Os Herdeiros de Ânn - 4º Ato - 2ª Parte

Quando Duncan retorna para o Rancho Quebrado percebe que Fildurn quer ter consigo. O espadachim se aproxima e Fildurn diz:


– Tenho uma carta para você – Duncan já sabe do que Fildurn está falando.


– Sim. Me entregue – Duncan diz apressadamente, supondo que o documento se encontrava no bolso do homem.


– Ela não está comigo bem aqui no meio do salão – disse Fildurn em tom jocoso, já se dirigindo para o balcão – Ela está aqui! – complementa o estalajadeiro quando pega, numa prateleira abaixo da parte posterior do balcão um envelope amarelado e entrega para Duncan.


O espadachim observa o lacre de cera vermelha que sela o envelope e o abre ali mesmo:


Sua recompensa de quinhentas moedas de ouro pelo sucesso da missão está garantida. Boa sorte.


Bartolomeu viu que Zola estava usando um esfregão para tirar uma mancha do chão e se aproximou dela, perguntando:


– Zola, nós em breve vamos partir, meus amigos e eu. Mas uma coisa me preocupa: aquele tal de Leandonn, você tem algo a dizer sobre ele?


A filha de Fildurn demonstrou desconforto com a pergunta.


– Não, eu já disse que não. Ele é um lorde destas terras e eu o respeito e é apenas isso. Não sei porque insiste – disse Zola.


– É que me preocupo com você, minha donzela – Bartolomeu respondeu.


Zola ruborizou e levou as mãos até o peito como a conter a timidez. Bartolomeu não pode deixar de notar os seios fartos da menina neste instante, e como aquele vestido simples e mundano parecia somente valorizar ainda mais a natural beleza de Zola.


– Vamos sentir sua falta aqui – disse Zola – Vocês vão retornar?


– Eu retornarei com certeza, não posso deixar de vê-la novamente – respondeu Bartolomeu, galanteador.


– Não seja presunçoso – a voz doce de Zola amoleceu quando dizia estas palavras, de forma a acrescentar doçura à sua fala e deixar claro que ela está disposta a participar do jogo do aventureiro.


Entretanto, Bartolomeu viu que Duncan estava com a cara amarrada com preocupação. Então, preferiu se despedir de Zola e retornar para a mesa.


Duncan não sabia exatamente o que estava esperando. Na verdade esperava qualquer coisa, menos uma carta tão breve e direta. Abaixo dos escritos está uma assinatura irreconhecível.


– Bom, senhores. Temos uma missão pela frente, e acho que devemos partir o quanto antes! – disse Duncan de retorno à mesa onde seus colegas estavam sentados.


– O que Leandonn disse? – perguntou Bruenor.


– Nada. Apenas que nossa recompensa está assegurada – replicou Duncan.


– Quinhentas moedas? – perguntou Bruenor.


– Uau! Quinhentas moedas? – interrompeu Adan.


– Você não ouviu nada! – Bruenor disse em tom de brincadeira e ironia.


– Suponho que esteja convidado – disse Bartolomeu.


– Sim! – disse Duncan.


– Não! – disse Bruenor – É mais um para dividir o tesouro! Nada disso! Na-não! Já não temos braços fortes o bastante?


– Não se preocupe. Eu não faço questão da minha parte da recompensa – disse Duncan altivamente – cumprirei a missão por outros motivos.


– Ah bom! Neste caso tudo bem Bartolomeu se juntar a nós – emendou Bruenor.


Adan apenas assentia com a cabeça, pois estava por dentro dos eventos passados em Stonebridge não só graças a conversa que teve com a misteriosa figura feminina no castelo, como também graças a Duncan, que revelara para ele o conteúdo da proposta de Leandonn na noite anterior.


– Está decidido. Partiremos hoje então. Ainda agora! Encontro com vocês no lado de fora dos portões de Orlane. Vou me adiantando, pois quero encontrar Dagora primeiro – disse Wurren.


E assim foi feito.


****


Do lado de fora, Wurren caminha para se afastar pelo menos uns 300 metros dos muros da cidade. Ele observa a relva nos arredores, mas não vê Dagora. Com a boca, o meio-orc emite um silvo agudo e longo, contudo, sem resposta, ele vira-se de costas e começa uma lenta caminhada até os portões por onde agora cruzam seus colegas.


De repente, Wurren vê que a relva se movimenta. É Dagora que vem lenta e sinuosamente caminhando ao seu encontro. Ambos se olham e embora nada seja dito, fica claro que a onça parda não pretende ir a nenhum outro lugar sem Wurren.


O coração do meio-orc se enche de alegria.


****


A caminhada se estende por muitas horas até que o sol começa a se esconder no oeste atrás das crystalmists, deixando o firmamento escuro ser dominado pelas primeiras estrelas da noite e por sua rainha, Luna. Celene surge crescente nos céus, ainda tímida.


Como está escuro, os aventureiros decidem que é melhor parar a caminhada e montar acampamento, pois não sabem quantas horas ainda levarão para chegar em Stonebridge.


Wurren decide, então, que vai fazer uma ronda num perímetro entorno do acampamento.


– Estão ouvindo isso? – perguntou Bruenor – É o som de um córrego! Vou até lá para encher meu cantil.


– Acho que vou com você então, vou aproveitar para colher uns galhos secos pra acender uma fogueira – disse Bartolomeu.


Enquanto os três se dividiam nestas tarefas, Adan e Duncan começavam a preparar o acampamento.


Bruenor caminha alguns metros e encontra o córrego. Suas águas são cristalinas e serpenteiam pelo leito estreito e rochoso que corta os campos da região. O anão se agacha e destampa o cantil.


Foi neste instante que Bartolomeu olhou aterrorizado duas criaturas pavorosas surgirem de trás de arbustos na margem norte do riacho!


– Bruenor! Cuidado! Lagartos ao norte!!! – Bartolomeu encheu os pulmões para dar esse berro e alertar o anão, mas Bruneor estava distraído e sua primeira reação não foi olhar para o norte, mas sim olhar para Bartolomeu. A fração de segundos desperdiçada foi preciosa, pois os lagartos avançaram com ferocidade para cima do anão.


Dois golpes violentos desestabilizaram Bruenor. O primeiro foi uma pancada com um porrete no torço do anão, e a segunda um golpe violento no ombro esquerdo, fazendo com que Bruenor soltasse o machado que acabara de tirar da presilha na cintura! Sim! Aqueles não são simples lagartos, nada disso! São homens-lagarto, ou lagartos-homem: uma bizarra combinação híbrida entre lagartos comuns e homens ferozes.


As criaturas têm aproximadamente 1,80m de altura e são muito largas. Bípedes, elas carregam com suas mãos, cada qual, uma espécie de maça ou porte de madeira e na outra mão um escudo rudimentar feito com os cascos de tartarugas gigantes.


Bartolomeu recua e contorna a escaramuça. Ele saca sua besta pequena, pega um virote, arma, mira, e dispara!


Uma das criaturas é atingida e dá um urro!


Bruneor enche os pulmões e dá um grito de guerra poderoso, enchendo-se da garra dos antigos guerreiros de seu povo para superar a adversidade! Ele pensa rápido e decide usar seu martelo novamente. O movimento é veloz, e o anão aproveita o balanço da arma para desferir um golpe poderoso, mas o homem-lagarto desvia e a cabeça do martelo atinge o chão.


Duncan, Adan e Wurren são alertados do perigo pelo grito de guerra de Bruenor e partem em direção ao córrego. Porém, chegam a tempo apenas de ver quando um dos lagartos desfere um golpe com o escudo, batendo-o contra a lateral do rosto do anão, que cai inconsciente no solo duro.


Bartolomeu dispara mais um virote, e desta vez erra o alvo.


Um dos lagartos, percebendo a desvantagem numérica em que agora se encontra, surpreende e resolve fugir correndo rio acima. Todavia, Wurren se apressa, leva o braço direito arqueado até nuca. O movimento lembra o daquele de quem puxa uma lança curta ou javelin para arremessar em um inimigo. Mas Wurren faz melhor. Ele realiza um movimento rápido e pronuncia palavras aqui irrepetíveis quando de suas mãos surge uma centelha de energia mágica esverdeada que se prolonga até as costas do lagarto fujão.


A aura mágica é conduzida por Wurren como se fosse um chicote, que atinge a criatura e a laça, ao passo que o meio-orc consegue com a força de um só braço puxa-la para trás.


Duncan investe contra o outro lagarto, e balança sua espada longa de modo ameaçador! O golpe descendente parte o escudo da criatura e quase lhe amputa o braço esquerdo. O monstro tenta um revide, mas Duncan consegue aparar o golpe com o escudo emborcado.


Bartolomeu se movimenta e mira no lagarto laçado por Wurren, porém, muda de decisão na última hora e dispara contra aquele que está lutando corpo-a-corpo contra Duncan. A mudança súbita, porém, o fez errar novamente.


Dagora surge do nada saindo de trás de uma árvore! Ela estava escondida para atacar de surpresa, porém, na última hora, o animal hesitou – como se estivesse com medo. Enquanto isso, aproveitando tantas distrações, Adan contorna o local sem ser visto e surge do escuro para golpear pro trás o lagarto laçado por Wurren. O golpe de sabre foi preciso e agora aquele inimigo está muito ferido!


Duncan repete a mesma estratégia que usou contra Tishki. Ele brande a espada e acerta um golpe perfurante que penetra o pescoço do lagarto. Mas, subestimando a grossura do couro da besta, coloca pouca força no braço e sua espada não consegue matar a criatura.


O lagarto se enfurece, e mesmo muito ferido, com os olhos opacos, lança seu corpo contra Duncan, agravando seu ferimento para tentar uma mordida – sem sucesso.


Duncan puxa rapidamente a espada e num golpe giratório decapita o monstro.


O lagarto remanescente avança contra Wurren e consegue morder seu ombro arrancando um naco de pele, deixando o meio-orc severamente ferido. Vendo isso, Bartolomeu reage com um tiro certeiro que atinge a cabeça do monstro e o leva ao chão.


Imediatamente, Bartolomeu puxa Wurren a indicar a grave situação de Bruenor.


Duncan se aproxima antes, porém, e impõe as mãos sobre o corpo inerte do colega e, entoando uma oração aos espíritos da natureza, permite que as energias positivas fluam livremente para curar os ferimentos dele.


Bruenor desperta confuso, e os aventureiros se recompõem do susto:


– Esse lugar não é seguro para acampar! – disse Duncan.


– Vamos voltar um pouco e procurar um local mais abrigado. Melhor não seguir em frente porque foi de lá que vieram os lagartos – ponderou Bartolomeu, enquanto abaixava-se para pegar o martelo e o machado do anão, os quais estavam jogados no chão.


– Sim – disse Wurren, concordando.


– Tome senhor Bruenor. O senhor deixou cair isto – disse Bartolomeu entregando a ele suas armas.


Bruenor observou rapidamente o rosto de Bartolomeu, assentiu com a cabeça num claro gesto de agradecimento, e lançou sobre o colega um olhar de gratidão que raramente os anões desperdiçam com pessoas desonradas. Bartolomeu percebeu isso, se viu que seu gesto singelo representou para aquele anão uma demonstração de respeito muito maior do que podia ter calculado.


E assim foi que os aventureiros recuaram algumas centenas de metros na estrada de terra até um local rochoso próximo, onde encontraram um ponto que julgaram ideal para dormir: fendas e reentrâncias numa das rochas dava abrigo e protegia os flancos do acampamento.


– Faremos turnos de vigia está noite – disse Duncan.


– E nada de fogueiras – emendou Bartolomeu – não queremos chamar mais a atenção, além do que, está uma noite quente.


E assim, os aventureiros passaram uma noite tranquila, somente interrompida durante a vigília de Duncan quando este percebeu o sono agitado de Bartolomeu e o despertar assustado dele de um terrível pesadelo…


****


A manhã seguinte chega em paz. O sol começa a raiar no leste do Ermo e os aventureiros se põem de pé.


Em pouco mais de uma hora retomam a caminhada, a qual dura pouco mais de duas horas até que veem diante de si aquela que parece ser Stonebridge.


A aldeia é bem pequena, e deve abrigar no máximo 300 habitantes. O seu centro é cercado por uma mureta de pedras cuidadosamente empilhadas sobre a qual uma trepadeira cresceu se espalhando por toda sua extensão.


Um córrego separa a estrada de terra da aldeia em si, e ele pode ser transposto por um arco de pedra secular que parece ser o motivo do nome do local. Assim que cruzam a ponte, os aventureiros percebem que a vila está tomada de uma densa bruma vem do brejo que cerca a localidade.


Duncan observa que uma das casas está com a janela aberta e que ela se movimenta lentamente com o vento, denunciando um estado de abandono. Bartolomeu nota, no mesmo instante, que o mato tomou conta da aldeia.


Wurren dá alguns passos adiante, atravessando a abertura nos muros baixos por onde a estrada de terra avança aldeia a dentro. Logo que faz, o meio-orc percebe que há um cavalo morto jogado ao lado de uma casa, em estágio avançado de decomposição.


– Pessoal, tem algo errado neste lugar. Parece que tudo está abandonado!


Todos pressentem um perigo iminente. Bartolomeu sente o peito apertar com aflição.


Adan vai até a beira do que parece ser um lago, na verdade, uma parte completamente alagada do brejo. Duncan dá alguns passos à frente e decide ir em direção à casa que lhe chamou a atenção, ao chegar lá, o espadachim eleva a mão direita para frear o movimento da banda de madeira da janela que balançava com o vento. Neste exato instante Duncan percebe que não há vento algum, nem mesmo uma leve brisa que pudesse agitar a mais delicada flor.


Um suor gelado desce por suas têmporas, os músculos das costas se enrijecem causando-lhe um enorme desconforto e um odor fortíssimo penetra suas narinas e invadem os pulmões causando-lhe náuseas.


Duncan olha pela janela para dentro da casa de pedra, e vê com horror os corpos de duas mulheres, uma aparentemente mais jovem do que a outra, em avançado estado de putrefação, jogados sob uma mesa velha de madeira.


O cheiro de enxofre causa uma estranha sensação em Duncan! Ele fecha os olhos tentando se concentrar, seus olhos giram dentro das cavidades oculares, enquanto invoca os nobres espíritos naturais capazes de lhe inspirar bondade. Ele abre os olhos e varre o local em busca de estranhas auras malignas, e percebe com clareza solar que aquelas mulheres são mortos-vivos à espreita de algum incauto.


– Tem zumbis por aqui! Tomem cuidado! Este lugar não é seguro, é profano!!! – Duncan disse em alto e bom som para que todos ouvissem.


Bruenor ficou parado na entrada da aldeia, nervosamente segurando seu machado e observando os companheiros vasculharem as ruas. Ele, como todo anão, detesta locais estranhos desse jeito.


– Hahahahahaha – Uma risadinha sádica ecoa pela vila, parecendo ter saído da boca de uma menininha, arrepiando até a alma dos aventureiros. Bartolomeu vê uma sombra cruzar uma rua estreita entre duas casas.


– Temos espíritos também! – disse ele.


– O quê? – perguntou Wurren preocupado.


– Eu acabei de ver um espírito. Realmente algo de muito pérfido e ruim aconteceu por aqui – Bartolomeu respondeu.


– Vamos embora então! Não viemos caçar fantasmas! Viemos pegar uns homens-lagartos! Quinhentas moedas de ouro não valem isso! – disse Bruenor, muito preocupado.


Entretanto, ninguém lhe deu ouvidos, e ignorando os sinais de perigo, os avisos ameaçadores das forças extremas que governam o local, os aventureiros resolveram se embrenhar ainda mais na profana Stonebridge.


Bruenor tremeu. Inspirou. Cerrou o punho em torno do cabo do machado e pensou consigo mesmo que aquilo só poderia ser um pesadelo.


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