Os Herdeiros de Ânn - 5ºAto - 1ª Parte

A visão se turva e os olhares se cruzam, enquanto os corações batem acelerados buscando uma resposta no fundo de suas almas para tudo aquilo que estavam vendo. Cada um dos aventureiros exibe pelo menos pequenos sinais da grande perplexidade causada pela vila de Stonebridge.


– É melhor irmos embora daqui, nos afastarmos desta vila e retornar depois. Este local está perturbado, assolado! – disse Bartolomeu.


– Não. Podem haver sobreviventes, vamos vasculhar a aldeia inteira antes de sair daqui – contestou Duncan.


– Duncan, não vês que este lugar foi destruído por uma força muito maior do que a nossa? Não é possível que haja sobreviventes aqui! – reiterou Bartolomeu.


– Os sinais indicam que este lugar foi assolado há pelo menos três semanas – disse Wurren observando o crescimento desordenado da vegetação e o estado de putrefação do cavalo que foi encontrado.


– Viu? É o que eu disse! Ninguém ficaria três semanas escondido dentro de casa numa vila tomada de zumbis e repleta de mortos! Quem quer que possa ter sobrevivido fugiu daqui – falou Bartolomeu.


– Bom, seja como for, eu não vou deixar esse local agora – respondeu Duncan – há um grande mal aqui que precisa ser debelado custe o que custar!


– Se você estiver morto não terá utilidade nenhuma para dissipar essa maldade – insistiu Bartolomeu.


Bruenor se aproxima dos colegas ainda nervoso, preocupado, ansioso. Aquele lugar lhe causa cala frios e arrepia até o ultimo fio de cabelo do seu corpo truculento:


– Se o Duncan vai ficar eu também fico.


Adan ouve a conversa atentamente, e se manifesta pelo desejo de se afastar de Stonebridge como sugeria Bartolomeu, enquanto isso ele observa incrédulo o desastre que assolou o local e tenta compreender o que exatamente o causou. Seus olhos se fixam em algum ponto na distância onde as brumas encobrem completamente a área alagada que cerca a aldeia.


Durante o breve momento de hesitação entre os aventureiros, enquanto a discussão arrefecia, Duncan caminhou à frente para dar início à sua investigação particular e fez uma prece curta e silenciosa. Seus lábios mal se movimentam, sua língua lentamente se mexe dentro se sua boca tocando o céu e então encostando nos dentes, enquanto a garganta engole com certa dificuldade um pouco de saliva, e de seus pulmões sai o ar quente que se condensa na atmosfera revelando o frio enorme que faz naquele local.


– Protejam-me, e deem a mim a sabedoria para seguir tentando – sussurrou o espadachim.


Wurren parece ter percebido a preocupação de seu colega e lançou para ele um olhar indulgente para logo em seguida virar-se para Bartolomeu, cujos olhos estavam momentaneamente pregados na trilha estreita que se insinuava entre duas casas abandonadas.


– Vão embora! Voltem! Aqui não é o seu lugar! – essa voz feminina e tão infantil, carregada de inocência e malícia parece soprar, como uma brisa, nos ouvidos dos aventureiros algum tipo dew mau agouro. E eles estremecem.


O coração de Bartolomeu está frio. Por alguma razão há um vazio, um desapego, um desalento. Bartolomeu olha para o chão e mira a ponta dos pés e percebe que já não os sente. Alguns fios de seus cabelos longos, há muito não aparados, escorrem de trás das orelhas para o rosto.


Um aperto no peito muito forte lhe acomete, mas ele não tem forças para reagir. Seus olhos estão pregados nos pés. Uma brisa forte, um vento fraco. Como queira. Seus cabelos balançam suavemente. Seu corpo está ali, mas sua alma não.


Bartolomeu se pergunta como é possível não conseguir sair desse transe. Ele tem vontade de revirar os olhos, de cerrar os punhos, mas nada. O corpo está de pé, mas está inerte, e ele continua a olhar a ponta dos pés.


– Para onde teus pés te levam, Bartolomeu? – uma outra voz feminina, mais suave e delicada, sussurra junto ao vento.


– Cale a boca! – a menina assustadora responde.


– A alma dele é minha! Você não tem autoridade aqui! – a voz suave e delicada volta a dizer – Para onde teus pés te levam, Bartolomeu?


Os ventos mudam abruptamente de direção. As brumas rodopiam no ar frenético e uma sombra grande esconde a luz que ilumina a vila por breves instantes. Bartolomeu está olhando para a ponta dos pés. Nada obstante, sabe intuitivamente que a sombra se assentou no lago escuro desaparecendo nas névoas mais densas.


As águas que cercam Stonebridge, antes paradas, se agitam com a chegada da sombra no sul. Adan, cujos olhos observavam na distância, percebe que as ondas que encrespam o lago chegam com velocidade à sua margem. A vida aquática se agita, os pequenos peixes, as larvas e os girinos serpenteiam seus corpos para deslizar dali o mais rapidamente possível.


– Uaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!! – um rugido gutural absurdo chega através do lago violentamente até os ouvidos dos aventureiros quando um vento fortíssimo sopra do sul.


Wurren, Duncan e Adan usam os braços e mãos para proteger os rostos. Bruenor momentaneamente abaixou a cabeça para evitar o sopro nos olhos e logo que pode a ergueu de novo com os olhos arregalados e claramente amedrontados.


Mas Bartolomeu ainda estava lá, com os olhos fitando as botas.


– Ah Bartolomeu! Onde teus pés te levam, Bartolomeu? Não vedes que sem mim não és nada?! Criatura de pouca fé! – a voz mansa e tranquila torna a lhe falar.


Os aventureiros observam que uma enorme sombra navega pelas profundezas do lago em direção à margem norte onde estão. Adan dá alguns passos para traz sem conseguir conter o grito de socorro:


– Corram! Corram! Um demônio!


Wurren recua também alguns passos, ainda olhando para frente em direção ao lago, com temor, certamente. Sua boca está um pouco aberta e o peito arfando. Seus olhos refletem a escuridão que se aproxima e a morte certa que o abala.


Duncan recua sacando sua espada, com os olhos arregalados e fixos observando o mal que se aproxima:


– Oh! Beory! Oh Obad-Hai! Senhores das matas e regentes do universo! Lancem tuas glórias sobre nós e nos dai a força para enfrentar tão poderosa criatura!


Duncan está com a espada longa empunhada na mão direita e o escudo amassado na mão esquerda. A perna esquerda levemente mais adiantada que a direita, o que permite projeta o escudo à frente, fechando sua guarda.


Adan, que caminhava de costas, sem tirar os olhos da terrível ameaça que vinha pelas profundezas do lago, tropeça e cai sentado no chão.


Bartolomeu finalmente percebe que está flutuando fora do corpo, a metros de altura do chão, pairando sobre os colegas e seu próprio corpo ainda de pé e inerte.


A gigantesca sombra chega veloz à margem e se ergue de dentro do lago, provocando um novo deslocamento de ar violento. E é apenas uma sombra, uma criatura inteiramente negra que lembra de fato os demônios dos tempos antigos, cujos olhos são como o fogo do inferno e a língua o chicote de couro que açoita as almas no dia da perdição!


A criatura ergue com a mão direita um flagelo imenso que oculta toda a luz do firmamento, e desce o braço num movimento rápido e autocontido que faz espancar os aventureiros e lacerar a própria terra.


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Duncan desliza para trás num movimento rápido!


– Arrrgh! – o grito de horror de Duncan se deve ao fato de que o flagelo passou pertíssimo de si, e se não fosse pela velocidade nas pernas teria sido partido ao meio!


A fita de couro infernal zuniu bem próxima do rosto de Wurren, que observa incrédulo como Bartolomeu ainda pode estar olhando para os próprios pés sem qualquer tipo de reação à criatura bizarra que se erguia diante dos aventureiros neste lugar sombrio.


Adan se levanta, vira de costas para a criatura e decide correr. Ele flerta com a possibilidade de deixar o local e salvar sua própria pele, mas algum senso ético de dever o impede e ele hesita.


O demônio sombrio ergue o braço direito novamente e tempo parece diminuir de velocidade quando o flagelo estala no ar anunciando um novo golpe violento.


Duncan percebe que jamais seus companheiros e ele serão capazes de enfrentar tal sorte de criatura. Ele recua ainda mais:


– Recuem! Fujam daqui! Corram seus tolos! – gritou o espadachim enquanto ele próprio, porém, recuava na direção não da saída, mas sim de seu colega Bartolomeu. Ele guarda a espada na bainha e leva a sua mão direita até o antebraço direto do amigo e neste exato instante sente o corpo amolecer e a visão escurecer. Duncan quase desmaia, mas consegue se manter acordado.


Bartolomeu olha para seu próprio corpo inerte e observa os esforços inúteis que Duncan faz para tentar removê-lo dali. Com a força do seu pensamento, ele flutua até seu corpo, mas quando se aproxima dele sente que o mesmo está frio e inacessível como uma rocha ou um pedaço de pau qualquer. Ele, então, olha para os céus, sobe, e depois olha para baixo somente para contemplar as brumas e densa neblina que cercam Stonebridge.


Duncan pendura o escudo amassado nas costas e com a força de seus dois braços fortes tentar erguer o corpo de Bartolomeu, crendo que ele estava sob o efeito de algum feitiço.


Quando o espadachim executa esta manobra ele desmaia, para espanto e horror de Wurren.


O flagelo da enorme criatura sombria desce novamente atingindo Adan e se enroscando em sua cintura, lacerando sua carne e destruindo suas esperanças. O ladino desmaia com a força do golpe e Bruenor, que observava tudo, se enche de fúria e parte num só grito em direção de Adan.


O anão ergue o machado de batalha, girando-o no ar com as duas mãos, deixando sua guarda completamente exposta a fim de aplicar a maior força possível e seu golpe atinge o flagelo, como planejado, rompendo por completo a grossa fita de couro que se prendia ao corpo de Adan.


Bartolomeu percebe que não há esperanças, que é inútil enfrentar a poderosa criatura. Em seu estado etéreo lhe resta apenas se socorrer daquela mansa e doce voz que ouvira há pouco. Ele fecha os olhos e deixa que seu corpo flutue junto ao vento que rodopia numa espiral de loucura sobre o lago, a muitos metros de altura.


O último açoite desce com o flagelo zunindo pelo ar, rasgando-o como um trovão. Buuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmm!!! A terra sacode e se abre em fendas que prometem engolir a todos!


– Não! – a voz antes doce e suave da mulher que falava com Bartolomeu agora se impõe de forma grave e contundente – Você não tem poder aqui criatura danada!


Um brilho forte como um relâmpago!


– Ahhhhhhhhhhhhhh! – Bartolomeu desperta de um pesadelo estranho. Seu rosto está suado e a primeira coisa que vê é o céu de Flanness iluminado por Luna.


– Está tudo bem aí? – perguntou Duncan.


Bartolomeu fecha os olhos novamente e repousa a cabeça cansada.


– Abra os olhos! Não há nada a temer para onde os teus pés te levam! – o coração de Bartolomeu dispara de emoção, pois a voz do sonho falou com ele de novo, e agora ele não está mais a dormir. Ele vê uma mulher toda de branco se aproximar de si, de seu corpo deitado. Ela parece vestir um tipo estranho de corselete de couro, todo branco. Seu rosto é firme, os cabelos dourados, seu olhar duro e penetrante – Levante-se!


A mulher estende a mão para Bartolomeu, e quando ele a pega é tragado para a manhã cálida do quinto dia de Planting, onde encontra seus colegas de viagem de preparando para retomar a caminhada após a noite de descanso que sucedeu o combate com os homens-lagarto.


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