Os Herdeiros de Ânn - 7º Ato

Dillan, que já derramou o sangue em sua mulher, ao perceber a intromissão dos aventureiros, atira o cálice com violência contra eles e saca uma adaga cerimonial, se atirando para o confronto.


Os aventureiros estão estarrecidos, mas Adan reage. Quando Duncan decepou a cabeça de Eimhim, o ladino pegou sua cabeça do chão pelos cabelos. No calor dos momentos que se seguiram, ninguém percebeu – todos estavam preocupados com o grande clarão púrpuro no vale.


Assim, quando Adan viu a provocação de Dillan cerrou o punho esquerdo que segurava pelos cabelos a cabeça de Eimhim e, com violência, atirou-a por sobre as chamas, atingindo o peito do vilão!


– Eu sabia que ela seria de alguma utilidade – disse Adan, olhando para Wurren, que estava espantado com a cena.


– Seus planos irão fracassar Dillan! – gritou Duncan com raiva, despertando do torpor pela ação de Adan. O paladino olhou para baixo e viu que o corpo de Bartolomeu ainda fumegava graças às chamas ácidas. Apesar do desejo de partir pra cima de seu algoz, Duncan resolveu impor as mãos sobre o corpo do amigo caído, orando sobre seu corpo para lhe salvar as garras de Nerull.


Antes, porém, Dillan atacou! Ele avançou contra Duncan, tentando lhe cortar a barriga com a adaga cerimonial. Em seguida, um a um, os seus asseclas fanáticos continuaram o derramamento de sangue, fazendo Dorene urrar ainda mais de dor.


Finalizada sua tarefa profana, os fanáticos desfizeram o círculo que formavam no entorno de sua vítima e assumiram uma formação em linha à frente dela, colocando-se como obstáculo sem cuja transposição os aventureiros não poderiam jamais salvar a vida de Dorene.


Bartolomeu desperta do sono profundo. Quando sua alma gravita de retorno para seu corpo, ele acorda com um susto com a marcante sensação de queda livre.


Wurren e Bruenor avançam para dentro das chamas com coragem, cobrindo os rostos com os braços para evitar queimar os olhos com a fumaça ácida.


Duncan dá um passo adiante e balança sua espada acertando um golpe impressionante em Dillan. Sua arma faz um arco ascendente, cortando o robe do vilão. Contudo, pequeno foi o ferimento e Dillan continuou a pelejar de forma ainda mais feroz. O astrólogo, então, se levantou rapidamente e deslizou para o lado disparando, ainda me movimento, contra o inimigo.


O virote atingiu Dillan em cheio, fazendo vazar sangue!


Entretanto, não se podia contar vantagem, pois Dillan tinha algo sob as mangas – e não eram cartas. O fanático balançou os braços e os esticou abrindo as mãos com a parte posterior faceando os céus de Flanaess. Das pontas de seus dedos saíram labaredas de fogo!!!


– Ardam com as chamas do inferno, seus desgraçados!!! – grita Dillan.


O foto queima com força e muito calor! Wurren quase não resiste. Bruenor sente o fogo invadindo os pulmões. Ele corta a respiração, mas já é tarde: o anão cai como uma tora no chão.


O meio-orc dispara novamente raízes e caules de roseiras de sua mão direita, isto somente após hesitar, ao ver que restava apenas um cálice para ser derramado sobre Dorene, e imobiliza o último fanático – cálice a postos!


As chamas, porém, já consumiam a pobre esposa de Dillan. Devido ao calor ácido, um dos olhos de Dorene despenca da cavidade ocular. Os lábios estão partidos e a pele praticamente inteira em carne viva, numa cena grotesca de horror.


Bartolomeu olha incrédulo. Wurren se distrai e o último fanático se liberta, atirando o sangue de seu cálice contra Dorene!


Quando seu corpo está todo em carne viva, suas roupas consumidas pelo fogo profano que arde sob seus pés, os aventureiros observam estarrecidos uma fissura se abrir de cima a baixo no corpo de Dorene. Do topo da cabeça até a cavidade vaginal, seu corpo parece estar rachando ao meio.


Dorene berra, urra, e seus gritos despertam nos aventureiros profunda sensação de desespero, impingindo uma marca negra indelével em suas almas. Estalos secos são ouvidos: é o som estridente da carne se partindo, das fibras musculares se rompendo junto com tendões e outros tecidos. O corpo de Dorene se abre ao meio lentamente, e os berros e urros guturais são sufocados.


Bartolomeu dispara um virote contra Dorene. O que quer que esteja acontecendo, certamente não resultará em algo bom. Igualmente, a mulher parece além de qualquer salvação.


O virote atinge o peito de Dorene em cheio! Contudo, o resultado não foi o esperado pelo astrólogo. A caixa torácica de Dorene não resiste, o manúbrio se parte abrindo ao meio o osso esterno, e o tórax da mulher se abre violentamente expulsando vísceras, sangue e gordura sobre quem estiver próximo.


Horrorizados, os aventureiros veem uma estranha criatura negra saindo do ventre de Dorene, extravasando o corpo de sua hospedeira como um câncer nefasto que exala podridão. A criatura deixa seu receptáculo humano. Ela é muito grande para ter sido gestada pela mulher. Antes disso, é mais provável que tenha sido conjurada ali pelo ritual maligno.


O monstro cai no chão, e prontamente tenta se sustentar sobre o que parecem ser suas oito patas. A criatura cambaleia, tonteando por breves instantes e finalmente se coloca de pé (precisamente sobre dois pés) erguendo seu torso poderoso e imponente, abrindo os quatro braços e revelando sob o par de membros mais superiores asas de grande envergadura formadas por um tipo fino e delicado de tecido, uma membrana alar.


Uma aura pérfida toma conta do bosque e da clareira. Os homens que participavam do ritual observam com sadismo o resultado de sua obra profana. A criatura se movimenta como um lagarto, cambaleando para andar ereta. A parte posterior do seu corpo é revestida por uma couraça que é negra como a noite mais profunda. Mãos e pés têm dedos finos e longos terminados em garras brancas como marfim. Já a parte dorsal da criatura parece ser constituída por escamas mais finas, estas douradas.


O monstro ergue o queixo e aponta o olhar dourado para os céus de Flanaess, emitindo um urro gutural!


Um dos homens se aproxima da criatura, sacando sua espada longa, que durante todo este tempo esteve escondida sobre os mantos que veste. Ao fazê-lo, o homem se ajoelha em frente à monstruosidade e deitando a espada sobre a palma aberta da mão esquerda, ergue os braços oferecendo sua espada cerimonial à criatura.


Os aventureiros ficam paralisados mais uma vez. Há uma aura pérfida inebriante, seus sentidos estão entorpecidos. Sua visão quer turvar. Os ouvidos zumbem. O olfato está azedo e a pele formigando. Ainda assim, sua percepção dos fatos é arguta, pois todo o torpor não lhes atingiu a alma – por enquanto.


O monstro toma a espada com uma de suas muitas mãos e imediatamente, num ataque rápido, salta sobre o seu lacaio dilacerando o pescoço dele com uma mordida feroz. As presas da criatura se revelam afiadas e fortes, pois ela consegue arrancar músculo, nervos e até ossos com seus dentes.


O adorador de Sess’inek cai no chão sufocando de modo agonizante, com os olhos arregalados e a pupila completamente dilatada enquanto a criatura se refestela quebrando seus ossos e devorando sua carne.


– Ahahahahaha! Ela está faminta! – outro adorador fanático de Sess’inek reage.


A criatura só precisa se alimentar para arregimentar forças para sair dali, pois ainda não é forte o bastante para enfrentar muitos adversários. Os fanáticos fazem uma espécie de cordão de isolamento para evitar que os aventureiros se aproximem do monstro, conferindo-lhe os breves instantes de que precisa antes de partir para os pântanos profundos.


Bartolomeu dispara um novo virote, atingindo a besta, que reage com um novo urro! Duncan avança para cima de Dillan acertando um novo golpe!


Wurren ouve um som vindo da mata, é Dagora, que corajosamente pula através das chamas e invade o círculo druídico para atacar um dos fanáticos, derrubando-o no chão e imobilizando seu braço esquerdo com a mandíbula.


A besta está prestes a partir, Bartolomeu atinge um novo virote. Mas a criatura não hesita. Contudo, no exato momento em que abre suas grandes asas e flexiona suas pernas para dar o impulso necessário ao início de um voo que os aventureiros não podem impedir que aconteça, um zunido soa quando um virote corta o ar e atinge a criatura no pescoço. O monstro quase desfalece, seu voo é frustrado e ele cai no chão sem saber o que o atingiu.


Os aventureiros olham para trás, na direção da trilha que leva ao riacho, de lá ao acampamento dos lenhadores e após para Stonebridge. Um grupo de dez homens de armas surge entre as árvores dos bosques, montados em cavalos e vestidos com peitorais de aço e elmos abertos. Alguns brandem suas espadas, outros têm arcos curtos. Os aventureiros não conseguem distinguir isso tudo muito bem na hora, pois sua atenção e seus olhos estão cravejados naquele que parece ser seu líder.


Montado num imponente alazão branco está um sujeito cujo rosto não se pode ser, eis que coberto por faixas brancas de couro, que se prolongam por todo o seu corpo formando um verdadeiro corselete. Em sua cintura, pende uma bainha de couro marrom adornada recheada com um sabre. Com a mão direita o homem segura uma besta leve cujo disparo feriu a sinistra criatura e a impediu de alçar voo. Com a mão esquerda sustenta um estandarte, um escudo de fundo azul com um wyvern dourado bordado que nenhum dos aventureiros consegue reconhecer.


Por breves instantes os aventureiros sentiam que sua sorte estava mudando, e que os planos dos fanáticos seriam frustrados com a captura ou morte do monstro saído do ventre de Dorene.


Entretanto, os sons assustadores dos tambores começam a ribombar pelos bosques e um pesado fardo parece pesar sobre as costas dos heróis.


– Capturem a criatura! Não deixem o Grell fugir! – o líder branco grita, revelando uma voz… feminina.


O coração de Adan dispara. Ele se assusta porque já viu aquela figura antes, em seu breve encontro com ela na fortaleza de Orlane. Seu primeiro medo é ser acusado de algum crime, de ser preso por sua invasão. Ela foi a única que o viu lá. Contudo, a sua chegada providencial ali, e a missão que ela quis confiar a si durante aquele breve diálogo, revelam que sua presença não é mero acaso – pois seriam necessários muitos acasos para que tudo ocorresse desta forma, tantos que é mais fácil crer em outras possibilidades menos remotas.


Bartolomeu também se impressiona, pois aquela que surge nas matas toda de branco faz lembrar, ainda que remotamente, aquela mulher de seus sonhos.


****


Bartolomeu tomou mais um virote e sussurrou, como se estivesse a falar com ele:


– Você não tem poder aqui! – então, mirou a besta.


– Bravatas não podem te salvar! O poder de Sess’inek é muito maior! Poderiam ter jurado lealdade ao seu novo senhor! Mas resolveram desafiar nosso poder! Agora serão mortos! – gritou em resposta um dos fanáticos, que estava bem na frente da criatura nefasta.


O astrólogo disparou o virote e novamente atingiu a criatura, mas isso só a fez enfurecer ainda mais. O monstro agarrou o fanático que acabara de falar e lhe devorou a carne, finalmente alçando voo!


Bruenor recobra a consciência e se levanta sedento de sangue. Após Duncan acertar mais um golpe em Dillan, o astuto anão atinge-lhe uma machadada fatal, pintando de vermelho o solo!


Dagora e Wurren derrubam mais um fanático e ferem outro gravemente. Adan percebe que as chamas arrefeceram quando Dillan caiu morto no chão e resolve atravessar para dentro do círculo, se aproveitando do elemento surpresa para finalizar o fanático ferido.


– Não! – grita Bartolomeu – Essa era nossa chance de obter informações!


– Agora já era! Esse porco morreu! – respondeu Adan.


A ameaça dos fanáticos foi debelada. Todavia, homens-lagartos surgem nas matas às dezenas e inicia-se um grande conflito!


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Comentários

  1. Sabe aquela sensação de tudo estar dando errado mas você ter feito tudo absolutamente certo para reparar? Bartolomeu olha incrédulo dos seus pés aos céus, o semblante pesado. O círculo diabólico, o sacrifício nefasto, os sinistros fanáticos . Que aconteceu quando ele entrou no círculo? Ele não se lembra, só se lembra de ver garras reptilianas buscando seus olhos, e um odor forte queimar seus olhos, nariz e boca, mas, de repente, ele estava de volta, como alguém que desfalece e acorda no instante que bate no chão. A mulher, pobre mulher, sofria. Um virote bem dado aliviaria seu sofrimento, e talvez interrompesse o ritual. Quase.

    Enquanto alguma coisa saía de dentro do que restou do corpo da pobre mulher, Bartolomeu se movia desferindo flechadas entre os cultistas. O grupo todo estava ferido demais para ser uma ameaça séria, e ele viu que era uma questão de tempo até serem aniquilados. Descoordenados, é óbvio que eles nunca tiveram treinamento de guerrilha. Nas batalhas, se não há alguém para mandar, todos agem como bárbaros e heróis solitários (será Bartolomeu essa voz? Ele não sabe, da última vez não deu muito certo).

    Mas o fato é que em meio ao caos de seus companheiros sendo dominados pelos cultistas, Bartolomeu tem uma segunda boa ideia (a de interromper o ritual foi a primeira boa ideia): atacar o monstro. Com chances reduzidas de ganhar a batalha, talvez fosse um bom tiro acreditar na probabilidade de derrotar um demônio recém-nascido com flechas. Em meio àquele inferno de enxofre e chamas, Bartolomeu já meio tonto com aquele cheiro pútrido encontra sue spot e ali decide ficar até que suas flechas acabem e aquele se torne seu túmulo: aquele parecia um bom lugar para morrer, sem poder sair do círculo por conta das chamas e com um demônio à sua frente. Bartolomeu acha uma pena que seja esta a sua hora, pois ele ainda tem lugares para conhecer, males a desfazer e a cama quente de Zulu a esperando, mas quem já viu a morte e sentiu seu gosto agridoce na garganta sabe que não adianta fingir que não a está vendo. Bartolomeu acena para ele, e finca o escudo no chão e atira o mais rápido que pode contra o monstro.

    Uma, duas três, quatro, Bartolomeu não sabe ao certo quantas flechas atirou, com seus amigos caindo e se levantando ao seu redor, os cultistas em polvorosa e pavorosa adoração suicida. Seu antigo arco teria sido mais rápido, mas Bartolomeu se acostumou rápido ao ritmo da besta, e faz valer cada um de seus tiros. A cadência a é de um soldado: besta ao chão, pé prendendo a argola, a seta encaixada habilmente, a alavanca puxada em um só movimento, o pé solta a argola, a mão da alavanca desliza até o corpo da besta e a levanta já com o dedo no gatilho, enquanto a outra mão faz a mira: seta certeira no alvo e o movimento se repete. Incansável, Bartolomeu luta contra o mal estar daquele lugar, e contra todos os maus presságios do dia. Será aquela a seta que desturvará sua visão, dando fim ao monstro? Enquanto Bartolomeu incessantemente arma e atira com sua besta, ele parece em uma missão solo, em que todos à sua volta são incapazes de entender o real problema, que é o demônio. Ninguém se aproxima dele, ninguém realmente se preocupa com ele, pois estão mais preocupados com os fantoches à frente. Talvez eles não tenham entendido que a morte está à espreita, e estejam fugindo dela. O medo sempre turva a razão, por isso Bartolomeu, há tempos, desde quando a esperança o abandonara pela primeira vez, consegue fazer daquele medo inevitável que vem com a presença da morte o seu suspiro de desespero, como se fosse possível, naqueles últimos momentos, fazer a vida que lhe escapa valer a pena. Aquele demônio é seu inimigo e salvação, ambos no mesmo altar de sacrifício.[1/2]

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  2. Suas setas laceram a carne dura da criatura, talvez não entrando tão profundamente quanto deveriam, mas fazendo escorrer na relva chamuscada um líquido negro como a bile, cada ferimento acompanhado de um urro grotesco como o do portal do inferno. Os gritos parece que chamam o nome de Bartolomeu, não o seu nome humano, mas o seu nome élfico: Teluriel. Ele ouve o chamado nefasto, e nesse momento uma outra seta se junta a dele, e logo ali, quase ao seu lado, a mulher dos sonhos se revela. As trevas dão-lhe uma trégua, e ele pontua a pausa com mais uma flecha, sentindo que não está só. Mas o ser demoníaco ergue seu voo desajeitado, Bartolomeu fura suas asas, mas agora a criatura já vai longe, capengando pelos ares, mas viva.

    Ele sabe que ela retornará, mais cedo do que tarde, e nessa próxima vez suas setas talvez não sejam páreo para o demônio renascido. Um dos cultistas ainda está de pé, em transe, sorrindo com a fuga do demônio invocado. Ele pode ter as respostas que encurtará a busca, mas antes de poder se dirigir para lá o sorriso do cultista vira um esgar de dor, enquanto uma adaga rasga-lhe as costas: é a punhalada inoportuna da frustração, daqueles que, incapazes de enfrentar o perigo, saciam-se no sangue dos vencidos. Bartolomeu já viu esse olhar de satisfação durante a guerra: mercenários e covardes compartilham desse mesmo prazer. [2/2]

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