Os Herdeiros de Ânn - 3º Ato

A porta se fecha atrás de Adan, revelando um longo hall com aproximadamente 50 metros de comprimento por 4,5 de largura. De cada lado, a 1 metro de distância das paredes, uma fileira de colunas de granito dá sustentação aos belíssimos arcos de pedra trabalhada e adornada com esculturas de tema angelical. Ainda, do lado direito, bem no alto, janelas estreitas como seteiras vazam a luz do sol que brilha na tarde ensolarada de Orlane.


Adan caminha alguns passos à frente, observando ainda que em intervalos regulares de 10 metros as paredes do hall cedem espaço para alcovas onde estátuas de homens desconhecidos parecem descrever a história do Ermo e de seus grandes líderes. Intoxicado pela grandeza do local, Adan quase não percebe, mas o corredor se encerra à sua frente em uma porta dupla de madeira, reforçada com barras de ferro rebitadas.




Uma estranha palpitação no peito indica a Adan que a sala por trás das portas pode conter o tesouro que procura. Um frio sobre por sua espinha no momento em que ele conduz o rosto até encostar a orelha esquerda numa das portas e, com gentileza, girar a maçaneta com a outra mão, apenas para ouvir o som característico indicando que, de fato, a porta está trancada.


No entanto, Adan tem consigo um estojo com grampos, alicate, uma pequena serra e outros componentes que, reunidos formam aquilo que nas ruas costuma-se chamar de ferramentas de ladrão. Adan dá uma olhada para o fundo do corredor por onde veio, recordando-se que a misteriosa criatura enfaixada ficou para trás, mas fez uma espécie de ameaça velada.


– Onde diabos estão os guardas deste castelo? – Adan perguntou-se, incrédulo, enquanto abria seu estojo de couro marrom no chão e, agachado, retira dele dois grampos os quais prontamente enfia com a ponta dos dedos pelo buraco da fechadura.


Um estalo metálico indica que a tranca foi desfeita. Adan gira a maçaneta novamente, e desta vez a porta se abre, lentamente. Ele refreia o movimento e controla a ansiedade, e antes olha pela pequena fresta para ver se encontra alguma ameaça ali dentro da sala. Não encontrando nada, continua o movimento de abertura da porta e subitamente o interrompe, arregalando os olhos e mirando o chão, próximo do qual percebe que há um discreto cabo esticado à altura de um palmo.


A porta já havia tocado e flexionado um pouco o cabo, mas não o suficiente para disparar qualquer armadilha. Adan retorna um pouco a porta e, olhando ao redor, percebe que há uma lajota solta na parede direita, próxima da porta. Ele vai até ela e, com delicadeza, a remove revelando um mecanismo com polias e, voilá, um cabo.


Adan reflete por alguns instantes, analisando o mecanismo, e decide que pode cortar o cabo. Novamente, abre seu estojo de ferramentas e, pegando o alicate, resolve a situação.


Clic! O cabo se parte e se desenrola rapidamente das polias, chicoteando pela tubulação metálica que lhe serve de guia por dentro da parede. Um estalo é ouvido e o coração de Adan para por breves instantes, suas pupilas se dilatam e o corpo enrijece!


Sobrevém o silêncio.


Nada acontece.


E Adan relaxa os músculos. Sua tentativa de desarmar a astuciosa armadilha funcionou perfeitamente, e ele avança para a próxima sala. Trata-se, na verdade, de um salão retangular com pouco mais de 10 metros de largura e 4 de comprimento. Assim que transpõe a porta, bem no centro do salão, Adan vê que há uma mesa grande de madeira, mas nenhuma cadeira ou banco ao seu redor. Sobre a mesa uma enorme peça de couro está esticada, presa numa das pontas por uma adaga adornada e nas outras por pesos de papel que mais parecem gemas preciosas. No couro, podem-se ver desenhos embaçados e linhas sinuosas, além de escritas em linguagem keolandish tradicional.


Na parede leste da sala, à direita de Adan, há uma escada de madeira que sobe e desagua num patamar que, então, dá acesso a dois lances distintos de escadas, ambos os quais também sobem e parecem se encontrar no andar superior, fora da linha de visão de Adan.


Caminhando até a mesa, Adan observa as linhas tortas e a estranha escrita e identifica que aquilo é na verdade um grande mapa da região de Geoff, Sterich e do Grande Ermo. Ele, então, remove a adaga e percebe que se trata de um instrumento nobre – tamanha a sua beleza. Depois, recolhe as gemas e, liberando o mapa, o enrola olhando ao redor para ver se encontra algum tecido no qual acondicionar o documento.





Adan então percebe que a parede leste, na altura em que o patamar a encontra, ostenta um enorme tapete em que se vê o desenho de um grifo rampante. O fundo do tapete é branco e o grifo é todo preto. A imagem não é de particular importância para Adan, muito embora ele saiba que é, sem dúvidas, o brasão de alguma família nobre.


– Hum. Não. Um tapete é pesado demais e nada discreto – Adan pensou consigo mesmo, refutando a ideia de usar aquilo como proteção para o mapa.


– Hahahahaha, você viu como aquele rapaz segurou o golpe de Tishki! Pensei que seu braço fosse cair! – Adan ouve tais palavras vindo por trás da porta, do mesmo corredor de onde viera há pouco.


– De fato, foi um golpe violentíssimo, mas ele se saiu muito bem! – quem quer que esteja vindo, não está obviamente sozinho.


Correndo o risco de ser pego, a única alternativa que resta a Adan é subir os primeiros degraus e alcançar o patamar, Adan percebe que o último lance de escadas o levará até um mezanino, no qual tudo o que há é uma outra porta dupla de madeira bem no centro da parede norte e, na parede leste (à direita de Adan), uma porta simples também de madeira – esta reforçada com travessas horizontais de ferro e rebites.


O ladino abre novamente seu estojo de ferramentas, e tenta arrombar a porta simples, mas um de seus grampos de parte na tentativa e, com medo de que os homens pudessem subir as escadas e lhe pegar com a boca na botija, Adan recua e tenta a porta dupla.


Esta é toda entalhada e, apesar de aparentar robustez e peso, possui um certo ar de graça devido ao notório talento artístico daquele que a esculpiu. Ela está destrancada! E Adan a abre revelando que dá acesso aos aposentos “reais”, dotados de uma ampla cama de casal com dossel, um armário de madeira grande de duas portas e uma penteadeira repleta de escovas e frascos de perfume, além de um enorme espelho.


Adan está nervoso, e com a respiração arfante pensa numa forma de sair dali!


– As janelas! – Adan nota que há duas janelas na parede da cabeceira da cama. Ele caminha até elas observando os belos vitrais. São largas, porém, são pivotantes, de modo que mesmo se abrindo limitam a passagem.


Adan não hesita, vira-se e toma lençóis e colcha da cama e começa a preparar uma corda para descer.


– Como o plano está avançando? – perguntou um dos homens, com uma voz rouca, denunciando que provavelmente se trata de uma pessoa velha. Adan conseguia ouvir suas conversas do quarto onde estava.


– Não se preocupe meu lorde. Katherina já começou a providenciar tudo – respondeu o segundo homem.


– Estou com receio, e espero não confirmar meus medos. Estou confiando a ela os cuidados de minha terra. De mim ela espera paga, a qual está reservada. Dela, espero tudo: lealdade e êxito – o primeiro disse em resposta.


– Katherina é misteriosa, meu lorde. Mas não parece nem de longe incompetente. Ela tem uma certa frieza, ou seria sobriedade – o homem indagava a si mesmo -, mantém-se distante, e às vezes isso parece ameaçador. Ainda não decifrei todos os seus códigos, mas estou certo de que esses são sinais exteriores de sua grande sabedoria e, inequivocamente, de sua vontade de trazer paz e justiça a esta terra.


– O pus à disposição dela para que me mantenha informado, não para bajula-la – disse rispidamente o velho –, do contrário porei outro em teu lugar e de deixarei mofando na sacristia de onde nunca deveria ter saído!


– Meu lorde! Te sou fiel até sob a opressão de Hextor ou diante da foice de Nerull. Por favor, rogo-te que não duvides de minha lealdade. Se to lho digo que Katherina está providenciando tudo é porque já observou seus homens e mediante o vosso patrocínio e sob sua bandeira clamará novamente as terras perdidas – contemporizou.


– Agradeço por tua lealdade meu caro Gorlin. Eu não posso mais me dar ao luxo de perder terras, do contrário o Duque irá me querer fora daqui. Precisamos demonstrar força, pujança! Mas como numa terra arrasada como essa? Não viste o torneiro? É lastimável observar os homens que nos sobraram após somente quatro anos deste desastre! São todos uns garotos, imberbes, impacientes e destreinados. Onde estão os varões de Geoff?! Será que nossas mulheres já não os parem mais?


– Tenha paciência milorde. E, por favor, não se exalte. A estou acompanhando – ponderou Gorlin – e Vossa Graça observou com seus próprios olhos que o torneio não foi de todo em vão até agora. Há guerreiros valiosos. Ela os está vendo.


– Meu caro Gorlin… – Sua Graça, como fora reverenciado há pouco, suspirou, claramente entristecido – que seria de mim se teus conselhos?


– Milorde, não me agradeça por fazer aquilo para que sou pago – disse Gorlin, antes de ser interrompido pelo ingresso na sala de uma terceira pessoa.


– Vossa Graça, o mestre Brogan deve estar chegando a qualquer momento. Melhor que preparemos a mesa e as cartas – disse aquele que acabara de irromper pela porta, alertando Sua Graça e Gorlin sobre seus afazeres, fossem eles quais fossem.


A esta altura, Adan, que já havia reduzido a velocidade de seus movimentos como um ato reflexo para prestar maior atenção ao diálogo, já estava com o peito encostado na janela, prendendo a corda na estrutura de ferro da janela.


Percebendo que os homens estavam deixando a sala logo abaixo, Adan viu a oportunidade praticar alguns pequenos delitos.


Vasculhando o quarto, Adan encontra um cofre escondido atrás do espelho da penteadeira. O cofre possui uma tranca de chave e um pequeno disco metálico que pode ser girado para um lado e para outro. Adan usa novamente o estojo e consegue destrancar o cofre, não sem antes descobrir seu segredo.


Ao abri-lo o ladrão não se decepciona, pois encontra dois colares de ouro e prata, um deles adornado com safiras e diamantes e outro com rubis e citrino, ambos muitíssimo bem feitos pelas mãos de algum habilidoso ouvires.


Adan também encontra um broche de ouro com o desenho de uma águia, cujos olhos são de diamantes (pedras pequenininhas), um sinete de prata, 3 pares de brincos de prata com diversas pequenas pedras preciosas e 2 pares de ouro semelhantemente adornados, uma tiara de ouro branco adornada com um grande rubi e quatro pedras de turmalina rosa. Além disso, enfiado numa espécie de nicho dentro do cofre, há um tipo de pasta de couro, com papéis identificados como “Mesa de Câmbio” e uma porção de anotações onde se descreve aquilo que parece ser uma quantidade obscena de ouro.


Adan sorri sozinho, enquanto guarda tudo nos bolsos. Ele fecha o cofre, vai até a janela, joga a corda improvisada para baixo e desce até uma escadaria que dá para o pátio.


****


Um belo café da manhã é servido a Wurren quando ele se levanta, pouco antes do dia começar a clarear.


Fildurn já está de pé, assando broas de milho e esquentando leite para servir aos filhos e aos hóspedes.


A taverna está sob a penumbra de lampiões velhos, que queimaram durante boa parte da noite o rançoso óleo de baleia – tão caro ao povo do Ermo.


Assim que Wurren se senta, Fildurn o serve com olhar ainda agradecido pela tarde anterior. Já o olhar do meio-orc está perdido em pensamentos, imaginando se poderá encontrar os malfeitores que machucaram Dragora.


Seus pensamentos são interrompidos quando Bruenor desce as escadas correndo procurando a “casinha”. Wurren dá um sorriso e se diverte com a cena, lembrando da colossal quantidade de comida e bebida consumidos pelo anão na noite anterior.


Bartolomeu ainda está deitado na cama, com os olhos fechados. Mas está acordado. Seus pensamentos viajam por muitos lugares. Bosques, sinuosos leitos rochosos de rios de água cristalina de degelo das montanhas crystalmist, e então as guerrilhas, os povoados em chamas, os árduos combates com os invasores e, finalmente, o tempo de cativeiro. A loucura e a angústia daquele tempo invadem seus pensamentos e seu coração, fazendo doer velhas feridas que nunca cicatrizam.


Porém, uma estranha força parece sustentar Bartolomeu pelas mãos. Ele recusa se entregar ao desespero e à tristeza. Algo maior o move, e a cada esforço para vencer os pensamentos ruins, Bartolomeu se sente mais recompensado, de alguma forma estranha e intangível. Sua pela se arrepia, parece haver borboletas no seu estômago. E ele decide que é hora de se levantar. Já faz uma hora que está rolando na cama.


Quando desce, encontra os colegas de noite anterior, todos reunidos em uma mesa com um sujeito ruivo desconhecido: todos comendo broas de milho com queijo branco, além de estarem tomando leite – exceto por Bruenor, que resolveu que não havia problemas em tomar mais uma caneca de cerveja só para provar que ele e os anões são mesmo durões.


Assim que chegou, Bartolomeu foi apresentado à Adan, que por sorte se hospedou na estalagem ontem à noite, quando o chegou bem tarde.


Enquanto conversavam, o sol nascia e, aos primeiros raios, as ruas nas imediações foram tomadas de súbito por uma agitação estranha. Gritos de homens da guarda e reações estarrecidas de transeuntes chamaram a atenção de todos na estalagem do Rancho Quebrado.


Fildurn abre as portas e observa rua que leva até a avenida principal de Orlane. Duncan e os demais saem para ver o que se passa, caminhando até a esquina da rua da estalagem com a avenida principal. Uma vez lá, ficam perplexos ao verem que um cavalo estava cruzando as ruas da cidade puxando o corpo de um homem que está amarrado ao arreio da sela pelo pé esquerdo.


O cavalo parou no meio da rua e pode-se ver que o homem estava, de fato, morto e seu corpo muito escoriado.


Wurren deu alguns passos à frente e se aproximou, notando que o cadáver não tinha marcas ou sinais evidentes de um combate com uma fera comum, mas sim com algum tipo de criatura selvagem dotada de garras longas e muito afiadas.


– Mas que diabos! Afastem-se todos! Como esse cavalo foi entrar pelos portões da cidade e ninguém o viu! – todos notaram quando três guardas se aproximavam do local, tendo o mais distinto deles pronunciado tais palavras em alto e bom som.


– Meu senhor, os portões haviam sido abertos há pouco. Não vimos o cavalo entrar! – replicou um dos guardas presentes ao local.


– Vamos se afastem. Não há nada para ver aqui. Já não perceberam que o homem está morto? – disse outro guarda, tomando ação com a chegada daquele que sabe ser o chefe da guarda.


A multidão é dispersada, Wurren e os demais decidem retornar para a estalagem, mas antes Duncan observa que os guardas improvisam uma maca para carregar o corpo do homem que acabaram de soltar do arreio, enquanto conduzem o cavalo para o centro da cidade e, provavelmente, para o castelo.


– Será que aquele pobre homem foi atacado pelo povo lagarto? – perguntou Bruenor.


– Eu logo descobrirei – sussurrou Wurren, mirando o cavalo que era guiado para o castelo – eu logo descobrirei.

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