Os Herdeiros de Ânn - 2º Ato - 1ª Parte

O sol se ergue lentamente no leste mais uma vez. Esta é uma manhã fria para este início de verão. Adan, Bruenor, Duncan e Wurren caminham a passos preguiçosos pela estrada de basalto que segue em frente até Orlane.


O bordo direito da estrada é ricamente pontilhado por árvores altas e frondosas: castanheiras, carvalhos e muitas faias – todas altas e grandes como poucas vezes se veem. Sem dúvidas, a Floresta Escura é muito antiga e sua beleza é venerável.


Já o lado no esquerdo da estrada o bosque vai esmaecendo, tornando-se mais ralo a cada nova passada dos viajantes. Eventualmente, a zona de amortecimento da floresta desvanece completamente e a estrada começa a margear uma planície vasta.

Naturalmente, os quatro não são os únicos com os pés na estrada hoje. Muitas pessoas também estão rumando para Orlane, notadamente homens de armas e aventureiros de toda sorte. Duncan, o mais observador dos quatro, notou que muitos daqueles que estavam na estalagem na noite passada puseram-se a caminhar para a vila vizinha, confirmando as suposições que fez assim que chegou no Urso. Alguns caminhavam em grandes caravanas, outros em pequenos grupos. Isso, na verdade, não importa muito.


Após algumas horas de viagem, o sol já começa a queimar nas costas. A barba espessa de Bruenor transpira e coça, mas o anão não demonstra qualquer sinal de cansaço, exceto, talvez, pelo tédio da caminhada. Adan começa a sentir fome e se vale de um pouco de suas provisões de viagem para aguentar chegar em Orlane, onde pretende degustar um javali inteiro – tamanho é o buraco no seu estômago. Já Wurren, bem, ele está mais do que acostumado a andar: isto é quase um ofício. De modo que, mesmo após horas sob o sol, o meio-orc não aparenta sentir qualquer necessidade de parar.


Durante toda a viagem, Dagora acompanhou Wurren de longe, sempre se mantendo afastada da estrada para não ser facilmente avistada por viajantes estranhos. Às vezes parecia se perder do grupo, momentos dos quais o coração de Wurren – estranhamente – se acelerava, mas logo estava lá a onça parda deitada atrás de uma moita esperando pela aproximação dele.


E assim foi a lenta e tranquila caminhada até que Duncan avistou, primeiro do que todos, as muralhas da vila de Orlane. Trata-se de uma vila pequena, realmente. Suas muralhas parecem ter sido erguidas para prevenir o ataque de invasores selvagens, não humanos, ou, no máximo, infantaria e lanceiros. Os muros são baixos e irregulares, sua base é substancialmente mais larga do que seu topo, dando a eles uma geometria trapezoidal. Uma vala seca, com no máximo três metros de profundidade contorna os muros, e até onde se pode ver não há nenhuma torre ou outro tipo de fortificação intercalando as centenas de metros do perímetro das muralhas – exceto, é claro, pelo portão de entrada, para onde a estrada de basalto leva agora os aventureiros.


Mesmo antes de alcançar o portão, pode-se ver que guardas da cidade estão parando os viajantes bem sobre a ponte de pedra que cruza a vala e dá acesso ao pórtico. Ali, eles parecem estar vasculhando pertences dos viajantes, e muito provavelmente cobrando alguma espécie de pedágio, como é comum na região.


Conforme se aproximam, Duncan, Adan e Bruenor começam a se preparar para lidar com os guardas, ao passo que Wurren se preocupa com Dagora – a cidade certamente não é um local adequado para uma criatura como ela.


– Senhores, vão andando e eu os acompanho depois. Tenho que resolver algo com minha amiga aqui – diz Wurren, claramente se referindo à Dagora.


Os seus companheiros de viagem não deram lá muita importância ao comentário, exceto talvez por Duncan, que assentiu com a cabeça.


Enquanto o restante caminhava em direção à ponte de pedra, Wurren se afastou da estrada e caminhou através dos campos para falar com Dagora. Enquanto caminhava, com os braços esticados tocava a ponta dos dedos na relva macia e sentia a brisa leve do baixo verão soprar em seu rosto. Seu coração se encheu de alegria pela majestade da natureza e Wurren então entoou um cântico baixo, olhando fixamente para o rosto de sua amiga.


– Você sabe que apesar de tudo o que eu fiz, você não tem obrigação nenhuma de continuar me seguindo – Wurren estava agora sob efeito de um feitiço, conjurado enquanto cantava, o qual permitia ao meio-orc conversar com animais.


Dagora se sentou e ficou olhando para o meio-orc com evidente curiosidade.


– Eu vou para onde quiser.


– Ótimo. Queria apenas me certificar disso. E você sabe quem eram as pessoas que estavam te caçando? Pode me dizer como eram essas pessoas? – perguntou Wurren.


– Animais grandes, que andam sobre duas patas. Têm pouco pelo e se cobrem com animais mortos – respondeu Dagora com seu vocabulário limitado.


– Hum. Entendi. E como eles te feriram?


– Com presas e espinhos!


Wurren já havia compreendido tudo. Dagora foi caçada por homens, provavelmente. E eles estavam usando flechas ou virotes para abatê-la.


– Bom, minha amiga. A cidade não é um local adequado para você. As pessoas lá teriam muito medo de um animal como você. Pode esperar do lado de fora da cidade?


– Sim. Ficarei de esperando – disse Dagora, se levantando, virando as costas para Wurren e se distanciando.


Wurren, que estava agachado, levantou-se e pôs-se a andar até a ponte de pedra.


****


Adan, Bruenor e Duncan continuaram sua caminhada até a ponte. Quando se aproximaram, um guarda que estava na ponte deu alguns passos na direção deles e disse:


– Alto lá viajantes! Lamento interromper sua caminhada! Orlane está disposta a receber viajantes de braços abertos. Porém, tenho que lhes informar que há uma taxa equivalente à 3 moedas de cobre para entrar na cidade. Isto, é claro, se não pretendem comercializar produtos em nossa humilde vila, caso em que o imposto será de 6 moedas de cobre, mas vejo que vocês não trazem consigo nenhuma carroça, logo, presumo que sejam apenas viajantes.


– Sim. Apenas isso. Não somos comerciantes – disse Duncan.


– Ótimo. Nesse caso, peço que se dirijam até o meu colega ali e façam seu registro com ele – o guarda girou o quadril para apontar para um outro guarda que estava sentado em uma pequena mesa de madeira do outro lado da ponte de pedra, já bem próximo do portão.


Os aventureiros obedeceram e foram até o segundo guarda. Ao chegarem, ele nem ergueu a cabeça para lhes olhar. Permaneceu com o rosto apontado para baixo, mirando um enorme livro de registro onde anotava os nomes de cada pessoa que passava pelos portões.


– Nome, por favor! – disse o guarda.


Os aventureiros responderam, um a um.


– São 3 moedas de cobre por pessoa, como meu amigo mais adiante já deve ter lhes adiantado – disse o guarda ainda de cabeça baixa, tomando uma pena na mão direita e escrevendo os nomes deles, com grande dificuldades, no grande livro de registro.


– Sim, já estamos avisados. Aqui está a minha parte – diz Duncan.


– E a minha – diz Adan.


– Humpf, e a minha também – diz Bruenor, aborrecido.


O guarda recolhe as moedas e pela primeira vez desgruda os olhos do livro de registro, fitando os aventureiros.


– Algum de vocês é um sacerdote? Sacerdotes pagam menos taxas em Orlane. Se for um sacerdote de Merikka não paga. Então, algum de vocês se declara sacerdote?


Ninguém ousaria mentir, e não havia propósito para isso também. Afinal, a cobrança de pedágios era uma prática comum nas cidades da região, largamente desabastecidas graças à guerra dos últimos quatro anos. Logo, todos pagaram as 3 moedas de cobre e tiveram acesso à vila, não se antes ouvirem um último aviso do guarda:


– Tomem cuidado e prestem atenção: em Orlane não toleramos baderneiros. Nossas leis são duras contra quem faz confusão!


– Obrigado pelo aviso – disse Duncan. Depois, se dirigindo aos colegas de viagem disse:


– Vão andando, não se atrasem por mim, pois vou esperar pelo Wurren. Ele já está vindo.


– Não fazemos caso de esperar contigo. Mas vamos andando e te encontramos mais à frente – disse Bruneor.


****


Wurren apressou os passos para alcançar os colegas. Ao chegar até a ponte de pedra viu que Duncan o estava esperando.


O meio-orc submeteu-se ao escrutínio dos guardas da mesma forma que os demais o haviam feito minutos antes e depois seguiu com Duncan pelas ruas da vila de Orlane, que se ergueu diante de seus olhos tão logo transpuseram o pórtico de pedra da entrada.


Um grande fluxo de pessoas caminhava pelas ruas da vila, a qual é formada de construções predominantemente baixas, exceto pelo grande castelo que se ergue bem no seu centro, em torno do qual as ruas se alargam formando uma grande praça – hoje tomada por feirantes e transeuntes.


Os aventureiros rumaram para lá, com olhos bem atentos para tudo o que acontecia ao seu redor. Assim que chegaram na praça, notaram que a feira e tudo o mais que acontecia naquela tarde ensolarada parecia gravitar em torno dos eventos que passavam no interior do castelo.


Duncan nota que os portões levadiços da fortaleza estão abertos e revelam um pátio cercado por uma cerca de madeira toda enfeitada com fitas e panos nas cores amarelo e azul, em torno da qual dezenas de pessoas já se amontoam.


– Bruenor, é ali que deve acontecer o torneio, bem no pátio da fortaleza – disse Duncan.


– Bom, vamos pra lá então – disse o anão com pressa.


Assim que chegam ao local, os aventureiros se misturam ao povo e fica um pouco difícil conseguir entender exatamente o que fazer para participar da festividade. Por sorte, porém, um arauto entra na arena improvisada e, em alto e bom som, avisa:


– Lorde Gorlin manda avisar que o torneio já vai começar! Aqueles que ainda se interessarem em participar devem se dirigir ao átrio das guarnições.


– Átrio das guarnições? Mas que diabos? Como esse imbecil espera que saibamos onde ficam as malditas guarnições? Olhem para este lugar! Está repleto de pessoas se acotovelando, e eu não estou conseguindo ver um metro na minha frente! – resmungou Bruenor em alto e bom som.


– Boa sorte com o seu torneio, eu vou procurar uma mesa de apostas – disse Adan, pouco se lixando para as dificuldades transitórias do anão.


Duncan, apesar de ter uma altura acima da média, tinha que fazer algum esforço para olhar direito por cima da multidão. Observando o entorno, percebeu uma fila de homens de armas se formando diante da escada que dava acesso a um prédio de alvenaria anexo a um das torres do castelo.


– Acho que encontrei as guarnições. Tem uma fila de soldados se formando lá. Venha comigo. – disse Duncan olhando para Bruenor.


E lá foram os dois guerreiros: puseram-se na fila e aguardaram pacientemente pela sua vez de se inscrever no torneiro.


****


Adan viu que existia uma escadaria de pedra que subia do pátio onde se encontrava até uma porta de madeira bem robusta que dá acesso ao interior de um dos edifícios principais do castelo.


Ele olha para a direita, e depois para a esquerda, certificando-se de que não há ninguém prestando atenção nele, e então sobe rapidamente as escadas. Ao abrir a porta, revela-se um pequeno hall com não mais do que três metros de cumprimento e dois de largura, ao final do qual há uma outra porta de madeira igual a anterior.


Adan entra no hall, fechando a porta que acabara de abrir. Com calma e movimentos suaves, leva a mão até a maçaneta da porta de madeira à sua frente, girando-a para revelar um corredor extenso.


Tal como observa Adan, o corredor tem três portas em sua extensão esquerda e uma na sua extensão direita. No seu final, o corredor forma um arco de pedra ogival que abre passagem para um salão muito maior.


Adan começa a caminha com passos lentos pelo corredor. Ele encosta seu ouvido esquerdo numa das portas e ouve apenas a conversa entre pelo menos duas pessoas que parecem estar assistindo aos combates do torneio que acaba de começar.


Ao avançar um pouco mais, Adan escuta que alguém parece se aproximada do corredor vindo do salão adiante. O ladino rapidamente abre a porta à sua direita, notando se tratar de um pequeno almoxarifado, com barris, caixotes, e garrafas de vinho empoeiradas. Adan hesita um pouco, e por breves instantes tenta pensar rápido para decidir o que era melhor fazer. Ele toma uma das garrafas de vinho em sua mão, cogita pegar um lençol branco que recobre alguns dos caixotes, mas nota que ele está amarelado e empoeirado demais, então, ele varre o cômodo com os olhos em busca de uma taça ou algo que o valha, mas não encontra nada. Agindo com velocidade, sai do almoxarifado apenas com a garrafas nas mãos, estufa o peito e tentar transmitir o olhar a segurança de quem sabe o que está fazendo.


Finalmente, Adan vê quem está entrando no corredor. É uma mulher. Parece uma empregada do castelo, uma mocinha jovem trajada com um vestido de pano que passa por Adan dando-lhe apenas uma breve olhada e despois desviando o olhar rapidamente – afinal, não é de bom tom ficar encarando os outros. A mocinha abre a porta de madeira que dá para o pátio e Adan respira mais leve.


Ele então avança pelo corredor até o arco ogival. Espreitando, olha para a esquerda primeiro e vê que o grande salão deságua em uma suntuosa sacada onde dois homens assistem ao torneiro. Um deles parece bem excêntrico: veste calças e jaqueta de veludo azul, calça sapatilhas de couro preto e usa meiões brancos quase até os joelhos. Adan olha para a direita e vê que o salão se estende poucos metros até se elevar em um patamar com três degraus, sobre o qual repousa uma enorme poltrona de madeira entalhada e revestida no assento e nos braços com veludo vermelho – como um trono. Ao fundo, na parede que está atrás do trono, Adan vê grandes peças de tapeçaria penduradas desde o altíssimo pé-direito do salão até chão.


Adan ainda não encontrou o que está procurando.


Ele começa a procurar por outras passagens pelo salão, e nota que há duas portas na parede oposta ao arco ogival de onde está observando tudo. Uma delas está bem na sua frente, e basta cruzar o salão em linha reta, cerca de oito metros para alcança-la. A outra, porém, está no patamar elevado à leste, próxima do trono.


Adan não resiste e vai até lá, sorrateiro como um gato – ou será gatuno?


Quando está prestes a alcançar a porta, porém, ele interrompe sua caminhada, pois notou que sobre o assento do trono jaz uma grande taça de prata adornada com muitos filetes de ouro e cravejada de pedras preciosas. Adan hesita. Olha ao seu redor e não vê ninguém. Seus olhos brilham quando observa a taça. Segura a garrafa de vinho com a mão esquerda e com a direita alcança o cobiçado objeto de valor.


Praticamente em transe devido à beleza magnífica do cálice, Adan não percebeu o que estava acontecendo à sua volta. Quando ergueu o corpo, antes inclinado para alcançar o objeto, Adan tomou um susto! Seu coração quase veio na boca, quando seus olhos viram diante de si uma figura tão excêntrica quanto sortuna.


Uma pessoa vestida de cima a baixo com uma espécie estranha de corselete de couro branco. Não. Na verdade não era um corselete. Na verdade mesmo parecia que a pessoa que estava diante de si estava enrolada em tiras compridas de couro branco que revestiam seu corpo desde a ponta dos pés até o topo da cabeça, cobrindo cada centímetro do seu corpo, inclusive a face.


Adan ficou tão branco quando o couro da criatura bizarra, e em seu íntimo gritava com os deuses por não ter sido capaz de perceber que alguém o estava observando. Em momento nenhum, contudo, Adan pensou que pudesse estar lidando com alguém com poderes sobrenaturais, que poderia facilmente ludibriar seus olhos insipientes.


– Vejo que temos um rato no castelo – a figura bizarra disse, evidenciando sua voz feminina.


Imediatamente Adan notou que as faixas de couro que circulam o corpo daquela pessoa comprimiam um par de seios até torna-los quase imperceptíveis. Sem dúvida, trava-se de alguém do gênero feminino.


– Ou será que temos dois ratos no castelo? – retrucou Adan com alguma perspicácia.


– Não meu caro Adan – a mulher deu alguns passos adiante, se aproximando do trono e tocando no encosto dele com a mão esquerda – não temos dois ratos. Temos um só. E é você. Não esperava vê-lo de novo, ou melhor, não esperava encontrar com um Savoyee novamente nem tão cedo.


– Eu te conheço? – Adan estava incrédulo e sua mente entorpecida pelos pensamentos do que poderia ocorrer se fosse aprisionado logo em sua primeira incursão em Orlane.


– Eu conheço sua família. Ah, os Savoyee. Estão em dificuldades financeiras, eu sei bem disto, e sua presença aqui hoje pode ser a providência dos deuses, Adan – a mulher se aproxima um pouco mais, deslizando a mão esquerda pelos contornos sinuosos dos entalhes do encosto do trono e finalmente esticando-a na direção do cálice de prata que Adan segura com a mão direita – eu sei o que você procura aqui, e eu posso te oferecer isso, se realizar uma pequena tarefa para mim.


– Do que você está falando? Minha família não tem dificuldade nenhuma – disse Adan, puto dentro das calças com a falsa afirmativa da mulher, sem levar em consideração, contudo, que ele não é onisciente e que sua família bem poderia estar escondendo algo de si.


Adan é do tipo de pessoa que se julga mais inteligente do que realmente é. Existe, indubitavelmente, uma vontade e um talento escondido sobre a pecha de arrogância e rebeldia que ele transpira. Se ao menos fosse capaz de superar estes terríveis obstáculos de sua personalidade, e talvez admitisse num primeiro plano que a mulher diante de si oferecia uma oportunidade para escapar ileso da enorme transgressão que é invadir o castelo de um nobre em uma cidade de leis tão marciais quanto Orlane.


Adan, porém, não é assim. Ele não cogita estar fora do controle da situação, e nem parece crer que os deuses possam estar jogando a seu favor. Ele prefere acreditar que tudo se alinha contra ele e que é seu imperativo moral defender-se contra as agressões da vida – exala daí sua agressividade passiva.


– Sua família não te contou? – perguntou a mulher, ainda com o braço esticado – Pois pergunte aos seus pais da próxima vez, perscrute seus corações e verá que eles devem uma fortuna a credores e irão à falência. Eu, porém, te ofereço uma chance de reverter esse quadro.


– E que chance seria essa? – Adan tentava manter o controle da situação, apesar de acuado. Controlando o nervosismo, empurrou a rolha da garrafa para dentro com os dedos, e despejou um pouco de vinho na taça, tomando um gole que desceu rasgando sua garganta.


– Estamos negociando agora? – perguntou a mulher, insistentemente com a mão esticada em direção à taça.


– Não estou negociando nada. Quero apenas saber do que se trata – Adan retrucou – E porque quer pegar a taça? Como vai beber com a cara toda enfaixada?


Não se pode ver a expressão da mulher com o rosto todo encoberto, mas, de fato, não havia brechas nas ataduras. Adan estava tão concentrado em sua defesa, tão acuado pelos fatos latentes, que não deu atenção justamente à característica mais bizarra da criatura. Sem brechas para comer, beber, respirar ou mesmo ver, como essa mulher andava por aí? Que tipo de pessoa se veste assim?


– Acho que estamos negociando. Ouça minha proposta: há um vilarejo próximo daqui, ao sul de Orlane, que está enfrentando severos problemas que estão atormentando a vida dos plebeus, atraindo a revolta deles para o meu bom barão Eirig. Minha missão para você consistiria em prestar uma visita ao vilarejo em questão, chamado de stonebridge, e resolver o problema que se passa por lá. Em troca lhe dou o que procura – disse a mulher, desta vez voltando a apoiar a mão esquerda sobre o encontro do trono, tal como antes, diante da recusa de Adan em lhe entregar o cálice.


– Hum. Não sei se esse trabalho me interessa. Tenho mais o que fazer – respondeu Adan, escandalosamente recusando a proposta da mulher, e arriscando-se a ser preso.


– Darei mais detalhes se você se interessar. Te darei um tempo para pensar melhor, meu caro Adan – disse a mulher em tom benevolente, após o que tornou a erguer a mão esquerda em direção ao cálice – Deixe a taça aqui.


– Acho que não. Vou leva-lo comigo – desafiadoramente Adan recua andando de costas até a porta de madeira.


– Faça como quiser então – diz a mulher, claramente irritada com a petulância do jovem ladrão – Mas tome cuidado, os corredores estão cheios de guardas e as leis de Orlane são rigorosas com transgressores como você.


A ameaça da mulher não surtiu qualquer efeito sobre a atitude de Adan, que abriu a porta atrás de si e saiu por ela para outro corredor.


****


(CONTINUA NA SEGUNDA PARTE)

Comentários