Os Herdeiros de Ânn - 4º Ato - 1ª Parte

Wurren observa enquanto os guardas conduzem o cavalo para o centro da cidade.


– Do que você está falando, Wurren? – perguntou Duncan, com curiosidade justificada.


– Eu posso conversar com aquele cavalo, e descobrir o que exatamente aconteceu – respondeu Wurren sem dar maiores detalhes.


– Ah! Essa eu quero ver! – Bruenor falou com tom irônico, cheio de deboche.


– Esse truque não vai chamar muito a atenção dos guardas? – indagou Bartolomeu – Você não precisa dizer algumas palavras em voz alta e fazer alguns gestos?


– Ahmmmm… – Wurren parecia distraído – é. Sim e não. Eu tenho que fazer alguns movimentos e dizer algumas palavras. Mas não precisa ser aos berros.


– Neste caso deixe comigo. Duncan, me acompanhe. Wurren, você vem depois. Vou distrair aquele guardas e você faz a sua parte – disse Bartolomeu, decidido a não empacar numa longa discussão sem efeito prático algum.


Duncan acompanhou Bartolomeu quando ele driblava as pessoas que aos poucos iam saindo às ruas de Orlane para começar o dia nesta manhã agradável. Os dois avançaram um pouco mais do que o necessário, para dar a impressão aos guardas de que vinham de outra direção e não do local onde o incidente aconteceu minutos atrás.


– Eu falei com um dos guardas quando o cavalo entrou na cidade arrastando o cadáver daquele homem – ponderou Duncan em voz baixa quando ambos já caminhavam fitando os olhos dos guardas que vinham ao seu encontro.


– Esquece isso. Tinha gente demais lá. Vai dar tudo certo – Bartolomeu tem um senso prático muito grande. Não gosta de perder tempo discutindo o “se” das coisas. As possibilidades são muitas, tudo pode acontecer, e qualquer tentativa de adivinhar é inutilidade.


– Bom dia meus bons guardas! Que dia belo e agradável o de hoje, não é? – Bartolomeu diz com empolgação para os dois guardas que puxavam o cavalo, enquanto dá um largo sorriso e estende os braços abertos de forma efusiva.


– Bom dia… – um dos guardas responde, sem demonstrar qualquer interesse de parar para dar atenção ao maluco.


– Eu não sou dessa cidade – Bartolomeu dá uns passos para o lado, a fim de acompanhara o vagar da caminhada dos seus interlocutores – e estou sabendo que há um fabuloso torneio acontecendo aqui! Um grande torneio! Com muitos combates e heróis! Queria saber mais sobre esse torneio e sobre a bela Orlane! Os senhores não poderiam me ajudar? – Bartolomeu não para. Sua fala é eloquente, incisiva e determinada. Ele não dá muito espaço entre uma palavra e outra. O raciocínio rápido permite que ele emende um improviso atrás do outro.


Sem conseguir refrear o falatório, os guardas finalmente interrompem sua lenta caminhada. Um deles, que está com as rédeas na mão esquerda, parece enfadado. Já o outro que o acompanhava demonstra uma reação menos indiferente.


– Sim. Há um torneio acontecendo aqui como você disse… – antes que ele pudesse concluir sua fala, Bartolomeu interrompe:


– Sim, sim. Um grande torneio, eu sei. Deixe eu apresentar a vocês meu amigo Duncan!


– D-duncan? – engasgou um dos guardas – Duncan, aquele que venceu o grande Tishki?


– Isso mesmo! Duncan, o grande herói de Orlane, que esmagou o gigante Tishki. Você viu a luta? – Bartolomeu responde.


– Se vi? Claro que vi. Vê isso Feman? – o guarda se vira empolgado para falar com o colega que segura as rédeas o cavalo – Esse é o Duncan, de quem te falei! Nossa! Por Kord! Seu braço não caiu?


– Não, não. Como vê ele está inteiro – respondeu Duncan, lançando um olhar altivo para os guardas a fim de emprestar verossimilhança ao teatro arquitetado por Bartolomeu.


Aliás, Bartolomeu já demonstrava ansiedade, pois olhava sobre os ombros dos guardas para acompanhar os passos de Wurren, mas o meio-orc estava hesitante. Ele caminhou lentamente até o cavalo e, mesmo vendo que os guardas estavam distraídos, parou e voltou alguns metros até o encontro de Bruenor, que estava parado para observar o desenrolar dos acontecimentos.


– Mas então! É uma pena que não exista torneio para arqueiros não é? Só para as escaramuças de espadas e porretes! – disse, apressadamente Bartolomeu, enquanto lançava olhar de irritação para Wurren, indicando ao meio-orc a urgência da situação.


– Ah! Isso é a mais pura verdade – respondeu um dos guardas – Seu nome, qual é mesmo? Bartolomeu? Sim, então, meu filho é um grande arqueiro e eu adoraria se houvesse uma competição para arqueiros e besteiros! Mas infelizmente isso não é verdade!


Bartolomeu e Duncan respiraram aliviados, pois pelo menos um dos guardas mordeu a isca e começou a tagarelar desatentamente – muito embora seu colega de serviço demonstrasse com sua expressão corporal estar preocupado em levar logo o cavalo dali.


– O torneio se destina a encontrar combatentes e guerreiros que possam ajudar o Barão e os lordes desta terra contra as ameaças comuns que perturbam o interior do Ermo. Nossos melhores homens estão estacionados em Hochoch ou no interior das terras de Geoff, de modo que recrutar mercenários foi o que restou – emendou, empolgado, o guarda tagarela.


– É uma lástima isso! – disse Bartolomeu, sem deixar tempo para o silêncio denunciasse a interrupção da com versa – Os nobres valorizam demais esses mercenários, sujeitos gordos e maltrapilhos que muitas vezes nem sabem lutar. Eles não têm o preparo que homens da guarda como vocês têm.


– A mais pura verdade! Ouviu isso Feman? A mais pura verdade. Olhe, é raro encontrar alguém que reconheça o valor de guardas como nós. Sem dúvida, somos muito mais valiosos para a garantia da ordem e da vontade de Sua Graça do que esses baderneiros indisciplinados … – o guarda se mostrava animado com a conversa.


– Sim! De fato! São vocês que impedem que o caos e a anarquia tomem conta de uma cidade como Orlane! Bem poderiam ser mais valorizados como os verdadeiros heróis que são! – Bartolomeu não se cansava da ladainha.


Duncan, a esta altura, se preocupava somente em saber como iria lidar com os sacos flácidos dos guardas uma vez que Bartolomeu não conseguisse mais puxá-los.


Wurren se apressou, vendo os esforços hercúleos de Bartolomeu para distrair os guardas. O meio-orc se aproximou do cavalo e tocou sua retaguarda:


– Não se assuste amigo, só quero conversar.


O cavalo olhou para trás. Mas o guarda que estava com as rédeas em mãos puxou a cara dele de volta. Wurren caminhou ao lado do equino deslizando sua mão nos pelos do animal, até chegar bem próximo da cabeça dele.


– O que aconteceu com você e com o homem que te cavalgava?


– Fui atacado de surpresa. Me assustei e fui – respondeu o cavalo, relinchando.


– O que te atacou? – perguntou Wurren.


– Lagartos e homens maus me cercaram com fogo – respondeu o equino.


– Eram muitos?


O cavalo respondeu batendo com o casco da pata dianteira direita uma vez no chão.


Wurren ficou com uma expressão de perplexidade. Bartolomeu percebeu isso, e automaticamente entendeu que não adiantaria enrolar os guardas por mais tempo, pois o meio-orc não iria além em seu trabalho.


****


Adan estava na estalagem. Com medo da presença da muitos guardas no bairro, preferiu não se juntar os colegas e retornar para o Rancho Quebrado e evitar ser visto. Em certo momento, resolveu caminhar entre as mesas e fitar seus ocupantes. Adan puxou uma conversa aqui e outra ali, sempre tentando descobrir se alguém tinha pistas de quem seria Leandonn, mas ninguém sabia dizer, e isso o frustrou.


Pouco tempo depois de sentar-se à sua própria mesa novamente, Adan viu os colegas retornaram de sua empreitada pelas ruas da cidade.


Eles discutiam ardorosamente sobre o que fazer agora que Wurren confirmou que, de fato, há uma ameaça perturbando a paz nos campos e, pior do que isso, ela não se limita a selvagens homens-lagarto.


Assim que entram na taverna, Duncan vai até o balcão e chama Fildurn. O homem estava cruzado um corredor por trás do balcão, distraído. Quando percebeu o chamado de Duncan retornou.


– Preciso que avise ao lorde Leandonn que aceito sua proposta – disse Duncan.


Fildurn cerrou o olhar e encrespou as sobrancelhas, denotando preocupação com a decisão de Duncan. O espadachim, por sua vez, percebeu a expressão reflexa do estalajadeiro e perguntou:


– Há algo que queira me dizer, sobre Leandonn especialmente?


– Não, de modo algum. Está tudo bem – Fildurn respondeu de forma evasiva.


– Ótimo. Peço que faça chegar até ele meu recado, como ele disse que você faria – respondeu Duncan, ainda desconfiado de que havia algo de anormal na reação do estalajadeiro.


Logo todos se reuniram numa das mesas da estalagem e conversaram longamente sobre a missão que estava diante deles. Wurren preocupava-se ainda com os malfeitores de Dagora, mas sabia que diante de si estava uma tarefa mais urgente e importante. Recordou-se, ainda, de que devia ajudar o pobre cavalo cujas patas estavam quebradas.


O meio-orc ficou um bom tempo fitando Fildurn para ver se ele o procuraria, mas o estalajadeiro parecia distraído e preocupado naquela manhã, até que Wurren tomou a iniciativa:


– Senhor Fildurn. Pode me levar até o seu cavalo? Sinto que agora posso ajuda-lo a se recuperar de seus ferimentos.


– Sim, é claro. Pelos céus, como estou atarefado e quase esqueci completamente disso! Venha comigo por favor! – Fildurn conduziu Wurren até os fundos da estalagem e até o pequeno estábulo onde um de seus cavalos está deitado de lado com o olhar triste.


Wurren se agacha do lado dele e faz um carinho, entoando um cântico antigo e impondo-lhe as mãos. Ele conjura um feitiço e canaliza energia positiva para o animal, que logo se põe de pé, completamente curado.


O estalajadeiro não chega a ficar espantado com o milagre em si, mas sim com a generosidade do meio-orc.


– Escute. Este cavalo é inútil para mim agora. Não preciso de um bicho xucro que não sabe puxar carroças e que, quando muito serve de montaria. Por que não fica com ele?


– Eu não posso aceitar – respondeu Wurren.


– Sei. Já notei que você é um homem generoso e muito justo e por isso acha que é recompensa demais. Vou mudar a proposta então, para que não sinta estar abusando da minha hospitalidade – disse Fildurn para logo em seguida perguntar:


– Não quer comprar o cavalo por um bom preço? Como disse, não tenho uso para ele.


– Eu não tenho dinheiro para isso, caro Fildurn. Mas conversarei com meus amigos e verei se alguém se interessa na generosa proposta – respondeu Wurren, despedindo-se do estalajadeiro.


E, assim, cada um resolveu tirar o resto da manhã para andar pela cidade cuidando de pequenos afazeres. Bartolomeu foi caminhar pela feira e comprou uma camisa de algodão nova enquanto entrevistava vendedores de peles de animais e descobria existir um famoso curtidor da cidade. Wurren tentou pela última vez encontrar alguma pista que o levasse até os caçadores, mas não conseguiu nada. Duncan e Bruenor foram até o castelo saber das notícias do torneio.


Já Adan, tendo despistado a todos, vasculhou os becos da cidade até encontrar um mensageiro disposto a levar uma carta para sua família em Niole Dra:


Cheguei a Orlaine finalmente, durante os trabalhos me deparei com uma figura estanha mascarada que parecia conhecer muito bem nossa família, me fiz de desentendido, acredito que seja Katerina o nome da mulher, em nossa conversa acabei por obrigado a aceitar uma missão em uma vila próxima chamada Stonebridge . Estou com um grupo indo para lá. Quero descobrir mais dos interesses do Lorde de Orlane e seu associado Gorlin, há algo estranho nessas terras.


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(CONTINUA NA 2ª PARTE)

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