dos dois golpes, contratacando em seguida para derrubar o inimigo.


Revoltado com a situação, Bartolomeu sacou sua besta e com a agilidade contumaz disparou dois virotes em seguida, alvejando um dos lagartos e errando outro. Logo em seguida, todavia, foi surpreendido pela aproximação perigosa de um terceiro. Sem condições de enfrentar um combate corpo-a-corpo, o astrólogo recuou o quanto pode.


Já Adan estava aflito, com o coração a boca, cheio de medo e receio por sua vida. O ladino não está acostumado com combates desta natureza. Ele não é um homem forjado na guerra. Não. Seu lugar é nos bastidores dos palácios, no subsolo das guildas. Seu ofício é de outra natureza e a força bruta só ganha lugar quando o subterfúgio já não é mais de nenhuma serventia.


Quando percebeu que estava sob a mira de um dos homens-lagartos, Adan se pôs a correr entre as árvores do bosque para despistar o inimigo. O arguto vilão, nada obstante os esforços do ladino, jamais o perderia de vista e ambos ficaram por alguns longos e assustadores instantes num jogo exaustivo de pega-pega: Adan fugindo e ziguezagueando entre as árvores, e o lagarto tentando antecipar seus movimentos.


Dágora foi atingida por um golpe rápido dado com o escudo por um dos homens-lagartos. A pantera caiu no chão, fazendo o meio-orc se desesperar. Ele, porém, estava finalmente próximo o suficiente do anão caído.


Wurren impõe suas mãos sobre Bruenor. A situação estava dramática, e embora alguns inimigos já tivessem sido derrotados, restavam alguns de pé ainda capazes de dar uma canseira nos aventureiros.


É nos momentos de grande dificuldade, porém, que aqueles de espírito bravo se revelam! Duncan, o Alto, ergueu a espada mais uma vez levando ao chão mais um lagarto. O espadachim se desloca rapidamente em direção à pantera e impõe as mãos sobre ela, invocando os espíritos da natureza que inspiram a bondade e o amor no coração. Canalizando energia positiva, o paladino ergue Dágora do sono profundo em que se encontrava e imediatamente vai ao socorro de Wurren, que estava combalido.


Inspirados pela coragem de Duncan, Bruenor, Wurren e até mesmo Adan partiram para cima dos lagartos remanescentes. Agora não é hora de hesitação! Os deuses teriam que recompensar os heróis, e assim aconteceu. Um a um os lagartos foram vencidos!


****


Bartolomeu já estava bem distante dos colegas, correndo pelos bosques sendo seguido de perto por um homem-lagarto. À distância, na penumbra, iluminada pelos feixes de luz das estrelas que rasgam entre as copas das árvores, o astrólogo vislumbrou a líder branca e pensou em se aproximar dela.


Entretanto, ele empalidece quando nota que uma azagaia atinge a líder no abdômen e a derruba de seu cavalo. A mulher cai de costas dramaticamente. A vara da azagaia se parte ao meio e ela parece desmaiar com o impacto no solo.


Bartolomeu cogita correr em seu socorro, mas se recorda do inimigo que está em sua cola. Neste momento, ouve um zunido e olha para trás, vendo o homem-lagarto alvejado por uma flecha. Rapidamente ele olha para o lado em busca do algoz, e vê um dos cavaleiros que vieram sob a flâmula da líder branca.


– Milady! Milady! Oh, milady! Aguente firme! – o cavaleiro diz em alta voz, exasperado pela visão a líder branca caída em meio aos bosques com a azagaia cravada no abdômen.


Ele e o astrólogo se aproximam.


– Acalme-se – a mulher diz com a voz ainda fraca – Vou ficar bem. Bati com a cabeça quando caí do cavalo, mas vou me recuperar – completou, enquanto tentava se levantar. A dor, porém, a impedia e ela preferiu descansar.


– Eu a vi em meus sonhos – disse Bartolomeu, sem saber o que esperar em resposta.


O rosto dela estava todo coberto por tiras de couro e sequer era possível ver suas expressões. Bartolomeu podia sentir, contudo, o olhar dela o penetrando e uma estranha sensação o acometeu.


****


O combate termina melancolicamente. Apesar dos fanáticos terem sido derrotados, e muitos lagartos tenham sido derrubados, a bizarra criatura escapou para os confins do pântano sombrio e muitos homens estão feridos.


Adan e os demais buscam por Bartolomeu e vão em direção ao alazão branco e sua ginete, observando a cena com certa incredulidade.


Duncan corre ao socorro dela, vendo que estava ferida. Apenas trocando olhares com Bartolomeu sabiam que era necessário combinar esforços para tratar a ferida e salvar sua vida. Sob os olhares atentos de alguns cavaleiros que começam a se reunir em torno da líder caída, os dois aventureiros reuniram algumas ervas e panos para fazer a extração da azagaia quebrada, conter o sangramento e evitar uma hemorragia.


– Isso vai doer um pouco – disse Duncan levando a mão direita ao cotoco de azagaia fincado na barriga da líder, exercendo uma certa pressão para remover o objeto.


O espadachim estava hesitante diante da dor demonstrada pela líder, e percebendo isso ela fechou suas duas mãos sobre a mão direita de Duncan. O espadachim sentiu uma forte energia positiva fluindo por seu corpo, uma injeção de ânimo que raras vezes havia sentido na vida. A líder então, guiando as mãos de Duncan, ajudou-o a força a madeira para fora de seu corpo, urrando de dor e sangrando muito no processo.


Para surpresa dos aventureiros, as feridas imediatamente começam a se fechar, restando ao término apenas uma camada fina de epiderme, como se o grande ferimento não passasse de um golpe de raspão.


A líder então se ergue. Duncan e Bartolomeu se afastam, dando-lhe espaço.


– Homens! Hoje vamos dormir sob as estrelas! – grita a líder branca, demonstrando já estar melhor, assim, em pouco tempo – E o Grell?


– Ele fugiu senhora! – respondeu um soldado, para decepção da líder.


Diante do olhar incrédulo dos aventureiros, a líder olha para o espadachim e diz:


– Obrigado Duncan.


– Você é a senhora de Leandonn? – indagou o espadachim.


– Sim. Vocês estão aqui à minha paga. Mas peço desculpas. Não podia imaginar que tudo isso iria ocorrer – responde a líder.


– Então você é Katherina? – interrompeu Adan.


– Meus homens me chamam de Ânn, mas meu nome é Katherina, meu caro ladino – respondeu a líder não sem antes fitar Adan.


Adan ruboresceu.


Katherina não explicou porque o chamou assim. E ninguém se importou na hora.


– O que é o Grell? – logo perguntou Duncan antes que o silêncio tornasse o momento incômodo.


– Na mitologia do povo-lagarto é o filho de Sess’inek, destinado a se tornar o novo Lagarto-Rei. Sess’inek está longe de ser uma unanimidade entre o povo-lagarto, mas assim como acontece na sociedade humana, às vezes um pequeno grupo consegue impor sua vontade e seus planos secretos simplesmente manipulando os sonhos e as aspirações de todo um povo – o discurso de Katherina era eloquente. E ela prossegue:


– Os lagartos são pacíficos na maior parte do tempo, usando da violência de forma tão constante e legítima como os homens usam. Em tempos como esses, de guerra, porém, foram tomados como os vilões que nunca foram. Os homens os caçaram duramente durante praticamente uma década, culminando nos últimos quatro anos em uma profunda crise: quase foram extintos, e os sobreviventes foram forçados a viver em reclusão no interior do pântano. Este foi o terreno fértil para que xamãs da tribo simpáticos a Sess’inek gradativamente implantassem seus ideais na sociedade lagarta, incutindo-lhes ódio e rancor aos humanos. Consolidados no poder, eles ambicionam formar um grande reino de terror, devastando as terras humanas e tomando o controle sobre elas, escravizando o mundo inteiro.


– Como que você sabe disso tudo?- perguntou Bruenor, claramente desconfiado.


– Graças a um livro desgraçado que recuperamos – respondeu Ânn.


Bartolomeu e Duncan não esconderam seu espanto.


– Nós encontramos um livro profano em posse de um sujeito que nos parece ser um cultista – disse Bartolomeu.


– Um livro grosso, com uma língua grampeada na capa… – completou Ânn.


– Isso mesmo – disseram, em coro, Duncan e Bartolomeu.


– Tal livro foi roubado da biblioteca real de Niole Dra seis meses atrás. Estamos atrás dele desde então. Um de nossos homens seguiu uma pista e chegou até uma pessoa chamada Eimhim. Nosso agente nos enviou uma mensagem quando descobriu seu paradeiro, porém ela só nos chegou quando já estávamos estacionados em Orlane. Devido à urgência nosso agente resolveu agir sozinho. Não sabemos o paradeiro dele. Mas encontramos o livro abandonado numa cabana, no mesmo local onde ele disse que Eimhim estava escondido – Katherina definitivamente demonstrava saber do que estava falando. Seu discurso era eloquente, cheio de certeza e coragem. Sua impostação de voz e sua estranha aparência conferiam um ar solene e quase profético às suas palavras.


Ao perceber a consternação de todos os aventureiros, Katherina continuou:


– Duncan foi recrutado no torneiro para resolver um problema que nos parecia simples e mundano, à míngua de homens mais qualificados à disposição para ajudar. Jamais se esperou que vocês se dispusessem, por tão pouco dinheiro, a arriscar suas vidas em uma tarefa de maior magnitude do que matar uns lagartos, afugentar uns saqueadores e restaurar a tranquilidade num vilarejo desimportante – explicou a líder.


– Quando descobri que o esconderijo de Eimhim era coincidentemente próximo de Stonebridge, desloquei meus homens para cá, pois logo entendi que os ataques do povo-lagarto tinham a ver com ele. Jamais foi minha intenção envolve-los nisso. E se quiserem, podem se considerar liberados da missão, hipótese em que deixarei convosco uma carta de crédito relativa à recompensa que lhes foi prometida, a ser recuperada contra Leandonn em Orlane, porquanto ele já está instruído para isso – a voz de Katherina era imponente. Todos ouviam com atenção, e Duncan já demonstrava seu interesse em permanecer ao lado de Ânn, tamanha a inspiração que ela lhe dava.


– Porém, vocês deram demonstração de que não é o ouro dos tolos que lhes movem, nem que a covardia e o medo são capazes de lhes vencer. Homens assim são raros hoje em dia, e o Wyvern Dourado precisa de pessoas assim. Recompensamos bem. Temos ouro, temos prata. Porém, mais importante do que isso, temos mulheres quentes, amigos fiéis, comida na mesa e vinho na caneca. Tudo isso, e basta apenas me servir – completou a líder branca.


– Wyvern Dourado? – perguntou Wurren.


– É como chamamos nosso bando – disse Ânn – Nós lutamos não só por dinheiro, mas principalmente por glória. Não é o ouro que nos move, mas a oportunidade de realizar grandes feitos. Em tempos difíceis como este, um grupo como o nosso tem muito a ganhar. Os exércitos estão dispersos nas fronteiras do oeste, sem nós, quem irá cuidar do povo? Aí reside nossa glória e nosso tesouro. Ajudamos aqueles que necessitam de nós. O ouro é uma recompensa justa e necessária, mas o que no impulsiona não é isso.


– E o que pretendem fazer agora, com apenas uma dezena de homens? Vão invadir os pântanos sozinhos? Querem morrer nas mãos dos lagartos – perguntou Adan, em tom azedo.


– Sim. Exatamente isso. Vamos entrar nos pântanos em busca do covil dos lagartos. O Grell ainda é jovem. Se perdermos tempo, ele poderá evoluir e finalmente assumir o trono lagarto. Temos que agir antes que isso aconteça. Não há tempo a perder. Reunirei meus homens e partiremos – diante dos olhos assustados e incrédulos, Katherina emendou ainda – Não existe glória sem sacrifício! Estamos dispostos a arriscar nossas vidas para ajudar esse povo! Se estiverem preocupados com o desfecho, nos ajudem ao invés de criticar!


– Eu já fiz minha cabeça. Me juntarei a vocês, senhora – disse respeitosamente o espadachim Duncan.


– Eu sinto que devo fazer o mesmo. Sonhei com você. Eu vi o destino que aguarda essa terra caso o Grell cresça em poder! Foi a senhora quem me salvou no meu sonho. Isso é um presságio, sem dúvidas – disse Bartolomeu.


Ânn mais uma vez ficou fitando o astrólogo. Evidentemente, não se podia ver suas expressões. Contudo, novamente ele sentia estar sendo lido pela líder branca, por quem intimamente sentia algo.


– Presságios normalmente querem dizer alguma coisa, meu caro. Nunca nos vimos antes. Não sei como pode ter sonhado comigo – respondeu Ânn, que aos olhos de Bartolomeu estava evasiva. Sua resposta não convenceu o astrólogo.


– Se vocês vão, eu vou também – disse Bruenor – Você tem o meu martelo e o meu machado, senhora! Quero acabar com essa raça de lagartos imundos e varrê-los daqui!


Ânn assentiu com a cabeça, enquanto a conversa era acompanhada dos demais homens que chegavam a cada instante – alguns feridos.


– Humpf! – resmungou Adan – Não sei se posso ser útil.


– Claro que pode ´- prontamente respondeu Ânn – Todo grupo de aventureiros precisa de um ladino.


– O quê?! – Adan interrogou demonstrando estar aviltado. Todos os aventureiros deram uma gargalhada naquele momento.


– Não precisa explicar nada. Não me interessa. Sei de seus talentos – disse Ânn – Sua ajuda será bem vinda, Adan.


Finalmente, Wurren resolveu se manifestar. O meio-orc estava se sentido deslocado e não via muito sentido em se juntar a um grupo qualquer, ainda mais um de mercenários. Ele não busca ouro nem glória. Deseja apenas a paz. Nada obstante, a ameaça de Sess’inek afeta toda a região e, por isso, ele decidiu se juntar aos colegas sob o casaco de armas de Ânn.


A noite avançou um pouco mais, enquanto Duncan, Bartolomeu e Wurren se ocupavam de curar os Wyverns feridos. Os homens que estavam saudáveis carregavam equipamentos para montar um acampamento, erguendo uma grande tenda para Katherina e montando barracas menores para os demais.


Uma sombra ameaçadora aguarda os aventureiros nos pântanos e somente o sol da manhã traria respostas.

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