Os Herdeiros de Ânn - 6º Ato

Os aventureiros retornam para a aldeia e de lá Bartolomeu os guia até o círculo druídico, pois o astrólogo queria mostrar a Wurren aquele lugar místico.


– O que acha, Wurren? – perguntou Bartolomeu, assim que chegaram lá – Acha que se trata mesmo de um círculo druídico?


– Sim – Wurren suspirou, analisando cuidadosamente o ambiente – Definitivamente é um círculo druídico, e não é um círculo qualquer. Há algumas características aqui que me levam a crer que se trata de um círculo druídico da Antiga Fé.


Wurren estava com a expressão preocupada, com um misto entre desolação e tristeza em proporções indecifráveis.


– O que te preocupa? – perguntou Duncan.


– Não sei. Sinto uma estranha perturbação entre os espíritos que orbitam em torno deste local, como se alguma coisa muito ruim realmente tivesse acontecido aqui – respondeu o meio-orc.


– Deve ter sido a morte da garota – comentou Adan, assustado com a aura estranha do lugar, embora não o deixasse transparecer para os demais.


Duncan caminhou para o lado, percorrendo o perímetro do círculo druídico enquanto se concentrava em orações de fé e coração para abrir seus sentidos. Ele esperava sentir novamente aquele detestável cheiro de enxofre, e sentir aquela horrível sensação na boca do estômago, que indicam a presença de um mal inefável. Contudo, o espadachim não sentia nada. Aquele lugar era um vazio completo, de bem e de mal.


– E aquela árvore no centro do círculo, Wurren? – indagou Bartolomeu.


O meio-orc deu alguns passos hesitantes para dentro do círculo druídico. Ele jamais havia se sentido assim, não em um lugar como esse, onde deveria estar se sentindo seguro. Wurren olhava nos arredores com tristeza, percebendo as copas das árvores frondosas dançando conforme o vento soprava lá no alto. Ele deveria estar sentindo paz, mas não.


Wurren parou no meio do caminho entre os colegas e o centro do círculo druídico onde observava o grande visgo.


– Há marcas no caule da árvore. O sacrifício realmente deve ter acontecido aqui.


Bartolomeu, então, caminhou na direção do meio-orc sob o olhar espantado de Adan e Duncan, que temiam supersticiosamente avançar para além dos limites do círculo.


– Eu sinto algo de estranho. Há uma perturbação nos espíritos que eu não sei explicar – disse Wurren olhando para Bartolomeu, quando este se aproximou.


– Eu te entendo. Há de fato algo de estranho aqui.


– Estou pensando em Brenna e em Eimhim – disse o meio-orc.


– Você não deveria ter se apressado em salvá-lo – disse Bartolomeu, com amável tom de voz – Há certas coisas que não devem ser mudadas. A vida e a natureza tem que seguir seu curso às vezes, e você está sentindo essa turbação porque nós somos parte da natureza, estamos em comunhão com os espíritos o tempo todo.


Wurren olhou com ternura para Bartolomeu, enxergando nele – pela primeira vez – alguém que realmente pode se tornar seu grande amigo. Wurren coçou a cabeça, refletindo sobre as palavras do jovem astrólogo e disse:


– Você tem razão. Eu me arrependo de ter agido tão impulsivamente. Na hora não pensei. Parto sempre do pressuposto que todas as pessoas são boas e merecem ser salvas até prova em contrário.


– Eu admiro isso – ponderou Bartolomeu – Mas entende o que quero dizer com o curso natural das coisas? Talvez aquela fosse a hora certa para Eimhim partir. Talvez ele não estivesse destinado a terminar o que começou, e agora terá essa nova chance.


– Ah, eu sei disso – suspirou Wurren, demonstrando arrependimento – Depois que o curei e vi que tipo de pessoa estranha ele é eu me arrependi.


– Já está feito. Teremos outras chances de evitar que Eimhim realize seus planos, sejam eles quais forem – finalizou Bartolomeu.


Wurren ainda contemplou os bosques por alguns instantes, antes de dizer a Bartolomeu que queria um tempo para pensar e meditar. Preocupava-lhe que aquele círculo druídico da Antiga Fé estivesse abandonado – única hipótese admissível, já que rituais com sacrifícios de seres humanos não são aceitos hodiernamente pela ordem druídica em questão.


– Eu preciso meditar. E, além disso, quero tentar entrar em sintonia com os espíritos que vivem aqui para entender o que se passou, e onde estará o grão-druida que responde por este círculo.


– Tudo bem, nós aguardaremos você voltar aqui mesmo – disse Bartolomeu.


– Bom, está certo então. Avise aos outros. Eu não quero ter que me explicar pra eles.


E assim Wurren deixou o círculo pelo lado diametralmente oposto aquele pelo qual entrou, deixando os colegas sem dar maiores explicações.


– Hei! – girou Adan, avançando para dentro do círculo.


– Calma. Ele só está indo meditar. Já volta – avisa Bartolomeu, cujos olhos atentos percorriam a relva em busca de outros vestígios que pudessem indicar realmente qual a natureza do ritual que ocorreu ali.


Adan se aproxima, olhando também com cuidado para os arredores a fim de encontrar alguma pista. Ao se aproximar de Bartolomeu, Adan perguntou no que consistem rituais do tipo que deve ter sido feito com Brenna. Todavia, Bartolomeu não tinha como lhe dizer isso com precisão. Tudo o que o astrólogo podia era explicar a natureza tão diversa dos rituais, as mais diversas finalidades que poderiam ter.


– Mas é possível que este círculo druídico tenha sido erguido sobre um local profano e depois tenha se tornado sagrado para alguém, como os druidas? – perguntou Adan.


– Um lugar geralmente não é sagrado ou profano somente para um pequeno grupo de pessoas, Adan. Normalmente existem razões tão grandes para que um determinado lugar seja considerado uma coisa ou outra que se pode dizer, com certa tranquilidade, que se um lugar é profano ou sagrado, ele com certeza será visto dessa forma por uma grande quantidade de pessoas, pois não é alguém em particular nem um monte de pessoas que ditam o que é profano ou sagrado. A qualidade de ser profano ou sagrado é imanente à coisa ou ao lugar, quando menos decorre da vontade dos deuses, dos demônios, ou ainda de seus mais poderosos seguidores. Sua influência se espraia para além de um pequeno grupo de mortais.


– É que eu não entendo nada de rituais, magias e essas coisas. Mas fiquei pensando que esse ritual que fizeram com Brenna poderia ter sido uma forma de terminar agora algo que foi iniciado tempos atrás – explicou Adan.


– Se o que você está querendo dizer é que este lugar pode ter sido sagrado para o povo-lagarto antes de o ser para os druidas…


– É, tipo isso mesmo – interrompeu Adan.


– É possível, mas ele nunca deixou de ser sagrado para uns e passou a ser sagrado para outros. É o que quero dizer – explicou Bartolomeu.


Adan tinha alguma explicação estranha para os acontecimentos, mas preferiu guardar para si e amadurecer a ideia antes de expor com clareza para os colegas. As explicações de Bartolomeu serviriam para que ele pudesse continuar pensando e imaginando soluções para os estranhos acontecimentos que assolaram Stonebridge.


****


Os aventureiros ficaram aguardando por Wurren, e enquanto isso procediam à verificação minuciosa do círculo druídico, sem jamais encontrar, todavia, elementos que pudesse indicar, concretamente, o que quer que tenha se passado ali nas noites anteriores.


O meio-orc eventualmente retorna, porém, sem nenhuma nova resposta. Sua meditação, embora tenha sido útil para retomar o equilíbrio de seu corpo e sua alma, não tinha sido capaz de aplacar completamente sua preocupação.


Adan procurou meio-orc assim que ele retornou, e o indagou as mesmas perguntas que fizera à Bartolomeu mais cedo. A reposta de Wurren, nada obstante menos filosófica, estava alinhada com aquilo que o astrólogo dissera horas antes.


– Além do mais, acho que é pouco produtivo ficarmos aqui imaginando o que pode ter acontecido. Minha sugestão é que voltemos para Stonebridge. Deve haver alguém, possivelmente um ancião, que conheça a história deste círculo druídico e das pessoas que costumavam frequentar isso aqui.


Bruenor, que já estava dormindo no pé de um olmo, despertou com um tapa na cabeça dado pelo meio-orc.


– Levante-se anão. Está de hora de voltarmos! – disse o meio-orc.


– Ahhh! Já não era sem tempo! Isso aqui está um tédio!!! – esbravejou o anão.


****


A noite finalmente começa a cair em Stonebridge. Quando os aventureiros retornam, Luna já surge entre nuvens, menos imponente do que nas noites anteriores, mas ainda assim majestosa com seu brilho pálido.


O senhor prefeito Orren está vagando pelas ruas da aldeia, e quando vê os aventureiros de retorno à cidade lhes oferece alojamento numa casa abandonada próxima ao lago, que antes pertencia ao velho Hador.


– Infelizmente, não há estalagens em nossa humilde vila e as noites em Stonebridge podem ficar muito frias e até matar um homem de hipotermia. A casa do velho Hador está praticamente vazia, vocês terão que acampar ainda sim, mas poderão fazê-lo dentro de um lugar abrigado.


Sem pestanejar, os aventureiros aceitam a gentil oferta do prefeito.


– Antes de partir, senhor prefeito, gostaria de saber quem é o ancião da cidade – disse Duncan.


Orren para por instantes para pensar, e depois responde.


– Ah sim. O velho Manwen – ele diz com um grande sorriso no rosto – Ele é um ferreiro muito habilidoso e muito ancião. Na verdade, quando eu era pequeno Manwen já era famoso por suas habilidades como ferreiro. Aprendi com ele meu ofício. É um homem muito bom. Procurem por ele amanhã se quiserem!


Duncan agradece pela gentileza da informação e depois os aventureiros vão para a casa do velho Hador e se preparam para dormir. Quando já era muito tarde, Bartolomeu sentiu uma enorme vontade de fumar seu cachimbo, e decidiu sair da casa para fazê-lo.


O espadachim observava os movimentos do colega, iluminados pela luz de um lampião. Bruenor já estava deitado em seu saco de dormir, e Adan ocupava uma cama que estava na casa.


****


Bartolomeu sai da casa, acende o cachimbo e dá uma pitada bem gostosa, que enche sua boca com o sabor amargo das ervas e a aquece. A temperatura cai abruptamente, o astrólogo estremece enquanto observa que uma fina camada de brumas recobre o brejo e invade a cidade lentamente, deslizando por cima das muretas e serpenteando entre as paredes das casas.


DUM!!!


Um som surdo ressoa através do brejo, reverberando pelas paredes de cada uma das casas de Stonebridge. Os tijolos de pedra vibram, esfarelando um pouco, o madeiramento dos telhados se contorce, rangendo e estalando até que o som alcance as colinas e lá se perca na escuridão.


Bartolomeu tomou um baita susto e olhos rapidamente para os lados a tentar identificar de onde tenha partido o barulho.


Dentro da casa do velho Hador, Duncan se levanta rápido e pega sua espada instintivamente.


DUUUUUUMMMMM!!!


Outra vez. Agora o som é surdo como um trovão. Pássaros saem assustados de seus ninhos nas copas das árvores.


DUUUUUMMMMM, DUUUUMMMMM, DUUUMMMM!!!


Três novas batidas. Todos agora percebem que são tambores; tambores tribais. Pode-se sentir ass batida surdas espalhando suas vibrações pelo brejo e as águas se agitando. Os aventureiros já estão de pé, é claro. Primeiro se entreolharam assustados, e depois correram para fora da casa, onde puderam sentir a força do som tremer cada um de seus ossos e cada nervo sob suas peles pálidas de medo.


Bartolomeu sente uma fisgada, e contrai o corpo, erguendo o punho direito cerrado e levando-o sobre o peito. Ele abaixa a cabeça com os olhos bem fechados e teme pelos presságios. Finalmente, ele abre os olhos e ergue a cabeça.


Pasmo, Duncan observa no horizonte escuro e enevoado pontos de luz se acenderem como lanternas. Um, dois, três. Não. Dez, vinte. Não. São centenas talvez. O espadachim esfrega os olhos, mas não se pode ver direito, pois as luzes embaçam na neblina.


Adan reluta em sair da cama. Seu coração está cheio de medo. Mas finalmente ele se levanta e ao perceber o grande mal que se avizinha, volta para dentro da casa recolher seus pertences. Por instantes ele se recorda da descrição que Bartolomeu fez de seu pesadelo e o ladino se recorda da assombrosa criatura descrita por ele. Mesmo não sendo religioso, ele diz uma prece bem baixinho, mas não pode evitar de lançar um olhar de dúvida e temor para Wurren, que responde encrespando o olhar e acenando positivamente, como a dizer que ficaria tudo bem.


O anão já está de machado em mãos:


– Arrrghh! Esse lugar é amaldiçoado! – esbravejou – Eu soube disso momento que pisei aqui! E agora o quê?


– Não jogue esse pesado fardo sobre nós – diz Wurren – não conjure uma maldição, não diga palavras vãs!


– Temos que partir! Vamos embora daqui! – insistiu o anão.


– Parece que estamos sob ataque! – murmura Duncan.


Bartolomeu olha em volta e percebe que a esta altura boa parte da população adulta de Stonebridge está nas ruas, observando o fenômeno assustador no lago.


– Uaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!! – um rugido gutural absurdo chega através do lago violentamente até os ouvidos dos aventureiros e um vento fortíssimo sopra do sul, apagando as velas, lanternas e tochas de Stonebrigde.


Algumas mulheres começam a chorar e os homens as tentam consolar, mas seus corações estão contritos. Bartolomeu entende o porquê. Ele olha para Duncan, que sente um formigamento terrível no corpo inteiro quando o vento soprou na sua face a terrível aura maligna que exala do brejo.


– Está acontecendo – Bartolomeu ouve uma voz feminina e suave soprar estas palavras em sua orelha e ele as repete em tom lúgubre.


Todos estão estupefatos, contemplando com horror e preocupação os sinais externos de um mal maior que assola os brejos. Em meio a este cenário de desolação e medo, um gato doméstico salta sobre Wurren, causando um enorme susto dos aventureiros e em especial no meio-orc, cuja reação instintiva foi afastar o felino com um safanão.


O bicho, atirado para o lado, cai sobre suas quatro patas se se aproxima novamente de Wurren. Bruenor se enfezou, ora essas!, e ameaçou se livrar no gatinho partindo-o ao meio com seu machado.


– Não!!! – Bartolomeu e Duncan gritam uníssonos. O anão refreia o movimento.


– Espere! A cauda dele está metida entre as pernas. Ele não quer atacar – diz o meio-orc enquanto o gato se aproxima de suas pernas e, apoiando-se sobre suas patas traseiras, estica as patinhas dianteiras até os joelhos de Wurren – Eu, eu acho que ele quer alguma coisa. O que você quer amiguinho? – e o meio-orc se ajoelha.


Imediatamente o gato ameaça subir nas costas do meio-orc, usando seu joelho como escada e patamar. Wurren o ajuda com a mão esquerda, e o gato sobe até seus ombros.


– Eimhim! Ele está fugindo! – disse o gato.


– O quê?! – indagou o meio-orc, assustado.


Os aventureiros olham abismados para a cena, maravilhados com o gato falante, que salta dos ombros de Wurren se começa a correr entre a multidão a mostrar o caminho e a direção:


– Venham logo! Por aqui! – disse o gatinho, enquanto deixava a presença dos aventureiros para se aproximar da multidão, correndo e driblando-a com a característica agilidade felina.


Bartolomeu não hesita nem por um instante, e parte atrás do bicho, entre a perplexidade e o medo. Wurren vai logo atrás, sendo seguido por Bruenor.


Duncan decide gritar ordens para as pessoas que estão desorientadas nas ruas de Stonebridge e Adan espera por ele antes de partirem atrás dos demais.


****


O gato é muito veloz, ágil e parece incansável. Ele deixa os muros da cidade sob os olhos de Bartolomeu e Wurren que vem correndo logo atrás, colocando à prova sua estamina e preparo atlético.


Os aventureiros avistam muitas algumas centenas de metros à frente, uns 300 metros mais ou menos, um sujeito que anda curvo, como um velho, pela estrada, como a deixar a cidade em passos apressados, coberto por um pesado manto de algodão e cânhamo que o recobre da cabeça aos pés.


– Ei!!! – Wurren grita, desacelerando o passo até parar no meio da estrada. Bartolomeu se irrita como meio-orc, que chamou a atenção do sujeito antes da hora.


O homem se vira, e todos podem ver, sob a luz de Luna que parece brilhar mais forte neste instante (atraindo os olhos de Bartolomeu para os céus por brevíssimos instantes) que se trata de fato de Eimhim. Mas seu olhar está mudado, pois emite um estranho brilho ao reluzir o luar.


-Ahhh!!! – Eimhim solta um grito esganado, virando-se para trás somente para ver Wurren à frente dos demais aventureiros que o buscam alcançar açodadamente – Deixem-me em pazssssssss!!! Essstá conssssumado!!!


– Do que você está falando verme? – pergunta Wurren irritado, retomando a caminhada direção ao homem.


– Nem maisssss um passssso! – Eimhim ergue a mão direita que estava escondida sob o robe e revela uma pele decrépita, dedos longos e finos e unhas amareladas e apodrecidas. Definitivamente ele não é mais a mesma pessoa que os aventureiros encontraram na tarde do dia anterior, embora seu rosto ainda confirme sua identidade.


Neste exato instante o gatinho a quem os aventureiros seguiam surge da beira da estrada, pois estava escondido na escuridão entre a relva. E quando o animal salta para fora do mato em direção a Eimhim seu corpo se deforma de maneira formidável diante dos olhos de todos. O inofensivo e esperto gatinho se transformou em uma enorme pantera que salta com ferocidade sobre Eimhim no exato instante em que ele terminava de pronunciar as rápidas palavras necessárias para ativar um feitiço terrível.


– Dágora!!! – grita Wurren, correndo na direção dela.


O espanto de todos é agora ainda maior!


Ela conseguiu morder o braço de Eimhim, ferindo-o severamente, mas o homem é esguio e escorregadio. E o feitiço que ele tinha preparado para os aventureiros se destinou ao felino!


Centenas de raízes se ergueram brutalmente do solo, enroscando-se no torso e nas patas do animal, erguendo-o do chão cerca de um metro, deixando imobilizado!


Bartolomeu se apressa e corre da direção do inimigo, deslizando os pés sobre a terra e a grama, enquanto armava sua besta com um virote certeiro que, quando disparado, atinge o braço direito de Eimhim.


Eimhim se enfurece! Ele solta um grito de dor e ódio, mira em Bartolomeu e pronuncia palavras estranhas aos berros. Então, ergue novamente a mão direita, agora não de modo tão incisivo, pois seu braço está ferido, e conjura um feitiço de fogo que dispara como uma língua em chamas contra o astrólogo! Só que ele desvia em tempo.


Duncan investe contra o inimigo, parte em desabalada carreira e o espeta com sua espada longa, provocando um grande sangramento. Adan também avança, saca seu sabre ainda não corrida e produz um corte enorme no torso de Eimhim, que grita de dor e agonia.


Bruenor corre, mas suas pernas são curtas e ele não alcança o adversário, mas ao invés disso arremessa seu machado de batalha, errando o alvo, posto que a arma é pesada e desequilibrada demais para ser atirada com precisão.


O meio-orc está enraivecido. Sua linhagem orc quer eclodir dentro de si, e ele sente sede de sangue! Wurren conjura um feitiço e balança os braços no ar como se estivesse a manejar um chicote, projetando de suas mãos uma longa corda que parece ser feita do fino caule de uma roseira repleta de espinhos. A corda serpenteia em pleno ar e avança em grande velocidade até Eimhim, lacerando sua pele e depois o puxando 3 metros para trás.


O inimigo agora exibe presas de crocodilo, num maxilar protuberante. Pode-se ver que seus olhos têm as características de olhos de lagarto. Furioso, ele ergue novamente a mão, mas desta vez a ergue me direção aos céus, e de cada um de seus dedos sai um raio de luz que contorna os aventureiros como se fossem fogos de artifício e os atinge sem chances para defesa.


Neste instante uma luz púrpura brilha forte atrás dos vales ao norte da cidade, refletindo seu fulgor no firmamento!


– Ahahahaha! Seus tolosssss. E agora que hão de fazer? Os Asssssssseclas Sessssssss’inek essssstão a terminar meu trabalho! É inevitável! Nassssssscerá um novo reino de terror e poder, e os homenss que não deixarem essssssstas terras ssserão escravizadosssss!!! – comemora Eimhim.


– E o quê você ganha com isso seu maldito?! – Pergunta Wurren, furioso!


– Eu ganho a glória e a gratidão eternas de Sessss’inek para governar sobre os homens quando seu reino vier! Ahahahahaha! – responde Eimhim.


– Tolo! Pois agora ganhará somente a morte!!! – grita Duncan quando num golpe rápido e potente decepa a cabeça do vilão.


****


Os aventureiros se apressam em voltar para Stonebridge. Bartolomeu estava preocupado que a cidade pudesse estar sob ataque, porém tudo o que havia lá eram pessoas desesperadas e amedrontadas, de modo que o astrólogo não se deteve mais tempo e partiu para o círculo druídico onde crepitavam as chamas que reluziam nos céus.


Duncan deu mais algumas orientações às pessoas, especialmente para Orren, na vã tentativa de conter o pânico da população e então vai ao encontro dos demais colegas.


Eles correm pelas trilhas ao norte da vila, explorando no limite sua capacidade de respiração, sua estamina, seu vigor. O suor escorre pelas têmporas de Bruenor, mas a vontade de vencer o inimigo fala mais alto. As pernas de Adan ameaçam fraquejar, mas ele está resoluto. Todos querem descobrir que diabos está acontecendo nos vales.


Nada obstante, ninguém estava preparado para presenciar o círculo druídico queimando com um fogo mágico profano. As chamas são púrpuras e sua fumaça é ácida. No centro, o corpo de uma mulher está amarrado ao caule do visgo antigo e ao seu redor cinco pessoas vestidas com mantos vermelhos erguem os braços com cálices de estanho refinado dos quais transborda um líquido rubro e viscoso: sangue!


Não é possível ver com nitidez o interior do círculo, porque as chamas profanas consomem principalmente as árvores que ocupam o perímetro do local.


– É chegada a hora! Sacrifícios foram feitos e o sangue dos mortais foi derramado, manchando esta terra e consagrando-a ao nosso senhor Sess’inek! Deem o sangue dos inocentes em oblação agora! – um dos homens derrama sobre a mulher o conteúdo do seu cálice, e em seguida, um a um, os homens parecem repetir seus movimentos.


– Ahhhhhhhhh!!! – Bartolomeu dá um grito e avança através das chamas, sendo seguido imediatamente por Duncan.


Um após o outro, os cálices vão sendo derramados sobre a cabeça da mulher e quando a primeira gota de sangue alcança o solo o chão inteiro sob os pés dela se incendeia com o fogo profano (e púrpura) semelhante ao que arde no círculo druídico.


Quando transpõem as chamas ácidas, os dois percebem com um misto de ódio e terror que um dos homens que participam do ritual é Dillan, o aldeão pai de Brenna. Ele é, claramente, membro de uma seita de adoradores de Sess’inek. O pior, porém, é que o corpo amarrado na árvore pertence à Dorene, sua mulher. Percebe-se que ela está viva, contudo, em estado de choque. E assim que vê os aventureiros, parece despertar de seu torpor e começa a urrar em desespero e de dor pelos cancros que se abrem em sua pele como bolhas enormes que explodem com o calor da fumaça ácida, conforme o sangue é derramado sobre si, encharcando seus cabelos.


Entretanto, o astrólogo cai no chão logo em seguida, após sentir sua pele arder com a potência do ácido das chamas mágicas que acabara de transpor.


Duncan arregala os olhos de temor quando vê o companheiro caído no chão.


– Ahahahahahahaha!!! – Dillan solta uma risada maligna e aterrorizante! – Está acabado!


****

Comentários

  1. Desde que os primeiros tambores puderam ser ouvidos no vilarejo de Stonebridge, Bartolomeu teve a sensação de dar um passo para dentro de seu sonho da noite anterior, em que tudo ocorria lenta e apavorantemente. Seu corpo estava pesado, mole, relaxado, como quando se dorme, mas seus pensamentos voavam rápidos, tentando entender e tentando desembaraçar a névoa q também em sua cabeça tentava se formar. Presságios têm um custo alto, e não à toa os maiores adivinhos são completamente loucos, pois a realidade e a possibilidade, e o futuro e o passado todos se confundem. Não é fácil enfiar os dedos na trama do tempo e esperar que tudo seja como antes, sem que fique um ranço em toda a mão, sem que cada ação não seja seguida da dúvida de se aquela escolha não é o gatilho do pavor previsto, ou a chave para a salvação.

    Bartolomeu tem o pensamento ágil, e é ele que move seu corpo do torpor, às vezes com o cálculo frio de pegar todos os seus pertences dentro da casa antes de sair, às vezes com o desespero de seguir uma pista qualquer que o impeça de ficar parado, pensando mais, sendo sugado por aquelas brumas agourentas. Então ele parte em direção ao gato falante.

    ResponderExcluir
  2. O homem que viveu pela inocência ou prepotência de Wurren certamente tem participação nos eventos da noite. Qual a extensão dessa participação não preocupa Bartolomeu agora, mas cedo ou tarde os fantasmas dos seus atos vêm acertar as contas. Se eles vão achar que ele, Bartolomeu, tem culpa nisso, aí já é outra história. Os deuses nunca são claros em seus comportamentos, e, dentre esses, os do destino e justiça são os mais instáveis.

    ResponderExcluir

Postar um comentário